Lembrança datada e com trilha

Eu e os meus irmãos estávamos na casa de alguém, numa festa. Embora, pela proximidade de idade, eu e o meu irmão caçula estivéssemos mais na mesma fase, o meu irmão mais velho e ele se uniam e a guerra entre os sexos era mais forte. Crianças não tinham muito acesso a refrigerante na minha infância; quando bebíamos, geralmente alguém havia aberto uma garrafa de um litro e nos dado um copo. Naquela noite, cada um estava com sua própria coca-cola, na tradicional garrafa de vidro de 250 ml. Eu segurei a minha garrafa com a mão direita, a mão próxima do gargalo, e pus na boca. Era pesada pros meus dez anos. Meu irmão mais velho:

-Olha só, ela está bebendo igual alcoólatra, segurando a garrafa igual a Heleninha. (canta com voz aguda) O meeeeeedo de querer…

A Heleninha era Helena Roitman, de Vale Tudo. E eu jamais teria decorado a trilha sonora das ressacas dela se não fosse esta lembrança.

 

Depois ele me mostrou como segurava a garrafa do jeito “certo”, mais embaixo. Nunca mais helenei.

Anúncios

Nossos corpos

praia anos 80

Um dia o Suplicy começou a aparecer de sunga nas minhas redes sociais. Em todas, repetidamente. Ele estava na praia e parou pra ver um protesto. Fotografaram e disseminaram até à loucura. Vi dizerem que era sinal de senilidade, outros exaltando o gesto. Não achei uma coisa nem outra. Lembrei do meu ex-sogro, que ficava todo queimado porque ia cortar grama sem camisa em dias de sol. Lembrei do meu pai, que considera que o clima ideal é quando a casa está toda aberta e ele de chinelo e bermuda. Suplicy, pai, ex-sogro, são todos da mesma geração. A geração deles não tem problema nenhum em ficar sem camisa. Como pessoa de infância anos 80, convivi com eles e peguei um pouco disso também. Eram os adultos que estavam à minha volta. Eles fumavam na nossa frente. Nós dizíamos – vou pra casa do Fulano – e isso era justificativa pra passar o dia inteiro fora e viver altas aventuras, bem como mostra no Stranger Things.

Estávamos na praia, e alguém pegava uma máquina fotográfica e decidia registrar o momento para sempre. Eram máquinas de filme, filme era caro pra comprar e mais ainda para revelar. Você tirava duas fotos e o momento especial já estava registrado, as próximas duas fotos seriam gastas só em outro momento especial – podia levar um ano inteiro até gastar um filme e mais tempo ainda pra revelar. Não dava pra descobrir se a foto ficou boa até ver, você até esquecia o que tinha lá dentro. O adulto falava “foto”, e nós que estávamos com a água até as canelas, de roupa de banho, parávamos e olhávamos para a câmera. Só isso. E nos víamos quando o filme era revelado. Acho que o sentimento de “credo, eu sou esquisito assim” foi inventado junto com a câmera escura, mas o que realmente incomodava era só você piscava. De resto – barriga, mancha, rosto brilhante de suor, dentes tortos -, era tudo apenas corpo, pessoas. Uma pancinha era só uma pancinha, assim como a parte de cima do biquíni quase no pescoço, ou pernas finas. Era uma relação menos neurótica com os corpos e como os corpos eram registrados.

Eu me dei conta que somos apenas duas no flamenco que se vestem de uma maneira mais fora do padrão, digamos assim. Ela adora brechós e garimpar peças, eu tenho me esmerado na arte de usar o maior número de cores possíveis e ainda ornar (ou não). O que eu e ela temos em comum é: anos 80. Nós vivemos uma época em que cada roupa não precisava ressaltar que você está magro e malhado, talvez porque todo mundo fosse meio magro e fraquinho. Eu lembro que baby look foi inventada quando eu estava no início da faculdade, até então usávamos o mesmo modelo de camiseta para homens e mulheres. Isso sem falar das cores 80’s; havia tons de verde até nos fuscas, o que dizer então das polainas, das ombreiras, das faixas no cabelo.

