Utopias

dinheiro

Tem as estações tubo, o cobrador recebe o dinheiro para que não se cobre dentro do ônibus, e assim ele pode demorar menos tempo em cada parada. Eu pego ônibus numa estação de bairro, é comum os cobradores estarem batendo papo, assistindo TV, deve ser bem tedioso. Também é comum eles não terem muito troco. Já nas estações tubo centrais, os cobradores não param um minuto, não conseguem nem ao menos ir ao banheiro uma única vez durante todo expediente.

Uma vez eu estava conversando com um cobrador, e disse que na minha opinião os que trabalham nas estações mais movimentadas deveriam ter turnos menores. Ele pensou um pouco e disse que não dava, que atrapalha a escala, que a empresa não faria. Aí eu fiquei quieta, porque estava falando de um mundo ideal – num mundo onde a escala não é pensada nos termos mais cômodos e lucrativos, e sim que oferecesse condições mais justas. O mundo onde os carros são mais lentos para que as pessoas morressem menos.

Enfim, utopias. Para mim, um país que criminaliza arte e ciências humanas quer matar qualquer possibilidade de sonho.

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Sem troco para vinte reais

troco

Eu havia visto a discussão de manhã e passei muito tempo pensando nela. Depois voltei de ônibus e parei no tubo da frente e ainda eram as mesmas cobradoras. Quando eu já estava na rua, elas me pediram pra voltar. Eu achei que iam me pedir pra ser testemunha. A história do antes: uma moça tentou passar com uma nota de vinte reais de manhã cedo e a cobradora disse que não tinha troco. Quando eu fui pegar ônibus, vi uma moça fora do tubo mexendo no celular e paguei minha passagem. Entraram mais dois ou três. A cobradora disse para a moça que agora ela poderia passar, porque tinha troco. Dali a pouco chegou a mãe. A moça histérica, dizendo que “agora ela disse que pode”. A mãe mais grossa ainda, falando que pagava quatrocentos reais pra sei lá onde a moça ia e tinha que chegar 7:30h. Que faria a cobradora pagar. Que era a obrigação dela ter troco. Que a filha traria vinte reais todo dia naquele mesmo horário e ai dela se não tivesse troco. Um dos moços do tubo até gravou a briga e disse que postaria no FB. Quando o ônibus chegou, ouvi a mãe dizer: “eu nem ia falar nada, mas o meu marido é policial”. Ainda foi com um “nem ia falar nada” quando eu saí, mas depois soube que ela completou: “sabe como policial é louco, uma hora você pode levar um tiro na cara”.

De manhã cedinho, por causa de uma adolescente mimada, a cobradora do tubo foi ameaçada de morte.

O marido envergonhado

vergonha

Não sei se golpe é a melhor palavra para definir quando alguém conta uma história triste e falsa para fazer com que um desconhecido se disponha a lhe dar um pouco de dinheiro. Uma vez uma mulher me veio com uma história dessas, de uma passagem de ônibus, e me apontou para o marido e o filho envergonhados dela ter que pedir. Não dei dinheiro apenas porque não tinha nada, de verdade, estava perto de casa, mas minha reação foi bem diferente quando ela me abordou poucos dias depois. Talvez ela não fosse profissional o suficiente, porque deveria ter me reconhecido ou mudado de bairro. Mas, talvez ela fosse muito mais esperta do que eu ao perceber que o que dava veracidade à história não era nada do que ela dizia, e sim o marido. Lembro que ele desviou o olhar quando ela apontou pra ele, e me pareceu que ele estava realmente envergonhado de ter que deixar a esposa pedir dinheiro na rua. Foi ele quem me sensibilizou.

os que acreditam no cinismo e na maldade de todos os que não são “de bem”, mas eu acredito que ele podia estar sinceramente envergonhado, mesmo dando um golpe. Acredito na contradição humana. Acredito na ocasião que medimos entre o ruim e o pior, e mesmo a escolha pelo ruim sendo racionalmente justificável, não nos sentimos bem. Ouvi um motorista de ônibus reclamar de um sujeito que estava pedindo dinheiro; ele disse que quando a pessoa começava nessa vida, nunca mais arranjava um trabalho de verdade. As opções parecem ser: trabalho duro e honrado que paga pouco ou mendicância que exige menos e que paga mais. Mas há a humilhação, a vergonha. As caras viradas, as pessoas que fecham o vidro do carro, a sucessão de nãos. Os que dão com tanto nojo que deve dar vontade de enfiar a moeda na fuça. Eu nunca pedi esmola e já sei de tudo isso. Eu me pergunto o que a pessoa diz sobre sua profissão no primeiro encontro, como se defende do cunhado mala no churras da família. Ninguém escolhe entre salário de médico e esmola, assim como ninguém leva vida de classe média com esmola. Na minha opinião, o salário do duro e honrado anda baixo demais pra tanta cobrança ética.

