Um problema dos gentis

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1. A vida me coloca numa interação curta com a Pessoa 1. Nesta interação, ela não me trata bem. Apesar disso, eu continuo sendo gentil com ela.

Os motivos de eu ser gentil numa interação desagradável são inúmeros. Já citei em vários lugares uma frase do Hamlet que resume a minha ética sobre o assunto: “Se fôsseis tratar todas as pessoas de acordo com o merecimento de cada uma, quem escaparia da chibata? Tratai deles de acordo com vossa honra e dignidade.” Ou seja: eu parto do princípio que todos devem ser tratados com o maior respeito e consideração, independente de quem elas são. Pra eu tratar diferente, ela tem que ter saído da regra. E sou meio síndrome das escadas também, não sou do tipo que dispara uma resposta rápida automática quando me agridem (o engraçado é que com brincadeiras eu sou bem rápida). Na dúvida se a pessoa esta num dia ruim, ou eu estou num dia ruim e meio paranoica, diferença cultural, dor no ciático… ou se a pessoa realmente me odeia e decidiu fazer a parte dela pra estragar o meu dia, eu tendo a continuar educada. A possibilidade de arranjar briga quando você trata as pessoas com gentileza é mínima. (#DICA)

MAS ISSO NÃO QUER DIZER QUE EU NÃO NOTEI.

2. Eu e a Pessoa 1 temos algum Conhecido em Comum. Ele decide nos reunir. A Pessoa 1 fica sabendo que há possibilidade de se encontrar comigo e diz: “Claro, gente finíssima, pode marcar!”  Quando chega até mim a possibilidade de reencontrar a Pessoa 1, eu digo Não. Aí o Conhecido em Comum, que não conhece o contexto, me acha uma pessoa dificílima – como pode a Pessoa 1 ter de mim uma impressão tão boa e eu me recuso a encontrá-la? Eu, no lugar dela, também teria.

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Até o relógio está com vidro embaçado

Quando eu morava em apartamento, a chuva era um barulho lá fora; em casa, a chuva se torna algo muito mais concreto, um problema pra andar na sua própria área de serviço. Não sei dizer quanta porcentagem do meu dia merda era culpa disso, da chuva constante. Ultrapassou o estágio de falta de sol e são todas as toalhas que eu me enxugo molhadas, os panos na cozinha, o varal na sala, a tentativa de secar pendurando em cadeiras, o cachorro praticamente mofado… Aí fui na padaria e a mocinha sempre sorridente está com a cabeça apoiada no ferro do lugar onde passa cartão. Ao invés da conversinha simpática, apenas o básico, da parte dela e da minha. Isso sem falar do que não quero nem choramingar aqui, aquela confirmação de que as pessoas sempre me consideram alguém insignificante demais não apenas para não ter que puxar o saco como também não precisam fazer o básico do básico, nível nem ao menos agradecer presente. Aí final da tarde resolveu chover mais grosso e mesmo assim me arrastei até a manifestação. Muita gente conhecida disse que ia, mas não combinei nada com ninguém e foi sozinha. Acabei encontrando um amigo que não via há anos e marchamos juntos. Fui lá fazer número, ser mais uma pessoa pra ser talvez filmada por um drone e dizerem que fomos muitos a marchar pela educação. Tudo continuamente merdamente úmido e, pra falar a verdade, nem ao menos sei se adianta alguma coisa marchar. Eu vou para me sentir menos só, menos louca, menos “não entendo a indiferença de vocês” (leiam este artigo sobre NECROPOLÍTICA) , menos ET. E sempre dá certo.

UFPR

Descultura

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Vi no mural de um amigo no facebook um que surgiu pra peitar todo mundo, dizer que no Brasil não teve ditadura e que os que foram torturados eram pessoas ruins que mereceram. Começou a discussão previsível, pessoas dizendo que ele deveria se informar, citaram Herzog e Rubens Paiva. Gente jovem e bem informada. E aquele, que pela foto era muito mais velho do que todos nós, se defendia dizendo que é tudo mentira contra os militares, que ele não frequentou faculdade e não foi alienado pelos livros e pela rede Globo como nós fomos.

Suspiro. Também no Facebook vejo de vez em quando vídeos de músicos de fim do mundo. Mostra o sujeito sem sapatos, roupas em andrajos, chão de terra e no meio de latas e plásticos ele cria instrumentos musicais toscos. E produz uma música identificável. As pessoas postam comemorando, veem naquilo uma amostra de que a pobreza e a falta de estudos não conseguem sufocar o verdadeiro talento.

Para mim as duas informações – o que diz que não foi alienado pelos livros e o músico com um talento maior do que a pobreza – se equivalem por me deixarem triste. Quando penso na história do Brasil, nas bases como as coisas foram construídas, na desigualdade brutal, não me parece que nada do que estamos passando seja imerecido. No meio desse caldeirão de hostilidade, há uma contra a cultura. Uma que coloca a cultura de um lado e a verdade de outro, ou a cultura de um lado e o talento de outro. Cultura com C maiúsculo, sempre tão inacessível porque a boa escolaridade é quase inacessível. Das pessoas que não chegaram lá, que nunca saberão escrever um belo texto, exigimos uma atitude reverente que chega a soar como auto-desvalorização – “você não entende, nunca vai entender, mas tem que achar bonito e aplaudir”. Não acho viável, não é humano.

