Telefonema

telefonema

Foi difícil. Quando a terça-feira passou e ela não me ligou, eu sabia que ela havia morrido. Tenho do lado do computador um calendário onde anoto os compromissos, e quando fui anotar aquele dia, a intuição me disse que iria riscar meu calendário à toa. Eu ouvi e entendi, mas fiz questão de marcar, como se o meu gesto com a caneta fosse mudar a realidade. Esperei ansiosa o dia inteiro, a manhã seguinte. Ela vinha tendo tantos problemas de saúde que era comum não atender o telefone na hora e ligar mais tarde. Mas eu sabia que não era o caso. Entrei em contato com a única pessoa em comum que tínhamos. A amiga em comum ficou de ligar, de ver, de entrar em contato. Mandou um e-mail pra família meio que para constar. Na teoria que ela formulou, nada havia acontecido, foi como umas férias inesperadas, uma manipulação. “Ela vai ligar mais tarde, quando estiver assistindo a novelinha dela”. Fiquei tão irritada com o tom condescendente. Combinamos de passar as novidades uma para a outra, de continuar ligando. Eu não liguei mais, não tinha coragem – me dava arrepios saber que o telefone do outro lado estava tocando para o vazio. Para tentar convencer, dei a cartada final e disse a verdade: ela está morta, há poucos dias ela me ligou avisando que iria morrer, que havia sido avisada num sonho. “Se ela tivesse sonhado isso teria me dito”. A novelinha dela, a manipulação. Se em poucas palavras eu percebi esse tom, o que ela não terá percebido. As pessoas me contam cada coisa, vocês não sabem. Me contam porque sabem que eu não as julgo. Pessoas de família margarina não ouvem confidências sobre problemas familiares, pessoas contra “abortistas” não ouvem confissões sobre fazer um aborto. Ela me contou que iria morrer. Eu me sentei e agi com o máximo de naturalidade que eu pude diante do direito de alguém de finalmente descansar. Abriram o apartamento e encontraram o corpo na sexta-feira.

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A morte não gosta

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Lígia, com G, não D. Ela não entende qual a dificuldade das pessoas em pronunciar o G no nome dela. A Lígia é uma dessas mulheres sozinhas, independentes, aferradas à sua solidão, sem papas na língua. Que de tanto nunca terem que negociar dentro de casa acabam não negociando com ninguém. Ela teve um relacionamento há décadas, e depois que ele a deixou nunca mais se envolveu com ninguém. Até pouco tempo a sua minguada aposentadoria era destinada a participar de campeonatos de natação master pelo Brasil. Fez as contas e descobriu que estava caro demais pra ela e agora só vai nos regionais. Para pessoas que participam há anos, como ela, esses campeonatos são a oportunidade de rever amigos do Brasil inteiro. Num desses, anos atrás, encontrou outra nadadora, de uma faixa etária avançada, e que apesar do ambiente de saúde que os campeonatos transpiram, começou a reclamar. Estava cansada de viver. Pra ela tanto fazia estar viva ou morta. O que ela queria mesmo é que a morte a buscasse logo. “Ah, mas aí é que não vai!”. Lígia expôs pra ela a teoria que quanto mais a pessoa reclama, mais a morte demora pra vir. A pessoa alegre, pum, morre jovem, enquanto o que odeia viver dura pra lá dos oitenta anos. Depois, não sabe se foi por acreditar na teoria ou por saber que ali não teria ouvidos compreensivos, Lígia nunca mais ouviu a mulher reclamar.

Desencontro

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Eu passei todo funeral do meu ex-sogro normal. Algumas vezes eu sentia que as lágrimas vinham e voltavam para dentro dos olhos e deixei. Mas naquela manhã muito chuvosa no cemitério, com o gramado encharcado, olhei para os filhos e a viúva molhados, acompanhando sozinhos o caixão descia, e chorei muito, incontrolavelmente. Por eles, pelo significado tão difícil daquela cena. Eu não sei se foi isto ou se foi no momento que cheguei ao lado da minha sogra, poucas horas antes, sem dizer nada, e lhe abracei, que ela passou a gostar de mim. Ela passou grande parte do casamento me achando uma péssima escolha. Os parentes do interior, que nunca tinham me visto na vida, não cansaram de me dizer “você é uma pessoa tão legal, nós tínhamos uma impressão totalmente oposta de você!”. Depois minha sogra continuou fazendo tudo o que ela fazia antes – me receber, preparar almoços, fazer sala -, só que com um carinho palpável. Eu achava uma pena e não tinha como dizer, não ainda; mais de dez anos haviam se passado e ela nunca se deixava convencer, nunca tinha realmente me olhado. Quando percebeu, o período que tínhamos juntas estava chegando ao fim.

