Constante

mendigo

Agora a cada parada de ônibus tem alguém para “interromper o silêncio da viagem de vocês”. No meu supermercado a segurança não dá conta de tirar todos os mendigos do caminho, então sempre tem algum, em uma das saídas, para causar incômodo com sua falta de banho, roupas rasgadas e falando de fome. O mesmo sujeito me pediu dinheiro no terminal, na ida, e depois me pediu dinheiro no ônibus, na volta. A história de fitoterápico fortíssimo para doença degenerativa talvez não cole com ninguém com o mínimo de instrução, mas ele tinha o rosto retorcido de uma maneira que não é possível fingir então, tanto numa ocasião como outra, as pessoas ajudaram. Eu ajudei na ida e não ajudei na volta. Num supermercado comprei um café com leite pra um, no outro estava espantada diante de uma compra leve que saiu mais de cem reais, então não olhei e fingi que não ouvi, e o mendigo se queixou da minha falta de consideração de nem ao menos olhar para ele. Voltei para casa convicta da minha falta de trocado, que era verdadeira, mas com o coração apertado. Outro dia, naquele mesmo supermercado mas em outra saída, eu ajudei um homem que estava abordando pessoas, uma depois da outra, e elas lhe ignoravam. Eu estava subindo a rua e observava. Quando ele chegou perto de mim, não consegui ser dura com ele, não depois de ver aquela cena se repetir tanto. “Graças a Deus a senhora parou pra me ouvir, eu estou aqui há mais de uma hora…”. Eu não acreditei em uma palavra do que ele disse sobre passagem errada, mas lhe dei uns trocados. Eu tinha trocado e não estava me sentindo pobre. Para mim o tempo também parece estar correndo contra, eu também não sei o que fazer. Será que aquele pra quem eu nem olhei estava realmente com fome? Meu mundo está se desfazendo. Será que eu tinha a obrigação moral de entregar pra ele os meus dez reais? Tudo o que eu acho importante pra sociedade está sendo jogado no lixo, e a indiferença dos que têm posses me enlouquece. Vi um colega num carro todo caro e ao invés de ficar interessada vi naquilo a injustiça do mundo. Quase voltei, o mendigo não ia sair do lugar, mas é uma subida tão difícil. Me dei desculpas até chegar em casa. Vai me fazer falta. Vai mesmo? Não tanto quanto faz a ele, mas vai. Este mês, em especial. Eu também não sei mais o que fazer de mim. Eu estou perto deles, eu também sou eles.

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O marido envergonhado

vergonha

Não sei se golpe é a melhor palavra para definir quando alguém conta uma história triste e falsa para fazer com que um desconhecido se disponha a lhe dar um pouco de dinheiro. Uma vez uma mulher me veio com uma história dessas, de uma passagem de ônibus, e me apontou para o marido e o filho envergonhados dela ter que pedir. Não dei dinheiro apenas porque não tinha nada, de verdade, estava perto de casa, mas minha reação foi bem diferente quando ela me abordou poucos dias depois. Talvez ela não fosse profissional o suficiente, porque deveria ter me reconhecido ou mudado de bairro. Mas, talvez ela fosse muito mais esperta do que eu ao perceber que o que dava veracidade à história não era nada do que ela dizia, e sim o marido. Lembro que ele desviou o olhar quando ela apontou pra ele, e me pareceu que ele estava realmente envergonhado de ter que deixar a esposa pedir dinheiro na rua. Foi ele quem me sensibilizou.

