Tratado de Versalhes

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Na opinião dos chineses, o Tratado de Versalhes não é só injusto, mas simplesmente vulgar e falho de hanyang (educação). Se, no momento da vitória, os franceses tivessem sido um pouco animados do espírito do taoísmo, não teriam imposto o Tratado de Versalhes, e poderiam agora dormir de perna estendida. (Lin Yutang/ Minha terra, meu povo, p.70)

Uma guerra mundial depois, é muito fácil olhar para o Tratado de Versalhes e fazer até troça. Que era tão óbvio, o que é que custava ser um tiquinho mais generoso, onde estavam com a cabeça. Dá sempre a impressão que aqueles eram burros e que hoje se faria diferente. Não é isso que tenho visto. Sem entrar no mérito político ou sobre ser culpado ou inocente, mas precisa mesmo tornar a aposentadoria algo distante, tirar proteções legais relativas ao trabalho, achatar a renda da maioria enquanto poucos nadam em dinheiro, tornar a educação ainda mais elitizada, querer prender um homem que é um símbolo, tudo ao mesmo tempo?

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Descultura

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Vi no mural de um amigo no facebook um que surgiu pra peitar todo mundo, dizer que no Brasil não teve ditadura e que os que foram torturados eram pessoas ruins que mereceram. Começou a discussão previsível, pessoas dizendo que ele deveria se informar, citaram Herzog e Rubens Paiva. Gente jovem e bem informada. E aquele, que pela foto era muito mais velho do que todos nós, se defendia dizendo que é tudo mentira contra os militares, que ele não frequentou faculdade e não foi alienado pelos livros e pela rede Globo como nós fomos.

Suspiro. Também no Facebook vejo de vez em quando vídeos de músicos de fim do mundo. Mostra o sujeito sem sapatos, roupas em andrajos, chão de terra e no meio de latas e plásticos ele cria instrumentos musicais toscos. E produz uma música identificável. As pessoas postam comemorando, veem naquilo uma amostra de que a pobreza e a falta de estudos não conseguem sufocar o verdadeiro talento.

Para mim as duas informações – o que diz que não foi alienado pelos livros e o músico com um talento maior do que a pobreza – se equivalem por me deixarem triste. Quando penso na história do Brasil, nas bases como as coisas foram construídas, na desigualdade brutal, não me parece que nada do que estamos passando seja imerecido. No meio desse caldeirão de hostilidade, há uma contra a cultura. Uma que coloca a cultura de um lado e a verdade de outro, ou a cultura de um lado e o talento de outro. Cultura com C maiúsculo, sempre tão inacessível porque a boa escolaridade é quase inacessível. Das pessoas que não chegaram lá, que nunca saberão escrever um belo texto, exigimos uma atitude reverente que chega a soar como auto-desvalorização – “você não entende, nunca vai entender, mas tem que achar bonito e aplaudir”. Não acho viável, não é humano.

Aprendemos, como espécie, a fazer registros, a transmitir informação, a construir degraus. A cultura é o que nos faz humanos. Graças à linguagem e o que derivou dela, não precisamos descobrir a roda a cada geração. Ou reescrever a escala musical. O tal músico pobrezinho tão feliz no meio das latas, gastou um talento e uma energia preciosos para refazer o que está pronto. Quem sabe até onde ele iria.

Borra que não pode ser extinta

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Foi quando escrevi sobre O Tambor que soube que Günter Grass chocou os fãs ao contar que fez parte da juventude hitlerista. Quando li aquilo, não tinha a menor intenção em me aprofundar no assunto; mas, quanto terminei O Linguado, percebi que não estava preparada para abandoná-lo, com a sua imaginação delirante, escatológica e engajada, e me vi pegando mais dois. A autobiografia me prendeu logo nas primeiras páginas. O mea culpa que ele faz é tão profundo, tão sem escusas, que fico surpresa dele ter “apanhado” por isso. A dureza com que Grass olha pro seu passado, ao se acusar de não fazer perguntas, se negando até a alegar que foi seduzido, me lembrou do livro (que inspirou o filme) O Leitor e alguns documentários que vi sobre a maneira como os alemães lidam com seu passado: o horror pela sua participação, a necessidade de olhar e o problema insolúvel da normalidade. Os mesmos avós e tios amorosos dos doces e natais em família participavam de um sistema que matava.

