Os favores dos Deuses

shiva murudeswar

Eu acho fascinante como a cultura modifica a maneira de olhar o que até mesmo “deveria” ser igual. Astrologia, por exemplo, o quanto a abordagem do ocidente e do oriente é diferente. Já falei algumas vezes que o cálculo é diferente, que as lendas são diferentes, que as técnicas são diferentes. Mas o que eu acho de mais fundamental  são os tais “remédios” da astrologia védica. Nos primeiros vídeos que eu vi, peguei uns astrólogos falando meio mal, que não era pra colocar um anel no dedo e achar que com isso todos os assuntos relativos àquele planeta – Saturno para carreira, Vênus para amor e prosperidade, Sol para auto-confiança, etc.  – estavam resolvidos. Depois que eu entendi que eles não são tão dispensáveis assim. Enquanto numa leitura ocidental o astrólogo vai te dizer que você pode ter dificuldade de ser firmar na carreira e ser responsável, ou que tem que se esforçar muito para arranjar um casamento, na leitura védica você tem um karma ruim com relação a esses assuntos que precisa ser queimado. Somos muito self made man até em astrologia. Então você não é uma pessoa com uma carreira ruim, você está com Saturno fraco; ou não é uma pessoa com dificuldades na vida amorosa e sim tem um Vênus muito aflito no mapa. Você escolheu nascer assim, a questão não é um simples “rever atitudes”. Se você está sofrendo demais é porque a escolha saiu pesada, então o único possível é querer que haja uma misericórdia no pagamento de suas penas. Os “remédios” são para melhorar a relação da pessoa com os deuses relacionados ao assunto problemático. Há coisas que soam engraçadas, como alimentar corvos ou nunca aceitar amostra grátis. Como todo tipo de penitência, a pessoa aprende sobre si no processo e precisa de força de vontade (já psicologizei, olha o vício ocidental). E, sabe como são os deuses, o pedido é nosso e atender ou não é com eles – ou melhor, com a nossa possibilidade kármica.

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Outras musiquinhas

De tanto ler uma coisa aqui e outra ali, descobri que tinha interesse pelo Brasil da geração da década de 50 – não a geração que nasceu em 50, e sim a que produzia cultura naquela época. Bossa nova, Brasília, Darcy Ribeiro, Carmen Miranda, eu quis saber o que fez que o Brasil que um dia foi tão vanguarda acabar. E foi isso que me fez estudar a década seguinte… As pessoas não lamentam a saída das ciências sociais do currículo porque não podem lamentar o que desconhecem. Antropologia, todos deveriam ter o prazer de estudar antropologia. Ficamos mutilados de nascença, como país, sem estudar sociologia.

Eu gosto e acho muito importante a provocação que algo diferente nos causa. O seu próprio lugar, numa outra época, pode ser tão diferente. No Brasil da minha infância, ninguém achava que mulher semi-nua na TV estragava alguém – e vejo as pessoas ignorarem o fato na hora de clamar por um retorno moral. Mas também pode ser da mesma época em outro lugar: na série Rita, que se passa na Dinamarca, a professor precisou brigar com as alunas, que não queriam tomar banho depois de praticar esportes. O motivo era excesso de auto-crítica com seus corpos. Para convencê-las, teve ela mesma que tirar a roupa primeiro. Aqui por muito menos um artista foi chamado de pedófilo num museu. Mas quero falar de algo bom: no mesmo mundo e na mesma época, que nós, os portugueses fazem uma música muito gracinha, tão diferente da nossa. Eu ouvi esta pela primeira vez sem ver o clipe, e logo nos primeiros versos pensei que é exatamente o meu nervoso dentro de um engarrafamento.

