Um problema dos gentis

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1. A vida me coloca numa interação curta com a Pessoa 1. Nesta interação, ela não me trata bem. Apesar disso, eu continuo sendo gentil com ela.

Os motivos de eu ser gentil numa interação desagradável são inúmeros. Já citei em vários lugares uma frase do Hamlet que resume a minha ética sobre o assunto: “Se fôsseis tratar todas as pessoas de acordo com o merecimento de cada uma, quem escaparia da chibata? Tratai deles de acordo com vossa honra e dignidade.” Ou seja: eu parto do princípio que todos devem ser tratados com o maior respeito e consideração, independente de quem elas são. Pra eu tratar diferente, ela tem que ter saído da regra. E sou meio síndrome das escadas também, não sou do tipo que dispara uma resposta rápida automática quando me agridem (o engraçado é que com brincadeiras eu sou bem rápida). Na dúvida se a pessoa esta num dia ruim, ou eu estou num dia ruim e meio paranoica, diferença cultural, dor no ciático… ou se a pessoa realmente me odeia e decidiu fazer a parte dela pra estragar o meu dia, eu tendo a continuar educada. A possibilidade de arranjar briga quando você trata as pessoas com gentileza é mínima. (#DICA)

MAS ISSO NÃO QUER DIZER QUE EU NÃO NOTEI.

2. Eu e a Pessoa 1 temos algum Conhecido em Comum. Ele decide nos reunir. A Pessoa 1 fica sabendo que há possibilidade de se encontrar comigo e diz: “Claro, gente finíssima, pode marcar!”  Quando chega até mim a possibilidade de reencontrar a Pessoa 1, eu digo Não. Aí o Conhecido em Comum, que não conhece o contexto, me acha uma pessoa dificílima – como pode a Pessoa 1 ter de mim uma impressão tão boa e eu me recuso a encontrá-la? Eu, no lugar dela, também teria.

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O decurso geral da vida

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Isto não é uma louvação a Trotsky:

“Durante 43 anos de minha vida consciente fui revolucionário”, escreveu, “e durante 42 anos lutei sob a bandeira do marxismo. Se tivesse que começar tudo outra vez, tentaria evitar este ou aquele erro, mas o decurso geral da minha vida permaneceria inalterado. Morrerei sendo um revolucionário proletário, um marxista, um materialista dialético e um ateu irreconciliável. Minha fé no futuro comunista da humanidade não é hoje menos ardente (antes, mais firme) do que era nos dias de minha juventude.”

Leonardo Padura/ O homem que amava cachorros

 

Já falei aqui, acho, que tem astrólogo que diz que a pessoa já nasce com tudo o que vai fazer em vida programado, do mesmo modo que vamos ao cinema ver um Batman sabendo tudo o que vai acontecer e nem por isso deixamos de ver. É uma ideia bastante esquisita e com várias consequências, nem sei se boas. Eu acredito num determinismo social, colocar as estrelas no meio já é crer que ele não é ao acaso. Não sei. O que sei é que me parece que é como Trostky descreveu, que só os detalhes sem importância poderiam ser mudados. Estamos o tempo todo diante de decisões sem importância, como o que colocar no leite do café da manhã ou que música ouvir. As decisões realmente importantes, aquelas que mudam o curso das nossas vidas são duas ou três. Cada um sabe quais foram as suas. Quando penso nas minhas, também acho que não faria diferente. Não que eu tenha gostado de todas as consequências, não que acredite que sou a melhor versão possível de todas as escolhas possíveis, e sim porque eu sei que não poderia ter feito diferente. Não quem eu era, não da maneira como eu via o mundo, não com o que eu sentia fome de viver.

Mente de pobre

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Eu falei, no outro blog, que o livro do Mo Yan é como um Casos de Família por escrito. O livro é muito legal, como um todo, mas tem uns casos específicos de rolar de rir, não tem como descrever. O protagonista é camponês na sua origem e o contexto social o permitiu subir de vida. Conto porque não é realmente importante. Eu ri muito do trecho que coloquei a seguir porque me identifiquei muito com ele. Conheci ao longo da minha vida pessoas realmente ricas, e não essa classe média com o nariz pra cima. Pessoas que acham que economizar é gastar menos na balada pra gastar mais na viagem, isso se precisarem um dia economizar. Que acham que só mendigos contam moedas, que toda escola pública dá comida, e outras visões tão distantes da realidade que é difícil até falar. Essas pessoas se vêm diferentes, elas têm certeza de merecer onde estão. Se é lindo e lhes agrada, é quase uma lei da natureza que deve ser delas. Quem não tem é porque não é lindo o suficiente. Já quem nasceu comum, mesmo que um dia ganhe muito dinheiro, sempre vai pensar:

