Anda comigo ver os aviões

“Eu nunca pensei que na minha idade ainda fosse possível”, diz a pessoa madura apaixonada. Poderia falar dos adolescentes ou quase adultos que conheço, que pula na cama da mãe às três da madrugada porque descobriu que é correspondida; das conversas infinitas da outra testando o clima, ambos lindos, interessados e sem a menor consciência disso; ou do que terminou, e semanas depois terminou definitivamente, agora sem amizade, sem mensagens, sem pretexto para manter contato e a dor não para de doer. Tudo tão pouco adulto. Adultos miram. Adultos conversam, pesam prós e contras. Adultos sabem que sexo é bom mesmo quando é ruim. Adultos não se cobram e nem exigem perfeição. Adultos combinam. O sim é todo mais fácil e o não, depois de outros tantos, já encontra estratégias de restabelecimento prontas. Mas nada disso é…

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Gritinhos de felicidade

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Não é propriamente um spoiler a contracapa do Uma pequena cidade na campina dizer que Laura se casa com Almanzo Wilder; afinal, ela se chama Laura Ingalls Wilder. A saga da família Ingalls é de nove livros, mas a biblioteca tem apenas três: À margem da lagoa prateada, O longo inverno e Uma pequena cidade na campina. Estava muito frio no dia que me propus a conhecer a autora (mais uma indicação do Paraísos de Papel) e quando vi o nome do livro seis… Os irmãos Wilder apareceram no Longo inverno por terem salvado a cidade de passar fome, porque não parava de nevar e os trens não conseguiam chegar trazendo provisões. Almanzo nos é apresentado como um jovem fazendeiro precoce, que teve que mentir na certidão que tinha vinte e um anos, e não dezessete, para que pudesse cultivar suas terras. No Pequena cidade, ele já se transformou num ótimo partido, com um carro guiado pelos seus dois lindos cavalos. Laura tem até uma antagonista, a nova-iorquina arrogante chamada Nellie. Enquanto Laura adora a vida ao ar livre, Nellie está sempre preocupada em se manter bonita e faz amizade com a professora Wilder com o objetivo de se aproximar do irmão. Laura, que se desentende com a professora, tem para consigo mesma que não teria a menor chance. Até que:

(….) não podia chegar atrasada à escola. A um quarteirão da Rua Segunda, ela corria junto à calçada, quando de repente um brilhante carrinho parou a seu lado.

Laura olhou espantada, vendo os cavalos Morgan. O jovem Wilder tinha descido do carrinho, com o boné numa das mãos. Estendendo a outra, perguntou a Laura:

-Posso levá-la até a escola? Chegaria mais depressa.

Deu-lhe a mão, ajudando-a a subir no carrinho e sentou-se ao lado dela. Laura quase nem podia falar, com a surpresa, a timidez e o prazer de estar de verdade passeando no carro puxado por aqueles lindos cavalos. Eles trotavam alegremente, mas lentamente, e suas pequenas orelhas mexiam de um lado para o outro, esperando a ordem de trotarem mais depressa.

-Eu… eu sou Laura Ingalls – disse ela. Era uma bobagem o que tinha dito. Claro que ele devia saber quem era ela.

-Conheço seu pai, e já vi a senhorita aqui pela cidade. Minha irmã falava muito da senhorita.

-Que lindos cavalos! Como se chamam? – ela já sabia, mas tinha de dizer alguma coisa.

-Esta é a Lady e o outro, Príncipe – respondeu o rapaz.

Laura gostaria que ele os deixasse correr, tanto quanto podiam. Mas seria indelicado pedi-lo.

Pensou em falar do tempo, mas isto lhe pareceu outra bobagem.

Não conseguiu pensar num bom assunto, e só tinham andado um quarteirão.

No fim do capítulo, tive que parar de ler pra poder soltar todos meus gritinhos de felicidade e bater os pés de satisfação. Não é isso, no fundo, o que todos nós desejamos – que o amor verdadeiro nos alcance quando estamos distraídos?

Um problema de

“Também, você é muito difícil, eu levei meses puxando papo até você começar a falar comigo”. Eu não respondi nada, porque na verdade aquilo não foi porque eu sou difícil. Tá, eu sou difícil, mas não tão difícil. No caso dela, assim como no caso de outras pessoas, eu tinha uma reserva, uma intuição, que me impediam de querer a sua presença. E minhas intuições quase sempre se mostram verdadeiras. Assim como existem os casos contrários, pessoas que não me fizeram nada e que já amei logo no primeiro contato. Tem umas amizades que são construídas, mas tem aquelas que mais parecem um lembrar do que um começar. Para citar uma, apenas um exemplo – porque se eu começar a falar de quem é assim, posso dar a entender quem não é -,  tem a Silvia. Nem eu sei explicar minha afinidade com ela. Mais nova, curte metal, flauta doce, boxe, tatuagem, rochas. Aparece em Curitiba uma vez a cada três anos, me avisa, ficamos algumas horas juntas e é como se fosse minha vizinha. E não é que com ela eu tenha conversas que eu não tenho com ninguém, não somos confidentes nem nada, é normal. Mas, sei lá, vou demais com a cara da Silvia.
Então eu vejo que posso gostar demais da ficha de um sujeito. Posso amar suas ideias, suas camisas, seu avatar, seu Instagram. Os amigos em comum podem falar que ele é ótimo, nosso senso de humor é parecido e temos tanto em comum. Sua escrita pode ser fenomenal e sem erros de português, os seus livros podem ser os meus livros. Vai ver que, como nos filmes, a gente só não tenha começado porque ele costuma sair dos lugares minutos antes de eu entrar. Mas mesmo assim pode não ser. Eu preciso sentar – de pé é mais desconfortável – diante dele e olhar nos seus olhos. Ele pode ter tudo e ao mesmo tempo não. Ou pode não nada e sim.