Um problema novo

Fui na biblioteca devolver os últimos livros que peguei e, ao contrário do que faço há anos, quase a vida inteira, não peguei nada novo. Acho que foi só durante a faculdade que deixei de pegar livros na Biblioteca Pública, porque os pegava da biblioteca da universidade. Foi uma sensação de término de relacionamento. Não digo que nunca mais pegarei nada, que me abastecerei para tudo de arquivos mobi, mas sem dúvida nada será como antes. O novo formato combina comigo, que nunca fui de posar na frente de estantes. Fui criada ouvindo a pergunta, antes de querer comprar algum livro: Mas você já verificou se tem na biblioteca? Se a resposta fosse afirmativa, era um desperdício querer comprar. Não tenho big estantes, fotos diante de estantes, check in em sebos e sempre achei – estava redondamente enganada! – que não precisaria de nada disso para as pessoas perceberem que leio muito e mereço crédito. Mas o problema novo não é deixar de ler, e sim ter me dado conta que a minha coleção de marcadores de livros não tem mais razão de ser. Ainda não sei o que farei; como desacumuladora compulsiva, não me agrada deixá-los aqui como lembrança. É provável que me livre de alguns jogando no lixo ou os espalhe pelo mundo, entre pessoas que eu gosto. Quem sabe guarde alguns. Este daqui é um dos meus xodós:

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Como fazer amigos, etc.

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Quando eu li o clássico livro Como fazer amigos e influenciar pessoas, do Dale Carnegie, eu era uma adolescente que passava o recreio na biblioteca. A bibliotecária que já me considerava uma anormal faz tempo, ficou completamente convencida quando me viu lendo aquilo. Eu realmente só podia ter problemas. Haviam me dito também que a imprensa foi no enterro do autor e que haviam lá meia dúzia de gatos pingados, o que punha em xeque o conteúdo do próprio livro. Eu queria entender que fórmula seria aquela e hoje me surpreendo em lembrar que fiquei surpresa. As regras me espantaram pela sua simplicidade: “a palavra mais bonita do idioma pra uma pessoa é o seu próprio nome”. Ele recomendava lembrar do nome das pessoas, sorrir quando apresentado, recordar o que nos falam, etc. Eram regras que evidenciaram pra mim o quanto no fundo todo mundo é igual na sua carência e desimportância, por isso a vontade de ser confirmado a cada contato. Achei que entendi o porquê dele ter tido poucas pessoas no enterro. O livro me fez concluir que as pessoas eram um tédio – e era por isso que eu passava tanto tempo na biblioteca.

Teoricamente a gente sabe que no fundo todo mundo é a mesma criança que sempre foi, mas também se vê surpreso quando vê congressista se estapeando, modelo verificando celular do namorado, advogados dando gritos e subindo na mesa. Ao mesmo tempo que esse lado infantil e mimado nos faz praticar atos enormes de egoísmo, também me parece que é nele que está a chave do perdão e outras qualidades do coração amolecido. Carnegie recomendaria: reconheça o erro e fale “desculpe”. Eu recebi uma mensagem de um rancor antigo, e como não podia ler na hora vi apenas as primeiras palavras. Elas me deram a entender um mea culpa; fantasiei que a tal pessoa tinha lido as coisas que escrevo e ter me acompanhado a fez rever muitas coisas do passado e concluir que sou legal e que foi um erro blablablá. Já estava toda mudando de ideia e reconhecendo os meus erros também quando finalmente abri a mensagem e era apenas uma corrente de internet. E das chatas. Sabe cachorro que mal recebe carinho e já está oferecendo a barriga pra carinho? Me senti assim, facinha. Que raiva.

Curtas bobinhos

espacateEu e minha eterna vergonha de comprar vaselina. Comprar camisinha seria mais fácil.

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Quando descobri que tinha Guerra e Paz na biblioteca em edição de bolso, estavam lá os volumes 1, 3 e 4. Supus que o 2 estava emprestado e peguei o 1. Quando devolvi o 1, o 2 já havia voltado e peguei o 3. Aí não tive mais tempo de ler, devolvi, peguei de novo e finalmente terminei. O 4 não estava lá. Porra, outro leitor do Guerra e Paz, você quebrou a corrente!

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O aparelho. As braquetes não são parte da boca. Ela ressecam, grudam na gengiva e machucam. Aí a gente tem que ficar descolando a boca, enchendo de saliva, passando a língua. Ô trem chato.

