Uma mulher para empurrar

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No filme sobre Gonzagão, ele fala para o filho, Gonzaguinha, algo como “mulher é como batida de automóvel, ela que empurra o homem para frente”. No caso de ambos, uma excelente administradora para a carreira de um e uma péssima madrasta para outro.

“Meu filho teve uma fase que só namorava mulherão”, ela me contou. O mais bonito de uma prole bonita, sempre chamou muita atenção, e escolhia as mais mais. Um vizinho morria de inveja, dizia que era desfile. “Não serviam para nada, apenas para serem bonitas”. A mãe alertou que ele não iria para lugar nenhum com aquele tipo de mulher. Ele amadureceu e parou.

“Eu tive um amigo que tinha uma noiva que tinha sido capa da Capricho. Sofreu um acidente de carro e foi parar na U.T.I. Ela nunca o visitou. E pensar que eu ia casar com ela, ele me disse”.

Além desse caso do amigo, eu poderia falar sobre aquela que é a pior união que eu conheço, a que fez a frase do Gonzagão fazer todo sentido para mim, só que no sentido negativo. Mas era pessoal demais pro horário.

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Saudades do Gonzaguinha

Sempre fui contra essas nostalgias, principalmente musicais, de dizer que está tudo se estragando, as novas gerações não sabem o que é bom, etc. O que a pessoa que diz isso espera que se faça? A música, as roupas, os costumes e a cultura estão sempre mudando; mesmo se quisessem, as novas gerações nada poderiam fazer para retomar o que de bom ficou no passado. Ao mesmo tempo, a gente percebe de maneira definitiva que está envelhecendo quando se torna uma testemunha de algo que não está mais lá. Gonzaguinha faz com que eu me sinta assim, num restinho dos 70 e infância anos 80, uma época de dores e alegrias particulares.

Na faculdade, um professor explicou a visão da Escola de Frankfurt sobre a perda da aura musical que a reprodutibilidade técnica nos faz ter. Se ouvir um arquivo de música clássica era tão pobre, perguntei, se eu pegasse um pianista, uma partitura, um instrumento afinado tal como na época e ele tocasse para mim, adiantaria? Não, porque eu não tenho mais a cultura, a sensibilidade necessária. Na hora isso me pareceu muito radical, mas quando vejo sinfonias e suas complicadas sutilezas musicais que duram mais de meia hora, penso que aquilo realmente não foi feito para pessoas com o tempo contado, incapazes de pararem quietas, que fazem várias coisas ao mesmo tempo. Um exemplo mais simples: num DVD do Nat King Cole que a Luciana me mandou, percebi muitas referências ao verão, ao sol, do quanto é bom quando o tempo fica ensolarado e podemos ir ao parque, à praia, fazer piquenique. Naquela época, sem ar condicionado, carros e shoppings em profusão, as pessoas ficavam muito mais à mercê das condições climáticas. Então após meses de inverno, enfurnados em casa, deveria ser mesmo bom sair ao sol. Por falar em condições climáticas, uma vez uma coletânea da Jovem Guarda me fez perguntar à minha mãe: “Era comum na sua época as pessoas aproveitarem que está chovendo pra começar a chorar?”
Voltando ao Gonzaguinha: hoje não temos mais cultura pra ter um Gonzaguinha. Pra começar, ele era feio. Saudades disso, da possibilidade de ter um ídolo que nos parece feio à primeira vista. Um homem que aprendemos a olhar com calma, ouvir a sua voz e aí sim descobri-lo bonito, interessante. É no que Gonzaguinha tem de tão comum que o faz especial, na sua maneira de parecer tão próximo, tão amigo nosso. Ele não era o mais bonito, o mais sexy, não tinha uma voz poderosa e nem as composições mais intrincadas. São letras bonitas, intimistas. Suas músicas falam muito de otimismo, de pé na estrada e de amizade, de ver no outro um companheiro de luta – três coisas tão, mas tão fora de moda! Era uma outra época, uma época de grande violência mas também de esperança. Essa segunda parte a gente perdeu.

Gonzaguinha também era muito sensível às mulheres. De Frenéticas a Bethânia, quantas composições suas não ficaram inesquecíveis nas vozes femininas. Em primeira pessoa, ele coloca a mulher tão plena de histórias quanto os homens; como um homem que ama uma mulher, ele é apaixonado e desejoso sem ser vulgar. A mulher que Gonzaguinha ama nas suas músicas não é aquela que foi duro de conquistar, porque era a mais gostosa; também não era mais uma no meio de tantas que ele pegou e pegaria. A mulher das suas músicas tem cheiro, textura e uma vontade de estar próximo, de demonstrar de maneira física o que sente por ela. Aí ele compara com o sexo com mamão e mel, que me faz lembrar: na década de 80, e suponho que em várias décadas anteriores, a gente sentava na varanda pra comer fruta. Não porque é preciso comer frutas pra ser saudável ou pra regular o intestino, a gente comia fruta porque era bom. 

Há quanto tempo não sento com um prato de frutas no colo, descasco calmamente e como. Mudamos todos, mudamos muito, desde que Gonzaguinha nos deixou.