Menos e mais

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Se eu fosse projetar o cenário, nos colocaria sobre folhas gigantes, deitados como lagartas do País das Maravilhas, preguiçosamente fumando narguilé. Mas apenas conversávamos on line mesmo, porque nosso encontro real é tão difícil que é provável que ele aconteça apenas uma vez em toda nossa curta existência. Digo uma vez porque sou otimista, e se passasse perto de onde ele mora me mobilizaria para vê-lo e creio que ele faria o mesmo esforço. Apenas para que pudéssemos nos olhar nos olhos e rir juntos enquanto eu envolvo o meu braço no dele, para depois tirar, antes de ser mal interpretada, porque sei que meu amigo não é fácil. Naquela ocasião ele me falou que havia recém-descoberto que nem todo interesse precisava ir para cama e receber o investimento de uma paixão, que o sexo é sempre sexo e algumas mulheres ainda que muito interessantes poderiam continuar amigas. Pisco para ele com meus imensos olhos de lagarta cética. Na conversa seguinte ele já estaria novamente apaixonado, mas naquela ele estava de gônadas cansadas. Aí ele passou o narguilé para mim, estendi os braços curtos e ele me perguntou das minhas histórias. Disse que estavam no mesmo pé da última conversa, e da última, da última e última. Ninguém à vista, mesmo, nenhum homem, mulher ou ser vivo? Disse que para mim era um mistério como todas lhe parecem gostosas e interessantes. “Eu preciso comer menos a galera e você mais”. Sopro a fumaça no ar e faço três círculos. De fato.

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Por ti minha alma sofre

 

Comecei a stalkear meio por brincadeira, como é pra todo mundo. Aí comecei a achar o Fulano tão legal. Quando dei por mim, estava batendo ponto no Facebook do sujeito. Percebi que a coisa estava feia no dia que fiquei reprisando um vídeo, pois a maneira dele sorrir meio sem graça é tão fofa. Coisa de mulher trouxa apaixonada. E o dia que ele postou trecho de livro e eu vi quase imediatamente, e quase fui lá comentar porque eu estava online, e ele certamente estava online também, e que coisa bonita nós dois online juntinhos e separados? Foi por muito pouco que a louca aqui não comentou, na maior, como se fosse íntima. Stalkear dá essa ilusão, que de certa forma nem é ilusão, uma intimidade unilateral. É uma espécie de namoro em que uma das partes não sabe que está namorando. Ele até sabe que eu, enquanto ser humano, existo, mas nem desconfia do meu interesse. O que eu acho grave, doutor, é perceber que por mim vai continuar no interesse, no platônico, na stalkeação, para sempre. Morro de medo, simplesmente não conseguiria me aproximar. É muita areia pro meu caminhãozinho. Mesmo.

Abismo III

– O vento, você sente o vento? O coração disparado e a adrenalina?

E se eu te dissesse para não pular? Ninguém disse que você só tem uma semana de vida. Ao contrário, são tão longos os dias que você têm a sua espera. Muitos deles têm bolinhos quentes, cervejas geladas e amigos. Diria até alguns desses dias serão gloriosos. E que… Não, eles não têm esse vento e essa adrenalina. 

Adiantaria se eu te dissesse para não pular?

Abismo II

Meu amigo, você está tão tão ferrado.
Você passeia nas margens, caminha, namora a borda. Sente o vento com cheiro de águas profundas e fecha os olhos, se perguntando qual a temperatura lá debaixo. E quando olha, oh meu Deus, o quanto e como olha!
O que torna o humano um ser tão previsível, máquina: a sua incapacidade de ouvir conselhos quando está cheio de desejo ou a vontade de fazer do próprio desejo e seu desastre iminente uma escolha?

Uma dúvida sobre caráter

Digamos assim, eu estava conversando com um amigo. E nós temos um conhecido em comum. Digo conhecido porque esse fulano, cujo nome eu nem pronuncio, já foi um canalha comigo. Esse amigo sabe que já fomos amigos, mas não imagina o porquê do rompimento e fiquei com medo dele querer saber. Não é preciso entrar em detalhes e jamais entrarei no detalhe, mas a minha dúvida sincera é se eu poderia dizer: “Realmente, não somos mais amigos. O que posso dizer é que ele não é uma pessoa confiável.” Minha dúvida é porque, quando digo isso, estou condenando o caráter do sujeito como um todo. Estou dizendo que esse meu amigo deve manter toda distância possível. Mas, na realidade, talvez não, porque a canalhice que o fulano fez comigo é do tipo que apenas um homem pode fazer a uma mulher apaixonada. Alguém que fere uma mulher que estava apaixonada é um mau caráter no geral ou apenas um mau caráter no campo amoroso? Será que dá pra separar as duas coisas? Essa é a dúvida.

