Os humores dos deuses

mó fita

Da série de coisas que se tornam óbvias depois que alguém nos fala: um dos astrólogos crush que eu sigo disse que, quando tudo vai bem, acreditamos que os deuses estão felizes conosco; quando tudo vai mal, achamos que os deuses estão nos punindo. Não é assim. O fazer certo e errado nem sempre coincidem com o que estamos passando. Pra citar um exemplo muito simples, pense numa pessoa apaixonada. Acontece muito: o indivíduo se apaixona de um jeito que descuida de tudo. A paixão pode levar uma pessoa a abandonar seu grupo de amigos, acabar com suas economias, se descuidar do trabalho, enfim, estragar todos os outros setores da vida porque tem olhos apenas para uma pessoa. Dá para esperar de camarote e ver que todas as coisas que foram deixadas de lado vão cobrar um preço depois que a paixão acabar – nem estou dizendo que o casal precisa se separar, paixões são estados exigente que não duram anos. Mas para ele, naquele momento, a vida é a mais feliz possível. A medida dos deuses não é a nossa, os deuses são imperscrutáveis.

Baixas expectativas

cade o lapis

Nós demoramos para chegar no sonho burguês. Eu nem acreditei direito quando me disseram que o meu irmão mais velho estava apaixonado. Só acreditei porque vi. Não propriamente porque ele não pudesse se apaixonar e sim que não pudesse levar adiante o que pessoas normais fazem quando se apaixonam. Não sei explicar, sempre vi meu irmão como uma espécie de artista. Eu acharia mais provável ele morrer devorado por leões ou fugir com um circo do que casar e viver o sonho burguês. Mas ele fez: casou e me deu minha primeira sobrinha.

Tem um casal que eu conheço de longe, os dois com vinte anos. Ela vive atrás dele; literalmente, o sujeito trabalhando e ela atrás. Soube que rolou uma pressão para que ele comprasse o terreno e fosse viver atrás da sogra. Um lado meu sentiu um desprezo imediato pela moça. Vinte e poucos anos e tudo o que quer é fisgar o namorado, quem sabe ser mãe logo. Mas depois me corrigi – nós que demoramos pra chegar no sonho burguês. Nós, membros da minha família. Agora mesmo, eu descubro o prazer de ter a fachada da casa com tinta nova. Simples assim. Nem estou vendo – deve ser a mesma sensação de quem faz tatuagem nas costas -, mas penso no assunto e fico feliz.

Agora não sei mais se eles sabiam o sentido da vida antes de nós, ou se existe uma inteligência por detrás da adesão tardia – só nós podemos viver o sonho burguês com verdadeiro desfrute. Provavelmente éramos apenas ignorantes. O que eu sei é que me tornei a pessoa que gosta de conversar na padaria, curte passar o sábado pintando parede e admira muito quem oferece conteúdos profundos na internet, sem ter a menor pretensão de ser um deles.

O novo

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Se hoje não tem quase nada perto de onde eu moro, quando eu me mudei tinha menos ainda. Havia dois pequenos comércios aqui perto e já fecharam: um mercadinho (onde eu comprava ovo) e uma sorveteria. Eu passei duas vezes na sorveteria. Era uma casa simples, com um pequeno balcão na garagem. A gente passava pelo jardim e era atendido por uma senhora. O preço era bom, mas o sorvete é de uma marca bastante popular aqui e muito dura, e acho ele tão ruim que prefiro não tomar sorvete a ter que pedi-lo. Quando um dia passei na frente e não tinha mais placa de sorvete, não liguei.

No inverno, tenho que fazer toda uma manobra com a Dúnia. Ela se tornou friorenta com os anos e por causa dos pelos não se pode deixar cachorro com roupinha o tempo todo. Imagine como isso é complicado quando a temperatura está perto de zero graus há dias. Eu acostumei a Dúnia a me deixar tirar a roupa dela pelo menos pra passear e mudo o trajeto para passarmos no sol e ela se expor um pouco ao cálcio. Num desses passeios, encontrei numa esquina a senhora que vendia sorvetes. Ela não lembrava de mim. Ela me contou que fazia um bom dinheiro vendendo sorvete em casa, que tinha um cliente que vinha de carro todo final de semana comprar pelo menos uns dois potes. Um dia ela atendeu dois adolescentes e no dia seguinte eles vieram para assaltá-la. Estavam marmados. Levaram o pouco dinheiro que ela tinha, potes de sorvete e por pura maldade atiraram no vira-latas dela, que era calminho e estava no seu canto. A parte do cachorro foi que realmente acabou com ela. Depois ela até tentou vender sorvete com o portão fechado, mas aí a clientela ficava com vergonha de bater, e ela mesma já tinha perdido toda alegria. Ela caiu em depressão com a morte do cachorro. De vez em quando, pra não ficar doente, ela se obrigava a andar na rua e pegar sol, exatamente como estava fazendo naquele momento.