Eu acredito no marido envergonhado. Não precisa aplicar golpes em estranhos pra ser marido envergonhado. Às vezes fazemos escolhas que são apostas no futuro. Às vezes ainda não chegou ou não estamos preparados pra dizer. Fora o pessoal do “cada enxadada uma minhoca”, quem nunca? O marido envergonhado me faz pensar naquelas definições de felicidade, das que se tornam cada vez mais impossíveis à medida que se vive: não ter vergonha de nada do que você é ou faz.

Vendas de humanas

calculadora

– E temos estes lençóis aqui, em promoção.

Olho para a pequena tabela em cima dos lençóis. Nela mostra que o preço antigo era R$ 169,00 e estava custando R$ 139,00. Ficamos naquela de “olha esse”, “tem esse outro”. Duas estampas bem diferentes tocam meu coração.

-Mas, não estou conseguindo pensar direito… de quanto é essa promoção?

-Está R$ 139,00.

-Digo, a porcentagem…

-Então, era R$ 169,00.

-…quanto isso é de desconto.

-Trinta reais.

– De desconto?

-Trinta reais a menos. Era 169,00.

Ficamos alguns segundos nos olhando em silêncio, numa guerra de quem tinha mais grilos na cabeça e bolas de feno enquanto fingíamos ser capazes de calcular de cabeça. Eu cheguei até o “multiplicar os 30 por 100 e depois dividir por 169″, mas eu vi que ela nem isso. Por algum motivo, adoro essas porcentagens nos descontos; se for dez, nem acho que realmente descontaram, e quando é 50%, mesmo que seja de R$ 5,00, acho que estou fazendo um baita negócio. Ela começou a olhar para o vazio, ao invés de tentar loucamente obter a informação, que era o que eu gostaria que ela tivesse feito. Quem mandou ser uma pessoa de humanas que não consegue saber se 30 a menos é barato o suficiente ou não.

(É quase 20%. Também sou contra darem desconto quebrado.)

A beleza do entorno

entorno

Acredito que a beleza tenha propriedades mágicas, que seja uma busca tão básica do ser humano como se alimentar e amar. Colo aqui um texto que escrevi em 25/abril/2016, chamado Beleza x Função:

Quando dizem que sem a beleza o mundo pode existir perfeitamente, as pessoas mais “de humanas” costumam ficar sem saber o que responder. A minha resposta é: cite ou me mostre, em qualquer tempo ou lugar, uma civilização onde as coisas sejam só funcionais. Onde a construção seja apenas uma cobertura, o caminho seja apenas um amontoado pra pisar. Mesmo da mais simplória das civilizações, já viu um vasinho que seja apenas um oco sem cor, sem simetria, sem textura? Não existe essa data anterior à beleza, a fase do funcional puro, onde apenas a partir daí começa a preocupação com o luxo que é fazer as coisas serem bonitas. Nós queremos mais. Sempre que possível, o homem tenta tornar o que o cerca belo e especial.

Acredito que a bandeira do belo é tão ou mais importante quanto a bandeira dos acadêmicos. Mesmo no meio da guerra (li há pouco A guerra não tem rosto de mulher) o ser humano não deixa de procurar a beleza, de ser subitamente arrebatado por ela, ser tocado de esperança na presença dela. O simples estar num lugar feio ou bonito nos afeta, mesmo que se feche os olhos, mesmo que se diga a si mesmo que é assim. Nesse “é assim” cabe tanta coisa, tanta injustiça. A pobreza é feia – feia na roupa, feia no corpo, feia na casa, feia na rua. Quando a coisa é feita com o que dá, com o que sobra, fica difícil deixar bonito. Vejo os programas de decoração, as transformações, e ninguém fica indiferente à sensação de viver num ambiente bonito, de ter orgulho de onde você está. Pena que isso não é – ainda? – considerado um direito inalienável do ser humano.