Uma historinha já previamente descontextualizada

princesa

Tenho quatro anos de diferença do meu irmão mais velho. Minha mãe contava umas histórias espíritas para ele – assim como outras tantas, tradicionais, modernas, de memória de livros, ela nos contava muitas histórias. Ela contava pra ele e eu estava por ali, brincando. Aí quando ela resolveu que eu tinha idade pra ouvir, eu achei ruim que entre uma “contada” e outra, ela tinha esquecido de detalhes e eu lembrava deles. “Então você estava fingindo que estava brincando e estava ouvindo tudo?”. “Sim”.

Era um homem muito mau e muito poderoso. Ele ficou a fim de uma mulher, que já era casada. Ele mandou prender o marido dela e disse que só devolveria se ela dormisse com ele. Ela cumpriu a parte dela no acordo, mas ele achou pouco apenas devolver e mandou furar os olhos do marido. Quando chegou a hora de entregar o marido para a moça, ele ficou escondido para ver e dar risada. Achou que ela ia xingar, esbravejar. A moça viu o marido cego e apenas ficou triste e o acolheu com todo carinho. Eu sempre imaginei o homem mau atrás da moita, a câmera por detrás do ombro dele. A moça se ajoelha e ajuda o marido a se erguer, e eles saem juntos pelo pátio de pedra, ela o abraça pelos ombros. Lágrimas silenciosas descem pelo rosto dela. O homem mau não consegue dar risada. Naquele momento surgiu a primeira luzinha de bondade dentro dele.

Um beijo a todos que também estão tristes e abraçados na sua ferida.

O dia que a Milena que ajudou a Maria Angélica

quadra-liberdade-14-04-16-770x410

Eu nunca lembro o nome de ninguém que estudou comigo na infância, mas das envolvidas eu lembro perfeitamente. A minha melhor amiga era a Maria Angélica. Eu lembro que ela tinha sangue português e a sobrancelha bem preta e grossa. Quando aconteceu eu acho que estava mais ou menos na quinta-série. Estávamos numa aula de educação física e os meninos jogavam futebol e nós estávamos esperando ao lado da quadra. Cercando a quadra havia uma tela, e ela estava com um furo bem grande, dava pra passar uma pessoa. Eu fui para perto do furo e fingi me encostar, fiz uma pose falsamente à vontade perto dela, sem colocar o meu peso. Aí a Maria Angélica veio, e sem reparar no buraco foi se apoiar na tela ao meu lado e caiu para trás. A quadra era meio alta e atrás havia grama. Ela caiu, gritou, não chegou a se machucar, mas uma das pontas da tela se prendeu nos fundos da calça do uniforme, e rasgou não apenas os fundos da calça como também a calcinha, cujo tecido branco dava para ver misturado com o verde do uniforme. As crianças se reuniram em torno. A Maria Angélica tentava sair e não conseguia, sentia que algo a prendia e não conseguia ver. Ela falava: “Fernanda, me ajuda, tem alguma coisa me prendendo.” Eu fiquei paralisada: eu me sentia responsável porque ela quis vir do meu lado e achou que eu estava apoiada na tela, mas toda situação dela caída no buraco e a calcinha aparecendo, as crianças rindo, era tudo constrangedor demais. Como fui ler décadas mais tarde, quando estudei estigma social, a pessoa que de alguma forma está desvalorizada socialmente “contamina” quem está do lado dela. Eu queria me afastar da Maria Angélica, não queria aquele ridículo pra mim. Enquanto eu hesitava, surgiu a Milena, que sentava perto de mim na sala, era baixinha e implicante. A Milena pulou por dentro da tela, soltou a calça e a calcinha e ajudou Maria Angélica a sair do buraco, tudo com muita rapidez. Depois eu fui falar com a Milena, elogiei a rapidez dela, e ela nem parou para me ouvir, me jogou na cara o mui amiga que eu era, que estava do lado e não deixei a menina de calça rasgada. Acho que o fato de eu jamais ter me esquecido do episódio diz tudo.