Carnaval 2018. Depois de uma segunda chuvosa, terça eu consigo levar a Dúnia para passear. Normalmente passamos ao lado de um grande muro, para não atiçar os cachorros do outro lado da rua. Mas, mesmo assim, eles estão latindo muito. Olho na direção deles e eles estão latindo para alguém passando perto deles. A pessoa vai se aproximando e vejo que está com um cachorro. Se aproxima mais e vejo: um filhote lindo de morrer, branquinho de pelo curto e uma mancha marrom num dos olhos. Ele é agitado e feliz como apenas os filhotes de cachorro podem ser. E quem o leva é a senhora do sorvete, feliz da vida. Ela acena pra mim e diz: “Temos que levar nossos bebês pra passear, né?” Não consigo dizer de outra maneira: Deus abençoe que deu aquele lindo filhote a ela. É a vida que renasce.

Arrelia (também serve Tiririca)

Um autor, claro. Daquele que com a sua aldeia consegue descrever o mundo, um retrato da sua época e atemporal ao mesmo tempo. Se não pudesse ser um grande autor, pelo menos alguém que passa a sua vida cercado de muitos deles, pelo que produziram. Um professor universitário. Um pesquisador. Ou quem sabe um advogado, profissão que também se cerca de livros, linguagem, códigos. Se for para dar as costas para tudo isso, em viagens por lugares exóticos, com línguas que jamais soariam familiares, ser transportado num olhar a outra realidade. Projetar realidades, construções, arquiteturas, influenciar a pessoa sem que ela sinta, com a mágica da combinação de cores e móveis. Desenhar o trivial e transformar em algo novo e surpreendente, um novo jeito de se sentar ou de se vestir. Salvar vidas, o que pode ser tanto num sentido biológico como simbólico, salvar a alma da ignorância ou dos seus próprios medos. Sendo nos sonhos as profissões tão grandes e tão nobres, eu não entendia quando via a entrevistas de palhaços – Arrelia quando eu era criança e o Tiririca quando eu já era maior – que diziam que escolheram ser palhaços porque não conseguiam imaginar algo mais bacana do que viver de fazer as pessoas rirem.

cidades

Sobre a tirinha: Macanudo é uma expressão argentina antiga, algo como “supimpa”. O autor, Liniers, batizou com esse nome apenas para colocar Supimpa no meio do jornal.

Laerte-se

Eu lia Chiclete com Banana. Hoje acho bem inadequado pra minha idade na época, mas meu irmão não estava nem aí. Lembro que o Angeli tinha uma sessão para responder cartas chamada Rolo de Macarrão, que seria a senhoura dele respondendo as fãs que tinham fetiche por ele. Nunca fui muito fã das tirinhas do Glauco, achava tudo feio e desorganizado. E tinha o Laerte, gênio absoluto, uma imaginação sem limites. Então eu pude entender bem quando um amigo da mesma geração que eu me disse que não poderia jamais chamar O Laerte de A Laerte. A gente cresceu com ele, admirando o trabalho dele, não dava pra fingir que agora era uma mulher. Eu chamo de A Laerte e talvez tenha convencido meu amigo quando disse:

Pra mim é simples. Eu chamo as pessoas pelo nome que elas gostam de ser chamadas. Como o Beto que insiste em ser chamado de Beto, porque Roberto é o pai dele. Se Laerte se sente mais confortável com A, eu chamo de A. Se você quiser que eu te chame de Tigrão, chamo também. Não sou eu que vou dizer pras pessoas com elas devem ser chamadas.