Professor, tenho o vício de fumar. É um vício que já encontra várias restrições na Europa, nos Estados Unidos e até no Japão. Por toda parte, o fumante é lembrado de sua vulgaridade e de sua falta de educação. Mas aqui em nossa terra, por enquanto, ainda não existem tais restrições. Peguei o maço, tirei um cigarro e acendi com um fósforo. Gosto muito do leve cheiro de enxofre que se espalha no instante em que se acende o fósforo. Professor, eu estava fumando um cigarro Jin Ge, literalmente “pavilhão dourado”, uma marca local de preço bem elevado. Dizem que cada maço custa duzentos iuanes, ou seja, cada cigarro custa dez iuanes. Um libra, cerca de meio quilo, de trigo sai por oitenta centavos, ou seja, seria preciso vender doze libras e meia de trigo para poder comprar um cigarro dessa marca. Doze libras e meia de trigo poderiam virar quinze libras de pão e alimentar uma pessoa por pelo menos dez dias. Mas um cigarro da marca Jin Ge acaba em algumas baforadas. A embalagem era realmente magnífica, me lembrava o Pavilhão Dourado de Kyoto, em seu estimado país. Não sei dizer se aquele pavilhão realmente inspirou os designers da embalagem. Sei que o meu pai odeia que eu fume esse cigarro, mas só fez um comentário simples: “Carma ruim!”. Expliquei a ele, apressado, que não fui eu que comprei, ganhei de outra pessoa. A resposta dele foi mais simples: “Pior ainda”.

Mo Yan/ As Rãs, parte IV, 8.

Uma vantagem linguística na matemática

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Li recentemente um livro fantástico, chamado Outliers. Ainda estou tentando organizar na minha cabeça para escrever uma crítica à altura no outro blog. Há um pedaço que fala de matemática que certamente vai ficar fora da crítica, porque é apenas parte do raciocínio, mas achei tão massa que tenho que dividir com o mundo:

Existe também uma grande diferença em como os sistemas de nomeação de números das línguas ocidentais e asiáticas são estruturados. No nosso sistema, dizemos dezesseis, dezessete, dezoito e dezenove. Seria de esperar, portanto, que disséssemos “dezeum”, “dezedois”, “dezetrês”, etc. Mas não fazemos isso, usamos uma forma distinta: onze, doze, treze… Na maioria dos números a dezena vem primeiro e a unidade depois: dez(e)sete, vinte e sete, trinta e sete, porém os números de onze a quinze não seguem a mesma lógica. Não é estranho? Isso não acontece na China, no Japão e na Coréia. Eles dispõem de um sistema de contagem lógico: onze é “dez-um”, doze é “dez-dois”, vinte e quatro é “dois dez quatro”, e assim por diante.

Essa diferença proporciona às crianças asiáticas duas vantagens. A primeira é que elas aprendem a contar com muito mais rapidez. As crianças chinesas de quatro anos sabem contar, em média, até 40, enquanto as americanas nessa idade contam apenas até 15 e só chegam aos 40 aos cinco anos. Ou seja, as crianças americanas de cinco anos já estão um ano atrás das asiáticas na habilidade matemática mais elementar.

A regularidade de seu sistema numérico também permite às crianças asiáticas realizar funções básicas, como a soma, com mais facilidade. Peça a uma criança ocidental de sete anos que some, de cabeça, trinta e sete mais vinte e dois. Ela terá que converter as palavras em números (37 = 22), para depois cuidar da matemática: 2 + 7 = 9 e 30 + 20 = 50, o que perfaz 59. Peça a uma criança asiática que some três-dez-sete e dois-dez-dois. A equação está implícita na frase. Não é preciso converter nada: cinco-dez-nove. (Parte II, Capítulo 8: Arrozais e testes de matemática)

Antes desse trecho havia a relação entre a língua e a memorização dos números e depois há da influência dessa confusão linguística na relação das crianças com a matemática. Sério, que livro massa.