Despedida com bolinhas

4635826136_a37dc884a5_o

Eu li em algum lugar do Facebook que é meio chocante pensar que, em algum momento da infância, você saiu para brincar com seus amigos sem saber que aquela seria a última vez. As pessoas comentaram que era um pensamento meio perturbador. Da minha parte, tenho muito limpa na lembrança a minha despedida. Foi com meu irmão e eu acho que tinha 14 anos e ele 13. No lugar mais central de Curitiba, no início da década de 90, inauguraram uma loja que ocupava vários andares de um edifício de esquina, chamado Garcez, e a loja tinha o mesmo nome. Quando inaugurou, era muito bonita, quase um shopping. Depois não deu certo, virou várias lojinhas, virou faculdade quando ficou fácil abrir faculdade e hoje me parece que é um prédio administrativo. Todo mundo que mora aqui sabe de que prédio estou falando. Eu e meu irmão fomos passear no centro, adultamente, e aquilo era parte do passeio. As escadas eram de mármore branco e o dourado predominava na decoração. Cada era dedicado a um segmento – feminino, masculino, infantil, eletrodomésticos, etc – e na parte central aberta era possível olhar toda loja. Quando chegamos na sessão infantil, havia um parquinho, uma porta branca com uma piscina de bolinha em cada ponta. Eu lembro que elas eram bem rasas, o parque havia sido pensando para crianças muito pequenas. Mas quando eu era uma criança muito pequena não existiam piscinas de bolinhas. Eu lembro que minha sensação quando elas surgiram foi: Pooooxa, por que não inventaram isso antes? Não lembro como foi o acordo, se alguém propôs; gosto de imaginar que apenas nos olhamos e entendemos tudo. O que eu lembro bem é de cada um na sua piscina, som de bolinhas, bolinhas escorrendo para os lados, guerra de bolinhas. Adultos com ar de reprovação eram apenas inveja. Só fomos embora depois de esparramar e jogar todas as bolinhas que quisemos e a nossa felicidade era completa.

Dois curtas do inconsciente

sombras

Eu não devia ter nem 10 anos quando as crianças que brincavam comigo em Salvador disseram que sabiam umas palavras em inglês. Cadê era “queidi”, o que dá pra adivinhar que pode vir de uma pronúncia americanizada. A expressão mais importante era aquela que tinha um sentido de “toma!”, “se ferrou”, “bem feito”, que era CHÉPO. Não faço a menor ideia de onde veio isso. Só sei que até hoje, quando me dá aquela alegria schadenfreude, me soa de novo aos ouvidos: CHÉPO! CHÉPO com coca-cola!

.oOo.

Estava costurando e do nada lembrei de um sonho que tive há dias. Nele, eu era amante de um sujeito com quem simpatizo mas não cheguei a trocar nem dez palavras na vida. Não é que eu esteja omitindo a parte caliente – era assim, um fato consumado, éramos amantes. Não acontecia nada, eu apenas tinha aquela informação íntima, daquelas que às vezes a gente chega a se perguntar se é realidade. Agora fico me perguntando: eu o desejo e não sei? Ele me deseja e eu só li isso inconscientemente? Se não é tesão, de onde meu inconsciente resolveu inventar essa história?

Curtas vampirescos

boneco-vampiro-dracula-dracula

Já vi muita nostalgia anos 80 mas nunca achei em lugar nenhum alguém fazer referência a um desenho japonês que eu adorava, de um vampiro todo atrapalhado que tinha uma filha bem correta. Num episódio ele inventa uma super cola que fica por dentro do lápis e dá pra ver pela lateral; em outro, ele olha pro sol, vira pó e a filha tem que reconstruí-lo. Só que ele estava com um guarda-chuva na hora e ele reaparece com o guarda-chuva no nariz. Alguém?

.oOo.

Tinha também um desenho japonês de uma nave que parecia um navio e tinha uma contagem regressiva porque estava procurando outro planeta para a humanidade porque o nosso ia acabar. Nada a ver com vampiros, mas também nunca vi referências e gostaria de saber qual era.

.oOo.

Voltando aos vampiros. Conversa do meu irmão para o seu melhor amigo, no tempo dos DVDs, da qual rimos muito:

– Estou vendo Drácula de Bram Stoker.

– Eu vi no cinema. Em que parte você está, a Winona Rider já morreu?

– Putamerda, ainda não!!!

Na época nem existia o termo spoiler, quanto mais spoiler falso.

.oOo.

Nunca vi Entrevista com Vampiro. Fiquei doida pelo livro quando li, doida, doida, doida. Acho que cada época tem seu vampiro galã. Quando anunciaram as filmagens, a autora disse que devia ser o Jeremy Irons e ficou indignada quando colocaram o Tom Cruise. Eu concordei tanto com ela que nunca quis ver.