Me parece que é essa a diferença fundamental dos que têm o pensamento mais conservador para quem não tem. Eles acreditam que o mundo deve ser um lugar compreensível, que as atitudes ou até mesmo as mudanças devem ser classificáveis. Como as mudanças não estão seguindo o scrip, a sociedade necessariamente errou em algum ponto, porque o compreensível é a regra. São pessoas que têm respostas. Gente como eu não tem e não ousa ter. Não sei se a variedade que existe hoje é fruto do erro ou se existiria de qualquer forma, se com mais justiça social ela pararia ou até retornaria. Não estou dizendo que acho lindo, que levaria pra casa, que tudo bem se meu homem se vestisse de mulher, e se meu filho, etc. Eu aceito porque acho que nem cabe a mim ser contra ou a favor – cada pessoa é soberana na sua própria busca pela felicidade.

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Eremita

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Tenho um problema sério quando fico muito tempo sem contato humano: eu acostumo. Acostumo e gostcho demais. Olho para o ritmo normal da minha vida ao longo do ano, as pessoas que estou sempre em contato, as várias conversas engatilhadas e os compromissos e me espanto – como aguento? Eu sei, estar sozinho pode dar uma ilusão enorme de paz e sabedoria, como o sujeito que passa vinte anos numa montanha e se crê santo pra perder a calma quando cruza com o primeiro. Mas… como aguento? Sei que se eu falasse das coisas que me são verdadeiramente caras não encontraria ouvidos. Posso adivinhar o silêncio educado e impaciente se começasse a falar dos livros que li, as séries, os canais no youtube, os sonhos, as coisas que pensei. Mas não, eu não saí, não bebi, não fiquei e nem fui cantada por ninguém, então, na versão oficial, nada me acontece há semanas.

Eu matei barata

Eu matei barata. Não apenas matei, como depois recolhi. Assim como também recolhi vários passarinhos que a Dúnia matou. Tive que contratar pedreiro, paguei, fiquei meses no vermelho. Lidei com problema de vazamento na privada, duas vezes, três vezes, quase tive o banheiro inundado numa –  na outra tive o sangue frio de esperar o fim de semana passar antes de dar um jeito. Percorro a cidade inteira de ônibus, em qualquer horário. Já despistei tarado no terminal. Caí da escada, caí de bike, fiquei encolhida de dor no sofá; passei eu mesma remédio nos roxos, preparei meu chá, esquentei a água da bolsa de água quente. Nas noites desse prolongado inverno, me esquentei apenas com cobertor; já nas noites frescas, dispensei carona e andei por ruas desertas observando o céu apinhado de estrelas. Eu não entendia qual era a relação de ser independente e mais seletivo na hora de querer companhia. Agora eu sei.

una vida chiquitita y normal

Gritinhos de felicidade

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Não é propriamente um spoiler a contracapa do Uma pequena cidade na campina dizer que Laura se casa com Almanzo Wilder; afinal, ela se chama Laura Ingalls Wilder. A saga da família Ingalls é de nove livros, mas a biblioteca tem apenas três: À margem da lagoa prateada, O longo inverno e Uma pequena cidade na campina. Estava muito frio no dia que me propus a conhecer a autora (mais uma indicação do Paraísos de Papel) e quando vi o nome do livro seis… Os irmãos Wilder apareceram no Longo inverno por terem salvado a cidade de passar fome, porque não parava de nevar e os trens não conseguiam chegar trazendo provisões. Almanzo nos é apresentado como um jovem fazendeiro precoce, que teve que mentir na certidão que tinha vinte e um anos, e não dezessete, para que pudesse cultivar suas terras. No Pequena cidade, ele já se transformou num ótimo partido, com um carro guiado pelos seus dois lindos cavalos. Laura tem até uma antagonista, a nova-iorquina arrogante chamada Nellie. Enquanto Laura adora a vida ao ar livre, Nellie está sempre preocupada em se manter bonita e faz amizade com a professora Wilder com o objetivo de se aproximar do irmão. Laura, que se desentende com a professora, tem para consigo mesma que não teria a menor chance. Até que:

(….) não podia chegar atrasada à escola. A um quarteirão da Rua Segunda, ela corria junto à calçada, quando de repente um brilhante carrinho parou a seu lado.

Laura olhou espantada, vendo os cavalos Morgan. O jovem Wilder tinha descido do carrinho, com o boné numa das mãos. Estendendo a outra, perguntou a Laura:

-Posso levá-la até a escola? Chegaria mais depressa.

Deu-lhe a mão, ajudando-a a subir no carrinho e sentou-se ao lado dela. Laura quase nem podia falar, com a surpresa, a timidez e o prazer de estar de verdade passeando no carro puxado por aqueles lindos cavalos. Eles trotavam alegremente, mas lentamente, e suas pequenas orelhas mexiam de um lado para o outro, esperando a ordem de trotarem mais depressa.