os que acreditam no cinismo e na maldade de todos os que não são “de bem”, mas eu acredito que ele podia estar sinceramente envergonhado, mesmo dando um golpe. Acredito na contradição humana. Acredito na ocasião que medimos entre o ruim e o pior, e mesmo a escolha pelo ruim sendo racionalmente justificável, não nos sentimos bem. Ouvi um motorista de ônibus reclamar de um sujeito que estava pedindo dinheiro; ele disse que quando a pessoa começava nessa vida, nunca mais arranjava um trabalho de verdade. As opções parecem ser: trabalho duro e honrado que paga pouco ou mendicância que exige menos e que paga mais. Mas há a humilhação, a vergonha. As caras viradas, as pessoas que fecham o vidro do carro, a sucessão de nãos. Os que dão com tanto nojo que deve dar vontade de enfiar a moeda na fuça. Eu nunca pedi esmola e já sei de tudo isso. Eu me pergunto o que a pessoa diz sobre sua profissão no primeiro encontro, como se defende do cunhado mala no churras da família. Ninguém escolhe entre salário de médico e esmola, assim como ninguém leva vida de classe média com esmola. Na minha opinião, o salário do duro e honrado anda baixo demais pra tanta cobrança ética.

Eu acredito no marido envergonhado. Não precisa aplicar golpes em estranhos pra ser marido envergonhado. Às vezes fazemos escolhas que são apostas no futuro. Às vezes ainda não chegou ou não estamos preparados pra dizer. Fora o pessoal do “cada enxadada uma minhoca”, quem nunca? O marido envergonhado me faz pensar naquelas definições de felicidade, das que se tornam cada vez mais impossíveis à medida que se vive: não ter vergonha de nada do que você é ou faz.

Alguma dignidade

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Gosto de fazer compras à noite, as vantagens são inúmeras. Eu já morei num bairro que também tinha muitos prédios, mas todos com lojas embaixo, então havia sempre um movimento em qualquer horário. Aqui não, é uma região muito mal servida de comércio, passo quase o tempo todo por portarias e grades que me permitem adivinhar quadras, salões de festas, garagens. Passam por mim alguns poucos passeadores de cães, pessoas indo e voltando da padaria, vejo acenos de pessoas aos seus caronas já quase dentro dos prédios. Por isso aquele casal chamou minha atenção. Ele, da minha altura, um rosto latino que não soube identificar. Ela, provavelmente da mesma região, com uma enorme gravidez. Um carrinho com um bebê e uma criança. Nossos olhares se cruzam de maneira neutra e sigo para o supermercado, eles para a direção oposta. Quando estou voltando, alternando o peso das sacolas nas duas mãos, os vejo de longe remexendo a lixeira de um dos prédios. Ajeito as sacolas, espero os carros passarem, atravesso a rua e isso lhes dá tempo de fecharem rapidamente a lixeira. Quando passo por eles, voltaram a ser um casal andando com os filhos pela noite. Pensei no que tinha nas sacolas e na carteira, mas a única coisa que eles queriam de mim era a manutenção da sua dignidade.

Trauma da fome

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Eu tive até que pedir oração na igreja por causa do trauma que eu tenho de passar fome. Eu saía do trabalho e qualquer dinheiro que eu tinha eu ia pro supermercado comprar comida. Minha filha dizia “para, mãe, vai encher de caruncho!”. Eu estava com vinte e seis sacos de arroz e trinta de feijão. Peguei os bons, coloquei em garrafa pet e tampei bem, os outros eu joguei fora. Doeu. De saco de macarrão eu tinha mais de quarenta. Aí eu parei. Mas agora está voltando.

Ouvi uma noite dessas, no ônibus.

Calcinhas e cuecas

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Quem está em cima acaba sendo insensível com quem está embaixo sem saber. Dia desses eu estava contando as moedinhas pra não entrar no vermelho e estava para receber um dinheirinho. Só que para a pessoa que me devia aquele era um dinheirinho tão dinheirinho, que tanto fazia me pagar naquele momento ou semana seguinte.

Roupa íntima a gente joga fora quando fica feia ou esgarçada, e muita gente passa a tesoura nelas antes de se livrar. Eu fui informada há anos que em hospitais com grande fluxo de gente, eles repassam as doações de roupas íntimas para os mais pobres. Há pessoas que, quando sofrem acidente e tem a roupa cortada, não têm condições de repor nem a roupa íntima.

Uhu, roupinhas!