Duas alternativas ruins

gangorra

Talvez seja por querer, nós nos sentimos mal se reclamamos e nos sentimos mal se não reclamamos. Os erros das grandes empresas são sempre impessoais – não é culpa de quem te atendeu, não é culpa do que apareceu na sua conta, não é culpa da pessoa que você apela pra consertar. Por favor, aguardo, confirmo, espero, obrigada. Um exemplo: fui no banco fazer um saque e descobri que o meu cartão estava com a data de validade vencida. Fui imediatamente até um gerente, que pediu um cartão novo. Depois, no extrato, descobri que o banco me cobrou R$7,50 pelo cartão novo, discriminado como segunda via. Reclamar ou não reclamar, eis a questão. De um lado, minha vida não ser torna mais difícil ou mais fácil por causa de R$7,50, por outro foi uma cobrança totalmente injusta, porque eles não me mandaram cartão antes do que eu tenho expirar. Acabei indo atrás, por dois motivos: taxas de banco me enfurecem especialmente. Limites de saques mensais, limites do uso de caixa eletrônico, limites de transferência…. eles nos cobram por coisas que têm custo zero para eles. Fazem contando com a estatística de pessoas que preferem não se aborrecer ou não conferiram. Depois porque eu aprendi – não sei se é verdade, na minha cabeça faz sentido – que é nas pequenas lutas que a gente vai criando casca para as grandes. Então, entre ser mala ou trouxa, eu sou a mala que reclama de taxa, que confere se a promoção* saiu no ticket, que espera pelo gerente. Depois de mandar whats pra amiga que trabalha no banco, ligar pra ouvidora inutilmente e reclamar com o SAC, vão estornar.

 

*me deram uma dica ótima: tirar a foto da promoção do supermercado.)

Mente de pobre

cigarro

Eu falei, no outro blog, que o livro do Mo Yan é como um Casos de Família por escrito. O livro é muito legal, como um todo, mas tem uns casos específicos de rolar de rir, não tem como descrever. O protagonista é camponês na sua origem e o contexto social o permitiu subir de vida. Conto porque não é realmente importante. Eu ri muito do trecho que coloquei a seguir porque me identifiquei muito com ele. Conheci ao longo da minha vida pessoas realmente ricas, e não essa classe média com o nariz pra cima. Pessoas que acham que economizar é gastar menos na balada pra gastar mais na viagem, isso se precisarem um dia economizar. Que acham que só mendigos contam moedas, que toda escola pública dá comida, e outras visões tão distantes da realidade que é difícil até falar. Essas pessoas se vêm diferentes, elas têm certeza de merecer onde estão. Se é lindo e lhes agrada, é quase uma lei da natureza que deve ser delas. Quem não tem é porque não é lindo o suficiente. Já quem nasceu comum, mesmo que um dia ganhe muito dinheiro, sempre vai pensar:

Professor, tenho o vício de fumar. É um vício que já encontra várias restrições na Europa, nos Estados Unidos e até no Japão. Por toda parte, o fumante é lembrado de sua vulgaridade e de sua falta de educação. Mas aqui em nossa terra, por enquanto, ainda não existem tais restrições. Peguei o maço, tirei um cigarro e acendi com um fósforo. Gosto muito do leve cheiro de enxofre que se espalha no instante em que se acende o fósforo. Professor, eu estava fumando um cigarro Jin Ge, literalmente “pavilhão dourado”, uma marca local de preço bem elevado. Dizem que cada maço custa duzentos iuanes, ou seja, cada cigarro custa dez iuanes. Um libra, cerca de meio quilo, de trigo sai por oitenta centavos, ou seja, seria preciso vender doze libras e meia de trigo para poder comprar um cigarro dessa marca. Doze libras e meia de trigo poderiam virar quinze libras de pão e alimentar uma pessoa por pelo menos dez dias. Mas um cigarro da marca Jin Ge acaba em algumas baforadas. A embalagem era realmente magnífica, me lembrava o Pavilhão Dourado de Kyoto, em seu estimado país. Não sei dizer se aquele pavilhão realmente inspirou os designers da embalagem. Sei que o meu pai odeia que eu fume esse cigarro, mas só fez um comentário simples: “Carma ruim!”. Expliquei a ele, apressado, que não fui eu que comprei, ganhei de outra pessoa. A resposta dele foi mais simples: “Pior ainda”.

Mo Yan/ As Rãs, parte IV, 8.