-Eu… eu sou Laura Ingalls – disse ela. Era uma bobagem o que tinha dito. Claro que ele devia saber quem era ela.

-Conheço seu pai, e já vi a senhorita aqui pela cidade. Minha irmã falava muito da senhorita.

-Que lindos cavalos! Como se chamam? – ela já sabia, mas tinha de dizer alguma coisa.

-Esta é a Lady e o outro, Príncipe – respondeu o rapaz.

Laura gostaria que ele os deixasse correr, tanto quanto podiam. Mas seria indelicado pedi-lo.

Pensou em falar do tempo, mas isto lhe pareceu outra bobagem.

Não conseguiu pensar num bom assunto, e só tinham andado um quarteirão.

No fim do capítulo, tive que parar de ler pra poder soltar todos meus gritinhos de felicidade e bater os pés de satisfação. Não é isso, no fundo, o que todos nós desejamos – que o amor verdadeiro nos alcance quando estamos distraídos?

A moça

Não sei se a casa estava desocupada antes, ela só passou a existir pra mim quando a moça se mudou pra lá. Uma casa que combina com a favela que não fica muito longe dali – de esquina, no fundo de um terreno sem grama e cheio de restos de construção civil.  Meu ônibus enfrenta uma boa subida quando passa por ali, quase se arrasta. Do lado oposto à porta, geralmente de pé, meu olhar pousa na casa quase sem querer. Quanto tempo eles estão lá, um ano? Mais ou menos por aí. Tem a mãe, não sei dizer se outros são parentes e tem a moça. A moça deve ter na faixa dos seus vinte anos; a calça dobrada sobre si mesma nos deixa perceber que ela não deve ter mais do que metade da coxa direita.

Acho que foi o acidente que levou a família a se mudar pra lá. Eu sempre me perguntei o que foi que aconteceu – ela estava numa moto com o namorado, estava assistindo um racha e foi atingida por um carro? Eu fico imaginando acidentes assim, de uma moça jovem que gostava de ser jovem. Você pode dizer que eu não tenho como adivinhar esses dados, mas tudo nela sempre me pareceu gritar: eu não era assim! Nos primeiros meses, de cabelos desalinhados, ela se arrastava lentamente da frente para os fundos do terreno. Suas muletas lhe pareciam pesadas e ela olhava para o vazio. Depois, a parte da frente da casa virou um bar. Num concreto que faz as vezes de banco, passou a sempre ter gente por ali, muitas moças e rapazes da mesma idade que ela. Ao longo desse ano, eu a vi de pé, eu a vi conversando com pessoas mais velhas, eu a vejo sempre com outra moça, eu a vejo com muita gente da idade dela. Eu nunca a vi sorrir.

Final de junho e da tarde, como sempre estou de pé no meu ônibus, do lado oposto à porta. Olho sem olhar para a casa e lá está ela. A moça está de pé, andando no meio de dois rapazes. Mas ao contrário de todas as outras vezes, seu cabelo está arrumado numa franja com gel para o lado. Ela usa uma jaqueta apertadinha e a calça dobrada imita couro. Eles estão de saída. Eu sorri.

dentro del capullo

Contra o amor

Depois que descobri esse clipe, assisti uma quantidade vergonhosa de vezes. Chorei feito noivinha, ainda bem que ninguém viu. Eu havia esquecido do sentimento que o clipe mostra: a crença no amor, de ver no outro uma esperança de um futuro, ter uma redoma de felicidade a dois. Todos buscam viver isso, mas não é algo que se produza por força da vontade. Como diz a música da Rita Lee, amor é sorte. E como a felicidade deixa todo mundo esplendoroso, né? Garrei amor por todos aqueles casais. O clipe é do canal do Jeneci. Jeneci, gente, quem é essa pessoa, o que faz e do que se alimenta. Ele já me viciou antes, com Dia a dia, lado a lado. Se não fosse o youtube me oferecer, não teria conhecido o trabalho dele. E é um trabalho que merece ser conhecido, tudo o que o tal do Jeneci faz é caprichado e lindo.

