Torta de café

torta de café

Balas de café? Maravilhosas, de comer uma atrás da outra. Café? Merece todas as declarações de amor que lhe são feitas diariamente. Motivo para levantar da cama em manhãs tristes, estimula também o olfato ao ser um verdadeiro perfume no ambiente, amigo contra a sonolência de depois do almoço ou do estômago vazio no meio da correria, melhor pretexto para socialização. Torta de café? Aí não. Torta de café tem gosto de decepção. Depois de se servir no buffet de saladas, comida de verdade, carnes, você vai até a mesa de sobremesas e vê aquela torta pretinha e pega um pedação. Depois de comer toda comida, a comida de verdade que mantém o corpo saudável, chega o momento da recompensa, a sobremesa, e você coloca aquele pedaço de torta diante de si, faz uma garfada perfeita pegando um pedaço da cobertura, e quando ele entra na boca, descobre que não é chocolate. É café. As papilas que esperavam o doce e recebem amargo se contraem de desgosto. Os mais sinceros até cospem de volta. Os gulosos e mãos de vaca comem tudo, mas só porque está lá, porque estão detestando. Comem mal humorados, olhando feio para os funcionários pra ver se tem alguém rindo da sua cara. Talvez a única alternativa para a torta de café seja espalhar muitos avisos antes, igual o triângulo quando o carro se acidenta na estrada – Atenção, torta de café a 100m! – pra pessoa estar ciente do que está na sua frente quando chegar o momento. Duvido que alguém se serviria.

Anúncios

Você já notou…?

cafe-manha_amsterdam-bagels-beans

Nós fomos tomar café, fizemos os nossos pedidos e antes mesmo de nos sentarmos na mesa ela me pediu desculpas, pois teria que buscar alguma coisa no carro. Eu me sentei com o meu café e o meu salgado, as coisas dela ficaram esfriando na mesa. Aí ele se sentou também, veio uma terceira em outra mesa, acabamos os três conversando um pouco. A terceira pessoa foi embora. Minha amiga voltou e olhou para ele. “Você já notou”, ela me perguntou, e estava querendo dizer “que ele fica me olhando” e eu respondi que sim, mas se ela realmente perguntasse eu lhe diria que ele a olha, e para mim, e acredito que para toda e qualquer fêmea que passa perto dele. Mas aparentemente ela julga que ele a olha exclusivamente. Então ela se sentou de uma maneira tão empinada e arrogante como nunca fez, de um jeito que eu jamais a havia visto fazer e nem seríamos amigas se aquilo fosse constante. Por entender que aquilo era para ele, eu me vi ali, muitas vezes também empinada e arrogante, indignada por aquele homem ter a ousadia de se interessar por mim, um desinteressante, sem chances, quem ele pensa que é e que eu sou. Senti vergonha.

Curtas de todo cuidado é pouco

inverno

Tive que colocar duas roupas na Dúnia, ou seja, não adianta choramingar, chegou mesmo.

.oOo.

Enquanto estava esperando o vendedor chegar com meu celular novo, uma mulher estava pedindo informações sobre uma Nespresso. Minha vontade foi de chegar junto dela, fingindo que estava vendo outros produtos e lhe falar de lado, como nos filmes: “A sua conta de luz vai aumentar…”

.oOo.

Um dia, com mais paciência, eu descrevo aqui a luta que empreendi semanas contra um rato. Quer dizer, quero crer que era apenas um. Quando finalmente descobri de que buraco ele vinha, fiquei chocada em perceber que minha casa não foi invadida por ratos há anos porque eles não quiseram. (Certamente não quiseram porque aqui é limpinho, oras)

.oOo.

Já vi um monte de notícias sobre a Malala e o livro é bem conhecido, então tinha decidido que ele seria o meu “livro de ficar na bolsa” da vez, mesmo porque essa vida de carregar livro de mais de quinhentas páginas cansa. Aí, logo no início ela conta sobre o tiro e me escorro em lágrimas grossas. Vou ter que continuar nas quinhentas páginas -vai que Malala é nível Menina que roubava livros em choradeira?