Curtas de etiqueta

Passei na loja no dia e horário mais agitado, e pretendia comprar meu produto escondida e sair correndo. O dono me viu e achei que ele colaboraria com meu intento, com a justificativa perfeita de que havia muita gente. Mas aí ele me acenou animado, como nos velhos tempos, me perguntou o que eu queria, pegou pessoalmente, terminou de me atender. Acho que lhe desejei Feliz Ano Novo, e ele disse que era muito cedo, eu não voltaria lá em um mês? Disse que provavelmente não, que… Então ele deu a volta no balcão e “então pra não correr o risco me dê agora o abraço” e lhe dei um abraço que me deixou com o perfume dele impregnado na roupa. Tive vontade de perguntar se ele enlouqueceu, se ele se lembrava do quanto foi frio nas últimas muitas vezes que passei lá. Vai ver que ele decidiu que depois de três anos eu não merecia mais ser punida pela separação. Vai ver o ex passou lá com a noiva. Vai ver que queria se mostrar pra alguém. Sei lá.

.oOo.

Sigo por princípio esta citação de Hamlet:

Se fosseis tratar todas as pessoas de acordo com o merecimento de cada uma, quem escaparia da chibata? Tratais deles de acordo com vossa honra e dignidade. (ato II, cena II)

… e tenho confundido as pessoas nesses nossos tempos rudes. Eu gosto de tratar bem, ouvir confidências, tenho uma memória de elefante a respeito do que as pessoas me contam, gosto que minhas interações sejam o mais leves e agradáveis para ambos. Aí quem reserva seu lado agradável apenas para quem ama, interpreta minhas atitudes como declaração de amor. Só se for amor pela humanidade.

.oOo.

Sou uma fã nova de Bob Dylan, nova e solitária, porque passei a gostar sozinha lendo um livro. Então eu não sei se, como fã, eu tenho que gostar mais dele cantando do que qualquer outra pessoa. Se tenho, jamais serei alçada ao clube. Este desconhecido, por exemplo, que adorável!

Ciganos e o capital simbólico

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Num dos meus trechos preferidos do meu romance preferido, Orlando, protagonista do livro com o mesmo nome, da Virginia Woolf, está vivendo entre ciganos e, como nobre que era, não resiste e começa a falar de sua família. Porque desvestir títulos por fora é fácil, quase uma brincadeira, enquanto algo dentro de nós assiste como uma novela ou vê na pseudo-humildade um motivo ainda maior de orgulho. Então Orlando começa a falar dos seus títulos de nobreza, que remetiam a-não-sei-quantos séculos, das propriedades e castelos, de não-sei-quantos alqueires. E ao invés de deixar os ciganos admirados, eles ficam com vergonha alheia. Transcrevo o trecho porque é demais:

E ao dizê-lo notou que os ciganos estavam contrafeitos, mas não zangados como antes, quando tinha exaltado a natureza. Agora estavam corteses, mas preocupados, como gente de fina educação, quando um forasteiro vem a revelar seu baixo nascimento ou sua pobreza. Rustum acompanhou-a fora da tenda, e disse-lhe que não se preocupasse com o fato de seu pai ser duque e possuir todos os dormitórios e móveis que ela havia descrito. Ninguém, por isso, pensaria mal dela. Apoderou-se então de Orlando uma vergonha que antes nunca sentira. Evidentemente, Rustum e os outros ciganos pensavam que uma ascendência de quatrocentos ou quinhentos anos era a mais modesta possível. A deles remontava pelo menos a uns dois ou três mil anos. Para os ciganos, cujos ancestrais construíram as pirâmides, séculos antes do nascimento de Cristo, a genealogia dos Howard e Plantagenetas não era melhor nem pior do que a dos Smith e dos Jones: ambas eram insignificantes. Além disso, se um pastorzinho tinha uma linhagem tão vetusta, nada havia de especialmente memorável ou desejável numa velha estirpe: vagabundos e mendigos também a possuem. E assim, embora fosse extremamente cortês falar abertamente, era claro que o cigano pensava não haver mais vulgar ambição que possuir centenas de dormitórios (conversavam no alto de uma colina, era de noite, as montanhas levantavam-se em redor), quando a terra inteira é nossa. Do ponto de vista de um cigano, um duque – entendeu Orlando – não era mais do que um aproveitador ou um ladrão, que arrebatava terra e dinheiro a gente que considerava essas coisas de pouco valor, e não pensava em coisa melhor que construir trezentos e sessenta e cinco dormitórios, quando um seria bastante, e nenhum, ainda melhor. Ela não podia negar que seus antepassados tinham acumulado campos sobre campos, casas sobre casas, honras sobre honras; no entanto, nenhum deles tinha sido santo, herói, ou grande benfeitor da humanidade. Nem podia deixar de reconhecer (Rustum era muito cavalheiro para insistir, mas ela compreendeu) que qualquer pessoa que fizesse agora o que os seus antepassados tinham feito há trezentos ou quatrocentos anos atrás devia ser denunciada – principalmente por sua própria família – como vulgar arrivista, um aventureiro, um nouveau riche. [p.87]