Um curta leva a outro

quadros vudu

Um amigo meu, que tinha passado a infância numa favela, que me fez perceber o detalhe numa foto: a pessoa estava diante duma parede com tijolo à vista. “Olha, um favelado”. Num extremo, acho que estão as pessoas que bastou ter uma cobertura para elas se mudarem. Aí o reboco e outros acabamentos são luxos de quando o dinheiro permite. Já do outro lado está aquele que chega e a casa já está toda decorada, só falta colocar a própria cara no porta-retrato. Eu estou mais para a primeira ponta – em breve, serei capaz de decorar uma parede do corredor com quadros. Meu outro projeto é cobrir o mofo do teto do banheiro.

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Minha parede de quadros não é (apenas) pobrice, é que sempre tive uma dificuldade imensa em escolher figuras que me agradem. Não vou colocar mensagens de músicas que não ouço ou cara de pessoas que não admiro. Rejeito também cenários onde nunca estive ou até mesmo flores, já que não sou do tipo que olha para elas durante horas. Fiquei feliz da vida quando me apaixonei por três quadros da Vudu e encomendei. Quando chegaram descobri que a parede precisaria de mais. Quando chegarem, a dificuldade será comprar aqueles ganchinhos especiais de colar na parede. Sabia que eles têm limites de peso? Uma vez tive a ilusão que conseguiria resolver todos os meus problemas pendurativos com ganchos de colar e joguei dinheiro fora.

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Da minha dificuldade em comprar roupas já falei mais de uma vez. Há quem diga que eu tenho estilo, o que eu nego. Ou talvez tenha, mas de forma negativa. A pessoa cheia de estilo, suponho, tem conhecimento de moda e amor às escolhas. A única vez que me identifiquei com o processo de escolhas de alguém foi quando vi Atypical. Pra quem não conhece, o protagonista da série tem um grau leve de autismo. Pra incrementar o visual, ele tenta não vestir sempre a mesma coisa, que tinha um corte e tecido específicos. Mas a jaqueta moderna cheia de metais o irrita, por causa do barulho, e ele joga fora. Meu processo é o mesmo, eu visto o que sobra de uma lista de rejeições.

Meu tempo

lavatorio-salao

Eu cheguei um pouco antes do horário e minha cabeleireira estava atendendo uma moça, muito normal. Na despedida ela disse algo como “nossa, obrigada, vou ver sim”. Aí ela veio me chamar, conversamos rapidamente sobre o que eu queria e fomos para o lavatório. Aí, enquanto ela lavava o meu cabelo, a moça voltou com o celular na mão. “Olha aqui as fotos”. Aí ela mostrou que a casa tinha um deck que dava para um lago. Várias fotos. Eu não vi nenhuma, porque estava no lavatório e a mão em cima de mim. A casa era do lado de uma comunidade, uma “seita de yoga”, e a casa pertencia a um dos caras da seita, era onde ele vivia, mas alugava para temporada, para gente de estreita confiança, como ela e o marido com filhos. Olha aqui, que demais. Olha essa vista. Que pechincha. Eu te indico. Ela era realmente bem relacionada, baita férias. O que eu sei é que me vi detestando a mulher. Seita de yoga, pechincha exclusiva? Então descobri que a gente paga, também, pela atenção total do nosso cabeleireiro, que a parte da fofoquinha faz parte do pacote. E que eu me importo.

Curtas sobre profissionalização

profissionalizacao-01-760x400Já entrei na fase de ter que fazer vários exames chatos todo ano. “Você já fez antes?”, perguntam cheios de dedos. Aí a gente se pega já tirando a roupa, colocando os peitos pra fora pra moça, abrindo as pernas, olhando pro lado. Faz aí.

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Eu estava sentada no banco do ônibus ajeitando meus pacotes de compras e um sujeito me estendeu um papel. Nem olhei, fiz um gesto de recusa com a mão. Depois o vi recolhendo o papel e ninguém tinha dado nada. Método errado. Tem dias que ouço histórias comoventes de superação após largar as drogas, gente puxando oração, brindes dados de coração, artigos que custariam o dobro na loja e nem salvam vidas, gente que toma fitoterápico pro joelho que o SUS não cobre, piadistas. Vê se alguém que só distribui papel tem chance hoje em dia.

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Dois tuites meus viralizaram de maneira assustadora. Um deles falava de veneno de rato e o outro de classe média. O segundo foi parar em pelo menos duas páginas do Facebook. Não queria ver a repercussão, mas me mostraram. Como vocês podem imaginar, não tem limites. Teve até gente que copiou como se fosse a sua experiência pessoal. Também disseram que eu criei o tuíte apenas para ganhar likes. Que sonho seria se eu tivesse essa capacidade de adivinhar o que as pessoas querem ler.

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Séries Netflix: só com indicação. Os trailers das de humor são assustadores.