A indesejada das gentes

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Eu li o Montanha Mágica quase inteiro, enfrentei as páginas que se considera mais difíceis e larguei num mal estar que eu desconfiei ser inerente ao tema e não ao livro em si. Para quem não conhece, a ação do livro se passa numa clínica de tratamento de tuberculose. Depois daquilo li mais algumas coisas sobre o assunto. Na biografia de Nelson Rodrigues ela aparece bem, com Nelson angustiado por ir e voltar para o tratamento. Só que por mais que a biografia fale da angústia dele, eu nunca li – pode ser que tenha e apenas eu que nunca tenha lido – o próprio Nelson falar da rotina desses tratamentos. O nosso Manuel Bandeira foi um que conviveu com a tuberculose, sempre à espreita, e no fim das contas acabou sobrevivendo a quase todos seus amigos saudáveis e morreu aos 82 anos. Mas não foram 82 anos comuns, foram 82 sentindo a morte em cada tosse, cada ventinho, cada febre.

Consoada
Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
– Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

Mas de tudo o que eu li sobre a doença, Bernhard é o que mais me toca. Ele tem um modo de escrever intensamento autobiográfico, e não apenas nos deixa saber que é doente, ele descreve o tratamento por dentro: como é ser internado, verificar a secreção cuspida numa garrafa, os meses iguais e sem perspectiva de melhora, o olhar da equipe de enfermagem que crê que a qualquer momento você não estará mais ali, os pacientes que um belo dia somem e seus lençóis são trocados. Bernhard me faz entender que a rotina da Montanha Mágica realmente me angustiava. Eu sou irritamente saudável; há alguns dias me resfriei, acordei com a cabeça pesada e fiquei me perguntado se aquilo era apenas resfriado ou gripe – eu não me resfriava há tantos anos que nem lembrava mais como era. Fico me perguntando a sede de vida que passar tanto tempo trancado dá a alguém; para mim, é a combinação dessa vontade urgente com – ironicamente – a cultura que adquiriu nos meses de imobilidade que tornam Bernhard um autor tão incrível.

Quando me foi possível novamente levantar e ir até a janela, e finalmente até o corredor e depois, com todos os outros condenados à morte capazes de andar, de uma extremidade à outra do pavilhão e que finalmente, um belo dia, pude até sair do Pavilhão Hermann, tentei chegar até o Pavilhão Ludwig. Porém eu superestimei minhas forças e fui obrigado a parar diante do Pavilhão Ernest. Tive que me sentar no banco fixado ao muro e retomar o fôlego antes de poder continuar por meus próprios meios para o Pavilhão Hermann. Quando os pacientes passam semanas ou mesmo meses na cama, eles superestimam suas forças assim que se vêem capazes de levantar, eles querem simplesmente fazer tudo e em certos casos acontece de esse tipo de besteira fazer com que retrocedam semanas, e alguns, numa dessas aventuras irrefletidas, foram atingidos pela morte da qual tinham escapado com uma operação. Apesar de ser um doente escolado e de ter, durante toda a minha vida, convivido com as minhas doenças mais ou menos graves, depois gravíssimas e, finalmente, sempre com minhas doenças ditas incuráveis, sempre tive regularmente essas recaídas de diletantismo em matéria de doença, fiz besteiras, besteiras imperdoáveis. Primeiro alguns passos, quatro ou cinco, depois dez ou doze, em seguida treze ou quatorze, finalmente vinte ou trinta, é assim que o doente deve agir, e não levantar logo, sair e ir embora, o que, na maioria das vezes, vem a ser fatal. Porém o doente trancado durante meses, durante meses só sonha em sair, e mal consegue esperar o momento em que terá o direito de deixar o seu quarto de doente e, naturalmente, não se contenta em dar alguns passos no corredor, não, ele sai para o ar livre e ele mesmo se destrói. (O sobrinho de Wittgenstein, p.13-14)