.oOo.

Traumas não são como vampiros, tal como sempre se dá a entender. Eles não viram pó instantaneamente quando a luz da razão os atinge. Nem ao menos some depois de um momento de choro catártico. Os traumas grandes, atávicos, que definem nossas vidas são muito mais como Jason, Freddy Krueger, a mãozinha saindo da cova quando todos estão ingenuamente tranquilos.

Um trauma dentário

ranomikromowidjojoolympicsday7swimming-w8h9merpr5l

Eu adorava água quando era criança, dizia que queria ser nadadora, pegava onda. Mas a vida é a vida e fui ter chance de fazer aulas de natação há poucos anos. Mal comecei as aulas e veterano que nadava comigo profetizou: essa daí vai ser nadadora. Até comentei com meu irmão, que fazia aula de natação há anos, e ele fez uma careta de quem achou que foi pura cantada. Não era. Em pouco tempo estavam me dizendo para participar do campeonato que teria em poucas semanas. Foi aí que começou o problema, eu disse que não poderia participar por não saber dar aquele pulo pra cair na água, que eu a vida inteira havia chamado de Ponta e chamam de Saída. Eu dava barrigada, ou melhor, nunca tentava pular por ter vergonha das minhas barrigadas. No prédio tinha piscina e cada barrigada era careta, as crianças rindo e eu me sentia mal, então nem tentava. O professor foi um fofo e ia comigo até o bloco (aquele lugar onde se sobe pra pular) e segurava a minha mão porque só de estar de pé ali me dava tontura (ainda dá, nunca fico de pé). Com esse professor eu consegui me propor a subir no bloco e cair na água. Participei de uma competição, meses depois, e voltei pra casa com medalhas.

É que, apesar do pulo patético, eu nado bem, provavelmente pela minha história prévia com a água. Eu mudei de escola e nela a pressão para participar de competição se tornou ainda maior, tanto porque lá eu fiz mais amigos como também por ter melhorado ainda mais. Quando as datas das competições se aproximavam eu passava a treinar saída, coisa que nunca fazia nas aulas. Me programar pra começar a fazer saída, mesmo não dando mais barrigada, nunca deixou de ser desagradável e fazer com que eu me sinta exposta. “Como pode”, as pessoas começam a se questionar e me questionar, “uma pessoa que nada tão bem fazer uma saída tão ruim? Você tem que” aí começam a me dar aulas de como fazer a saída, como se ouvir explicações fosse o que me falta. Uma professora me sugeriu, para aprender a mobilizar a força das pernas e pular pra longe, subir no degrau do bloco e dar um pulinho. O degrau não devia ter mais que 30 cm de altura. Quando ela me mandou pular, a ansiedade foi tão grande que não consegui. Não era pra saltar na água não, era pra dar um pulinho no chão. Fiz outras tentativas em casa, pra ter meu tempo e não ser vista por ninguém, e em todas elas eu sentia uma mini-crise de pânico. Me dava a impressão de que eu ia morrer, desequilibrar, bater com a cara no chão, não sei.

Comecei a me perguntar de onde aquilo, uma sensação tão atávica de medo e justamente naqueles dias meu irmão mais velho passou por aqui. Perguntei sobre um episódio que eu não tenho a menor lembrança, mas que cresci ouvindo e via as marcar num sofá que meu pai teve durante anos: eu e ele estávamos brincando de saltar pela sala, vendo quem saltava mais longe. Eu não devia ter mais do que três anos. Num dos saltos eu calculei mal ou me desequilibrei e caí de boca na madeira do sofá. “Tinha tanto sangue, você berrava de um jeito!” O sofá era de laca preta e ficou a marca direitinho – todos os meus dentes superiores entraram na gengiva. No começo acharam que eu tinha quebrado e estranharam quando não acharam nada. Meus dentes tiveram de ser puxados, o que explica também o fato de eu ter sido a única da família a precisar usar aparelho. Acredito que depois disso nunca mais quis brincar de pular. No balé todos meus pulos eram horríveis, sem força, eu caía dura e forçava o joelho. Tentar pular alto me deixava com medo.

