Ciganos e o capital simbólico

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Num dos meus trechos preferidos do meu romance preferido, Orlando, protagonista do livro com o mesmo nome, da Virginia Woolf, está vivendo entre ciganos e, como nobre que era, não resiste e começa a falar de sua família. Porque desvestir títulos por fora é fácil, quase uma brincadeira, enquanto algo dentro de nós assiste como uma novela ou vê na pseudo-humildade um motivo ainda maior de orgulho. Então Orlando começa a falar dos seus títulos de nobreza, que remetiam a-não-sei-quantos séculos, das propriedades e castelos, de não-sei-quantos alqueires. E ao invés de deixar os ciganos admirados, eles ficam com vergonha alheia. Transcrevo o trecho porque é demais:

E ao dizê-lo notou que os ciganos estavam contrafeitos, mas não zangados como antes, quando tinha exaltado a natureza. Agora estavam corteses, mas preocupados, como gente de fina educação, quando um forasteiro vem a revelar seu baixo nascimento ou sua pobreza. Rustum acompanhou-a fora da tenda, e disse-lhe que não se preocupasse com o fato de seu pai ser duque e possuir todos os dormitórios e móveis que ela havia descrito. Ninguém, por isso, pensaria mal dela. Apoderou-se então de Orlando uma vergonha que antes nunca sentira. Evidentemente, Rustum e os outros ciganos pensavam que uma ascendência de quatrocentos ou quinhentos anos era a mais modesta possível. A deles remontava pelo menos a uns dois ou três mil anos. Para os ciganos, cujos ancestrais construíram as pirâmides, séculos antes do nascimento de Cristo, a genealogia dos Howard e Plantagenetas não era melhor nem pior do que a dos Smith e dos Jones: ambas eram insignificantes. Além disso, se um pastorzinho tinha uma linhagem tão vetusta, nada havia de especialmente memorável ou desejável numa velha estirpe: vagabundos e mendigos também a possuem. E assim, embora fosse extremamente cortês falar abertamente, era claro que o cigano pensava não haver mais vulgar ambição que possuir centenas de dormitórios (conversavam no alto de uma colina, era de noite, as montanhas levantavam-se em redor), quando a terra inteira é nossa. Do ponto de vista de um cigano, um duque – entendeu Orlando – não era mais do que um aproveitador ou um ladrão, que arrebatava terra e dinheiro a gente que considerava essas coisas de pouco valor, e não pensava em coisa melhor que construir trezentos e sessenta e cinco dormitórios, quando um seria bastante, e nenhum, ainda melhor. Ela não podia negar que seus antepassados tinham acumulado campos sobre campos, casas sobre casas, honras sobre honras; no entanto, nenhum deles tinha sido santo, herói, ou grande benfeitor da humanidade. Nem podia deixar de reconhecer (Rustum era muito cavalheiro para insistir, mas ela compreendeu) que qualquer pessoa que fizesse agora o que os seus antepassados tinham feito há trezentos ou quatrocentos anos atrás devia ser denunciada – principalmente por sua própria família – como vulgar arrivista, um aventureiro, um nouveau riche. [p.87]

O conceito de capital simbólico, de Bourdieu, nos diz que existem diferentes grupos dentro da sociedade, e cada um desses grupos possui seu próprio sistema de valores. Há sim o capital como dinheiro, para quase tudo e todo mundo, mas há também símbolos e maneiras muito próprias de atribuir valor que podem não fazer o menor sentido para outros grupos. Por exemplo: no balé, a rotação da coxa para fora e o formato dos pés tem uma importância definitiva, e ela não faz o menor sentido não apenas no mundo lá fora como em qualquer outra dança. É o que acontece com Orlando, que vai pra uma alteridade tão radical que o que para ela era valor se torna vergonhoso diante dos ciganos. E em alteridades não tão radicais, penso em ocasiões em que a pessoa se aproxima de você pensando que algo vai soar como valor e tem o efeito contrário. Como aquele que se gaba do carro pro ecologista, da churrascaria pro vegano, dos hábitos libertários para o puritano. Uma vez eu estava numa fila de balada e um sujeito se gabou de ser do Clube do Uísque, ou seja, ele tinha a própria garrafa dele no bar. Não consigo pensar em algo pior que um homem possa me dizer – eu não suporto cheiro de álcool.