Notas mentais pra pra lá de julho

* Preciso comprar jeans.
* Preciso comprar partes de cima mais elegantes do que camisetas.
* Preciso superar o tal desapego ou processo depressivo em relação a comprar roupas, antes que passe a ficar vergonhoso. Ou: vergonhoso demais.
* Encontrar mulheres divorciadas que já estão “muito tempo há procura” é tão…
* Investir numa situação meio (nhé) não-é-como-eu-queria porque (nhé) ele-é-legal e (nhé) quem-sabe-com-paciência-e-insistência a coisa fique aceitável (nhé nhé nhé) ou esperar (quanto?) uma situação mais o meu número em todos os sentidos?
* Serei eu ainda capaz de me apaixonar da forma como quero que se apaixonem por mim?
* Permitirá o destino que eu possa me dedicar à escrita ou… ?
* Meu Deus, a árvore continua empurrando o meu portão. Mais um pouco ele não abre. Ou cai.
* Amanhã eu resolvo. Amanhã, amanhã.

Chorar porquê

Já passei da fase de querer chorar na sessão de hortifruti, quando comprar um pimentão, um cacho pequeno de bananas e umas três cebolas me deprimiam. Não que na minha casa se cozinhasse muito, mas não era tudo tão pouco, tão gritantemente solitário. Semanas atrás dei pra quase chorar na sessão de bolachas, ou sei lá que sessão é aquela. O supermercado onde eu vou começou a se expandir, e eles não fecharam pra fazer a transição. Então cada dia que eu vou lá, as coisas foram parar num lugar diferente. O padaria continua no fundo, mas os pães de forma ficam muitos corredores à esquerda. Naquele dia em especial eu havia percorrido vários corredores à procura de tudo e fiquei cansada. A cestinha já estava pesada, mas faltava comprar a bolacha. Eu ainda enfrentaria o caixa, a distribuição na sacola, a longa subida até minha casa. Eu rodava feito uma tonta, só gosto de uma marca específica de bolacha e… enfim, eu estava quase largando a cestinha no meio do corredor e cobrindo o rosto com as mãos, igual criança. Até que finalmente achei.

 

Não sei se hoje foi mais sério ou eu estava mais frágil e mais cansada, ainda mais que eu havia machucado as costas de manhã. Apesar de ter aula mais tarde e ter saído de casa pelo menos meia hora mais tarde, o Interbairros 2 me deixou esperando quarenta minutos no ponto, de novo. De onde eu concluo (alô, prefeitura!) que há um intervalo de horário de duas horas no final da tarde que aquela linha não funciona direito. Frio, de pé, costas doendo. Não há livro e horário adiantado que não consigam fazer quarenta minutos que são estendidos de dez em dez pelo marcador não parecerem longos. Meu pensamento quis me tirar dali e, em busca de um pouco de prazer, lembrou daquele beijo. Aquele que foi tão bom, que finalmente encaixou, que teve tanto calor e afeto que parecia que depois dali tudo deslancharia. Só que não apenas não deslanchou como foi o nosso último. Dessa vez não deu pra segurar e quando me vi a sós, caminhando nas ruas escuras, desatei a chorar. Minha desimportância bateu forte demais.

Curtas sobre menos, muito menos

Não adianta ter os lindos cabelos sedosos, olhos azuis, cintura boa de pegar e até mesmo ter uma sintonia incrível na cama. Você não é irresistível. É, no máximo… uma preferência? Porque existem outros cabelos, olhos e cinturas, que são até de outras cores e formatos, porque a variedade também é atraente. O elemento que torna uma pessoa sexualmente irresistível não está no físico, e sim no coração. Somente a paixão torna uma pessoa única. Sem paixão, basta dizer tchau. O problema é ter culhões pra ouvir do outro lado: tchau.