 

Nodo faminto

rahu

Quanto mais leio sobre astrologia védica, mais me parece que não sei nada. E ainda por cima devo estar desaprendendo o que eu sabia da ocidental. Mas tão lindas as histórias! Olha que diferente a maneira como tratam os nodos: os nodos norte e sul existem em ambas, embora a astrologia ocidental dê tão pouca importância ao nodo sul que geralmente ele nem aparece no mapa. São pontos matemáticos relativos à posição do sol e da lua e cobre um eixo de casas opostas, a saber: casa 1 e 7, casa 2 e 8, casa 3 e 9, casa 4 e 10, casa 5 e 11, casa 6 e 12. Se você o nodo sul em uma casa, necessariamente o nodo norte está na direção oposta, nodo sul na casa 1 indica que o nodo norte fica na casa 7 e por aí vai. A astrologia ocidental não gosta de pensar em vidas passadas, então geralmente falam que o nodo sul trata daquele assunto que você já domina, por isso ele lhe é sem graça, enquanto o nodo norte fala daquilo que você deve procurar aprender. Tudo muito limpo e racional.

Agora, à maneira védica: Rahu é o nodo norte e Ketu o nodo sul, também chamados, respectivamente, Cabeça do Dragão e Cauda do Dragão. Ele era uma espécie de demônio, que provou do néctar da imortalidade apesar de não lhe ser permitido. Vishnu tentou detêlo e o cortou – como ele já estava imortal, virou um corpo com dois pedaços. Ketu é a cauda e indica o que já foi feito repetidamente nas vidas passadas. É um corpo sem cabeça, burro; indica facilidade e isolamento, o que vem fácil mas sem o menor sabor, e espiritualidade. Rahu, como cabeça sem corpo, come sem parar porque não tem um estômago pra reclamar que já está cheio. Mais do que o que buscamos nessa vida, Rahu mostra onde temos uma verdadeira compulsão. A sua energia se molda de acordo com o lugar do mapa que ele está, mas numa versão “com esteroides”: exagerado, indomável, apto a tomar atalhos para conseguir o que quer. Enquanto Ketu fica quietinho no canto dele, Rahu quer fama, holofotes, prazeres. Ele é a figura simpática que coloquei para ilustrar o post.

Por mais que os dois termos falem do mesmo ponto matemático, Rahu e Ketu não são muito mais interessantes do que nodo norte e sul?

Fêmea

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Do mesmo modo que quando somos jovens a gente olha pros velhos e acha que nunca será daquele jeito, que até lá a ciência vai estar evoluída, que não teremos que fazer escolhas como tomar ou não estrogêneo, que de certa forma aquelas pessoas se entregaram, que com a gente vai ser diferente, que o vigor da nossa alma impedirá o corpo de envelhecer; desse mesmo modo, eu fui uma menina que olhava para as mulheres mais frágeis e, antes de saber que existia algo chamado adolescência e seus hormônios, achava que de certa forma as mulheres se entregavam, se deixavam ser mais fracas do que os homens. A psicanálise me indignou logo no começo da faculdade, e me recusei a estudar como se fosse sério que um homem, por ter um órgão reprodutor externo, podia ser tão mais do que nós. Eu fui indignada e auto-determinada o quanto pude; quanto mais os anos passam, mais vejo o gênero determinando minhas escolhas, minha conduta, minhas inseguranças. Sim, eles têm o falo. Não acho que seja físico e inevitável, mas reconheço que essa construção é poderosa demais. Não tenho grandes provas teóricas pra oferecer, penso na auto-confiança inabalável de todos os homens que eu vi no teste prático do DETRAN, que quanto mais provocados pelos instrutores mais faziam direito pra mostrar pro fdp, enquanto as mulheres iam condenadas, se arrastando e desmoronavam à menor insinuação. Uma amiga minha define com “chega o cara velho, horroroso, caído, da mau hálito e vem te cantar na maior autoconfiança, num estado que se fosse uma mulher nem ao menos sairia de casa”. Me vejo assim, me percebo assim, precisando de aprovações, estudando o ambiente, pisando com cuidado, passos que homens não hesitariam em dar. Já ouvi que escrevendo como eu, Fulano faria um estrago. Faria mesmo, Fulano e qualquer outro Fulano, desde que homem, desde que com seu falo mágico. Falos que amam outros falos, porque sabem ser tão auto-confiantes e viris, fazer o que se mulheres coincidentemente são menos talentosas? Falo que lhes permite centrar nos seus desejos em busca do próprio prazer, enquanto as criaturas sem falo se perdem ao analisar tudo o que as cercam antes de pisar no chão. Aí tem que fazer, como fazia uma amiga quando trabalhava num meio masculino: visual impecável, tudo no lugar, tarefa de casa estudada, estatísticas, meia calça extra na bolsa. Não por vaidade, e sim para não ter com que se preocupar, para a partir daí ter voz. Fêmeas, fêmeas. É como se a nossa linha de largada estivesse metros atrás.