O conceito de capital simbólico, de Bourdieu, nos diz que existem diferentes grupos dentro da sociedade, e cada um desses grupos possui seu próprio sistema de valores. Há sim o capital como dinheiro, para quase tudo e todo mundo, mas há também símbolos e maneiras muito próprias de atribuir valor que podem não fazer o menor sentido para outros grupos. Por exemplo: no balé, a rotação da coxa para fora e o formato dos pés tem uma importância definitiva, e ela não faz o menor sentido não apenas no mundo lá fora como em qualquer outra dança. É o que acontece com Orlando, que vai pra uma alteridade tão radical que o que para ela era valor se torna vergonhoso diante dos ciganos. E em alteridades não tão radicais, penso em ocasiões em que a pessoa se aproxima de você pensando que algo vai soar como valor e tem o efeito contrário. Como aquele que se gaba do carro pro ecologista, da churrascaria pro vegano, dos hábitos libertários para o puritano. Uma vez eu estava numa fila de balada e um sujeito se gabou de ser do Clube do Uísque, ou seja, ele tinha a própria garrafa dele no bar. Não consigo pensar em algo pior que um homem possa me dizer – eu não suporto cheiro de álcool.

Que Bourdieu me perdoe o psicologismo, mas concluo que a inveja só é possível dentro do mesmo capital simbólico.

Amor sem a pobreza de usar a palavra Amor

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Toda forma de arte com um propósito definido acaba se tornando pobre. Tenho sentimentos religiosos com livros, raios de sol, ar puro, café quentinho, acariciando o pelo da Dúnia… se deixar até mesmo no ônibus ou escolhendo legumes, mas nunca, jamais, ao ouvir uma música gospel. Uma música ou forma de arte com propósitos claramente moralistas. Percebo a mensagem e minha inteligência se ofende porque dão a pergunta, a resposta e ainda por cima me descrevem as etapas. A boa literatura sabe faz tempo: a melhor forma de falar de um sentimento é transportar a pessoa para lá.

Shmuel olhou para ele e descobriu naqueles momentos o quanto seu rosto monolítico – um rosto cujo escultor tivesse desistido dele no meio do trabalho de esculpi-lo, com o queixo afilado se projetando à frente e o bigode grisalho e desgrenhado – de repente lhe era caro. A feiura do velho lhe parecia uma feiura atraente, cativante, uma feiura tão marcante que era quase uma espécie de beleza. Foi tomado de uma imensa vontade de tentar consolá-lo. Não de fazê-lo esquecer sua dor, mas, ao contrário, tomá-la para si, de arrastar com força para si mesmo algo dessa dor. A grande e sulcada mão do velho homem estava pousada sobre o cobertor, e Shmuel, delicadamente, hesitantemente, pôs sobre ela a sua mão. Os dedos de Guershom Wald eram grandes e quentes e circundaram, como num abraço, a mão fria de Shmuel. Por alguns instantes a mão do velho abraçou os dedos do rapaz.

Amós Oz/ Judas, 36.

Verdadeiramente de repente

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Posso lhe fazer uma observação? Você sempre usa verdadeira ou verdadeiramente, tanto falando quanto escrevendo. Ou então dizer: de repente. Mas desde quando as pessoas falam verdadeiramente e desde quando as coisas acontecem de repente? Você sabe melhor do que eu que tudo é uma grande confusão, que uma coisa acontece depois de outra e de mais outra. Eu não faço mais nada verdadeiramente, Lenu. E aprendi a prestar atenção às coisas, só os idiotas acreditam que elas acontecem de repente.