Imortais

Se eu vivesse eternamente, como os vampiros, o que faria? Na época que gostava do tema – Anne Rice, novela Vamp, Drácula de Bram Socker, Crepúsculo… acho que toda geração tem seu vampiro referência – minha resposta era fácil: aprenderia piano. Tentei aprender piano, amava tanto e era tão ruinzinha. Não tinha nem vinte anos e já estava velha demais, não tinha mais tempo pra sonhar em ser concertista. Para isso, eu precisaria ter começado pelo menos dez anos antes, numa idade que nem seria eu a escolher. Se eu fosse vampira, poderia sanar a educação musical que não tive na infância. Que eu precisasse de vinte, trinta, cem anos pra finalmente conseguir fazer os meus dedos entenderem as teclas, eu o faria. Nessa mesma época eu também achava que até chegar a idade de eu ficar velha, a Ciência teria avançado o suficiente pra evitar isso – evitar que meus cabelos ficassem brancos, que o meu corpo perdesse a vitalidade, que meus hormônios diminuíssem. Não avançou, não avançará.

Já Borges, muito mais inteligente do que eu, imaginou os homens eternos como bárbaros entediados. Depois de experimentar todos os sabores e todas as experiências várias vezes, nenhuma mais teria graça.

A morte (ou a sua alusão) torna preciosos e patéticos os homens. Estes comovem por sua condição de fantasmas; cada ato que executam pode ser o último; não há rosto que não esteja por se dissipar como o rosto de um sonho. Tudo entre os mortais, tem o valor do irrecuperável e do casual. Entre os Imortais, por sua vez, cada ato (e cada pensamento) é o eco de outro que no passado o antecederam, sem princípio visível, ou fiel presságio de outros que no futuro o repetirão até a vertigem. (O imortal/ O aleph)

Eu vejo o que o tempo e a prática faz em mim. A gente vai pegando o jeito, os cacoetes, absorve e aprende mesmo sem querer. Só de estar junto e de ouvir falar, de fazer de novo e de novo, vai se tornando outro, aumenta o repertório. Nesse ponto, continuo achando minha teoria corretíssima: com todo tempo do mundo, daria pra ser bom em qualquer coisa.

O talentoso é gente como Liniker, aquele que precisa de pouco tempo. É quem aos dezenove já tem a voz, jeito e projeção que outros levam décadas pra construir. Somos dois gráficos que caminham em direções opostas: uma expressão que cresce, uma vida que decresce. O desafio é o que se consegue fazer no intervalo.

 

Curtas porque sim

Amigas que têm tentado desesperadamente encontrar alguém e que saem e encontram gente no Tinder e nunca funfa, ninguém quer nada, não lhes valorizam. Mas elas tentam. Os argumentos são ótimos, estatísticos: conhecer gente aumenta a chance, tentar muito aumenta a chance, depois de muitos nãos virá um sim. Trancada em casa é que não se consegue alguém. Mas será que o dano de não tentar não é menor? Vejo todo mundo tão triste, tão traumatizado.

 

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Achei o meu café. Me sinto o próprio James Bond pedindo martini – “batido, não mexido”. Acrescentou glamour e resolução à minha pessoa. Sempre me senti meio besta de ter que pegar o cardápio e reler as descrições dos cafés, afinal, as combinações são sempre as mesmas. Agora  vou logo falando: me vê um carioca. Agora só me falta tomar café com alguém, para impressioná-lo.

 

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Estive tão preocupada e impossível nas últimas semanas. Um problema que estava tirando a minha alegria de estar em casa está quase no fim. Agora estou tão feliz com um projeto novo. Um que pode mudar minha rotina e me colocar em contato com outra realidade, ou seja, o tipo de mudança que eu adoro. Pena que não posso contar ainda, principalmente a última parte. Apenas torçam.

 

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Eu prometi não tocar no assunto, e por caridade cristã não vou falar nada. Mas, se fosse tuitar pra uma pessoa aí, eu apenas diria a ela: Está frio.