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Toda noite tenho sentido vontade de tomar chá. A mudança é possível, a humanidade tem jeito sim.

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Sobre os piores conselhos possíveis: os meus. Meus conselhos sempre se encaminharão para pés quentinhos, contas pagas e coração tranquilo. E, definitivamente, não é isso o que as pessoas buscam.

Mais curtas sobre timidez

A bibliotecária do colégio onde cursei o segundo grau era tudo aquilo que não se espera de uma bibliotecária. Eu gostava de ficar lá durante os recreios, e me deliciava com uns livros de arqueologia que ninguém nunca havia emprestado. Ela achava aquilo o cúmulo, e se eu não me engano chegou a dizer na minha cara que eu precisava de terapia. Onde já se viu, na minha idade, ser tão quieta, ter poucos amigos, passar o tempo todo lendo. Problemática, não precisa nem perguntar. Aí um dia ela me viu com o Como fazer amigos e influenciar as pessoas e isso a convenceu de vez, passei a ser olhada com pena. O livro – ela deve ter concluído – não servia pra nada, porque continuei tão pouco amigável e influente quanto antes. O que eu não poderia explicar era que o que me fascinava no livro é saber que havia regras perfeitamente racionais que geravam atitudes de afeto e acolhimento se aplicadas a quaisquer pessoas. Não soa bem behaviorista? Não era terapia que eu queria, e sim ser terapeuta.
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A atividade consistia em andar pela sala, e ao encontrar uma outra pessoa, num cruzar de olhares, perceber que ela queria interagir com você e fazerem juntas um movimento espontâneo. A banca de três professoras e mais uma pianista nos observavam. Eram três grupos, fui chamada no segundo grupo e estávamos em número ímpar. A música começou a tocar, andamos pela sala, etc. Minha lembrança mais forte daquela atividade foi estar andando sozinha com a banca à minha esquerda e, à minha direita, todos as outras de collant-sapatilha-meiacalça pareciam estar num bacanal, interagindo loucamente sem ter tempo nem de pensar. Eu estava tranquila, pois na minha concepção a atividade previa momentos de simplesmente andar pela sala. Só depois que saiu o resultado  – e eu não passei – que me dei conta de que isso para a banca pode ter parecido falta de iniciativa, dificuldade de relacionamento, sei lá. Eu havia esquecido a hostilidade do mundo para com os tímidos, especialmente na dança.

A numerologia da data

A Biblioteca Pública tem um sistema de alarme nos livros que precisa ser desativado assim que a gente sai. Então depois de emprestar os livros a pessoa vai até um segurança sentado com um computador, que passa os livros pela leitora de códigos de barra e depois esfrega os livros num negócio que desativa o alarme. Quando entreguei o Apanhador no Campo de Centeio, a segurança viu que a data de entrega dele era dia 11 de setembro. 

– Onze de setembro, uma data importante…

Eu nem queria falar sobre o atentado e disse que ele me ajudava a lembrar da data de aniversário de duas pessoas. Uma quem com não tenho mais contato e o Farinatti. Sou péssima pra datas, mas lembro dessas só por causa disso. Mas ela queria continuar o assunto:
– … dia dos atentados às Torres Gêmeas. Você sabe que a escolha da data foi importante, não foi uma data qualquer.

Aí eu me interessei:
– Não? E como é que escolheram?

– Minha filha viu um documentário e disse que tem a ver com as crenças deles. Porque Deus é dez, então eles atacaram as torres no onze, pra mostrar que ninguém é maior do que Deus, nem as Torres Gêmeas.