 

Un manoir à Neufchatel, ce n’est pas pour moi

Todo mundo já foi lá, então não sabiam me indicar certinho o endereço. “É uma casa na frente do Parque Barigui”. A localização não é ótima apenas por ser um parque – morar na frente do Barigui significa morar, no mínimo, numa casa muito boa. Mais provavelmente numa mansão. Aí me deram umas indicações, fica no meu caminho quando passo de bicicleta, eu apenas não sei qual delas. Voltando da aula, com minha roupa de pedalada e mochila nas costas, passei reparando e achei. Pode ser uma casa enorme que fica à esquerda ou uma mansão estonteante que fica à direita. Só vai ser meio chatinho à noite, se ninguém me der carona. Cada vida tem suas características, seus desafios, e eu percebo que a minha me faz conviver com grupos muito diferentes. Há pessoas que dizem: “não conheço ninguém que voltou na Dilma”, ou “todos meus amigos são do mundo artístico”, ou “somos um grupinho dos que estudaram no Colégio Tal”. Eu nunca, sempre foi tudo muito misturado, tão misturado que jamais poderia colocar todo mundo no mesmo ambiente. Um dia ouço uma mulher falar do período que passava fome e no outro a que reclama de ter ir a Europa de novo. Olhei para a casa que ainda conhecerei, e lembrei de um amigo que reclamou que eu não o levava junto quando tinha convite high-society. Ele queria ir mesmo sem conhecer ninguém, via como oportunidade. Em compensação, tem outra que poderia e faz questão de não ir. Olhando as mansões de bicicleta, lembrei que muitos de lá dentro tem a mesma idade que eu, de carne o osso também, quem sabe até menos qualificados. Em algum lugar, quem sabe, eu devesse desejar estar lá, lutar para isso, não perder tão feio quando sou comparada aos meus primos. Deveria não estar tão feliz apenas montada numa bicicleta, com dinheiro contado e escrevendo coisas que caem sem efeito no mundo. Mas eu realmente nunca quis, nunca fiz por onde, é como se em algum momento tivessem dado o sinal de largada e eu não ouvi. Não sei se é porque nunca quis ter filhos e não tenho que deixar um legado. Talvez seja porque a gente aprende desde cedo a não sonhar com o que está longe demais – sou de humanas, curso de humanas não enriquece. Zaz, pensei. A moça que ganhava dinheiro cantando nas ruas. A música que me soou tão adolescente. Quem sabe também me diga respeito.

E por falar em uísque…

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Ele era motorista de uma empresa e vendia uísque falsificado para casas noturnas. Para elas, dizia que era um uísque que comprava do Paraguai, mas na verdade ele vinha de São Paulo. Uns caras falsificavam embalagens e envasavam. Quando levava para os compradores, tinha que ter cuidado até para não balançar a garrafa, senão o conteúdo fazia bolhas. Os quarenta reais que os clientes gastavam em uma única dose era o mesmo valor da garrafa para os donos dos bares, e dos quarenta, dez ficavam com ele – sabe lá Deus o preço de custo para o pessoal de São Paulo. Com o valor do contrabando, muito maior do que o seu salário, em seis meses o motorista pode quitar a sua casa e o carro. Numa noite, um completo estranho bateu à sua porta, dizendo que soube que ele vendia uísque falsificado e queria comprar dele. Desconfiado, o motorista negou tudo, fechou a porta na cara do sujeito e passou a noite em claro. Só poderia ser a polícia, que descobriu o seu esquema. Decidiu ali se conformar com que já havia ganhado e que o excesso de ambição poderia lhe custar a liberdade. No dia seguinte, voltou a ser apenas um motorista.

Curtas sobre inveja

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Eu tenho o livro da Coleção Plenos Pecados sobre Inveja. Tenho por motivos sentimentais, porque a história em si não me conquistou. Ela mistura dados estatísticos com uma história nada convincente. Nesses dados, eu lembro, fala do quanto a inveja é sempre um sentimento dos outros. Já Elena Ferrante faz quase um tratado sobre inveja e me pergunto se ela tinha consciência disso ao escrever.

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Tem umas santas informais em Curitiba, e um dia passou a história de uma delas, que era uma empregada maltratada pela patroa. A patroa era ruim com ela como madrasta de contos de fadas. E apesar de maltratar a menina de todas as formas, ela ainda lavava roupa cantando, o que enfurecia a patroa. Quando tenta tirar tudo de alguém, tudo o que está a seu alcance, o que o invejoso tenta é tirar a alegria.