 

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Lembro que um amigo ateu recebeu muitos “Deus abençoe” quando a mãe morreu. Muitos com a ressalva “eu sei que você não acredita, mas…” O “mas” era um “eu não sei o que falar”, na verdade. Acho que é o mesmo sentimento que leva as pessoas a dizerem a um doido por flamenco que foi fazer pós na Espanha e chegando lá se decepcionou e está com vontade de largar que “o importante é a satisfação íntima dançando”. Ah, tá. Fiquei com vontade de mandar todo mundo tomar no cu.

O fio

Era algum comentário sobre uma história de Ananda e Buda. Ananda, o principal discípulo de Buda, havia lhe feito uma pergunta. Não lembro que pergunta era e qual o teor do assunto. Lembro que o comentário dizia que o que Ananda não entendia é que era justamente Buda quem o impedia de se iluminar. Porque Ananda e os outros discípulos haviam se desapegado de tudo nas suas vidas… menos do próprio Buda. Buda era o último e definitivo apego. Quando ele morreu, continuou o comentarista, vários discípulos se iluminaram. Depois de um Buda, a que se apegar?
Em um texto da Fal, ela disse que não raro tinha crises de pânico (desculpa se estou contando errado, Fal), que praticamente sumiram depois que o marido morreu. Porque o que havia de pior já havia acontecido. Eu também sentia que o pior já havia me acontecido após minha separação. Andava por aí à noite, em qualquer horário, em qualquer rua. Todo mundo com medo do que poderia me acontecer e eu tranquila. Eu me sentia imune porque nada poderia piorar. Você pode argumentar que não, que pior do que estar separada seria estar separada e estuprada, separada e esfaqueada, separada e pobre. Sim, eu sei que havia o que piorar por fora; esses são argumentos racionais. Subjetivamente é que não havia.
Certas dores são o último fio.

Certezas

Tudo resolvido, assinado, depois de tantos meses. Minhas amigas admiradas diante de tanto equilíbrio emocional em um divórcio. Tudo muito amigável, otimista, civilizado. Passamos todos esses meses vivendo juntos, embora separados. E eu não via a hora de tudo terminar pra ele finalmente ir embora e eu tocar minha vida pra frente. É no próximo fim de semana.

Certeza? Acabou. Agora bateu de verdade. Agora o que me impede de me atirar debaixo do primeiro carro é covardia pela dor.

Rezem por mim, estou precisando muito. Pior aniversário de toda a minha vida.

Tudo o que é sólido se desmancha no ar

Eu nem ia escrever nada, ia passar um tempo afastada do blog e da internet em geral e pronto. Aí o dia amanheceu com pessoas adicionando a minha página e eu não entendi o porque. Aí vi que a fofa da Marcela postou o último texto no seu facebook e convidou as pessoas a curtirem a página, dizendo o blog é sempre atualizado. Me deu um certo senso de dever…

Uma vez eu li um texto do Bial – aquele, o que tem no currículo o muro de Berlin e o Big Brother – falando sobre a morte. O texto dizia que a morte nos pega desprevinidos, com uma conta dentro do bolso, indo para algum lugar. Por causa da morte, essa conta vai atrasar e a pessoa com quem falaríamos vai ficar esperando, irritada, e nunca diremos a ela o que queríamos dizer. Melhor seria – na nossa opinião controladora – não deixar nada em haver, ninguém esperando, nenhum projeto pendente. Mas, pensando bem, não dá pra ser ser diferente, porque sempre existem as contas, compromissos e projetos, porque o fluxo da vida é esse. Para pararmos, só mesmo com algo que se impõe, algo violento. Só uma morte.

Eu, agora, neste momento, estou vivendo algo muito difícil. Acontece com tanta gente e nunca deixará de acontecer com amigos e conhecidos, mas ao mesmo tempo é sempre algo único e complicado. A necessidade de agir, mudar tudo, vencer o medo e buscar uma vida melhor, a longo prazo. Ao mesmo tempo, os probleminhas cotidianos – receber o pessoal para a limpeza da caixa d´água, a unha descascada, o almoço marcado com antecedência, a sacola de doações, andar na rua em meio a esse calor.

Quem me conhece bem sabe que me preocupo tanto em fazer as coisas da melhor forma, em controlar todas as variáveis, em não prejudicar ninguém que acabo metendo os pés pelas mãos. Pra algumas coisas não existe melhor forma, apenas menos pior. Então, vim aqui dizer que se eu sumir, é porque precisei de um tempo. Se eu não sumir, é porque o tempo tem se arrastado. Só quero não me obrigar a mais essa constância, ok? Beijo.