Tudo é privado

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Meu irmão conta histórias ótimas do período que ele passou no Japão, do tipo que faz a gente se apaixonar pelo país sem ter colocado os pés lá. Uma coisa que chamou atenção dele foi quando a imprensa falou do comportamento dos japoneses nos estádios, que eles começavam a limpar tudo. Ele me falou do quanto essa reportagem soava estranho lá, por ser um comportamento totalmente natural. “Não é que eles se programem para limpar tudo”, ele me explicou, “eles simplesmente levantam e começam a fazer. Um pega os copos, outro acha a vassoura, outro pega a louça e quando as pessoas terminam de arrumar tudo elas vão embora”. Como se fosse a gente, na própria casa, que vai levantando e fazendo as coisas pra não deixar pra depois. Mas eles agem assim em todos os lugares. Então é como se todos os lugares fossem sua casa. Ou se a sua casa – já que a deles é tão pequena – fosse em todos os lugares. É uma divisão diferente entre público e privado, quase como se não existisse quando comparada com a nossa. Aqui, o privado é aquilo que cuidamos muito e o público é o que não tem o menor cuidado ou, dependendo do caso, o que pode ser depredado porque outra pessoa que venha substituir mesmo.

Pode parecer meio louco isso, mas fiquei pensando que essa coisa de tratar tudo com cuidado, de não achar que o que está lá fora deve receber menos carinho do que o que está dentro, me fez pensar se não era isso o que o originalmente se pretendia quando se falava de amor universal.

Originalidade

Tem uma frase que eu li em algum lugar que me ajuda muito e não sei direito como dizer isso sem querer parecer uma pregadora religiosa. É assim: “Através de você, Deus está vivendo uma experiência que ele nunca viveu antes.” Para mim, essa frase é um apelo máximo à originalidade. Ela me faz pensar o quanto regras de conduta são perigosas e até inválidas, porque o que rege a minha vida pode ser um estrago na vida do outro. Eu ia escrever “o que equilibra a minha vida” mas já está aí, pode ser que tudo o que o outro menos precise seja equilíbrio. Eu penso também numa conhecida minha, que nunca sonhou em viajar, mas colocou o nome num projeto e os frutos dele estão levando-a a viver em outras partes do mundo, de Inglaterra à Nova Zelândia. Eu mal e mal vou até Campo Largo; se fosse tentar ser uma pessoa viajada, teria que fazer imensos esforços. Ou seja, pra ela vem fácil e pra mim seria uma luta, uma tentativa de cópia, a vontade de ter o que não é a minha realidade. Me faz pensar também no escrever, nessa crise imensa que todos que escrevemos temos, ao olhar para o lado e achar tão lindo, genial e disse tudo – e nessa de achar o outro tão maravilhoso, dá a impressão de que tudo está tão dito e muito melhor dito que não tem porque euzinha escrever. E realmente já está dito e não vale a pena, se eu virar uma cópia mal feita de Paulo Coelho ou Borges. Mas valerá a pena, será único e original se eu disser o que apenas eu posso dizer – mesmo sem viagens internacionais.