Que Bourdieu me perdoe o psicologismo, mas concluo que a inveja só é possível dentro do mesmo capital simbólico.

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Não assista, leia!

Transferir um livro para as telas quase sempre desagrada os leitores. Partes inteiras são cortadas, personagens colados, aspectos importantes são minimizados e até mesmo o fim pode ser alterado (vide O Diabo Veste Prada e A Revolução dos Bichos). O única adaptação que não me desagradou foi O Senhor dos Anéis, que no livro contém infindaveis eles andaram, eles acamparam, eles dormiram, eles ficaram cansados. Seguem três coisas que apenas um livro faz por você.

1. Cinema é só visual.

Embora o livro também seja visual no sentido de ser lido (ou auditivo, no caso de audiolivros), a maneira como ele é descrito pode valorizar outros sentidos. Um excelente exemplo disso é o livro O Perfume. O protagonista – Jean-Baptiste Grenouille – percebe o mundo de maneira totalmente olfativa e tem entende coisas que para nós passa pela visão, de maneira olfativa. Por isso, o autor monta um mundo olfativo e as descrições que ele faz simplesmente não cabem em imagens. Como esta, que prende o leitor logo no segundo parágrafo do livro:

Na época em que falamos, reinava nas cidades um fedor dificilmente concebível por nós, hoje. As ruas fediam a merda, os pátios fediam a mijo, as escadarias fediam a madeira podre e bosta de rato; as cozinhas, a couve estragada e gordura de ovelha; sem ventilação, salas fediam a poeira, mofo; os quartos, a lençóis sebosos, a úmidos colchões de pena, impregnados do odor azedo dos penicos. Das chaminés fedia enxofre; dos curtumes, as lixívias corrosivas; dos matadouros, fedia sangue coagulado. Os homens fediam a suor e roupas não lavadas; da boca eles fediam a dentes estragados, dos estômagos fediam a cebola e, nos corpos, quando já não eram bem novos, a queijo velho, a leite azedo e a doenças infecciosas. Fediam os rios, fediam as praças, fediam as igrejas, fedia sob as pontes e dentro dos palácios. Fediam o camponês e o padre, o aprendiz e a mulher do mestre, fedia a nobreza toda, até o rei fedia como um animal de rapina, e a rainha como uma cabra velha, tanto no verão quanto no inverno. Pois à ação desagregadora das bactérias, no século XVIII, não havia sido ainda colocado nenhum limite e, assim, não havia atividade humana, construtiva ou destrutiva, manifestação alguma de vida, a vicejar ou a fenecer, que não fosse acompanhada de fedor.
SÜSKIND, Patrick. O Perfume: a história de um assassino. p. 5- 6
2. No cinema, as coisas são convertidas em ação.
Nos livros, não gostamos dos personagens apenas pelo que eles fazem ou faltam. São as impressões que eles têm ao encontrarem certos desafios, opiniões jamais expressas sobre outras pessoas, descrições de como seu modo de ser se encaixa na realidade. Na maioria das vezes, à medida em que o livro avança, começa um sentimento de familiaridade com os personagens. No cinema, eles são obrigados a transformar essas coisas em cenas, em diálogos estranhos ou aquela famosa voz de fundo. O livro, por excelência, é um lugar de viagens interiores:

Quando isso aconteceu, Orlando deu um suspiro de alívio, acendeu um cigarro e soprou em silêncio um ou dois minutos. Depois, chamou hesitante, como se a pessoa que procurasse pudesse não estar ali: “Orlando?” Pois se há (por acaso) setenta e seis campos diferentes, todos pulsando simultaneamente na cabeça, quantas pessoas diferentes não haverá – valha-nos o céu -, todas morando, num tempo ou noutro, no espírito humano? Alguns dizem que duas mil e cinquenta e duas. Do modo que é a coisa mais natural do mundo uma pessoa chamar, logo que fique sozinha, Orlando? (se esse é seu nome), querendo com isso dizer Vem, vem! Estou mortalmente cansada deste eu. Preciso de outro. Daí as mudanças assombrosas que vemos em nossos amigos. Mas isso também não é muito fácil, pois, embora se possa dizer, como Orlando disse (achando-se no campo e precisando de outro eu) Orlando?, o Orlando que ela necessita não vir; esses eus de que somos todos constituídos, sobrepostos uns aos outros como pratos empilhados na mão do copeiro, têm suas predileções, simpatias, pequenos códigos e direitos próprios, chamem-se como quiserem (e muitas dessas coisas não tem nome), de modo que um só virá se estiver chovendo, outro, se for num quarto com cortinas verdes, outro, se a Sra Jones não estiver lá, outro, se lhe prometermos um copo de vinho – e assim por diante; pois cada pessoa pode multiplicar com sua própria experiência as diferentes condições que impõem os seus diferentes eus – e algumas, de tão ridículas, nem podem ser impressas em letra de fôrma.