O vôo

Aquela foi a pior turbulência que eu já passei na vida. Quando falo de turbulência de avião, sei do que estou falando. Passei a infância toda na ponte aérea de Curitiba-Salvador, que naquela época passava por Brasília e levava seis horas de viagem. Então, se digo que aquela turbulência era feia, é porque era feia mesmo. Foram horas com o avião chacoalhando, fazendo a gente pular da cadeira avisos piscando de afivelar os cintos. Enquanto isso, eu dormia tranquilamente. E não dormia tão bem apenas porque tinha aproveitado o meu último dia em Madrid batendo perna o dia inteiro, não apenas porque finalmente estava voltando para casa depois de dois meses e meio fora. Eu dormia bem porque estava plenamente consciente da turbulência, de que estávamos sobrevoando o oceano e se o avião caísse seria no meio do nada e quase sem chance de sobreviventes. A ideia de morrer naquele vôo me deixava muito feliz. Lembro daquele dia e sinto isso até hoje, a minha tranquilidade com a perspectiva da morte, aquela paz. Falando assim parece que eu estava deprimida, mas era justamente o contrário. Eu estava voltando dos melhores dias da minha vida, em que eu tinha vivido coisas que achei insuperáveis: fui para a Europa, fiz muitos amigos, viajei sozinha, amei e fui amada. Diante de mim eu tinha um futuro cheio de possibilidades – possibilidades que eu tinha certeza que de que falharia. Eu estava no fim da faculdade, no fim de uma vida escolar inteira, onde eu me destacava por ser boa aluna; só que no mercado de trabalho as regras são outras e eu não sabia se conseguiria manifestar o mesmo brilhantismo. Provavelmente nem um pouco. Era muito melhor então morrer jovem, como uma promessa irrealizada (as reportagens sobre a minha morte seriam lindas, com fotos, falando da universitária inteligente e cheia de vida) sem ter a chance de colocar os pés em terra firme e constatar que não tinha mais nada de tão bom para fazer.
O avião não caiu, claro. E como eu previra, meus dias e meses seguintes foram muito difíceis. Posso dizer mais: foram anos tão difíceis que carrego alguns daqueles problemas até hoje. Concomitantemente, ao contrário do que eu previra, eu ainda tinha coisas muito emocionantes para viver. Elas estavam longe da minha perspectiva, eu nem ao menos imaginava que um dia as desejaria. A vida é surpreendente – nem sempre pro bem, nem sempre da maneira que queremos, mas ela é sim muito surpreendente. Penso no que senti nesse vôo, penso em tragédias, em situações pessoais e coletivas muito difíceis e me pergunto porque prosseguimos. Porque, apesar do desejo de morrer, da falta de perspectivas e de um presente desesperador, são poucos os que conseguem abrir mão da própria vida. Intuo que esteja no nosso DNA uma curiosidade. Não é otimismo, não é fé, não é desejo de viver. Mesmo quando sabemos que o dia seguinte vai ser ruim, nós queremos estar lá pra ver. É humano não conseguir evitar de ver o seu amanhã.

Corredor 10, porta 14

Essa eu achei no Facebook, faz tempo. E achei meio irritante ver que havia discussões nos comentários, das pessoas quererem ter a melhor explicação sobre o que é o Corredor 10 é. Não é nada, é tudo, vai de acordo com a subjetividade de cada um. Não acredito que haja uma resposta fechada. É como escrever prosa para explicar poesia – você está matando alguma coisa quando faz isso.

A Morte, essa do contra

Não adianta, depois que li os Contos de morte morrida, a Morte pra mim virou gente, merecedora de letra maiúscula, nome próprio. Essa historinha real que eu ouvi de uma amiga só faz confirmar a ideia. A morte é voluntariosa, cheia de opiniões e até move a cabeça pros lados, fazendo Tsc, tsc, tsc! quando algo a desagrada.