otro dia más

Somos muitos

“Eu acho que quando você me deixar no terminal vou a pé pra casa ao invés de pegar ônibus. A noite está muito agradável”. Foi o que bastou pra deixar a minha carona preocupada. Eu já havia feito isso antes, com a carona dela e outras, só nunca havia falado. É que das outras vezes a decisão de andar havia sido meio impulsiva; desta vez eu contei porque me pareceu meio ridículo acenar como se fosse entrar no terminal e sair andando escondida. “Numa hora dessas, tem certeza? É perigoso, pense bem. Qualquer coisa, me liga. Ou entra no ônibus. Melhor não, pense bem”. Já na sexta-feira à noite seguinte preferi fazer aquele mesmo percurso de ônibus. Estava sentada perto da porta 4, coisa que evito, especialmente quando escurece. Dito e feito: num determinado período do trajeto, a cada parada entra um por detrás – um catador de latinhas, um casal estranho, um mendigo, outro mendigo. Meu desejo, nessas horas, é apenas que alguém com cheiro ruim não fique perto de mim. Já li que pessoas que não comem carne têm olfato mais apurado, e nessas horas sou inclinada acreditar que é verdade. Fedidas ou não, as figuras estranhas foram para seus lugares, desceram nos seus pontos, seguiram suas vidas. E eu, a pé ou de ônibus, voltei tranquila para minha casa.

 

Eu sei que deixo as pessoas que me querem bem preocupadas. Por elas eu estaria sempre dentro de um carro, nem que esse carro fosse um táxi. Se tento argumentar, pareço ingênua perto da violência está nas ruas, nos jornais, nas estatísticas, nas armas de fogo, no uso do crack, no machismo. Porque o que eu posso falar é disso, da caminhada, da noite, dos ônibus. Nunca estou sozinha nesses lugares, somos muitos. Estamos nas ruas, nos ônibus, nos parques, de dia e de noite, nos lugares bonitos e feios, seguros e perigosos. Alguns estão belamente vestidos enquanto outros fedem, mas ninguém ouve falar de nós. Eu e essas pessoas nunca quebramos as janelas dos ônibus, não arrancamos cadeados, não batemos nos outros. Às vezes fazemos de conta que não vemos a velhinha, porque naquele dia não estamos muito a fim de dar o lugar, ou não recolhemos o cocô do cachorro, mas nem por isso estar ao nosso lado é perigoso. Olhamos meio torto, é verdade, aquele bêbado fazendo escândalo ou o louco falando alto, mas também acolhemos e tentamos ajudar quando alguém está passando mal ou precisando de uma palavrinha. Quem já precisou contar com a solidariedade de estranhos sabe que isso é verdade. Existe sim aquele que sai no jornal, que vandaliza e faz mal aos outros, que sozinho é capaz de estragar o dia e a vida de um monte de gente. Ninguém sai pela rua querendo encontrar com ele e esse encontro pode nunca acontecer, mas mesmo assim somos todos contaminados, parece que é sempre. Para quem só frequenta “os melhores”, o mundo parece um lugar bipartido e quem não tem carro pra se isolar necessariamente não é “de bem”. E como diz aquela tirinha dos Malvados… Quem anda pelas ruas e pelos ônibus quase nunca o faz por opção, mas acaba tendo o privilégio de desmistificar algumas coisas. O terrível medo do outro é uma delas.

Dois curtas de plateia

Não é sempre que estou na plateia de um espetáculo de flamenco do início ao fim; geralmente, eu danço um pedaço e depois assisto. Descobri que faz uma diferença imensa. Estar na plateia me fez sentir o que a gente acaba perdendo quando só vai se apresentar: subimos num palco com medo, como quem está na frente de muitos juízes, e quando é o contrário. A plateia, salvo exceções, está lá com a melhor das intenções. As pessoas não saem de casa na torcida pra que o som não funcione, o músico com os dedos machucados e que os bailaores tenham brancos, tremam, saiam chorando. A gente quer que eles estejam na sua melhor disposição, inspirados e que mostrem tudo o que sabem. Porque assim é melhor pra quem assiste. Quando a pessoa estava claramente nervosa, me dava vontade de falar – Ei, calma, não faz assim! Dá cá um abraço, relaxa!