Aí fiquei com vontade de mandar o clipe pra minha amiga que acabou de casar. Só que o clipe – o que também é lindo – não tem nenhum preconceito com o amor, e mostra casamento de homem com homem e mulher com mulher. Minha amiga é de Igreja e provavelmente isso não faria sucesso no mural dela. Achei a cena tão chata e triste: ao invés de se comover com o amor dos outros, fazer um julgamento se aquilo pode acontecer ou não. Ser contra amor, contra felicidade. Que bom que não tenho “contrato” fechado com nenhum tipo de crença  e não preciso me preocupar com explicações ou certo e errado. Na minha concepção, feliz, amor e bem se misturam. Se deixou o meu coração quentinho, acho bom e quero mais é que cresça.

Uhu, roupinhas!

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Ganhei roupas de uma amiga fazendo limpeza no guarda-roupa. Cheguei em casa toda feliz, não apenas porque agora tinha roupa nova mas também porque eram umas que eu nunca provaria se tivesse visto na loja. Mas, ao mesmo tempo, ficaram tão bem em mim e são a minha cara. Aí pensei o quanto isso é legal, que se a pessoa só tem roupas que ela mesma comprou ou que foram compradas pra ela, nunca vai ter o prazer de vestir algo que ela jamais teria pensado.

Outro lado meu falou: nossa, como tu é pobre, nasceu pra ser pobre, tu gosta de herdar roupa. O primeiro respondeu: sou mesmo. E continuei feliz.

Curtas porque a vida é feita de pequenas vitórias

you can do

Num dia você tem dentes branquinhos e perfeitos e quer morrer de pensar em exibir dentes com braquetes de novo. Nem tanto tempo depois, acha que ganhou um presente porque o ortodontista concordou em, daqui há meses, trocar seis braquetes metálicas por estéticas.

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Meu supermercado voltou a vender Gengibirra, bem timidamente. Achei uma perdida na Páscoa, que abracei e levei como se fosse um ovo kopenhagen. Depois começaram a aparecer uma aqui e outra ali. “Vou aproveitar que não tenho nada pra levar e passar no super pra comprar uma Gengibirra”. Tem que mostrar pra eles que elas fazem falta.

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Nem te perguntei, Ernani, mas tenho que eternizar isso:

Viu, Fernanda? Tua foto está invadindo todos os espaços do Sul21. Quase todos os blogs foram grilados pela tua foto. Os colunistas devem ser os próximos. Mais umas horas e tua foto substituirá as ilustrações de todas as matérias. Primeiro o Sul21, logo o mundo.
Philip K. Dick poderia escrever um conto com isso.

Meio sacanagem colocar como vitória a ocasião em que invadiram um site que me hospeda, mas não é todo dia que chego perto de conquistar o mundo.

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Eu tinha uma sala de estar envergonhada, tudo meio branco, material de costura pelos cantos, bicicleta numa parede distante. Dia desses enfezei, e resolvi assumir de mim para mim mesma que ninguém nunca vem aqui, muito menos para jantar. E se por acaso alguém aparecer, vai ser um ou outra vez na vida. Reorganizei tudo, transformei num grande atelier de costura e deixei a bike bem visível e de fácil acesso. Cada vez que passo por ali sorrio e me parabenizo.

Viajante

Não sei se é a adrenalina da própria caminhada, ou se são os dias agradavelmente quentes, mas às vezes estou por aí com olhos de viajante e tudo me parece fresco e novo. Vegetações misteriosas, calçadas que mudam de cor, fachadas históricas, cenários de fotografia ignorados. Passo na frente de uma casa e alguém tira um chinelo da varanda, ou na mesinha dos fundos se prepara uma comida, e me sinto tão íntima deles que parece que a pessoa vai sorrir e dizer “Venha, entre”. Com a mesma naturalidade eu abrirei o portão e me sentei para ouvir histórias a tarde inteira, com o mesmo comprometimento de quem sabe que nunca mais vai voltar. Outra possibilidade é que na pausa para o lanche ou diante de uma vitrine uma observação seja feita, talvez por mim; isso gerará um sorriso, que gerará uma conversa cada vez melhor e um carinho que se enraíza por todos os lados, até no passado. Outro louco também por aí como se fosse turista, desarmado e de olho na copa das árvores. Porque não é com esse espírito que estamos quando vamos às cidades dos outros, abertos e disponíveis para os milagres?

Três curtas sobre o ponto

Visconde partido ao meio/ Italo Calvino

Dr. Drauzio, no livro Carcereiros, conta que parou de falar das suas experiências no presídio com os de fora. Como chegar para sua mulher e amigos, felizes num jantar, que ele tinha acabado de ver um jovem morrer ensangüentado e violado? Quem sabe Drauzio até sentisse alívio; em compensação, o jantar acabaria, os envolvidos sentiriam seu mundo como um lugar pior. E a respeito do jovem em si, nada mudaria.