Manhã ensolarada

Eu me arrumei com o carinho de quem só tinha coisas agradáveis pela frente: ia devolver e pegar livros na biblioteca pública, levar três exemplares do meu livro para doar para a Biblipote, trocar uma compra na C&A e almoçar com o marido. Estava me sentindo bonita. Em casa estava fresquinho e o sol parecia convidativo. Coloquei uma roupa confortável porque andaria bastante, com tênis, calça leve e uma blusinha mais leve ainda, quase pelada, pra me aliviar do calor. Escolhi uma bolsa grande porque devolveria três livros e doaria mais três. Por isso a primeira parada era na biblioteca pública, de onde pretendia voltar com a bolsa mais leve. O horário estava tranquilo e fui sentada no ônibus. Nas janelas que quase não abrem, no ônibus, já senti que aquele dia seria bem quente. Fui até a biblioteca e nada do que eu havia planejado deu certo – o livro 1 que eu queria pegar não tinha, nem sinal do livro 2. Sem opções, passei pela literatura russa pra ver se a edição novinha da Anna Karienina da Cosacnaif havia voltado. Havia. Peguei, renovei um outro livro grosso e saí de lá com a bolsa pesando mais de cinco quilos. A distância entre uma biblioteca e outra, de umas dez quadras, nunca me pareceu tão longa. Tive o cuidado de fazer um trajeto diferente do caminho que fiz durante os anos que estudei na Reitoria, porque não queria encontrar conhecidos. Comecei a ficar com fome. A cada minuto, tinha que trocar a bolsa de ombro por causa do peso. Quando tentava levar os livros nos braços, sentia dor nos pulsos. Planejei chegar na Biblipote e aproveitar que é uma padaria pra pedir um suco de laranja. Com muito gelo, o que era especialmente importante. Quando finalmente cheguei lá, derretendo, ela estava tão cheia de gente que mal dava para entrar. “A biblioteca do Alessandro é mesmo um sucesso”, me espantei. Dei os livros pra mocinha do caixa e fui embora, porque até na escadaria tinha gente sentada. Voltei umas tantas quadras e fui pra C&A. Tinha uma hora pra bater perna na loja. Minhas pernas doíam e eu tinha que enrolar porque os restaurantes nem haviam aberto. Enquanto passeava pelas araras e achava tudo teen, vagabundo ou sem a minha cara, – a C&A do centro é um horror – meus olhares se cruzaram com os de uma mulher carrancuda pelos corredores. Era eu.

Quando a idade chega é assim: algum desconforto e já ficamos com cara de bruxa.

Biblioteca Pote de Mel

Pode reparar: quando alguma coisa nos incomoda pessoalmente, temos um pensamento praguento – achando que é algo sensato e realista. Foi assim que eu reagi quando soube que o Alessandro ia fazer um biblioteca numa padaria, livre para quem quisesse ler:

– O Alessandro está louco. Num instante vão roubar todos os livros dele.

Eu já tinha visto reportagens sobre iniciativas semelhantes. Lembro de uma biblioteca fundada por um catador de papel, que se alfabetizou sozinho e achava um desperdício ver os livros que ele encontrava no lixo apenas como pilhas de papel. Mas aí – veja como o preconceito é um bicho tinhoso e resistente – “é coisa de gente ignorante para gente ignorante. O Alessandro vai doar os livros que eram do pai dele”. Achei que um dia o Alessandro daria alguma queixa, alguma amostra de que foi precipitado. Pelo site, acompanhei nascimento da idéia, as fotos, as doações de um e outro. Um dia ele fez um apanhado geral e concluiu que o número de doações ultrapassava o número de sumiços. Só então me convenci de que a biblipote tinha dado certo.

Mesmo de longe, foi uma experiência marcante pra mim. Daqueles fatos aparentemente banais que te fazem rever certos conceitos, que mudam alguma coisa dentro da gente. O Alessandro deu a cara a tapa e me mostrou que é possível oferecer algo a estranhos sem ser roubado ou explorado. Ou seja, as pessoas, na sua maioria, não estão aí para prejudicar os outros; que é mais provável que o estranho do seu lado se comporte com ética e não com a Lei de Gerson. Ou será que isso é impressionante só pra mim?

Plano de dominação mundial

Como alguns de vocês sabem, minha dissertação de mestrado sobre cegueira foi transformada em livro recentemente. Pra ser mais precisa, peguei os exemplares que me pertencem por direitos autorais na sexta. Quem tem o mínimo de conhecimento do mercado editorial sabe que ser escritor não dá dinheiro, que livro a gente publica por amor, por vontade de ter suas idéias lidas por aí.

A Editora da UFPR, que publicou o meu livro, não tem tanto alcance quanto uma grande editora. E o fato de ser um livro de sociologia sobre cegueira também não torna o meu livro especialmente atraente. Não tentarei fazer meus conhecidos comprarem a todo custo os 38,00 que os livros custaram na livraria. Mas eu quero muito que ele seja lido, que as histórias das pessoas que eu entrevistei sejam conhecidas e estou disposta a doar muitos dos meus livros às bibliotecas. Listado num catálogo, numa prateleira e disponível ao público, que ele pelo menos tenha a chance de atrair alguns curiosos ao longo dos anos. Quem sabe eles gostem e recomendem, quem sabe meus livros ajudem alguém. Não sei, quero apenas que ele cumpra o destino ideal dos livros, que é dizer algo a seus leitores.