 

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O pessoal pessimista de Frankfurt tem suas razões quando diz que há uma emoção no ao vivo que se perde muito na hora da reprodução. Eu senti algo tão interessante que quero contar. Duas apresentações de flamenco, com duas grandes bailaoras e as duas foram ótimas. Só que com a primeira, eu me senti exausta. Virei para as amigas que estavam comigo e disse que no dia seguinte iria me inscrever na aula de dança do ventre, que aquele negócio de flamenco não é comigo. Elas também, disseram que iam dançar outras coisas. Aquela bailaora com seus passos complicados, sua facilidade, seus pés limpos, e até mesmo sua juventude e beleza, deixou muito claro o quando somos pobres mortais, que nunca chegaremos aos pés de tudo o que ela é e faz. Depois entrou outra. Dançou bem, difícil e tudo mais, mas o efeito sobre nós foi oposto. A nossa sensação não era de esmagamento, e sim de estar junto, era como se cada um estivesse naquele palco também. Quando terminou estávamos todas felizes, pra cima, o dia havia recomeçado. Nada foi dito em palavras, nada havia de diferente em termos de domínio de palco ou técnica. Mas arte é assim, ela passa por um lugar diferente e mais poderoso do que a mente.
Adoro La Lupi, acho ela muito figura. Se você fica impaciente com o cante, ela entra em 2:59.

Curtas de queixas vintage

Essas promoções de hoje em dia, que a gente tem que cadastrar código de barra e guardar a embalagem. Não gosto, preferia mandar as ditas pelo correio. Devia ser um problema se livrar de tudo depois que a promoção acabava, mas aí o problema era deles. O meu problema é que eu cadastro as embalagens e elas ficam por aí, estorvando. Quando vejo, joguei fora. Aí fico com medo de ser sorteada.

 

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Uma coisa que deixou de existir e ainda bem: fã que para demonstrar seu amor escreve carta pro ídolo com 10 metros de papel com a frase “eu te amo”. Aí mostrava a quantidade de caneta que a infeliz usou, etc.

 

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Já fui fã dos grandes gestos de desculpas, não sou mais. Sabe igual a cena do Richard Gere pedindo desculpas para a Julia Roberts na escada, em Uma linda mulher? Não me convence mais. Não porque a pessoa já conta com isso, em fazer uma merda muito grande e depois basta um gesto grandiloquente, uma cena pública. Sou mais ter pensado antes e evitado de me magoar.

 

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Fico doida com esses posts que usam nostalgia dos anos 80 como motivos para alfinetar as gerações mais novas. Naquele tempo andávamos na parte detrás do carro, o mertiolate ardia, a TV não tinha controle remoto e nem por isso morremos, etc. Mas se essa geração que está aí é mole, mimada e não tem a nossa firmeza de caráter, a culpa é de quem? Dos seus pais anos 80. Se achavam que os valores da nossa época eram tão bons assim, não deveriam ter criado os filhos dando tudo, levando de carro pra cima e pra baixo e superprotegendo.

Salvador e Salvador

Eu geralmente saio pelos fundos, porque é mais perto. Mas por acaso, naquele dia, saí pela frente. E encontrei um colega de turma, que também nunca encontrei saindo. Chovia muito. Eu estava de guarda-chuva e capa, porque nesses dias não para de chover, mas era daquele tipo de chuva que proteção nenhuma salva. Ele me perguntou se eu queria carona. Falei que não, que pretendia ir a pé. E pretendia mesmo, pelo menos até certo trecho, para comprar umas coisinhas. Ele achou que aquilo era desculpa e insistiu. Acabei aceitando porque até pra mim aquilo soou como desculpa. E também achei meio destino eu sair pelo lado que eu nunca saio e encontrar uma pessoa que eu nunca encontro num dia de muita chuva. Aceitei, e fomos para fora juntos no meu guarda-chuva até o estacionamento. Eu sem fazer a menor ideia de que carro era e onde estava.

