Descultura

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Vi no mural de um amigo no facebook um que surgiu pra peitar todo mundo, dizer que no Brasil não teve ditadura e que os que foram torturados eram pessoas ruins que mereceram. Começou a discussão previsível, pessoas dizendo que ele deveria se informar, citaram Herzog e Rubens Paiva. Gente jovem e bem informada. E aquele, que pela foto era muito mais velho do que todos nós, se defendia dizendo que é tudo mentira contra os militares, que ele não frequentou faculdade e não foi alienado pelos livros e pela rede Globo como nós fomos.

Suspiro. Também no Facebook vejo de vez em quando vídeos de músicos de fim do mundo. Mostra o sujeito sem sapatos, roupas em andrajos, chão de terra e no meio de latas e plásticos ele cria instrumentos musicais toscos. E produz uma música identificável. As pessoas postam comemorando, veem naquilo uma amostra de que a pobreza e a falta de estudos não conseguem sufocar o verdadeiro talento.

Para mim as duas informações – o que diz que não foi alienado pelos livros e o músico com um talento maior do que a pobreza – se equivalem por me deixarem triste. Quando penso na história do Brasil, nas bases como as coisas foram construídas, na desigualdade brutal, não me parece que nada do que estamos passando seja imerecido. No meio desse caldeirão de hostilidade, há uma contra a cultura. Uma que coloca a cultura de um lado e a verdade de outro, ou a cultura de um lado e o talento de outro. Cultura com C maiúsculo, sempre tão inacessível porque a boa escolaridade é quase inacessível. Das pessoas que não chegaram lá, que nunca saberão escrever um belo texto, exigimos uma atitude reverente que chega a soar como auto-desvalorização – “você não entende, nunca vai entender, mas tem que achar bonito e aplaudir”. Não acho viável, não é humano.

Aprendemos, como espécie, a fazer registros, a transmitir informação, a construir degraus. A cultura é o que nos faz humanos. Graças à linguagem e o que derivou dela, não precisamos descobrir a roda a cada geração. Ou reescrever a escala musical. O tal músico pobrezinho tão feliz no meio das latas, gastou um talento e uma energia preciosos para refazer o que está pronto. Quem sabe até onde ele iria.

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Dois exemplos de ofensas que cometi por erro de avaliação

 

Na minha cabeça, eu enquanto nora e cunhada atrapalhava. Legalmente, podia até ter me tornado parente, mas na verdade eu estava ali por causa da escolha de uma pessoa, escolha essa que não tinha nada a ver com o resto. Minha sogra, enquanto mãe, queria encontrar apenas o seu filho. A idade adulta o afastava cada vez mais, e agora havia até uma mulher do lado dele. Mulher essa que ela podia aceitar, gostar, mas que não era e nem nunca seria parente dela. Então me parecia que era muito melhor eu deixar o filho ir lá, sozinho, ser acarinhado, abraçado, dar todo seu tempo livre para a mãe dele. Minha presença era uma tolice, ele sozinho era a volta do núcleo original, as pessoas que realmente se amavam e tinham uma história juntos. Eu achava que reunião familiar sem os in law era melhor para todo mundo. Não, teoricamente todos se amam e eu tinha que estar lá para atestar isso. Minha ausência não era um espaço e sim uma agressão. Não que hoje eu conseguisse fazer diferente, mas agora pelo eu tenho mais noção de quanto os ofendi.

 

Fiz de novo, agora com outro assunto. Uma grande amiga minha vai casar. Juntou vários nomes numa mensagem privada e estava tentando marcar encontro. Aquele stress: quem pode em que dias da semana e em que horário e local? Porque ela queria uma reuniãozinha, queria dar o convite pessoalmente. Aí, numa resposta cheia muitas voltas, eu digo: convite é pra gente saber dia e horário, coloca os dados aí e entrega quando for mais cômodo. Senti que foi como xingar a mãe. Não, convite não é bobagem, entregar pessoalmente não é bobagem, antecedência não é bobagem. Aí eu vi o quanto nunca ter desejado casar na igreja me torna ignorante nessas convenções – tanto que nunca faço questão e não me ofendo quando não me convidam pra casamentos. Confesso que pra mim é apenas uma festa, e das mais chatas. Na longa justificativa que se seguiu à minha fala, percebi que há um orgulho em sair entregando os convites, o papel de noiva, o estar na lista, toda essa onda de dificultar a própria vida. E eu um dei coice na noiva porque achava, ingenuamente, que convite era só informativo.

Eu sou mesmo um alien.