Ok, aposto que te convenci. Tenho a melhor explicação do mundo para o meu problema com a Saída. Só que isso não muda nada, não pro mundo. Não faz com que os outros achem justificável que eu, que nado “tão bonitinho”, continue fazendo uma saída ruim. Quando me pedem para treinar durante a aula e tem uma platéia de outros nadadores, não faz com que eles deixem de achar menos esquisito o descompasso entre minha técnica na água e a minha entrada na água. E, principalmente, não faz com que numa competição me deem de volta os dois segundos que eu reduziria se saísse bem. Eu acho que esse é o grande X quando a gente realmente se encara como adulto: traumas psicológicos são nossos pontos de partida e ajudam a explicar a origem das nossas limitações, apenas isso. Na hora de seguir em frente, temos que fazer e pronto, igualzinho os outros.

Toblerone

toblerone-pieces-web

Não lembro o motivo, só sei que naquele dia ao invés de comprar as barras de sempre, quis me dar de presente um doce mais caro. Me dei um toblerone. Horas mais tarde, peguei meu toblerone, abri com toda calma e quando mordi o primeiro triângulo, voltou tudo: passei a infância inteira comendo toblerone e não lembrava, não havia me dado conta. Lembrei dos triângulos, de andar com o toblerone na mão, lembrei de tudo.

Depois pensei: “Só mesmo meu pai, naquela época de orgia financeira, pra desperdiçar toblerone com criança.”

Truques, dicas e quebra galhos

dicas-inspiradoras-para-casa-5

…era o nome de um livro que a minha mãe tinha, que dava um monte de dicas simples de como resolver pequenos problemas caseiros. Quando criança eu adorava folhear aquele livro, e hoje acho que é porque me parecia muito mágica a maneira como um objeto feito para uma coisa pode ter um uso totalmente diferente. Mas, como tudo na vida, pra usar dicas é preciso bom senso e cálculo, e às vezes era melhor nem ter lido. Como uma vez que meu irmão deixou cair cola no sofá. Não lembro se era branca ou super bonder. Ele foi no livro e lá dizia que era pra passar um pouco de óleo na mancha. Na sua grande habilidade infantil, meu irmão pegou a lata de óleo na cozinha e tentou colocar uma gota, virando-a no sofá. Ao invés de uma  manchinha de cola, ou quem sabe apenas um ponto mais duro de tecido, se transformou em uma enorme mancha escura. Depois tentamos colocar maisena – outra dica do livro – mas não funcionou muito. Foram meses disfarçando com almofada, até o dia da bronca finalmente chegar.

Pra deixar aqui uma dica que uso até hoje, funciona bem e não faz mal nenhum: uma gotinha de esmalte incolor na linha que prende o botão. Fica grudado e eles não caem mais.

Estrelas

-O bom é que aí dá pra ficar aqui fora. Embora esteja frio, tem feito umas noites lindas.

Fiquei até sem reposta quando ela me disse isso. A moça de piercing, cabelo azul, na loja vegana. Porque eu mesma voltei a olhar para as estrelas há pouco. É como se eu tivesse passado todos esses anos sem elas, tivesse interrompido minha amizade de infância com o céu. Se eu olhava, certamente olhava, não como é agora – não essa necessidade constante, esse pescoço dobrado pra cima, querer saber como estão e cumprimentá-las. Eram noites frias de céu limpo e estrelado que, até então, só eu tinha notado. Mas ela também notara. Imaginei ela e os outros veganos, piercings e coloridos, conversando com frio na noite estrelada. “Vai ver que para busca as estrelas quem está insatisfeito com o que tem aqui embaixo”, e achei que estava explicado.