Mais uma manhã

cafe

Abro os olhos. O alarme não tocou, o quarto está escuro e tudo está silencioso. Penso durante alguns instantes, tentando localizar em que dia da semana estou. É domingo. Vou até o banheiro fazer xixi e pelo relógio do corredor descubro que não são nem sete horas. Quando não precisa acordar cedo o corpo é um metrônomo. Faço xixi, lavo as mãos e olho para a minha cara amassada à procura de marcas de sol. Estão lá, mas nada muito indecente. Me arrasto até a cama, abraço os dois cachorros de pelúcia e viro de lado. Quando abro os olhos de novo minha mente está vazia. Tento pensar em algo bom e nada me vem à mente, nada que me faça enrolar mais um pouco. Consulto o relógio da cabeceira e são nove horas. Abro as cortinas ajoelhada na cama, sento na beirada e pego a camisola jogada no chão, procuro o chinelo com os pés. Arrasto os chinelos até o banheiro para um segundo xixi e sentada no vaso começo a pensar no meu dia. Nenhuma programação, mesmo? Lavo o rosto e olho de novo pra minha cara, que ficou até com um aspecto saudável com o vermelho na testa e nas maçãs. À caminho da escada passo pelo computador, ligo, desço, desligo o alarme e abro a porta dos fundos, a grande saída de ar da casa. O céu está limpo, vai ser outra alegria de viver ter sol de novo. Vou pegar a toalha e lembro que hoje é dia de colocar pra lavar. Bom, sol e toalhas, já temos parte de uma programação pra hoje. Subo de novo, abro o Chrome, todas as janelas da casa, pego toalhas novas e coloco as usadas no cesto. Ou será que já seria bom colocar de molho? Tenho doze notificações no facebook e duas no twitter, pouco. Me consulto e acho que tenho fome. Pego toalha nova, separo vestido de ficar em casa, roupa íntima, atiro a camisola na cama e vou pro meu banho. Posso procurar um documentário sobre ciência, ainda mais que descobri novas estrelas de programas científicos. Tem o Bernhard. Tem o capítulo um. Affe, nem me lembre do capítulo um. Está apenas ficando menos pior. Mas é o que tem pra hoje, a não ser que. Termino o banho, me enxugo, faço a risca no cabelo, desço com a toalha e olho novamente pro céu. Já está ensolarado. Será que monto um QG pra aproveitar o tempo bom, com rede, livros, caderno de citação, gengibirra com limão e celular? Acho que vai dar. Abro a geladeira e procuro os quatro itens necessários ao café da manhã. Quando estão todos reunidos – café na xícara, duas fatias de pão de fôrma cobertas com requeijão e grossas fatias de queijo – subo de novo e me sento na frente do computador. Veremos o que são essas notificações. Abro o arquivo com o capítulo um com desânimo. Talvez seja melhor voltar pro Bernhard. Ou talvez eu precise nascer de novo. Busco consolo no cheiro de café e na foto da lua que recebi por DM. Bem que eu podia ser capaz de unir lembranças, caminhadas, conversas, risos, reflexões, leituras, desejos e intuições numa história coerente e interessante. Mordo uma fatia de pão.

Curtas sobre Fal e Karnal

drops

A sessão de curtas, que vocês tanto amam, é inspirada na Fal. Tô contando porque olhando assim ninguém diz, Fal é outro nível.

.oOo.

O último post dela me tocou tão fundo, me deixou tão triste. Primeiro:

Senti uma imensa, imensa falta de ter pra quem contar isso. Entende? De poder ligar e dizer “checa na Ilustrada a figura que Maliu ama!”, e do outro lado ter alguém que também tremelique de rir e comente “Ê, Maliu é chegada num bicho grilo!”. Sinto imensa falta de Alexandre o tempo todo, mas nessas horas chega a doer.

Claro que as pessoas que querem bem a ela -e que são muitas – correram pra dizer que podem ligar pra elas. Mas eu entendi, não dá pra ligar. Não aquele telefonema.

.oOo.

O outro ponto: “Há algum tempo, um cara me atacou forte, covarde e malvadamente por eu ser só. A única coisa que ele tinha contra mim era minha solidão.” Não tenho o que falar.

.oOo.

Teve um dia, no tempo que o blog tinha até comentário, que eu fiz um post citando a Fal. Aí uma colega de faculdade me mandou um e-mail, dizendo que o meu blog era tão grande (queria eu!) e o dela tão pequeno, se eu não poderia recomendá-la aos meus leitores. Juro que tentei. Fui lá ver e tinha um monte de posts espíritas. Aí expliquei que tinha que ser espontâneo, que o dia que eu falasse de algo que tinha a ver com que ela tinha postado, eu a citaria. Nunca mais falou comigo.

.oOo.

Leandro Karnal disse que acorda cinco da manhã, super bem disposto. Minha reação foi a mesma do Clóvis, achei um crime. Hoje, depois de semanas, finalmente pude acordar e tomar meu café com os pés pra cima enquanto ouvia música. Isso me fez tanta falta que não sei nem explicar. Acho que passei a entender o Karnal.