Eu não consigo culpar Grass com tanta dureza porque também me parece que me calo demais. Não tem Hitler, gueto ou câmara de gás, mas olha o que está acontecendo – esse golpe, essa corrupção, esse imenso absurdo de perda de direitos. Também diremos:

Palavras invocam outras palavras. Dívidas materiais e dividas morais, culpa, dívidas e culpa, Schulden e Schuld. Duas palavras tão próximas uma da outra, tão arraigadas no solo da língua alemã e ainda assim as dívidas – mesmo que seja em parcelas, conforme faziam os clientes de minha mãe que compravam fiado – podem ser amortizadas com tanta facilidade ao passo que a culpa, tanto a culpa demonstrável quanto a oculta, ou mesmo aquela que é apenas presumível, permanece. Ela tiquetaqueia sem parar e mesmo em viagens a nenhures ela já se adianta para ocupar lugar aonde ainda nem chegamos. Ela diz-se ditadinho, não teme repetições de nenhuma ordem, faz-se esquecer, clemente, por algum tempo, e hiberna em sonhos. Permanece na condição de borra, ao fundo da xícara, não pode ser extinta em sua condição de mancha nem lambida até secar sua condição de poça. Ela aprendeu desde cedo a procurar refúgio em uma concha de ouvido quando confessada, a se fingir prescrita ou perdoada há tempo, menor do que pequena, como se fosse um nada, e então volta a se levantar de novo, assim como a cebola diminui, membrana a membrana, inscrita duradouramente nas peles mais jovens: às vezes com letras maiúsculas, outras, na condição de oração subordinada ou de nota de rodapé, de quando em quando perfeitamente legível, em seguida mais uma vez em hieróglifos que, se é que podem ser decifrados, podem sê-lo apenas com muita dificuldade. Para mim vale, legível, a inscrição breve:

Eu me calei.

Günter Grass/ Nas peles da cebola, p.31

Essa casa brasileira

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Quando eu e o ex namorávamos, nós vivíamos praticamente nos extremos da cidade: ele morava e trabalhava no Leste e eu vivia no Oeste e trabalhava no Norte. Quando decidimos buscar uma casa, o primeiro impulso foi procurar no Leste porque era mais perto do trabalho dele. Eu tive resistência a isso e questionei se ele pretendia trabalhar naquela empresa a vida inteira. Como a resposta foi negativa – e ele acabou saindo de lá poucos anos depois de casados -, disse que não fazia sentido centrar nossas buscas apenas no Leste. Virou quase uma competição, cada um torcendo que a casa ideal para os nossos sonhos e orçamento ficasse na sua região. Os corretores ficavam loucos, porque quando nos perguntavam que bairros estávamos dispostos a ver, eles contemplavam três pontos cardeais e os do meio. Mas na verdade enchemos pouco o saco dos outros porque vimos quase tudo sozinhos. Na sexta-feira já marcávamos as casas em potencial que veríamos naquele fim de semana e, além dessas, seguíamos qualquer placa que víssemos no caminho. Foram meses fazendo isso, vendo dezenas de casas por dia em todos os cantos que se possa imaginar, um daqueles feitos que quando a gente olha pra trás se pergunta como teve paciência. Vimos muita coisa, muitos absurdos. Lembro de um sobrado pequeno, com todos os cômodos apertados, cujo grande atrativo era a banheira da suíte, que cabia umas sete pessoas sentadas. É de se perguntar pra que tipo de consumidor aquela planta foi pensada. Vi casas que para resolver o desperdício de espaço com corredores o tinham simplesmente omitido: as portas dos quartos ficavam coladas na lateral, formando um triângulo cuja base era a escada. Ou seja, se você saísse do quarto um pouco sonolento ou distraído, poderia morrer.

O que realmente me marcou nos absurdos que vimos naquela época foi o seguinte: fomos parar naquele conjunto de sobrados por uma das muitas placas que seguimos no meio da rua. Quem estava lá para vender foi o próprio sujeito que construiu os sobrados. Eram uns seis sobrados de dois tamanhos diferentes: o maior tinha cerca de 150m² e estava mais de vinte mil acima do orçamento (no mercado imobiliário se fala dez, vinte e trinta mil com um desapego que é de deixar deprimido) e o outro tinha 110m² e estava menos acima do orçamento. Ele queria, claro, que a gente se propusesse a vender as mães e ficar com o maior, por isso nos fez visita-lo primeiro, mesmo a gente dizendo que não poderia ficar. Pois bem, fomos e ficamos babando. Quartos, suítes, banheiros, sala, cozinha, tudo muito bem distribuído, iluminado, espaços bem aproveitados, um projeto muito bom. Era de fechar o negócio ali se não estivesse realmente acima do orçamento. Fomos animados ver o de metragem menor. Nos perguntávamos como seria, se de repente só tivesse tirado um dos três quartos, ainda assim seria bonito, a gente não precisava mesmo de uma casa tão grande. Quando entramos… olha, não tenho nem palavras, aquilo foi inacreditável. O sujeito pegou a planta da casa de 150m² e passou a régua na lateral da planta e com isso cortou os 40m² de diferença. A casa menor era idêntica à anterior, só que com os cômodos de todo lado direito mutilado. Ficou horrível, burro, não quisemos ver mais nada.

Evito ao máximo dar pitacos políticos aqui, mas essa reforma da previdência me parece igualzinha. Tem muita gente boa escrevendo e sendo entrevistada sobre o assunto, então não vou ousar tentar explicar o que não entendo. O que sei é que todos temos ciência de que é preciso mudar, que não dá pra seguir no atual modelo. Mas com tantas outras possibilidades e torneiras abertas, precisa ser uma matemática tão óbvia e burra que pune justamente quem menos pode se defender?