 

Essa amiga foi num campeonato de natação. Esses campeonatos, de categoria Master, são a coisa mais linda. Tem gente jovem, bonita, alta e com tudo durinho, assim como tem gente com barriga, gordurinha, desengonçada, gente como eu e você. E tem gente de todas as idades. Você vai lá e descobre que tem atleta de natação com mais de oitenta anos de idade. Dos que nadam aos oitenta tem aqueles que nadaram a vida inteira, assim como tem os que descobriram o esporte aos setenta e nove. Voltando: minha amiga, que já é master, foi num campeonato e encontrou uma outra nadadora master. Não sei dizer quantos anos a outra tinha, sei que ela já estava se considerando velha. “O que eu quero é morrer”, a mulher falava. Desfiou aquele rosário de reclamações: a vida pra ela não tinha o menor sentido, o que ela queria era deitar de não levantar, ela não tinha mais o que fazer na Terra, porque a  morte não vinha buscá-la de uma vez.

 

– A Morte não vem te buscar porque você reclama. A Morte é assim, quanto mais a pessoa chama, quanto mais a pessoa deseja, aí que ela não chega. A Morte só leva quem não quer morrer.

No campeonato seguinte, e depois nos seguintes, a mulher não estava reclamando mais.

No creo em brujas, pero…

Por mais que se sinta a morte de alguém, estar num funeral nos conscientiza da impossibilidade até física de passar o tempo todo no luto. O corpo cansa. A gente cansa de chorar, de sentir pena, de lembrar. E cansa também de ficar sentado ou de ficar de pé. E sente fome. Depois de comer precisa ir no banheiro. Não temos queixas do serviço que ofereceram ao meu sogro. A funerária fica num prédio novo, bonito, de três andares. Cada andar tem um ou dois salões, ou seja, pode ter vários funerais ao mesmo tempo. Naquela madrugada fomos apenas nós, no térreo. Meu sogro ficou numa capela simples, que era sem luxos mas bastante confortável: a antessala tinha chão de porcelanato, sofás de couro branco, mesinha de café, lugar para colocar as bolsas. Na recepção, há pelo menos funcionário disponível 24h. Há até a possibilidade da família solicitar um banheiro onde possa tomar banho. O banheiro comum, que fica no andar, é limpo. Lá tem dois reservados, uma pia, sabonete líquido e papéis para secar a mão, que saem naqueles negócios com sensor de movimento.
Fiquei boa parte da tarde e da noite lá, mas o Luiz não quis ficar de madrugada e voltamos para casa. A intenção era descansar depois de um dia inteiro de correria, mas a verdade é que a gente quase não conseguiu dormir. Pelo menos ficamos quentinhos – meu sogro morreu num dos fins de semana mais frios e chuvosos do ano, o que deu ao seu funeral uma cara ainda mais triste. Minha cunhada e minha sogra ficaram lá a noite toda, assim como alguns outros parentes. No meio dessa madrugada insone, lá pelas 3h, minha cunhada precisou ir ao banheiro. Saiu da capela, passou pela recepção e foi ao banheiro. Tudo silencioso e vazio. Enquanto estava no reservado, ouviu um barulho. Era o sensor de papel, liberando dois papéis toalhas. “Que estranho”, ela pensou, “quem será que entrou aqui só pra pegar papel toalha?”. Sem dizer que ela não havia ouvido o som da porta. Quando saiu do banheiro, não havia ninguém, só as toalhas liberadas. Lavou as mãos, secou com as toalhas que estavam ali e perguntou na recepção se alguém fora no banheiro depois dela. Ninguém. Ou alguém.

Três meses

Meu sogro tinha muitos irmãos e era o mais saudável de todos – não estava confuso, não havia bebido a vida inteira ou tirado um pedaço do cérebro, como outros. Não precisava tomar um único remédio, pra pressão, pro colesterol, pra nada. Fazia academia, era ativo, inteligente. Uma das suas irmãs, viúva, tinha colocado-o como dependente num plano funerário há muitos anos. Aí ela sofreu um AVC e levaram dois dias para descobri-la em casa, debaixo da cama. Toda aquela coisa para se recuperar, voltar à ativa, o medo de morar sozinha e ela acabou indo pro interior. Como não estava mais aqui, transferiu o plano funerário para a nova cidade e deixou de ter o meu sogro como dependente. Minha sogra tinha outro plano funerário e não levou nem quinze dias para passar na funerária e colocar o marido como dependente. Lá, foi avisada de que havia uma carência de três meses. Claro que ela nem se abalou – “Imagina, ele não vai morrer em três meses”. Ele morreu quinze dias antes da carência terminar.