 

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Antes eu acreditava que, duma maneira meio mágica, a franqueza, a sinceridade, a justiça, a não-violência e a felicidade podiam se combinar para o bem de todos. Era algo preciso, às vezes difícil, mas que existia. Se no seu devido tempo eu tivesse uma atitude correta, conseguiria ser justa com todos e não causar nenhum dano. Tem uma seita na Índia cujos adeptos andam com um pano tampando a boca e evitam colocar os pés no chão, que é pra não matar nenhum bichinho por acidente.

 

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O Luiz sabia muito a meu respeito, talvez tudo. Ele foi testemunha ocular de muita coisa, e o que ele não viu eu contei. Quando novos, nossa concepção de amor é assim: conheça-me por inteiro. Já não sei se mostrar meus esqueletos ajuda alguma coisa. Um dia um homem vai chegar com olhos felizes em me ver, e o que desejarei compartilhar com ele é mais e mais felicidade.

Vitória

Sabe aquela frase do Grande Sertão que todo mundo cita (até a Dilma usou na posse), que diz que o que a vida nos exige é coragem? É o que a elatem exigido de mim. Passei o mês inteiro chateada e atormentada porque tive que comprar uma briga. Como toda briga, existe sempre a opção de não comprar, de tentar se encolher até virar átomo e não não não. Mas eu percebi que me omitir me feriria muito, então fui adiante. Foram dias de dúvidas e gastos; tive crise de bruxismo, andei quilômetros sem destino, surtei no flamenco, enfim, fiquei um mês inteiro num estado insuportável. Mas fui, apesar de ter medo, de ter ouvido que era imprudente, que era arriscado, que eu não deveria. No fim – e só acabou realmente hoje – deu tudo certo. Mas não deu tudo certo apenas porque a questão se resolveu na direção que eu queria, deu tudo certo porque eu estava lá. Foi tão difícil, tão solitário e senti tanto medo. Aos trancos e barrancos, com outros problemas indo e vindo, o dia finalmente chegou. Naquela manhã, abri os olhos e soube que a questão estava ganha. Não que eu intuísse que o resultado me favoreceria, muito pelo contrário. A minha vitória era garantida porque a maior batalha tinha sido interna: eu dei ouvidos a mim e me arrisquei, apesar de todas as minhas inseguranças. Essa é a maior vitória que se pode desejar.

Gostosinho

 

Amigos: a leitura de João Ubaldo Ribeiro somado a um documentário do espetáculo 21 do Grupo Corpo, me levaram a uma importante descoberta filosófica. O grande segredo do bem, da arte, da felicidade e do Divino podem ser resumidos numa só palavra: gostosinho. Os religiosos apegados a noção de pecado colocarão o valor no outro lado, no desprazer; há um prazer masoquista no desprazer, mas mesmo ele é limitado. Basta uma distração e pronto: rumamos saltitantes para o gostosinho. Como a diferença de fazer exercício porque é importante e encontrar um esporte que realmente tenha a ver com quem somos. Outros, radicais no sentido oposto, podem dizer que gostosinho é pouco, que bom é o gostosão, intenso, orgástico. O problema é que parece que nem fisicamente somos preparados para isso, e nada do que é intenso dura muito. É como o desejo que aos poucos se transforma em amor, e todos sabemos que amor é gostosinho. Nem a comida gostosona nos atrai – dois dias de restaurante e já ficamos doidos pra comer uma comidinha caseira gostosinha. Sei que há trabalho exaustivo ali, mas quando vejo o Grupo Corpo dançando me parece tão gostosinho, tão fácil. Fico vontade de estar lá, saltitante no meio deles. Leio João Ubaldo e ouço um baiano falando, como se fosse uma transcrição, de tão gostosinha e fluida que é a narrativa. Os relacionamentos, a vocação profissional, a saúde, o estar bem consigo mesmo – o estado mais desejável de todos eles é o gostosinho. E não é quando as coisas deixam de ser gostosinhas que sabemos que está na hora de mudar? Larguemos todas as outras crenças, irmãos-leitores, e vamos tentar fazer da vida um dia ensolarado e ameno, numa rede, acompanhados de água de côco e a voz doce da Salmaso de fundo. Ou seja, gostosinho.