Luzes de natal

Eu estava com o Vitinho no colo, e ambos estávamos na minha rede. Aquela, a minha, o meu lugar preferido da casa desde que eu me entendo por gente. Era dezembro. Eu calculo que tinha vinte e três anos na época, porque estava há meses de conhecer meu futuro marido e ainda não sabia. Vitinho devia ter uns… quantos anos as crianças têm quando já sabem falar e andar mas ainda são muito lindas? Andar não, correr. “Pode reparar” , me mostrou o meu pai, “que qualquer coisa que você peça pro Vitinho ou que ele tenha que fazer, ele vai correndo. Ele não tem paciência pra andar”. Era verdade, ele ia correndo, voltava correndo. Vitinho tinha toda pressa e toda energia. E tinha o corpo moreno magrinho de criança criada à beira da praia sem camiseta, um sorriso que abria à toa e formava uma covinha funda no meio de uma das bochechas. Vou chutar quatro anos, Vitinho tinha quatro anos. Então eu estava na rede com o filho caçula do meu pai, em dezembro, e já havia escurecido. Meu pai acendeu o praticamente único enfeite de natal da casa: um pisca-pisca que descia com uns fios e seguia por toda beirada da varanda. Todas as noites, Vitinho aguardava ansiosamente aquele momento. Aquelas luzes lhe pareciam tão mágicas, e ele ficava na rede comigo olhando pra cima de boca aberta.

– É tão lindo. A gente devia deixar essa luz aí pra sempre.

Aí eu disse que não, que eram luzes de natal. Luzes de natal, assim como outros enfeites de natal, tinham sua graça justamente na sazionalidade. Eles surgiam no final do ano pra demarcar que era natal, e tinham data certa para serem desmontados, que era no dia de reis, que se eu não me enganava era dia dez de… Meu pai intervém, e ignora tudo o que eu havia dito:

 

– Então se você quer a gente deixa essa luz aí pra sempre, filhinho. – e Vitinho sorriu uma covinha profunda.
Meu pai fez muito bem em deixar aquelas luzes ali. Ele já sabia – havia assistido aquele olhar pelo menos quatro vezes – que o pra sempre passa muito rápido.

Curtas de queixas vintage

Essas promoções de hoje em dia, que a gente tem que cadastrar código de barra e guardar a embalagem. Não gosto, preferia mandar as ditas pelo correio. Devia ser um problema se livrar de tudo depois que a promoção acabava, mas aí o problema era deles. O meu problema é que eu cadastro as embalagens e elas ficam por aí, estorvando. Quando vejo, joguei fora. Aí fico com medo de ser sorteada.

 

.oOo.

 

Uma coisa que deixou de existir e ainda bem: fã que para demonstrar seu amor escreve carta pro ídolo com 10 metros de papel com a frase “eu te amo”. Aí mostrava a quantidade de caneta que a infeliz usou, etc.

 

.oOo.

 

Já fui fã dos grandes gestos de desculpas, não sou mais. Sabe igual a cena do Richard Gere pedindo desculpas para a Julia Roberts na escada, em Uma linda mulher? Não me convence mais. Não porque a pessoa já conta com isso, em fazer uma merda muito grande e depois basta um gesto grandiloquente, uma cena pública. Sou mais ter pensado antes e evitado de me magoar.

 

.oOo.

 

Fico doida com esses posts que usam nostalgia dos anos 80 como motivos para alfinetar as gerações mais novas. Naquele tempo andávamos na parte detrás do carro, o mertiolate ardia, a TV não tinha controle remoto e nem por isso morremos, etc. Mas se essa geração que está aí é mole, mimada e não tem a nossa firmeza de caráter, a culpa é de quem? Dos seus pais anos 80. Se achavam que os valores da nossa época eram tão bons assim, não deveriam ter criado os filhos dando tudo, levando de carro pra cima e pra baixo e superprotegendo.

Infância comum

Não era aquele um bom momento para nascer. Os pais eram novos, ainda queriam curtir. Ou a situação financeira estava ruim. Já tinham o outro filho. Haviam perdido eles mesmos alguém e estava de luto. Estavam em crise, quase se separando. Não, era um bom momento. Mas queriam um menino ao invés de uma menina. Aí veio você, fraca, insuficiente, sem levar o nome adiante. Ou você, fraco, insuficiente, sem as grandes qualidades másculas que o seu pai valoriza. Que você fosse a extroversão, ao invés de ser a introversão em pessoa. Que fosse a encarnação da beleza e popularidade, ao invés de um bicho esquisito e arredio. E com graus maiores ou menores de crueldade, a infância seguiu. Com uma mãe que deixava a sogra ou a empregada cuidando do bebê choroso, ou o pai que estava sempre nas festas ou no trabalho em outras cidades. Ou com uma mãe trancada em casa cheia de rancor, olhares críticos, insatisfeita. Um pai que, pelamor, cada vez que ele chegava o ar se tornava pedra. A comparação sempre negativa com irmãos ou primos, as palavras rudes, a incapacidade do carinho. E aquele sentimento constante de inadequação, de falta. Quem sabe o amor dos seus pais, entre eles, fosse um clube exclusivo onde não cabia mais ninguém, ou a relação soltasse tanta faísca que todos à volta ficavam machucados, a ou falta de um deles fosse irremediável. Crianças que foram amadas na infância se melhores em qualquer coisa, em tudo o que fazem, em tudo o que tocam. Crescem por aí com seus dentes perfeitos, estrelas entre os muitos amigos. Elas se propõem e fazem com tanta segurança e imediatismo que é quase como se o universo colocasse uma almofadinha debaixo dos seus pés. Mas esse não é você, claro. Nunca será, nunca foi, ser com um rombo no peito. Você, que nasceu na família, país e época errada. Você, comum.