Elena Ferrante/ História de quem foge e de quem fica

Às vezes acho Elena Ferrante horrível. Sai voando sobre os fatos, poucas passagens dignas de recitar, irregularidades, uma constrangedora revelação biográfica. E a protagonista me dá nos nervos pela sua insistência obsessiva sobre a amiga de infância. Mas cá estou, largada de todo resto, sufocada e rendida pela série Napolitana.  Ao lado da crocs, é algo que se alguém me mostrasse e perguntasse sobre o potencial, eu diria: esquece, ninguém vai querer perder tempo com isso!

Uma sombra masculina

 

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Eu desço pela porta da frente do ônibus. Está escuro e a rua é uma descida. Viro na primeira esquina à direita, onde a inclinação é tão grande que vou devagar, com passos miudinhos. É raro que alguém desça ali, e mais raro ainda que dobre naquela rua residencial. Às vezes um homem desce o ônibus comigo e nem sempre consigo deixar que ele me ultrapasse. Aí olho de novo para trás quando viro a rua, olho quando tento atravessar, olho fingindo atravessar, ando cada vez mais rápido. Ele sem dúvida percebe o meu medo, minha desconfiança provavelmente injusta porque ele entrou naquele ônibus e desceu naquele ponto por motivos próprios e não para me seguir. O homem que está lá atrás pode ser tão sensível e bacana quanto qualquer amigo meu – eu nunca saberei, e se ele tentasse me dizer alguma coisa ela soaria como um prenúncio de violência. Carros passam indiferentes, os som das minhas botas ecoa entre as árvores. Ele é um homem e eu tenho medo. Ele sabe. De longe, o homem caminha devagar, deixa que eu me afaste cada vez mais, que corra, que sua figura fique bem pequenininha para que eu possa voltar a me sentir segura.

Ser um homem, observado com atenção por mulheres. Isso deve ser inteiramente estranho. Tê-las observando-o o tempo todo. Tê-las se encolhendo quando ele se move, mesmo se for um movimento bastante inofensivo, estender a mão para pegar um cinzeiro, talvez. Tê-las medindo-o, avaliando-o. Tê-las pensando, ele não pode, ele não é capaz de fazê-lo, ele não serve, ele terá de servir, este último como se fosse uma peça de vestuário, fora de moda ou ordinária, que deve não obstante ser vestida porque não há mais nada disponível.

Tê-las enganando-o, testando-o, provocando-o, experimentando-o, enquanto ele se enfia nelas para o ato sexual como se enfia uma meia no pé, até a base de seu próprio toco, aquele polegar adicional e sensível, seu tentáculo, seu olho de lesma de talo delicado, que se saliente, se expele, se expande, recua, e murcha encolhendo-se de volta para dentro de si mesmo quando tocado de maneira errada, cresce tornando-se grande de novo, fazendo um ligeiro bojo na ponta, viajando para frente como se ao longo de uma folha, para penetrar nelas, ávido por uma visão. Alcançar a visão dessa maneira, essa jornada para o interior de uma escuridão que é composta de mulheres, uma mulher, que pode ver na escuridão enquanto ele próprio se esforça cegamente para frente.

Margaret Atwood/ O conto de aia, parte IV cap.15

Chocantes e recentes descobertas

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Kindle: Você teria um minuto para ouvir a palavra de Kindle?
Pra não me estender aqui no óbvio, de dizer de novo que amei e que vantagem incrível é ter vários livros armazenados. Quando lia que ele é gostosinho de pegar, achei que fosse exagero nerd, mas pior que é verdade. Pra quem lê vários livros ao mesmo tempo, é um barato poder estar com todos eles disponíveis ao mesmo tempo, sem ter mais aquela situação de “estou lendo esse porque é o mais leve/o que eu trouxe, mas eu gostaria mesmo de estar com o outro”. MAS, tenho que dizer que fico com receio de ler em público, fico com medo de ser roubada, coisa que com um livro eu sei que jamais aconteceria – já pensou, seria até engraçado, ser roubada porque o ladrão é doido por Hugo Mãe.