Curtas de é sério isso?

é sério isso

Sim, tudo pretexto pra usar essa foto maravilhosa.

.oOo.

Fui puxar papo com a mocinha do caixa da padaria. Ela tinha várias tatuagens coloridas num braço e uma Frida em preto e branco no outro. Perguntei se ela ia colorir a Frida também e a mocinha fechou a cara. Conversei com uma amiga e descobri algo importante: jamais pergunte se uma tatuagem preto e branca vai ficar colorida. Aparentemente todo mundo pergunta isso e é um saco. Nem toda tatuagem ficará colorida, óquei?

.oOo.

Como classificar quando você insiste em marcar um café com uma amiga que diz que te ama, só porque sabe que ela vai ter que inventar uma boa desculpa?

.oOo.

Dia desses cheguei em casa carregada de compras. Havia um carro quase enfiado na garagem. Fiquei preocupada, achando que era alguma má notícia que teria que ser dada pessoalmente. Cumprimentei a moça no carro, que me virou a cara. “O que você está fazendo estacionada na minha garagem?” “Oh, meu Deus, é sua garagem? É que eu estava esperando meu filho (sair da clínica do vizinho). Quer que eu tire meu carro?”. Deveria ter aproveitado e oferecido um chá.

.oOo.

Com muito pesar, estou bebendo a última Gengibirra da minha adega. Meu supermercado parou de vendê-la. Não sei o que farei do meu vício. Eu subiria o morro pra comprar Gengibirra. Me sinto uma alcoólatra em pleno anos 20.

Louca do café

O café do supermercado.
Nem preciso repetir que gosto muito de andar, né? Pra ir é ruim, pela questão do horário e de chegar nos lugares cansada e suada, mas pra voltar pra casa andando é quase de lei. Quanto mais a gente acostuma com um trajeto, mais curto parece que ele se torna. Meus pontos de partida não variam tanto, e gosto de parar no caminho, entrar nos lugares, ver as lojas, comer alguma coisa. Por causa disso, numa distância de cerca de dez quilômetros, devo ter tomado todos os cafés até a minha casa. Eu poderia escrever um guia. Dos lugares mais simples aos bonitinhos, posso tecer comentários sobre como é o café (se tem opção, um carioca) e o salgado (geralmente pão de queijo), passando pelo ambiente e o atendimento. Minha última descoberta é uma padaria ótima ao lado de uma pet, com mesinha pra fora. Quem está com seu cachorro pode tomar um café lá com ele – privilégio esse que nunca terei, pois a Dúnia tentaria roubar o que está na mesa, choraria, latiria para as pessoas, me arrastaria, etc. Ainda voltarei lá. Tem um que tem que descer por uma escadinha e ser atendido por uma velhinha com problemas nas cordas vocais. Desisti de ir por ser isolado demais, a gente fica fechadinho olhando pras paredes e pra isso eu faço café em casa. Sem dizer que a velhinha não aceita cartão. Duas quadras pra baixo tem uma lanchonete/restaurante com atendentes gentis, mas um café ruim de doer. A padaria chique – são duas filiais no meu caminho – serve para fazer boa figura e se sentir bon vivant, mas é cara demais. Sem dizer que o atendimento de uma delas é tão ruim que nunca consegui descobrir se é pra pedir no balcão ou esperar na mesa, porque nenhum dos dois jeitos funciona. Numa padaria perto do supermercado dá pra tomar café vendo TV, o que também tem seu charme. O café do (outro) supermercado é bonzinho, mas a relação custo-benefício fez com que eu me apegasse – pasmem com o meu espírito investigativo – ao café da loja de material de construção. Agora estou indo menos, mas no final do ano passado cheguei a ir três vezes por semana, sempre no mesmo horário. Deve ter sido estranhíssimo, caso alguém tenha me notado. Somente eu e os funcionários sabemos que lá tem um delicioso carioca com pão de queijo por apenas 2,50. E aceitam cartão. A atendente de henna na sobrancelha já nem me pergunta se quero açúcar ou adoçante. Meu sonho é chegar lá e só dar uma piscadinha.

Curtas porque sim

Amigas que têm tentado desesperadamente encontrar alguém e que saem e encontram gente no Tinder e nunca funfa, ninguém quer nada, não lhes valorizam. Mas elas tentam. Os argumentos são ótimos, estatísticos: conhecer gente aumenta a chance, tentar muito aumenta a chance, depois de muitos nãos virá um sim. Trancada em casa é que não se consegue alguém. Mas será que o dano de não tentar não é menor? Vejo todo mundo tão triste, tão traumatizado.

