Curtas possíveis

Não poderia ter tatuagem nem se quisesse, por ser alérgica, mas isso não me impede de ter tatuagens imaginárias. Uma grande tatuagem, na realidade. Tenho tanto ciúmes dela que nem vou contar como é pra ninguém imitar. Numa das variantes, ela tem uma frase, tirada de uma música francesa. Me disseram que na França ela é bem conhecida, porque Bourvil é como se fosse o Chaplin deles. O verso que eu escolhi diz que “entre escombros, eles dançavam”.

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Por outro lado, fiz uma única tentativa na vida de ler o Diário de Anne Frank e parei nas primeiras páginas. Ela tinha um jogo com as irmãs de imaginar o que fariam se pudesse ir pra qualquer lugar no mundo exterior, naquele instante. A noção de ter que arranjar estratégias para não se abater numa realidade tão pequena foi demais pra mim.

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Por influência do Milton, comecei a ler Karl Ove, um novo autor querido do mundo. O anseio dele se resume a querer “ser uma pessoa decente”. Ele foi descrevendo com tanto brilhantismo as coisas mais prosaicas, que até me animei – também sou prosaica, quem sabe um dia consiga escrever um livro assim. Aí no segundo volume (é uma série que terminou recentemente no sexto), ele faz um troço que, bem, não somos prosaicos do mesmo modo.

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O nível de decepção das pessoas com as pessoas me faz pensar que talvez eu viva há tempos num lugar escuro, porque ninguém me surpreendeu tanto assim.

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O Miguel Araújo lançou essa música agora. Só mesmo alguém longe, em outro país, vivendo uma situação totalmente diversa, pra escrever isto agora. Saudades de comentar amenidades aqui com todo direito e naturalidade. Saudades de ser leve. Saudades de me incomodar com minhas próprias picuinhas.

 

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Matérias do coração

Enquanto o país se mobilizava com o ataque sofrido por Bolsonaro, eu mal conseguia prestar atenção. O desastre do dia foi a Dúnia não conseguir apoiar a pata no chão. Ela havia passeado normalmente e duas horas depois estava trípede. Já era final da tarde de véspera de feriado e eu teria que esperar até o dia seguinte. Quis entrar em contato com o ex, que ele me acalmasse, instruísse, enfim, que dividisse esse peso comigo. Ele já está casado e eu não gostaria que o meu marido tivesse uma ex que liga em véspera de feriado desesperada com o cachorro. Usei o método de imaginar o que ele faria, a voz da razão que internalizei depois de tantos anos de convívio. Ele não apenas me mandaria dormir, como tomar um bom café da manhã para não passar fome durante ou depois da consulta. No fim deu tudo certo e ganhei mais uma estrelinha de vida adulta. Foi só sair de manhã, entrar em táxi, ver a veterinária e ser cutucada que a Dúnia já estava correndo como um filhote. O diagnóstico foi: frio e velhice. Além do anti-inflamatório, ela vai ter que tomar reposição de cartilagem pro resto da vida; como é meio impossível dar remédio para a Dúnia, isso lhe garantirá um pedacinho de salsicha pro resto da vida também.

Lembrei desta música do Miguel Araújo. Na introdução a ela no DVD do Cinco Dias e Meio, ele diz: “Se há um grande desastre, uma terremoto ou um maremoto na China, morrem milhares de pessoas e a pessoa fica um pouco incomodada; se há uma epidemia, uma doença qualquer na Espanha, e morrem dez, já é um pouco mais; e se morre um vizinho do lado, aí sim o acontecimento fica trágico”.

 

 

Fã clube

Minha amiga Bárbara é fã do Chico Buarque. Eu também adoro Chico Buarque, mas ela é fã, é diferente. Já tivemos várias conversas sobre as músicas dele, ela sempre preferindo-a qualquer um dos seus interpretes. Quando alguém diz (eu fiz muitas vezes) que ele é um excelente compositor e não cantor, ela se irrita. Não adianta argumentar questões técnicas como alcance de voz e etc, para ela o Chico é o melhor cantor das músicas do Chico e pronto.

Passei a vida inteira imune ao gene de ser fã e agora, bem… Uma amiga definiu assim: claro que ela tinha que ser fã de um português que ninguém conhece. Fiquei sem graça, porque fica parecendo que escolho minhas músicas em função de não ter ninguém do meu lado que goste, e não é assim (pelo menos com músicas). Ser fã nem ao menos é escolha. Agora, só agora entendo a Bárbara. O melhor interprete pro meu amado Miguel Araújo é o Miguel Araújo.

Será falta de chocolate?

Pensei em falar sobre o professor Victor, que tinha acabado de voltar de Paris 7  e falava das Paixões Tóxicas na Adolescência, tese que ele tinha acabado de defender. Estar apaixonado, adolescentemente apaixonado, era como usar droga. Pensei em falar de drogas, da DMT (documentário Netflix) que leva a estados de viajar pelo universo, conversar com as células, sentir o amor que permeia tudo. Pensei em Bhakti Yoga, em meditação, no grande objetivo que é controlar a mente, termo que me confundiu durante muito tempo, e hoje me parece que é mais uma retirada do que uma imposição. Do quanto eu meditava e me isolava na adolescência até ver de nada importava a paz de espírito cheia de exigências, que eu deveria conseguir me manter equilibrada no turbilhão da vida.

Mas o mais honesto mesmo é dizer: passei a vida incólume a esse sentimento, me sentindo meio superior e sentindo pena, mas finalmente chegou: virei uma fã.

Em fuga

É como estar no Eu sou a lenda.  Ver gente que eu achava legal – e diria até que com um esforço consciente pra ser mais legal do que sua posição de classe dispõe – achando que “até que não é má ideia” as diversas violências que tem sido legalizadas nos últimos dias está muito difícil. Conhecer gente nova? Eu não duvidaria nada que o galã bem nascido espancasse o flanelinha com a maior naturalidade na saída do jantar. Porque, pelo menos no discurso, as coisas estão assim.

Tenho tomado doses cavalares de Miguel Araújo.

Doçura

Tenho sentido uma falta imensa de doçura, imensa. Apelo para doçura nas maiores doses que posso e sinto que ela adere em mim com um hidratante numa pele muito ressecada, que afina pouco e pede mais e mais. Um lado sente que precisa salvar o mundo do desmoronamento, outro que suas liberdades correm o risco de serem podadas antes mesmo de criarem raízes, e os dois se sentem perdedores. E se armam. Na minha busca por doçura, tenho ouvido muita música portuguesa, de quem sempre ouvi que desprezamos as raízes mas de quem herdamos o coração bom. Ouço a música deles e acredito.

Anda comigo ver os aviões

“Eu nunca pensei que na minha idade ainda fosse possível”, diz a pessoa madura apaixonada. Poderia falar dos adolescentes ou quase adultos que conheço, que pula na cama da mãe às três da madrugada porque descobriu que é correspondida; das conversas infinitas da outra testando o clima, ambos lindos, interessados e sem a menor consciência disso; ou do que terminou, e semanas depois terminou definitivamente, agora sem amizade, sem mensagens, sem pretexto para manter contato e a dor não para de doer. Tudo tão pouco adulto. Adultos miram. Adultos conversam, pesam prós e contras. Adultos sabem que sexo é bom mesmo quando é ruim. Adultos não se cobram e nem exigem perfeição. Adultos combinam. O sim é todo mais fácil e o não, depois de outros tantos, já encontra estratégias de restabelecimento prontas. Mas nada disso é…