Shakespeare: Muito bom esse autor, acho que todo mundo devia ler.
Eu li todas as comédias e nunca consegui passar disso. Eu tinha em casa a coleção completa, que pertenceu ao meu avó, uma tradução em versos de mil novecentos e pouco. Era um trabalho desgastante ler aquilo, tão desgastante que causava pouco prazer. Vi há poucos dias um documentário na Netflix (Now: In the wings on a world stage) sobre uma montagem de Ricardo III feita por Kevin Spacey e fui atrás. Agora estou lendo devagar porque estou achando tudo tão maravilhoso que tenho que parar pra anotar e saborear. Um trecho curtinho que eu apelidei de “humor involuntário em Shakespeare” e só não adoto pra vida porque pessoas não captam ironias:

Quisera eu ser moça do campo antes que grande rainha, assim maltratada, escarnecida e ultrajada. Pequeno contentamento tenho eu em ser Rainha da Inglaterra.

Isabel, ato I, cena III

 

Despacito: Quiero desnudarte a besos despacito…
Esse foi realmente pra fazer tirar o dedo do botão do leitor que havia decidido me seguir quando eu disse que estava lendo Shakespeare. Despacito comentada em todos os lugares e passei incólume por todos os links e programas, até decidir colocar de recomendação (irônica) como “música para fazer yoga” para uma amiga. Como já tinha clicado, fui lá ver o tal clipe… Olha, entendi aquela história de dizer que tem que fazer lobotomia pra tirar certas músicas da cabeça. Qualquer referência a Despacito dispara em mim um gatilho mental de mais de 72h. O ritmo é irresistível pra quem é chegado em mexer a raba e, vamos assumir, que letra…

A indesejada das gentes

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Eu li o Montanha Mágica quase inteiro, enfrentei as páginas que se considera mais difíceis e larguei num mal estar que eu desconfiei ser inerente ao tema e não ao livro em si. Para quem não conhece, a ação do livro se passa numa clínica de tratamento de tuberculose. Depois daquilo li mais algumas coisas sobre o assunto. Na biografia de Nelson Rodrigues ela aparece bem, com Nelson angustiado por ir e voltar para o tratamento. Só que por mais que a biografia fale da angústia dele, eu nunca li – pode ser que tenha e apenas eu que nunca tenha lido – o próprio Nelson falar da rotina desses tratamentos. O nosso Manuel Bandeira foi um que conviveu com a tuberculose, sempre à espreita, e no fim das contas acabou sobrevivendo a quase todos seus amigos saudáveis e morreu aos 82 anos. Mas não foram 82 anos comuns, foram 82 sentindo a morte em cada tosse, cada ventinho, cada febre.

Consoada
Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
– Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

Mas de tudo o que eu li sobre a doença, Bernhard é o que mais me toca. Ele tem um modo de escrever intensamento autobiográfico, e não apenas nos deixa saber que é doente, ele descreve o tratamento por dentro: como é ser internado, verificar a secreção cuspida numa garrafa, os meses iguais e sem perspectiva de melhora, o olhar da equipe de enfermagem que crê que a qualquer momento você não estará mais ali, os pacientes que um belo dia somem e seus lençóis são trocados. Bernhard me faz entender que a rotina da Montanha Mágica realmente me angustiava. Eu sou irritamente saudável; há alguns dias me resfriei, acordei com a cabeça pesada e fiquei me perguntado se aquilo era apenas resfriado ou gripe – eu não me resfriava há tantos anos que nem lembrava mais como era. Fico me perguntando a sede de vida que passar tanto tempo trancado dá a alguém; para mim, é a combinação dessa vontade urgente com – ironicamente – a cultura que adquiriu nos meses de imobilidade que tornam Bernhard um autor tão incrível.