Como era

Insisto em não ser e fazer como todo mundo é e faz. Não por teimosia, talvez nem por princípios, mas por uma programação tão profunda que não dá pra pensar em mudar. Quanto melhor fico, mais silenciosa minha casa, mais solitárias minhas noites. Desculpe, mas não consegui colocar outro homem no lugar daquele, nem platonicamente, nem só pra ter o que contar. Não tenho preenchido, só esvaziado. As coisas que tenho vivido nem podem ser colocadas em palavras, porque não resistem ao contato com o ar. Me pergunto como realmente sou, na essência, e dizem que a resposta está na infância. São tantas infâncias. Desonestamente, escolho que sou a que foge das festas para admirar as estrelas. E, na minha imaginação, conversamos ao som de piano, sândalo e rosas, água do mar e amor.


Roubei do Marcos Abreu sem ao menos conhecê-lo. Se também gamou, tem aversão orquestrada e com violão.

O velho Chico e o psiquismo

Atravessando o rio São Francisco num barquinho igual.
Nunca foi por realmente me ver como paulistana que em qualquer conversa sobre curitibanos chatos eu me safo com um “eu sou paulistana”. Não tenho lembranças de infância lá. Minha mãe saiu grávida de Manaus, ficou em Curitiba durante quase toda a gravidez, e depois meus pais foram pra São Paulo e ficaram tempo o suficiente pra nascer meu outro irmão, um ano mais novo. Não foi um desses nascimentos quando a pessoa está de passagem, mas foi quase. Vim morar em Curitiba aos cinco anos, então realmente sempre me vi como curitibana, por mais que tenha ouvido a vida inteira: Você não é daqui, né? Eu me lembrei disso quando estava em Juazeiro, cidade onde um amigo meu nasceu e foi embora com um ano. “Fotografa o rio pra mim!” e eu nem sabia que rio era, não fazia ideia do quanto o rio São Francisco é lindo. 

Ir pra Salvador sempre mexe muito comigo. Passei grande parte da minha vida odiando a cidade com todas as minhas forças, atribuindo à baianidade toda infelicidade que já senti, renegando qualquer traço, influência e parentesco com aquele lugar. Mas eu chego lá e é aquela festa sensorial: o cheiro do mar, a areia fina no chinelo, o acarajé feito nas ruas, a maresia nas paredes, a sonoridade do sotaque, os rostos. Tudo familiar, tudo sempre esteve ali. Pra renegar é preciso conhecer, é preciso ter experimentado. Então, por mais que eu não tenha gostado, também sou eu. Como eu um dia pude pensar o contrário? Salvador faz parte das minhas lembranças e da minha história, está em mim de alguma maneira. Minhas células reconhecem a cidade e vibram diferente quando coloco os pés ali. E eu não seria quem sou sem ter vivido isso.

Lembrei do meu amigo porque comecei a pensar numa psicologia ambiental, quem sabe ecológica. De que é impossível que todos esses cheiros e sons diferentes das cidades não nos influenciem. Que alguém que lembra dos surubins nadando em volta de si enquanto está no colo da mãe, não pode ter dentro de si a mesma coisa de quem esteve no céu cinza de São Paulo ou comeu pinhões na infância. Que não somos só um pouco dos nossos parentes, mas também somos um pouco da nossa cidade, dos seus mares ou rios ou montanhas ou ventos ou chuvas.