 

.oOo.

 

Achei o meu café. Me sinto o próprio James Bond pedindo martini – “batido, não mexido”. Acrescentou glamour e resolução à minha pessoa. Sempre me senti meio besta de ter que pegar o cardápio e reler as descrições dos cafés, afinal, as combinações são sempre as mesmas. Agora  vou logo falando: me vê um carioca. Agora só me falta tomar café com alguém, para impressioná-lo.

 

.oOo.

 

Estive tão preocupada e impossível nas últimas semanas. Um problema que estava tirando a minha alegria de estar em casa está quase no fim. Agora estou tão feliz com um projeto novo. Um que pode mudar minha rotina e me colocar em contato com outra realidade, ou seja, o tipo de mudança que eu adoro. Pena que não posso contar ainda, principalmente a última parte. Apenas torçam.

 

.oOo.

 

Eu prometi não tocar no assunto, e por caridade cristã não vou falar nada. Mas, se fosse tuitar pra uma pessoa aí, eu apenas diria a ela: Está frio.

 

.oOo.

 

Lembro que um amigo ateu recebeu muitos “Deus abençoe” quando a mãe morreu. Muitos com a ressalva “eu sei que você não acredita, mas…” O “mas” era um “eu não sei o que falar”, na verdade. Acho que é o mesmo sentimento que leva as pessoas a dizerem a um doido por flamenco que foi fazer pós na Espanha e chegando lá se decepcionou e está com vontade de largar que “o importante é a satisfação íntima dançando”. Ah, tá. Fiquei com vontade de mandar todo mundo tomar no cu.

Sem cafeína

Eu estava na loja daquela cafeteira chique e cara que eu tive. Naquela época, já tinha me livrado dela, o que me trouxe não apenas economia com as cápsulas como até baixou a minha conta de luz. Mesmo assim eu ainda frequentava a loja, que se descreve como um “clube” – os donos de cafeteiras têm direito de irem lá e degustar quantos cafés quiserem. Os vendedores me conheciam e eu tenho o cartão de “membro”, então ia lá na maior cara-de… naturalidade.

Estava no balcão tomando o meu café e um vendedor chegou para fazer café para outro cliente. De rabo de olho, vi que era gatinho. Minha faixa etária, um visual mais pra moderninho, também gostava de café… Vieram conversando:

– … novas versões descafeinadas. Os cafés continuam com o mesmo sabor e a mesma intensidade, a ausência da cafeína não altera nenhuma dessas características. Algumas pessoas acham que ficou mais suave. Um arpeggio descafeinado? Aqui está.

O sujeito bebe um gole e fala com convicção:
– Ficou mais suave sim, eu senti a diferença!

“AHÃ, SEI!”, eu pensei enquanto riscava mentalmente o sujeito da minha lista de paqueráveis e escrevia ao lado: idiota que se acha gourmet. E tenho certeza que o vendedor

– Ah, então o senhor é um dos que sentem a diferença…

pensou a mesmíssima coisa.

Um café

Às vezes eu tenho essa impressão, ou quem sabe ilusão, de que tudo se resolveria num café. Que se sentássemos numa mesinha redonda e pequena, daquelas onde não cabem mais do que duas xícaras e o açucareiro, e se nós dois pedíssemos cada um o seu café – eu um carioca, e você não sei qual – que eles viriam pelando, acompanhados de uma mini-bolacha amanteigada, quem sabe uma água com gás. E estaríamos sem graça, com tanto barulho em volta, o cheiro delicioso de café, as pernas mal acomodadas e a obrigação da gentileza. Na minha cena, o simples fato de olhar nos olhos e sem intermediários nos tornaria também sem subterfúgios. E a boa vontade mútua e vontade de ficar em paz nos faria resolver tudo. Você veria que eu sou uma pessoa legal, escondida eu sei pela aparente antipatia dos tímidos. Em um certo momento – não sei se na hora de sacudir o saquinho de açúcar ou aceitar a tua bolachinha amanteigada – você perceberia que não tenho nada contra você, muito pelo contrário, até te gosto. E no final dos nossos ml já seríamos chegados como se nada um dia tivesse sido diferente. Porque aqui dentro não é diferente.

Um pequeno milagre

Não sei se vai ser interessante pro resto da humanidade saber disso, mas eu realmente quero registrar.