Darei um exemplar para a biblioteca pública, a biblioteca da UFPR e da PUC-PR. Ou seja, a circulação dele em Curitiba eu garanto. Quero também doar para bibliotecas de outras universidades do país. Não quero enviar os livros pelo correios porque tenho receio de perder tempo e dinheiro. Eles podem não chegar ao destino, podem ser vendidos, podem nunca receber uma catalogação. Enfim, tenho minhas razões para não querer enviar meus livros pelo correio.

Aqui entra a parte da ajuda: tenho alguns amigos, leitores deste blog, que moram em cidades universitárias e/ou têm acesso à Universidades. Conheço mais de uma pessoa em São Paulo, mais de uma em Brasília e por aí vai. Mas eu sei que existe problema de distancia, de tempo, de trajeto e várias outros empecilios. Se eu disser quem deve levar o livro, estarei impondo um favor que nem sempre a pessoa tem condições ou pode não estar motivada a fazer. Eu gostaria de fazer o seguinte: enviar um exemplar diretamente ao endereço de algum amigo – alguém que eu já conheça há algum tempo, nem que seja apenas virtualmente. Ele pode ficar à vontade para ler ou não o livro, desde que se comprometa em um dia entregá-lo a uma biblioteca universitária como doação. Tudo na base da confiança.

Alguém se habilita? Quem quiser me ajudar, basta me mandar um e-mail ou deixar o e-mail nos comentários (que eu posso nem publicar) para eu entrar em contato.

PS: Se você quer ter o meu livro, para deleite pessoal e não quer doar para uma biblioteca, você pode comprá-lo. Na editora custa 38,oo reais – comigo, custa 30, reais mais o frete.

Últimos livros

Tenho sentido dificuldade de escrever aqui. Ironicamente, acho que um dos motivos é que eu tenho lido muito. Como se eu estivesse gastando minhas histórias com o vocabulário (e imaginação) alheios. Peguei quase ao mesmo tempo, todos na biblioteca:

Um certo capitão Rodrigo

Foi engraçado, porque me dirigi diretamente ao catálogo e antes que pudesse folhear, me perguntaram que livro eu queria. Pedi Érico Veríssimo e ouvi que os livros ficavam ali, “mas apenas o mais antigos, porque os novos estão entre os mais lidos”. Estranhei tanta popularidade, pensei que fosse por causa de algum vestibular. Quando vi, tinha sido levada à estante de Luís Fernando Veríssimo.

Resolvi dar uma nova chance ao Érico por causa deste post. A edição que emprestei tinha uma introdução interessante sobre o ato de escrever, numa hipotética conversa do autor consigo mesmo de épocas diferentes (um recurso que o próprio Milton também gosta muito de usar). Lembrei bastante do Crônica de uma morte anunciada, por ser um livro que a gente não se pergunta o quê e sim como acontece o fim. Achei o Capitão apaixonante e fiquei com aquele gostinho de quero mais para ler O Tempo e o Vento.

Budapeste

Terminei agora há pouco. Outro que peguei motivada por um post do Milton. Lia um capítulo e parava. É uma leitura que absorvente e depois eu precisava de um pouco de ar. Com relação à forma e construção da narrativa, é genial – o que me desanima bastante com a adaptação dele em filme. Certos livros têm na maneira de descrever a sua beleza, não tem jeito. Basta pensar no crime que A insustentável leveza do ser fez com o livro.

Sobre a história, ela gira toda sobre o tema do duplo – uma vida dupla, uma cultura dupla, o que é ser o duplo do outro. Fiquei bastante mexida com a questão da obra, do reconhecimento, da questão autoral. Acho que todo artista já se sentiu meio ghost writer. Lembro de David Shayne, em Tiros na Broadway, angustiado com a questão: a quem você ama, a mim ou à minha obra?

Xamã, a história de um médico do século XIX

Eu peguei e quase não peguei. Me proponho a ler autores de best seller e ao mesmo tempo os rejeito. Não sabia que era parte de uma trilogia, que começa com O Físico. É um bom livro mesmo. Sem inovações mas com uma história bem feitinha e envolvente. Fiquei com a impressão de que todas as gerações da trilogia se debatem com as mesmas questões: o desejo de fazer o que é correto, que obriga o sujeito a entrar em conflito com a sociedade. Tenho o meu lado Birobidjan e me identifiquei. Não consegui terminar o livro porque quando fui à biblioteca renovar, tinha esquecido a carteirinha dentro do Budapeste. Mas terminarei assim que esbarrar nele de volta.