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Tentar forçar que o outro nos elogie é sempre ruim, mas tem um método que é particularmente muito ruim: o de se desmerecer. Quando a outra pessoa saca, ele é tão chato e óbvio que não dá vontade de elogiar. O silêncio constrangido grita: Carente! Mas às vezes o outro não saca e acaba comprando a ideia, e ao invés de ganhar um elogio a pessoa ganha um complexo novo. Assim: “Eu sempre uso o cabelo comprido porque acho as minhas orelhas feias, elas são meio de abano”. “Sabe que agora que você falou…”

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Eu continuo, e acho cada vez mais, que a vida é leela. Um lacaniano diria: o ser humano está sempre atrás do gozo. O problema é que algumas formas de gozo nos parecem muito bizarras, incompreensíveis. Há gozo no aparente sofrimento, na manutenção de situações difíceis. Quando a pessoa não quer, quando a situação não lhe dá algum tipo de ganho secundário (pra usar um termo psi), ela sai dali o mais rápido que pode. Se a vida, em leela, é um grande parque de diversões, o que fazer se tem quem goste de ficar o tempo todo no trem fantasma.

Um puxão no cachorro

Eu te seguro, eu me seguro, igualzinho faço com a Dúnia. Eu não achei que a maturidade (ou a sabedoria) fosse assim, como um puxão num cachorro preso numa corrente. Quem sabe mais tarde eu alcance a placidez do sábio, que era o que eu achava que acontecia. Mas, se um dia acontece, não é espontâneo, não é pela indiferente constatação do que funciona ou não funciona. Não é um olhar de desapego. É no puxão, é no controle, é como eu e a Dúnia. Nos nossos passeios diários, apesar do adestramento e dos pequenos rituais que dizem ao cachorro quem é que manda, a Dúnia vai na frente, se vê com líder, e eu vou pensando na vida. Quando tenho mais tempo e mais necessidade de ar fresco, o passeio é mais longo. Quando vamos na versão curta, eu paro no lugar da meia volta, e ela se empina observando o horizonte. E ficamos nós duas – ela olhando o horizonte e a ser explorado e eu à espera do fim da cena. É a sua forma de me dizer que quer ir em frente e é a minha forma de dizer que não sem ser rude. Não quero ser rude. Eu já aprendi o porquê de tantas classificações de pessoas – eneagramas, tipos psicológicos, signos, transtornos de personalidade, etiquetas – e que todos dão certo. Eu já sei que defeitos e qualidades são uma coisa só, que não se pode querer que o organizado seja também artístico, desejar que às vezes que o espontâneo seja controlado e esperar estabilidade do agressivo. Então, na maior parte do tempo, tal como amo a Dúnia, amo minha infantilidade, minha surpresa, minha abertura. E já não espero mais de mim a ambição, instinto de liderança e planejamento que me fazem falta. Só que às vezes eu passo dos limites, como a Dúnia que quer atravessar a rua e não entende o raciocínio de esperar, de olhar o horizonte, das coisas grandes e apressadas que passam nas duas direções e podem nos machucar. Aí eu puxo. Fico com vontade de dizer que estou apaixonada, que quero o mundo, quero correr pela rua, quero chorar, quero morder. Eu quero já e quero tudo, ou não quero nada e quero mais que morra. Por que o mundo não entra na minha e corremos todos felizes em direção ao sol? Ou latimos até doer? A Dúnia tem quase vinte quilos e quando ela me pega distraída, ou cisma muito, é um tranco puxar aquele cachorro, quase caio no chão. A grama é verde, o cheiro é bom e deu vontade de fazer cocô naquele instante. Mas é pra isso que serve o racional, pra não deixar que o animal amado se mate, pra olhar pro horizonte e dizer que naquele instante não dá. Eu queria que fosse plácido, como o sábio na montanha. Eu não queria que fosse um puxão de estraga prazeres, um mandar em si mesmo. Mas é impulsivo e apaixonado, animal e lindo, amor e vira-lata.

Simpatia, ex e sexo

Não sei qual das coisas absolutamente normais eu disse, normais no sentido de que eu as diria inocentemente para qualquer um, que fez com que minha médica me falasse, espontaneamente, que eu sou uma pessoa muito simpática. Vai ver que sou. Eu tinha é que conseguir arranjar uma maneira de ganhar dinheiro com isso.

“Dá pra virar amiga de aluguel, igual o teu amigo Alessandro“. “Pra mulheres isso costuma ter outro nome” “As gueixas não dormem com os seus clientes”. Trollagem de ex – a melhor trollagem.

E já que o assunto é esse, tenho que dizer: se descobrir capaz de fazer sexo sem estar apaixonada é uma das coisas mais libertadoras que existem. Mais não digo.

Sorriso

Se uma pessoa sorri pra você, mesmo que apenas por educação, numa troca de meia dúzia de palavras, e isso te deixa feliz, significa que você está interessado nela?