Aprendemos, como espécie, a fazer registros, a transmitir informação, a construir degraus. A cultura é o que nos faz humanos. Graças à linguagem e o que derivou dela, não precisamos descobrir a roda a cada geração. Ou reescrever a escala musical. O tal músico pobrezinho tão feliz no meio das latas, gastou um talento e uma energia preciosos para refazer o que está pronto. Quem sabe até onde ele iria.

Das antigas

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É bem estranho você ter uma amiga moderna, advogada, independente, defensora das minorias e ela pegar um mantón flamenco, olhar a trama intrincada que dá origem às franjas e dizer: “isso eu sei fazer”. OI? Sabia aquilo e todas as prendas possíveis. Aí ela me contou que a mãe dela era uma verdadeira gênia – ela disse “do mal”, mas num sentido totalmente cômico e amoroso – que entretinha as filhas durante as férias escolares com prendas domésticas. As férias mal começavam e ela já vinha com um bastidor e a meta do mês. Ela e a irmã passavam as férias em casa, quietinhas, bordando…

Educação

Os pais dão a educação formal. Mas a educação que prepara pra vida, quem dá mesmo são os irmãos. Desculpaê se você está lendo isso e é filho único.
Eu vi como é com os filhos únicos. Eles têm muitos brinquedos. Aí o filho único pega um dos brinquedos do armário de brinquedos e pede pro adulto brincar com ele. O adulto respeita as diferenças de habilidades e QI que existem entre ele e a criança, então na hora de jogar se preocupa em atuar de maneira a estimular a auto-estima dela. Ou seja, ele perde. O adulto não apenas perderá todas as vezes e elogiará muito o desempenho do adversário.
Quando a gente tem irmãos a coisa é na raça. O irmão (ou irmã) não está nem aí se é um ano ou dez mais velho, e por isso mais inteligente e habilidoso. O irmão vai jogar de verdade. Ele não apenas vai vencer quando for a hora de vencer, como também vai rir, jogar na cara, roubar, colocar apelido… O que acontece? Com irmão a gente tem que ficar esperto. Não tem consideração e peninha não, com irmão é psicanálise das ruas.

Educação sentimental

Era uma tarde comum. Estávamos no quarto do meu irmão mais velho, que tem TV. Eu via TV e ele cortava as unhas. Pouco tempo depois, ele estendeu a mão fechada pra mim e disse que tinha algo a me dar, que era um presente.
– Eu não vou abrir, são as suas unhas que eu sei!
– E daí, presente, são partes do seu irmão! 
– Ai, que nojo!
– Estão limpas, você não pode ter nojo do seu irmão!
– Eu não vou pegar nisso!
– Um dia eu fiz igualzinho o que fiz com você pra uma namorada, só que ela não sabia que eram unhas e estendeu a mão. Depois ela jogou tudo fora, ela também não gostou. 
Isso que dá irmãos criados longe de irmãs, ficam toscos. Depois eu cheguei para ele com a minha mão fechada e pedi que ele estendesse, era um presente meu.
– Eu não vou abrir, são as suas unhas que eu sei! 
– Abra a mão, abra!
– Não! Quando é dos outros é nojento, né?

Missão dada, missão cumprida.

Curitibanos

Há um fenômeno muito estranho, tipicamente curitibano, que pode acontecer em todos os lugares e com todas as pessoas. Às vezes de maneira dramática e preconceituosa, outras vezes sem nenhum motivo. Às vezes é uma defesa, noutras um jeito de ser. O ruim é que você nunca pode se defender direito, nunca pode alegar qualquer coisa. Estou falando da impecável educação e frieza com que você é tratado em alguns lugares. Você fala com alguém, e a pessoa te trata com todos os requisitos da educação, mas ao mesmo tempo você sente a pessoa gelada como o iceberg. Terrível.

Com pessoas de sotaques de carioca para cima ou pele escura para cima, isso é bem comum. Mas eu, branquela e adaptada, também passo por essas. Meu exemplo mais recente e chocante é uma professora que dá aula pra mim no mestrado. Ou melhor, ela e o marido, que dão aula para mim em horários diferentes e matérias diferentes, e há poucos dias descobri que são casados. Eles são ótimos professores – entendem do assunto, falam bem, exemplificam de maneira interessante, transmitem bem a matéria. O marido, em especial, é uma pessoal de senso de humor. Ao mesmo tempo, quando fui falar com eles no final da aula, me trataram de uma maneira tão gelada que fica até estranho – como um professor(a), tão cordial com uma turma, pode ser uma pessoa gelada no trato pessoal?

É possível ser engraçado, cordial, boa pessoa e ao mesmo tempo dar a impressão de não ter coração lá dentro? Os curitibanos provam todo dia que sim. Também trabalho com a possibilidade de que ela(e) não vai com a minha cara. De qualquer modo, ela(e) nunca fez qualquer coisa pra eu possa alegar maus tratos ou algo assim. Fica apenas a impressão, uma coisa subjetiva, um mal estar com a idéia de falar com qualquer um dos dois de novo.

Curitiba é mesmo a terra da esquizofrenia.