Saí na sexta-feira e fui dormir mais tarde do que o habitual. Esqueci o alarme ligado, acordei cedo sem precisar, voltei a dormir mas perdi o soninho gostoso, etc. Acordei tonta, precisada de uma café. Preparei a Bialetti e o fogo não acendeu. O gás dura tanto tempo aqui em casa (uma vez acho que durou uns dois anos) que sempre que ele acaba eu fico chocada, como se aquilo não fosse possível. Testei todas as bocas, usei fósforo e nada. “Café – falei no melhor estilo tiozinho surtado –  eu só queria um café, justo hoje que eu preciso de café!”. Tomei suco resmungando e me enrolei, porque além de tudo sou uma pessoa que detesta usar telefone e teria que fazer pesquisa pra saber onde comprar meu gás. Nisso, aparece um caminhão de gás na vizinha! Desci correndo e antes de ir lá fora pra dizer pro cara vender um gás pra mim (no fim ele nem me vendeu, tinha que ter cadastro com a empresa, onde já se viu, ca-das-tro!) , eu tentei acender o fogo mais uma vez. Vocês acreditam que tinha saído um solzinho, ele bateu no meu botijão e saiu um tiquinho de gás, apenas o suficiente pro meu café?

Alguém lá fora gosta muito de mim, vai dizer que não?

Pequenas alegrias

Não tinha ônibus e nem eu tinha pressa. Fui andando calmamente pelo caminho mais vazio que consegui. Achei que me traria lembranças desagradáveis, ou sensação de fracasso, mas não: andar por uma rua agradável é sempre agradável. Descobri umas árvores lindas, sem folhas e cobertas de pequenas flores cor de rosa – seriam cerejeiras? Eu me permiti ficar parada na calçada, olhando. Pensei em tirar uma foto e deixei para lá, eu não iria olhar para a foto com o mesmo encantamento. Eu tinha um vale do McDonald’s para provar o cappuccino e pão de queijo. Me desviei do caminho e fui para lá. A loja estava completamente vazia, apenas os funcionários fazendo limpeza. Comi perto da janela e um funcionário trocou duas frases comigo enquanto limpava o chão e não entendi nada do que ele dizia, mas concordei sorrindo e ele ficou satisfeito. Coloquei açúcar e canela no cappuccino, usei a tampinha só pra saber como era beber naquele estilo que sempre vemos nos filmes. Quando peguei o pão de queijo tive uma grande surpresa – estava delicioso. Deu vontade de voltar no caixa e comprar mais uns dez. Terminado o café, quis voltar pro meu caminho e resolvi parar uma loja de departamentos, só para olhar. Lá comecei a gostar de roupas, pensei em comprar aqueles acessórios de banheiro com estampas de animal, me perguntei se agora colocaria tapetes na minha casa. Em meio a tanto desejos novos, me dei uma almofada. Ela tem a estampa da bandeira do Brasil. Não me acho nacionalista nem nada, mas sempre achei bacana produtos com a bandeira do Brasil e nunca tem, só se acha em ocasiões especiais. Comprei antes que deixe de ter. Comprei porque agora o único gosto que precisa ser contemplado é o meu. Voltei para casa de estômago quentinho, almofada debaixo do braço e ideias na cabeça. A vida vai se refazendo aos poucos.

PS: Enquanto você lê este post, eu já estou na estrada. Resolvi aceitar ajuda e ganhar um pouco de colo. Acredito que continuarei postando, mas já não posso garantir a mesma pontualidade. Beijo.

Eu sou um perigo para mim mesmo

Certas pessoas são tão auto-suficientes que não precisam da ajuda de ninguém pra se machucar. Eu e o Luiz somos assim. Esses dias consegui acertar a minha canela com o portão da frente, que eu mesma estava abrindo. O Luiz – ainda mais talentoso do que eu – coleciona episódios como o dia em que ele mordeu o próprio dedo comendo sanduíche ou grampeou a própria mão junto com a pilha de papéis.

Ainda bem que nem tenho café aqui em casa. O ato de preparar e tomar seu cafezinho parece ser o ritual auto-flagelatório preferido da humanidade. Esses dias um apareceu na aula de defesa pessoal com a mão enfaixada. Ele errou a xícara e jogou o café escaldante nas próprias mãos. O caso mais recente que eu tive notícia é de um outro amigo que -preparando café, claro! – derrubou a água quente na barriga. Ele não apenas queimou a barriga como otras cositas más. Olha que queimar aquela região, junto com o pescoço, é considerado queimadura grave independente da extensão.