Limites

Eu não sei ser moderninha. Sou muito à favor e consigo entender completamente a reivindicação de sexo livre e sem tabus para as mulheres, é uma luta necessária. Mas eu, falando de uma maneira muito pessoal, não dou conta. Fui programada convencional, sou convencional. Se pudesse me programar, me programaria diferente. Eu tive uma amiga que fez redução de estômago e sua nova magreza fez com que ela tivesse em poucos meses mais parceiros na cama do que eu tive e terei a vida toda. Ela não se conformava, em ter um corpo de redução de estômago (com cicatrizes e estrias) e fazer mais do que eu, que sempre fui magra. Ela me dizia – “se eu tivesse esse teu corpo, você não faz ideia do quanto iria aproveitar”. Mas não “aproveito”. Pra mim afeto e sexo estão tão ligados que me acontecem duas coisas: ou eu olho um homem e acho ele muito bonito e não sinto tesão nenhum, ou gosto de um homem, de estar com ele, de conversar com ele, e fico com tesão. E se formos para a cama, todo esse pacote ficará mais intenso. O que faz com que do zero nunca comece, porque eu nem teria vontade. E uma amizade colorida logo logo me deixaria com vontade de algo sério. Sim, eu sei, é complicado. Eu disse, se pudesse faria diferente. Claro que não sou uma louca que tem que amar pra conseguir ir pra cama, tem que ser pedida em casamento e colocar aliança no dedo pra se soltar. Só não conseguiria ir pra barzinho ou conhecer alguém no Tinder e já ir pra cama com ele.

 

Desculpem o desabafo, e acho até que estou sendo repetitiva nesse assunto. É que tenho assistido o sofrimento de uma amiga e estou triste por ela. Ela tem limites parecidos com os meus e não os respeitou. Se envolveu sozinha, foi fundo, e hoje tentou uma atitude extrema. Sim, essa que você pensou. Não tenho nem o que dizer. Limites, temos que conhecer e respeitar nossos próprios limites.

Curtas e solteiras

Acho, apenas acho, que as pessoas à minha volta já esperariam que eu estivesse envolvida em alguma história. Romanticamente falando, sabe.
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A tal festa da qual falei no post passado. Eram mesas compridas, cheias de gente, e na prática só dá pra conversar com quem está sentado perto. E eu sentei perto das minhas amigas. Dias depois, comentando sobre a festa, a aniversariante apontou pra mim e pra outras: “Tinha três amigos solteiros lá. TRÊS. E ninguém foi”. Eu não havia me tocado disso: de que agora sou solteira, e quando vou num ambiente devo reparar em todas as mãos masculinas pra ver quem também é solteiro. Aí eu avalio, vejo se quero, e se quiser já parto pra cima. Ou seja, deixa eu mudar o botão do modo “normal” para o modo “desesperado”.
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Na minha adolescência e na faculdade eu passava longos períodos sozinha. Era difícil eu me envolver com alguém. Tinha muitas paixões platônicas, vivia apaixonada, mas só queria algo se fosse assim, apaixonada. Não ia a baladas, e quando ia não ficava porque não via graça. Cantadas me causavam uma reação estranha, quase uma coceira, uma vontade irresistível de responder de maneira cretina. Como vão os namorados? Todos bem, com saúde, graças a Deus.
Eu, casada, olhava para trás e pensava: que boba que eu fui, deveria ter aproveitado mais. Deveria ter namorado, ficado, dado. Agora estou solteira de novo e quem disse? A gente é o que é, não adianta.
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Um dos problemas, um dos meus grandes problemas, é que não sei se sei me relacionar da forma adulta. Agora eu devo olhar pro cara, avaliar se gosto do currículo e se estiver tudo ok eu dou pra ele? Afinal, pra que enrolar se somos dois adultos, sem ilusões e nem expectativas e no fundo tudo se resume a sexo? Não sei se consigo, juro. Se conseguisse, já teria arranjado alguém. Sou ridícula, tô indo pra casa dos quarenta e quero me apaixonar.
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Então eu acho que o sujeito tem que me conhecer e aprender a gostar de mim. Tá bom. Tá bom nada, tenho medo.

Admirador secreto

Colégio Estadual Rio Branco, segundo grau, década de 90. Minha amiga Andréia tinha um cabelo castanho que ia até a cintura, um jeito meio desengonçado de andar e mascava chicletes de boca aberta, pra dar um ar descolado. E despertava paixões facilmente. Tinha um japonês bombado que sentava do meu lado, e um dia pedi um livro emprestado pra ele, que ficou sem graça e não me emprestou. Depois ele veio me explicar que no livro havia um desenho da Andréia de perfil, que ele havia pedido pra um outro menino da sala fazer. Ficamos amigos depois disso.