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O que me faz voltar a frase mais fabulosa de todas, já falei dela aqui, do Kibe: o que querem é perceber que você sentiu o golpe.

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Obviedade não tão óbvia que me falaram: a inveja nunca é do ter e sim do ser. Realmente. Se fosse assim, só teria gente invejando quem tem Ferrari, não quem anda de ônibus, falando a grosso modo. O invejoso pode dizer para si mesmo que o problema é o emprego, sorte, beleza e etc que ele não tem, mas essa seria a segunda camada. Por ordem: achar que não tem inveja, achar que tem inveja de algo exterior, inveja do ser.

Curtas gastando dinheiro (ou não)

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Lembro da primeira vez que entrei numa loja Hering, do quanto fiquei indignada com o preço. Nos anos 80, junto com Sulfabril, Hering era sinônimo de roupa básica e barata, camiseta branca.

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Agora as Havaianas estão assim. Ok, os gringos já amam faz tempo, mas precisa um chinelo custar 40 reais? E as últimas que eu comprei soltaram as tiras bem rápido.

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Lembro que uma vez li como eram várias coisas com a idade, e pra lá dos sessenta o jeans era “aqueles com elástico”. Não cheguei em jeans com elástico ainda, mas os de hoje fazem com que eu me sinta uma salsicha amarrada: gordurinhas saltando pra cima, quase gangrenando na panturrilha.

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Mal comprei um Kindle e já necessito como se não conhecesse outra forma de viver.

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… e já tenho mais livros baixados do que consigo ler. Tudo de graça. Eu, que escrevo. Bem…

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Empresa de gás oferece os seguintes brindes a cada pedido: balde, vassoura, prendedor de roupa, rodo, pote com tampa e suporte plástico para botijão. “Que coisa mais estúpida”, pensei assim que vi, “achar que a gente vai pedir gás deles pra ganhar esses brindes baratos”. Hoje: colecionadora de baldes.

Mente matemática

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Eu sei que, invariavelmente, a minha mão tem cinco dedos, mas sempre preciso dar uma conferida, ou até tocar, quando vou fazer conta. A calculadora do Windows fica bem visível. Nunca esqueci quando li que o Google também serve de calculadora, é só colocar a conta no lugar da busca. E no celular, é um aplicativo que está na tela inicial, assim que a gente desbloqueia. Mas ele não estava comigo, porque fui no supermercado só com a carteira. Uma compra pequena, nenhum item urgente, mas gosto de ir no supermercado naquele horário por estar sempre vazio. E não é bom deixar acumular. Queijo em promoção, atum em promoção, o pão de sempre, peguei o hábito de beber leite em caixinha na tentativa de diminuir o café e não voltar a ter leite em casa. Estou indo pro caixa, olho para os produtos na cestinha e decreto que daria uns cinquenta reais. Deu R$ 45,37 e fiquei perguntando onde é que tem um Rain Man dentro do meu cérebro.

Curtas de amar é voltar

amar é voltar

Passo por um ponto de ônibus daqueles feitos de duas coberturas pequenas e um banco sem encosto. Tem um cachorrinho preto que adotou aquele ponto. As pessoas se sentam no banco e ele fica rondando e querendo carinho. Se elas não dão, ele late daquela maneira aguda que só um cachorro contrariado é capaz.

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Me impus, com as cortinas de box, a mesma regra que uso para as roupas: nunca substituir uma velha por outra igual. Faço isso porque senão sou capaz de passar anos a fio com as mesmas peças e as mesmas combinações, algo como o guarda-roupa da Mônica. Só que a atual cortina de box, de todas que eu já tive, é a que eu mais amo: poás rosas e laranjas distribuídos de forma assimétrica. E tem ainda pra vender. Então, para me obrigar a trocar, comprei outra na China e estou deixando a atual embolorar à vontade. Já está um nojo e deus sabe quando chega a outra.

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“Foque na vulgarização da sua página, sítio da Internet, diário virtual para ter mais visualizações e também recomendações da página”. Que susto, ainda bem que era spam.

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Tinha uma loja que eu ia com o ex, comprar coisas pra mim. Ele e o dono ficavam conversando e no final ele nos dava um desconto. Fiquei um tempo sem ir, fui sozinha, ele percebeu e foi profissional, ok. Mas deixei de ganhar desconto. Ok também. No final do ano ganhei uma caneta com a logomarca da loja. Não é que a bandida é uma delícia e adoro escrever com ela?