 

Essa história foi muito marcante para mim não apenas pela questão da morte. Sim, ela mostra que nós somos frágeis, que a morte não tem hora e nem lugar, que devemos aproveitar o hoje. Mas ela também mostra o nosso desconhecimento sobre as circunstâncias que nos cercam, a inutilidade de tentar controlar a vida. Me parece que tendemos a acreditar que olhamos o nosso futuro como se fosse uma paisagem ao longe, um descampado. Achamos que, com um golpe de vista, sabemos tudo o que nos cerca, tudo o que nos afeta. Temos a ilusão de que somos capazes de prever o que vem, como se fosse um pontinho que surge num cenário distante e cuja velocidade conseguimos antecipar. A vida não é assim. Talvez a metáfora mais precisa, ao invés de uma paisagem, seja crer que vemos através um buraco de fechadura. No máximo, uma fresta. Nossa visão é tão curta, que não somos capazes de prever uma revolução nas nossas vidas (ou o fim dela) nem com três meses de antecedência.

A morte

A morte não senta. A gente descobre isso lendo Contos de morte morrida do meu amigo Ernani Ssó. O livro é uma graça, com pessoas que fazem acordos, ficam amigas da morte, roubam sua gadalha. Fui no velório do meu sogro e a procurei pelos cantos, de pé. Mas, claro, procurei tarde demais. Ela já o havia visitado há horas, em casa. O que tinha ali era apenas o corpo.
Eu gostava muito do meu sogro, mas seria um exagero dizer que éramos como pai e filha. Alias, essa foi uma das reflexões tristes – pra que servem os funerais, senão para reflexões – que tive lá: serei uma estranha no funeral dos meus próprios pais, principalmente do meu pai. Sempre vivemos separados e no dia que ele morrer pegarei um vôo até Salvador, onde os presentes terão de ser avisados que eu sou a filha do morto, aquela que mora em Curitiba…
Eu chorei quando tive a notícia do meu sogro, chorei antes de sair de casa, mas chegando lá meus olhos ficaram secos. Vou dizer: é constrangedor ficar de olhos secos quando pessoas menos próximas que você estão chorando. Eu, que sou tão emotiva. Mas aí seguimos em cortejo, fomos ao cemitério e encontramos a cova. Os homens carregaram o caixão, que desceu em meio à chuva fina e um frio de lascar. Quando começaram a cimentar, toda aquela cena me pareceu insuportável. Quis fugir, quis vomitar aquele momento. Olhei para os lados à procura da morte, aquela que nunca senta, para xingá-la e dizer que a odeio, que não a aceito. No horizonte, nem sinal dela, apenas do que ela fez – centenas de túmulos, centenas de madeiras e lajes, mais pessoas do que se pode contar. Aí eu chorei – pelo Luiz, pela família dele, por todas as famílias, por mim.

Corredor 10

Como diria Syrio Forel: O que dizemos para a morte? Hoje não.

Choveu tanto e tão desgraçadamente nos últimos dias que a vontade era de me atirar de uma janela. O som e o volume d´água era tal como uma janela aberta. Andar a pé era impossível, de ônibus um tormento, de carro uma tensão. Em casa, tudo molhado, as paredes escorrendo, as roupas durante dias no varal. Era uma sensação de falta de perspectivas, de não ter para onde fugir. Hoje o sol saiu e esfriou muito, com um vento de cortar os ossos, mas foi um alívio. Durante todos esses dias, por causa dos meus ensaios, o Luiz tem ido visitar sozinho o pai dele, que acabou de operar a coluna. Chegamos lá e meu sogro, dopado, estava enrolado nas cobertas. Meu sogro é mais alto do que eu, conversador, ativo, sorridente; hoje, me pareceu tão pequeno e frágil. Minha sogra, com a expressão cansada de quem está há dias fora de casa. Eu sei bem como é isso. Eles assistem a chuva e os protestos da janela e da pequena TV no quarto. A perspectiva do meu sogro é de pelo menos seis meses para a vida se normalizar.

 

A morte me espreitando na chuva que promete voltar, a vida parada num quarto de hospital querendo voltar a viver. Hoje não, hoje não.