 

Um dia a Andréia começou a receber bilhetes de um admirador secreto. Os bilhetes apareciam como mágica na carteira dela. Foi a sensação do recreio. Tentávamos adivinhar quem era, se ele tinha cúmplices, reparávamos em quem demorava pra sair da sala. A cada bilhete ele ia falando mais, se revelando, até que no último dele disse que depois do recreio, na aula tal, ele se sentaria na carteira vazia que estava na frente dela. Finalmente saberíamos quem era, que emoção!

 

Chegou a tal aula e todo mundo de olho na carteira vazia. A aula acontecendo e a carteira ainda vazia. Aí num momento que todos estavam concentrados, com o quadro cheio de matéria para copiar, ele se levanta ostensivamente e senta na carteira da frente. Ficamos em choque. Ninguém havia cogitado aquele nome. Hoje penso no quanto aquilo deve ter custado, o gesto corajoso e suicida, mas na época… Vou explicar: ele era gordo. Existem duas saídas clássicas para o adolescente gordo. Uma delas é ser vítima, receber apelidos, aquele sofrimento todo. A outra via é virar o jogo. Ele era uma espécie de líder. Tinha bigodinho, era forte e um jeito muito agressivo de ser. Lembro que uma vez levei esporro dele durante uma partida de handebol. Nunca imaginamos que alguém intimidante, do tipo que chama para briga e coloca apelidos, seria capaz de se declarar para uma menina. Ainda mais daquela forma.

 

A Andréia, morrendo de vergonha, ficou copiando a lição do quadro, como se ele fosse invisível. Ele sustentou o olhar durante longos minutos, sentado de frente pra ela. Depois voltou para a própria carteira e a história acabou aí.

 

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Daí eu formulei uma Teoria Sobre Admiradores Secretos que nunca foi desmentida. É a seguinte: se você recebe presentes, flores, bilhetes de um admirador secreto, contenha a felicidade. Não é aquele cara pra quem você tem sorrido. Não é o Gianeccini da firma. Esses dois sabem que não precisam de nada disso, que é só chegar junto e dizer “vamos”. O admirador secreto é sempre o cara que sabe que tem alguma desvantagem, que a princípio você nunca pensaria nele. Então ele precisa te amolecer antes.

Três fofinhas

Ele ficou olhando pra mim, certeza. Eu estava conversando com uma amiga, daquelas que param de andar quando falam, o que torna a conversa meio patética. E ele nos acompanhou com o olhar. Tonta do jeito que sou, é capaz da minha paixão platônica ter reparado que eu existo há um ano e eu só me dei conta dele agora…

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Estava fazendo costura duas vezes por semana, e com muita dor no coração agora farei apenas uma vez. Já era pra ter largado faz tempo, na verdade. Mas fui atrasando, por adorar as aulas e as turmas. Cada dia era uma turma diferente, e a turma mais legal era justamente a que menos compensava ir, então imaginem a dó. Mas tive que fazer umas reposições na segunda e me apeguei à turma de segunda também, ou seja, a pessoa se apega a toda turma que vai. Deve ser um bom sinal.

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Meu medo, com relação ao meu novo negócio: fazer, fazer, fazer e não vender. Porque, por mim, tenho trocentos projetos, amo lojas de tecidos, penso em modelos novos, fico toda cheia quando vejo alguém usando algo que eu fiz.

Surto

O rapaz tinha esquizofrenia. Foi para sua terapeuta, apenas para sua terapeuta, que ele contou que estava apaixonado pela professora. Ela havia marcado uma prova. Ele começou a fazer planos: ele iria tão bem, mas tão bem naquela prova, que isso chamaria atenção da professora. Uma vez que ele chamasse atenção da professora, eles poderiam conversar, se aproximar, ela ficaria ciente do que ele sente por ela e eles poderiam viver um romance e serem muito felizes.
Algum tempo depois a família ligou para a psicóloga. O rapaz havia surtado. Ela foi correndo vê-lo, que já havia sido atendido e medicado, tal era seu estado. Ele havia entrado em surto por uma bobagem, por um nada, tal como se crê que são os surtos psicóticos. Ele estava assim depois que havia recebido uma nota baixa em uma prova.
Ela, apenas ela, a terapeuta, entendeu o motivo do surto. Não havia nada de aleatório ali.
Essa história me faz pensar que realmente nada do que é humano me é estranho.