Quando me foi possível novamente levantar e ir até a janela, e finalmente até o corredor e depois, com todos os outros condenados à morte capazes de andar, de uma extremidade à outra do pavilhão e que finalmente, um belo dia, pude até sair do Pavilhão Hermann, tentei chegar até o Pavilhão Ludwig. Porém eu superestimei minhas forças e fui obrigado a parar diante do Pavilhão Ernest. Tive que me sentar no banco fixado ao muro e retomar o fôlego antes de poder continuar por meus próprios meios para o Pavilhão Hermann. Quando os pacientes passam semanas ou mesmo meses na cama, eles superestimam suas forças assim que se vêem capazes de levantar, eles querem simplesmente fazer tudo e em certos casos acontece de esse tipo de besteira fazer com que retrocedam semanas, e alguns, numa dessas aventuras irrefletidas, foram atingidos pela morte da qual tinham escapado com uma operação. Apesar de ser um doente escolado e de ter, durante toda a minha vida, convivido com as minhas doenças mais ou menos graves, depois gravíssimas e, finalmente, sempre com minhas doenças ditas incuráveis, sempre tive regularmente essas recaídas de diletantismo em matéria de doença, fiz besteiras, besteiras imperdoáveis. Primeiro alguns passos, quatro ou cinco, depois dez ou doze, em seguida treze ou quatorze, finalmente vinte ou trinta, é assim que o doente deve agir, e não levantar logo, sair e ir embora, o que, na maioria das vezes, vem a ser fatal. Porém o doente trancado durante meses, durante meses só sonha em sair, e mal consegue esperar o momento em que terá o direito de deixar o seu quarto de doente e, naturalmente, não se contenta em dar alguns passos no corredor, não, ele sai para o ar livre e ele mesmo se destrói. (O sobrinho de Wittgenstein, p.13-14)

Amor de empapar todas as folhagens

Talvez os religiosos tenham razão e a nossa grande dor seja a separação do Amor Primordial. Porque não há como – diante da lindeza dessa descrição de amor e a interpretação fabulosa da Bethânia – não se sentir tocado, saudoso de um amor tão grande. É como se todos soubéssemos como é amar e ser amado assim, mesmo que não possamos nomear quando e onde, mesmo que na nossa lembrança remeta a um paraíso que não sabemos como se perdeu.

Os chifres do boi

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No documentário O desafio de Rudolf Steiner, mostra umas fazendas com visões mais humanistas no trato com o gado e um fazendo explica que lá eles não cortavam os chifres do boi. Que um boi sem seus chifres fica despersonalizado, confuso, perde o contato com sua essência e por isso se torna mais fácil de dominar, o que é muito bom para a pecuária “comum”. Aqueles bois não, cada um era um, do seu jeito, com seus chifres e cientes de quem eram e o que queriam. Um bom desses quem sabe diria, se fosse gente, austríaco e extremamente talentoso:

As perfídias que me fazem tropeçar, que me desesperam e quase me enlouquecem a cada dia tornam-se ineficazes para mim, se consigo vê-las com clareza, assim como coisa nenhuma sobre a qual eu tenha clareza é capaz de me atingir, ou, menos ainda, aniquilar. Ter clareza sobre a própria existência, não apenas penetrá-la com o olhar, mas esclarecê-la no mais alto grau a cada dia – eis aí a única possibilidade de se haver com ela. Antes eu não tinha essa possibilidade de inferir no jogo diário e mortal da existência, não tinha nem o entendimento nem a força necessária para tanto; hoje esse mecanismo se põe em movimento por si só. (….) Ouvi tudo, não segui coisa nenhuma. Continuo experimentando ainda hoje: não saber no que vai dar é algo que fascina o solitário que voltei a ser. Há tempos não pergunto mais pelo sentido das palavras, que só fazem tornar tudo mais incompreensível. A vida em si, a existência em si, tudo é lugar-comum. Quando nos lembramos do passado, como faço agora, as coisas vão pouco a pouco se resolvendo por si mesmas. A vida toda convivemos com pessoas que não sabem nada sobre nós, mas afirmam constantemente saber tudo; nossos parentes a amigos mais próximos não sabem nada, porque nós mesmo pouco sabemos sobre nós. Passamos a vida inteira nos investigando, vamos sempre até os limites dos nossos recursos intelectuais, e desistimos.

Thomas Bernhard/ Origem, p. 306 – 307

 

Apenas mais um

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O “apenas mais um” é um problema que atinge todo mundo que tem algum dia uma pretensão criativa, não digo nem artística. Fiquei tão impressionada pelas primeiras páginas do remorso de baltazar serapião, que pensei: Pra que é que eu escrevo mesmo? (Porque se parar fico louca). Me deu aquela sensação de inutilidade, a certeza de que jamais conseguiria algo tão lindo, que o mundo já tinha o Mãe e eu não tenho nada a dizer. E mesmo o Mãe, tão original, tem muito de Guimarães Rosa. Tem um trecho de uma carta do Van Gogh – tenho a citação em algum lugar, se estivesse com mais paciência buscaria – em que ele diz que é tão difícil produzir algo bom, que o fazer demanda dele de tanto tempo, gasto e dedicação, que seria muito mais fácil comprar um quadro pronto de uma vez. Eu tenho contemplado muitos horizontes e tentado me convencer de que isso me basta, porque duvido muito da minha capacidade de colocar no papel uma profundidade que nem tenha.