Pena que não sei marca de carro pra poder contar aqui. Sei que era um carrão, nos dois sentidos do termo. Preto, alto, espaçoso, todo equipado, daquele tipo que parece abraçar a gente quando entra. Eu já esperava algo assim, já havia visto e ouvido o suficiente para saber que temos alguns degraus de distância na pirâmide social. Começamos a conversar, o assunto recaiu sobre minha viagem, eu disse que meu pai mora sem Salvador e que nunca morri de amores pela cidade. Aí ele me fez entender que já foi, quem sabe mais de uma vez, porque tem uma opinião bem definida sobre lá: que é uma cidade bacana, que tem lugares bonitos, excelentes restaurantes…

Aí bateu aquela certeza da realidade que nos separa. Como se o carro, eu costureira, ele indo para o escritório e muitos outros detalhes já não gritassem a verdade. Verdade esta que é sempre muito mais clara para quem está embaixo do que em cima. Como eu poderia explicar a ele que vamos a cidades diferentes quando visitamos Salvador? Tentei por alto, quando disse que não vou como turista e que o Sul e o Nordeste são culturas diferentes. Ele concordou, claro, mas é que… A Salvador que eu conheço é a do ponto de ônibus, do acarajé baratinho e refrigerante no isopor, ruas estreitas e chinelo de dedo. Deve mesmo ser muito legal essa cidade que ele conhece, a Salvador dos bons restaurantes e serviços, com tinta fresca sobre a maresia e ar condicionado. Como já me disseram (foi em Jaguarari, inclusive), as cidades podem ser melhores ou piores dependendo do nível de vida que você terá nelas. Lá, no centrinho de Itapoã, o restaurante que meu pai frequenta é o Dimenor.

Em resumo

Passou. Não sei como é para os outros, mas para mim é tão clara a diferença da tristeza e a depressão. Há a incapacidade de sentir prazer, um peso constante que mina tudo. A vontade é de morrer, o tempo não passa nunca. Mas a vida continua e desta vez eu já conhecia o roteiro. Me arrastando eu levantei da cama, tomei banho, saí, fiz minhas aulas, visitei pessoas, cuidei da casa, trabalhei, li, escrevi… Tentei ao máximo levar a vida como se estivesse tudo bem, por mais que doesse. Depois me dei conta de que a vida, na verdade, é isso: fazer o que precisa ser feito, sempre, apesar dos pesares.

Abordagem baiana direta

Quando fui a Salvador no ano passado, e estava passeando na areia da praia e fui abordado por um novinho que achou que eu estava emaconhada quando disse a minha idade, bastou meia hora de respostas lacônicas para ele me dizer:

– Quer fazer sexo comigo?

Minha primeira reação foi cair na risada, de tão surreal que a situação me pareceu. Eu respondi que não e ele foi propondo: vamos fazer um amor gostoso, vamos transar na areia, vamos transar no mar, quero fazer sexo com você, por que você não quer, você me achou feio?

A abordagem baiana é assim, direta. Isso porque eu não dei bola pra ele. Mas também não cortei da maneira explícita. De acordo com meu irmão, o jeito de fazer um baiano se afastar é dizendo com todas as letras: não quero não, você está me incomodando, vai embora daqui. Pra mim, por mais que eu saiba, é muito difícil falar assim. Isso seria o grau máximo de rudeza, daquele que eu só uso quando perco a calma. São momentos como esse que me faziam sentir a própria Leite Quente quando vou a Salvador.
(Percebam que falo apenas de Salvador. Não sei dizer se o resto do nordeste é assim.)
“Doentio mesmo são aqueles anúncios de prostitutas no orelhão. Aquilo sim é chocante”, defendeu meu irmão. Na primeira vez que ele disse isso, eu defendi os papeizinhos. Disse que em São Paulo também tinha, que era normal. Que anormal mesmo era propor sexo pra uma estranha na lata. Agora já tendo a concordar com ele. Talvez seja melhor assim, às claras, assumindo o próprio desejo. E como não conseguimos fazer isso cá embaixo, ficamos mais escondidos e o que deixa de ver a luz do dia acaba adquirindo contornos bizarros, com fotos de bundas enquanto você telefona.