WOOLF, Virgínia. Orlando. p. 183


3. Cinema mostra a visão do diretor, e não do autor.

Os escritores mais interessantes e geniais tinham uma linguagem própria. A maneira como eles escreviam muitas vezes era mais interessante do que a história em si. Veja o caso de Ulisses, de Joyce, famoso pela maneira revolucionária com que foi escrito. Conhece um autor não se resume a saber o que seus livros dizem; a gente conhece um autor quando reconhece o estilo do seu texto. No cinema, a gente reconhece o diretor. O livro Grande Sertão: Veredas não é um clássico da literatura por causa de Diadorim ou Riobaldo. O interessante do livro é ser escrito assim:

Digo o senhor: como um feitiço? Isso. Feito coisa-feita. Era ele estar perto de mim, e nada me faltava. Era ele fechar a cara e estar tristonho, e eu perdia meu sossego. Era ele estar longe, e eu só nele pensava. E eu mesmo não entendia então o que aquilo era? Sei que sim. Mas não. E eu mesmo entender não queria. Acho que. Aquela meiguice, desigual que ele sabia esconder o mais de sempre. E em mim a vontade de chegar todo próximo, quase uma ânsia de sentir o cheiro do corpo dele, dos braços, que às vezes adivinhei insensatamente – tentação dessa eu espairecia, aí rijo comigo renegava. Muitos momentos. Conforme, por exemplo, quando eu me lembrava daquelas mãos, do jeito como se encostavam no meu rosto, quando ele cortou meu cabelo. Sempre. Do demo: Digo? Com que entendimento eu entendia, com que olhos era que eu olhava?
ROSA, Guimarães. Grande Sertão: Veredas p. 137

Virginia Woolf

O que tenho a dizer é muito simples. De todas as formas possíveis de se escrever em prosa, a que eu gostaria de ter é a de Virginia Woolf. Orlando me conquistou de tal forma que passei anos sem ter coragem de ler mais nada que ela escreveu. Explico: Virginia Woolf inaugurou a prosa em fluxo de consciência. Fluxo de consciência me remeteu a Clarice Lispector. Li Clarice Lispector no 2º grau e fiquei traumatizada. Então, tinha medo de me desgostar da Virginia Woolf. Achava que nada no mundo poderia igualar ao maravilhoso e sonhador Orlando.

Então, no serviço de voluntariado, li Memórias de Um Cão. Emocionante, divertido; quem já viveu com um cachorro fica fascinado. E aquela fluidez e intimidade com as letras que faz o leitor viajar da maneira como ela quer, que congela uma ação até o infinito ou nos transporta rapidamente pelos anos com a mesma facilidade. O encanto persistia.

Agora, por causa do mestrado, estou lendo Um Teto Todo Seu: uma visão rica e profunda da vida num ensaio sobre a mulher e a literatura. São conferências sobre as mulheres – por que não existe um Shakespeare mulher?, ela pergunta. Depois, analisa as condições materiais determinantes na vida das mulheres e a literatura. E faz isso com uma graça, que este tema tão feminista simplesmente derrete nos olhos. Eu adoro Virginia Woolf. Gostaria de escrever como ela.

Ele me remeteu evidentemente àquele livro, àquela frase que havia despertado o demônio: a afirmação do professor sobre a inferioridade mental, moral e física das mulheres. Meu coração tinha dado um salto. Minhas faces inflamaram-se. Eu enrusbecera de raiva. Por tolo que fosse, não havia nisso nada de especialmente notável. Não gostamos que nos digam que somos naturalmente inferiores a um homenzinho – olhei para aquele estudante do meu lado – que respira com dificuldade, usa uma gravata comprada pronta e não se barbeia há 2 semanas. A gente tem certas vaidades tolas.

Virginia Woolf/ Um teto todo seu, p. 43