Enfim. Tudo isso pra dizer, que apesar do desespero e do pessimismo, de vez em quando surge uma luz. Estou lendo a incrível biografia do Richard Burton e ele está num momento pessoal difícil e vai passear nos EUA. Ele já era famoso e polêmico, autor de alguns livros e era do tipo que escrevia sem parar. Como não poderia deixar de ser, ele escreve sobre esta viagem e:

Burton foi transferindo suas notas para uma versão definitiva à medida que prosseguia a viagem – sua capacidade de trabalho é sempre admirável! – , e sua visão dos Estados Unidos é viva, fresca, aguda, procedente. The city of saints é uma de suas melhores obras, mas infelizmente não veio a receber grande atenção. Quantos leitores de língua inglesa estavam interessados em mais um relato de viagem pelo Novo Mundo por mais um inglês? No entanto, o livro é uma narrativa preciosa de um viajante experiente, atento a todos os detalhes, à língua, às nuances, de uma nação em desenvolvimento dinâmico que apresentava um alto grau de civilização na costa leste e uma barbárie crescente à medida que se avançava para o oeste. Ali se encontravam os imigrantes, os soldados, os criminosos, os andarilhos, as mulheres arraianas, as tribos de índios, os funcionários do governo, os santos e os malandros, as belas jovens de sempre (índias e brancas). As condições sociais, as visões da democracia, conselhos ao exército sobre a maneira de tratar com os aborígenes (os índios eram, para Burton, uma espécie de beduínos), relações de rotas e paradas, o sistema jurídico e a justiça de fronteira, análises de matérias-primas e águas alcalinas, as nascentes dos rios, o tempo, as condições do solo – são os Estados Unidos dos meados do século XIX em quinhentas páginas de texto e apêndices, que raramente se tornam enfadonhas.

Edward Rice/ Sir Richard Francis Burton: o agente secreto que fez a peregrinação a Meca, descobriu o Kama Sutra e trouxe As mil e uma noites para o ocidente, p.345

Confissões sexuais de Darcy

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Nas entrevistas e documentários já dava para perceber que o Darcy Ribeiro era chegado em sexo, mas eu achei que nas Confissões ele teria pudor em ficar falando as mulheres com quem dormiu. Ingenuidade a minha. Acho que a nossa tendência, hoje, anos dois mil, movimentos feministas e de minorias, é achar ruim. Ele argumentaria dizendo que são confissões, é a vida dele, e sexo faz parte da vida. Não julgo como certo e errado porque me parece uma postura de geração; imagino perfeitamente meu pai falando (e sim, muitas vezes preferiria que ele me poupasse), lembro da autobiografia do Neruda onde ele conta, como se fosse uma coisa muito bacana, de quando estuprou uma nativa (isso mesmo que você leu) que recolhia o lixo dele. Em certos momentos o Darcy citar mulher tem a ver, em outros não, às vezes é pura vantagem e constrange, noutras… cara, teve essa daqui que me fez rir muito. Dica sexual do tio Darcy, anotem:

Vive em Paris uma das mulheres que mais amei. Ela nasceu de uma família francesa na Argélia e nós nos encontramos muitas vezes no México, em outros países e também em Paris. Devo a ela um amor elaboradíssimo, de tradição árabe, de que eu não fazia ideia. Primeiro, a sabedoria com que passávamos de sala em sala de seu apartamento. Cada uma delas com incensos de odores diferentes, maravilhosos. Comendo doces ou tomando licores para nos esquentar. Depois a cama, em que ela era uma das mais prodigiosas mulheres que conheci. O melhor mesmo é que, quando acabávamos de amar, ela saía e voltava logo depois com a toalha embebida em vapor. que punha em cima das minhas partes. Aquilo me descansava e me realentava para novos volteios. Nunca via coisa mais formidável. Aconselho minhas amigas todas a tentar com seus amores esse exercício, que realmente é uma lindeza. (p.218)