A casa que eu fiquei tinha um rádio ligado o dia inteiro, às vezes concorrendo com a música que vinha da rua. É muito baiano isso, de qualquer reuniãozinha, às vezes de duas pessoas, ser motivo pra colocar um som no último volume. Coisa que aqui já nos faz chamar a polícia. Cada vez que tocava uma música dessas, eu ria. As letras são muito diretas. É muito eles, é muito baiano. Talvez justamente por isso não consiga chegar aqui.

Jegue elétrico

Estou numa casa centenária, no interior da Bahia. Ontem fez um frio do caceta e por pouco não joguei minha dignidade pra cima e saí por aí enrolada numa coberta. Onde já se viu, uma pessoa que saiu de Curitiba a quatro graus, com vontade de chorar (tenho desconfiado que sou uma pessoa chorona. Ainda não tenho certeza) de frio, de saudades dos casacos que deixou em Salvador, em São Paulo e no guarda-roupa de casa. Temi pelas minhas próximas noites, de ter que usar o mesmo moletom e calça jeans durante uma semana, mas agora está mais quentinho.

 

Sabiam que aqui as festas juninas são tão ou mais populares que o carnaval, e que as pessoas viajam para o interior e Salvador fica vazia? Tem venda de camiseta e tudo, semelhante aos abadás. Hoje vi as camisetas das pessoas que estavam aguardando o Jegue-elétrico da cidade de Senhor do Bonfim. Sim, Jegue-elétrico – é um jegue puxando um carro de som. A camiseta custa uns 300 reais e de uma festa Esfrega custa uns 700. Outra curiosidade: em certas cidades a festa mais popular não é o São João e sim o São Pedro, dia 29 de junho?
Enfim, são muitas emoções. Estava morrendo de preguiça de viajar, fui pra São Paulo lamentando minha decisão de não pegar um voo direto, porque eu fazia aquele sacrifício todo ao invés de só ir direto pra Salvador. E assim que entrei no ônibus, entendi. Adoro pegar aquele ônibus, adoro ir pra São Paulo, adoro o metrô, adoro os amigos que se dispõem a me ver, adoro até mesmo a correria. Pensei que isso viraria um texto, assim que cheguei escrevi outro texto, liguei o netbook achando que escrevia um texto sobre a música chata que vem da igreja e concorre com o forró da praça… Mas viagens são assim, acabam nos tirando do prumo. Tenho comido “pão pesado” com uma manteiga maravilhosamente gostosa e que não quero nem imaginar o que está fazendo com o meu colesterol. Ao mesmo tempo, poxa, saudades.

Eu quero

Acho que foi na entrevista da Nélida Piñon, no Roda Viva, que questionaram do porquê, para entrar na Academia Brasileira de Letras, é preciso se candidatar. Com tanto escritor bom por aí, que nunca concorreu, e a Academia aceita nomes questionáveis, como do ex-presidente José Sarney. Mais coerente seria a Academia convidar grandes escritores para entrar, ou para concorrer. Aí ela disse (ou teria sido Ubaldo?) que é importante que a pessoa queira e assuma esse desejo. Não sei se ela tem razão no que diz respeito à Academia, mas como é diferente dizer: Sim, eu quero.

Sim, eu quero dançar um solo. Sim, eu quero ser escritora. Sim, eu quero amor.

Essa geração sempre online mimimi

Quando eu fui visitar o Milton, deixei uma excelente impressão no sobrinho dele, que disse que nunca tinha conhecido “uma adulta que sabe quem é Felipe Neto e PC Siqueira”. Dá pra dizer que eu sou de uma geração que ficou bem no meio da revolução da internet. Sabe aquelas piadas sobre Graham Bell ter inventado o telefone e não ter para quem ligar? Era mais ou menos assim quando a gente fazia e-mail. Eu conheço muita gente da minha idade que trabalha com internet ou que passa muito tempo online, mas isso é apenas porque eu tenho esse perfil. A grande maioria só usa e-mail e tem conta no facebook “pra achar uns amigos de infância”. Então eu ouço, à sério, as pessoas reclamarem do quanto esses xóvens ficam muito tempo na internet, cada um com seus telefones, sem conversar, sem olhar para os lados, onde é que esse mundo vai parar.