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Ganhei roupas de uma amiga fazendo limpeza no guarda-roupa. Cheguei em casa toda feliz, não apenas porque agora tinha roupa nova mas também porque eram umas que eu nunca provaria se tivesse visto na loja. Mas, ao mesmo tempo, ficaram tão bem em mim e são a minha cara. Aí pensei o quanto isso é legal, que se a pessoa só tem roupas que ela mesma comprou ou que foram compradas pra ela, nunca vai ter o prazer de vestir algo que ela jamais teria pensado.

Outro lado meu falou: nossa, como tu é pobre, nasceu pra ser pobre, tu gosta de herdar roupa. O primeiro respondeu: sou mesmo. E continuei feliz.

O jegue e a dureza

Duas coisinhas interessantes que meu pai me contou:

– Quem é do sul não faz ideia, mas o jegue é um animal que não suporta ficar sozinho. Se você prende ele sozinho numa árvore, no dia seguinte ele vai estar morto, ele vai ter se matado de tanto puxar a corda. Se você prende ele num muro, é capaz dele derrubar o muro. Ele não vai descansar enquanto não conseguir sair dali e encontrar companhia. Pode ser uma galinha, um cachorro. Quem tem um jegue sabe que precisa sempre deixar ele ao lado de algum bicho ou perto de onde tem gente, pra ele jamais se sentir sozinho.

 

– (Eu comentava sobre a quantidade de lugares comerciais fechados) É que aqui o pessoal é muito duro. Um dia eu estava num ponto de ônibus com mais cinco pessoas. Passou uma linha que ia pra um determinado lugar e a passagem era um real e oitenta. Ninguém entrou. Dali a pouco passou outro ônibus, que ia pro mesmo lado, mas com a passagem por um e sessenta. Entraram todos.

Favor não alimentar os mendigos

Você já foi naquela região do Museu do Expedicionário? Antes era uma região tranquila, agora não dá pra andar em paz, está cheio de mendigos. Está um horror. Eu passo lá toda manhã com meu cachorrinho pra passear. Eu moro aqui no centro, ando por toda essa região. Você passa e estão eles lá, emporcalhando a rua, fedendo. O problema é que tem gente que alimenta. Não deveriam alimentar. As pessoas alimentam e eles vão ficando. Aqueles vagabundos, ao invés de tomar um banho, procurar um emprego. A prefeitura não toma providências. Esse país está uma porcaria mesmo, não tem mais jeito. Elegeram aquele analfabeto e agora querem colocar uma terrorista, aquela pistoleira. Eu fico revoltada, nem posso mais passear com meu cachorro em paz.

Z., musicista e mórmon

Isso é o que se chama de “gente de bem”?

Um deserto chamado Curitiba

Esses últimos dias têm sido infernais. Em qualquer horário, os ônibus estavam cheios. Gente que nunca pegava ônibus, sotaques estranhos, cheiros ruins e muitas dúvidas de onde ir. Na rua XV, um festival de Papais Noéis trash – barbas mal feitas, barriga de travesseiro, sinos irritantes e mocinhas de mini saia vermelha se oferecendo pra bater uma foto. Os restaurantes de comida de todos os dias ficaram cheios de famílias reunidas em longas mesas, com crianças e tempo pra jogar conversa fora. Mas até este final de semana tudo isso acaba e entraremos numa nova fase.

A cidade se tornará um deserto e uma nova Curitiba será instalada no litoral. Todos que têm um pouco de dinheiro vão embora correndo, porque ninguém gosta de ficar aqui no verão. Há um consenso de que ficar aqui nesta época do ano é o fim do mundo, que a felicidade está no mar. As BRs ficam congestionadas, a rodoviária fica uma loucura, os pacotes turisticos disparam e são disputados à tapa. Não se encontra um único amigo pra telefonar nessa época do ano. É mais fácil encontrar as pessoas nas filas superlotadas pra comprar pão no pequeno comércio do litoral, que se mantém graças ao turismo dessa época.

Eu, no cúmulo da pobreza, sempre fico por aqui nesta época. E estranho muito encontrar meus amigos paulistas e cariocas on line. Não é em todo canto do país que as pessoas consideram sua própria cidade um porre.