 

Eu acho sim que há um exagero e é preciso estar mais no mundo, mas também não me sinto confortável em condenar ninguém. Se eu já ficava na internet na época que gastava pulso telefônico, imagina no mundo de hoje. Lembro claramente de um sentimento que me perseguiu durante boa parte da minha vida: inadequação. Eu queria estar num outro lugar, num outro mundo, que eu não sabia como era, só sabia que não era o que eu tinha acesso. Eu não queria estar no meio das pessoas que estava. Quando digo isso, não estou apenas falando de família, falo também das pessoas do prédio, da escola, os que tinham a minha idade. Todos me pareciam um bando de idiotas, não dava pra ter uma conversa que prestasse. Depois a gente cresce e coloca essas coisas em perspectiva, mas estou falando aqui de como eu sentia. Então, eu tenho certeza de que ficaria muito feliz em conhecer pessoas de outros lugares, com os mesmos gostos que eu, e me sentiria mais à vontade com elas do que com aquele povo que vive lá em casa. O que me estava acessível era ler, andar no parque, me trancar no quarto, e fiz todas essas coisas intensamente. Podemos dizer que saí ganhando, que os livros que eu li hoje fazem parte da minha cultura e trocar mensagens com meus amigos não me levaria a nada. Mas isso é atribuir um cálculo de futuro que eu não tinha. Eu teria preferido o whatsapp mesmo.

Pessoas Não

Li em algum livro do Osho ele dizer que existem pessoas que são Sim e outras que são Não. Os Sim são os continuadores, os que conservam as tradições. Os Não são os destruidores, os rebeldes. Quando li, me achei incontestavelmente uma pessoa Sim. Eu (na época), a boa filha, boa aluna, boa esposa, boa qualquer coisa que implique em disciplina. Alias, as pessoas me descrevem tanto usando essa palavra – disciplinada – que me pego desenvolvendo complexos relativos a isso. Mas aí é outro tema.
Aí tem uma história num livro do Paulo Coelho, deve ter sido no Diário de um Mago ou no Alquimista, porque não acompanhei muito a carreira dele depois disso, que o personagem quando precisava descobrir alguma coisa usava duas pedras para perguntar, Urim e Tumin. Uma significava Sim e outra Não. Não sei qual era qual. Sei que eu e meu irmão André éramos considerados Urim e Tumin. Pra qualquer questão, fosse quem gosta de doce de leite, ou a opinião sobre o assunto do momento, nós tínhamos visões diferentes, partíamos de pontos de argumentação opostos. Meu irmão, na época, o cara legal que começou uma faculdade, trancou, trabalhou um par em coisas diferentes, fez outra…
Apesar de não fazer nada pra isso, de ser uma pessoa que gosta de acordar cedo, não come carne, não tem tatuagens e todos os sinais exteriores de rebeldia, hoje sei que sou uma pessoa Não. Meu irmão, o oposto a mim, está fazendo seu pós-doc e vai seguir a segura carreira de professor. Eu continuo sem saber para onde vou. Achei que sabia aos vinte, que saberia aos trinta, e agora espero saber aos quarenta. Porque é foda. É legal mas também é foda.
Eu invejava o Farruquito, por ter nascido numa família flamenca e hoje ser um grande bailaor flamenco, representante de uma linhagem. Nasceu no meio daquilo, faz parte dele; e eu, aqui tentando aprender a entrar numa bulería. Mas, quer saber? Certeza que se eu tivesse nascido numa família flamenca, igual a do Farruquito, eu teria virado dentista.

Um dia o Ale me mandou este vídeo. Fiquei muito emocionada quando recebi, é muito eu: