Curtas de um ano ou nem sei

O facebook me lembrou que há um ano eu estava na passeata #elenão. Vizinhos, pessoas do ponto de ônibus, nas conversas, homens paqueráveis, ninguém parecia compartilhar do meu voto. Eu lembro de ter pensado que eu estaria sozinha na rua XV. Iria porque a vontade de dizer não era grande demais, eu que nunca havia ido pra protesto nenhum. Aí, no ônibus, haviam umas adolescentes que pareciam ir, assim como haviam uns rapazes que olhavam para elas de uma maneira que dava medo. Aí encontrei as amigas, fomos pra lá, e como tinha gente. Eu me senti tão feliz, tive esperança. Não impedimos a besteira, mas foi um momento importante pra história do país e que orgulho de ter feito parte.

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Minha ex-sogra esperava o filho (meu ex) se afastar pra me dizer umas coisas de cortar o coração. Nunca entendi porque ela me tornou sua confidente naquele momento. Ela se casou com meu ex-sogro na adolescência, foi daqueles casamentos exemplares, os dois se davam muito bem. Fazia alguns meses que ele havia morrido. Ela me disse: “faz tão pouco tempo que ele morreu e parece que está tão longe, como se fizesse anos. É assustador”.

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Sobre a pergunta de como eu gostaria que fosse o fim do mundo (tô falando do programa do Porchat), eu só consigo pensar que eu acho que já foi. Acho que acabou em 2012 e estamos presos na nossa mente. Devemos ser uma recriação holográfica de ETs que querem entender o que havia aqui antes da chegada deles, milhões de anos depois da destruição da chegada do meteoro. Acho que li Philip K. Dick em demasia.

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Então, tem as moças da padaria. Uma delas estava com uma cara péssima um dia. Mas no dia seguinte, voltava a ser feliz. Aí ficou com uma cara péssima, e no dia seguinte também, e também, de maneira que agora eu olho pra ela e digo o básico. Tudo porque um dia quis brincar quando ela não estava bem e senti que fui invasiva, além de não estar bem ela tinha que rir de piada de cliente que quer ser íntima. Enfim. Tem outra também, sempre muito séria. Ela teve um ano péssimo, o pai morreu em acidente, está tendo problemas pra vender seu cavalo. Eu chego lá e tem as duas moças, sérias. Me pego com vontade de falar algo que o meu pai me dizia nessa fase da vida, e eu detestava tanto: sorria, não vale a pena ficar assim. A vida é curta.

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Miguel Araújo diria: Dança até ser dia/ que a vida são dois dias.

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Pam bam bam bambam

Era uma parte coberta que ficava nos fundos de uma casa, grudada no muro lateral. Em frente a ela, um pequeno jardim, com um banco. Já havíamos comido todos os doces e salgados trazidos pelas meninas e bebido os refrigerantes trazidos pelos meninos. Começamos a parte de dançar. Foi minha primeira festa de dançar. Não tínhamos muitas opções de discos e só queríamos músicas lentas. Por ser a primeira ou a última faixa de um disco de coletânea de sucessos internacionais, colocamos Take My Breath Away. Cada vez que a música terminava, iam lá – acho que apenas o dono da casa, mexer em vitrola era uma operação sensível – e colocavam a música de novo. Na pista sem qualquer luz especial, meus colegas de sala se transformaram em pares. As bonitas. As legais. A gordinha engraçada. Numa distância que me parecia de quilômetros, meninos do lado oposto, no banco do jardim descoberto. Eles se olhavam, cochichavam, até tomar coragem e convidar alguém. A que estava de pé, a da esquerda, a da direita. Até que a música continuava e o banco deles estava vazio. Eu olhei para o lado e havia uma menina da minha idade, com a mesma expressão que a minha. Ela foi embora logo em seguida. Sorte dela – eu passei o resto da noite (que deve ter durado, no máximo, até meia noite) ouvindo Take My Breath Away, enquanto o sofá crescia cada vez mais.

Outras musiquinhas

De tanto ler uma coisa aqui e outra ali, descobri que tinha interesse pelo Brasil da geração da década de 50 – não a geração que nasceu em 50, e sim a que produzia cultura naquela época. Bossa nova, Brasília, Darcy Ribeiro, Carmen Miranda, eu quis saber o que fez que o Brasil que um dia foi tão vanguarda acabar. E foi isso que me fez estudar a década seguinte… As pessoas não lamentam a saída das ciências sociais do currículo porque não podem lamentar o que desconhecem. Antropologia, todos deveriam ter o prazer de estudar antropologia. Ficamos mutilados de nascença, como país, sem estudar sociologia.

Eu gosto e acho muito importante a provocação que algo diferente nos causa. O seu próprio lugar, numa outra época, pode ser tão diferente. No Brasil da minha infância, ninguém achava que mulher semi-nua na TV estragava alguém – e vejo as pessoas ignorarem o fato na hora de clamar por um retorno moral. Mas também pode ser da mesma época em outro lugar: na série Rita, que se passa na Dinamarca, a professor precisou brigar com as alunas, que não queriam tomar banho depois de praticar esportes. O motivo era excesso de auto-crítica com seus corpos. Para convencê-las, teve ela mesma que tirar a roupa primeiro. Aqui por muito menos um artista foi chamado de pedófilo num museu. Mas quero falar de algo bom: no mesmo mundo e na mesma época, que nós, os portugueses fazem uma música muito gracinha, tão diferente da nossa. Eu ouvi esta pela primeira vez sem ver o clipe, e logo nos primeiros versos pensei que é exatamente o meu nervoso dentro de um engarrafamento.

 

Curtas Ho Ho Ho

Tenho uma séria dificuldade de saber ao certo quando é o natal, já que meus dias continuam muito parecidos. Nem ao menos preciso me programar para comprar pão extra, porque a padaria aqui perto é daqueles lugares horríveis de se trabalhar que nunca fecham, no máximo diminuem o expediente.

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Tenho agido como as pessoas em tempo de guerra e estou comendo tudo o que tem no estoque, fazendo combinações criativas e o escambau, tudo para não ter que passar no supermercado até o natal passar. Na última vez que eu fui, sexta-feira, a fila já estava enorme, pessoas abraçadas em latas de panetone, falta de suco de laranja, um horror.

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Passar o natal sozinho é assim: no primeiro, na hora H, bate uma depressão, você se sente o mais abandonado. Depois você percebe que essa pena de si mesmo é uma forma de programação. No meio do caminho, você reexperimenta um natal comum e, enquanto está vendo Faustão ou fazendo sala, sente saudades de fazer o que quer em casa. No começo eu punha uma roupinha especial, comprava umas guloseimas. Fui desapegando tanto que no ano passado fui até afrontosa: marquei exame de sangue pro dia 25. Por incrível que pareça, não fui a única.

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Tenho uma nova queridinha portuguesa, a Deolinda, que me foi apresentada pelo Ânderson. Pra ouvir música portuguesa é preciso conhecer e aceitar um fato: eles falam “estar pica” quando querem dizer que estão animados, aquela alegria cheia de adrenalina. Não tem nenhuma conotação sexual, é igual o jeito que a gente fala que está com tesão de fazer algo. Falam na música, no show, na maior inocência.

Que vocês também passem um natal muito pica.

Velho, velho e gift

Fiquei muito emocionada quando vi esta propaganda com o Elton John. Mandei pra amiga cujo filho está aprendendo guitarra, e sei que ela se identifica muito com o final da propaganda. Pra mim a propaganda toca mais de outra forma, legado é um tema importante pra mim. Talvez por sempre ter tido a tendência de fazer amigos mais velhos. Não falo em legado num sentido financeiro, e sim como história construída, o que você pensa da sua própria trajetória quando olha para trás. Aquele sorrisinho do Elton John no final da propaganda diz tudo. Uma das coisas que me fez querer chacoalhar e gritar no ouvido de algumas pessoas neste período recente da nossa história: o que você pensará a respeito das suas escolhas quando olhar para trás?

Ainda sobre velhice: fui, com amigos, fazer uma apresentação num asilo. Era o mais bonito e bem cuidado e feliz dentro das circunstâncias, mas era um asilo. Um lugar aonde vão pessoas que, na sua maioria, estão impossibilitadas de cuidar de si mesmas. E me vi menos tocada, menos emocionada que os outros. Talvez por já ter acompanhado deterioração física de perto, de saber o quanto o mundo se estreita. Ou, antes disso ainda, eu pesquisei cegos. Uma das minhas entrevistadas, a que tinha a história mais dolorosa, me ensinou que todo mundo tem limitações, a diferença é que a deles está evidente. Acho que para trabalhar com o sofrimento precisa ter uma aceitação muito profunda do que ela me disse.

O último ponto, voltando pra propaganda. Passei a ficar doida por Your Song, como quem ouve pela primeira vez. Meu verso preferido é: My gift is my song/ This one for you. Uma tradução rápida seria: Meu presente é a minha música/ Esta é para você. Mas gift também significa dom. Do mesmo modo, com este blog, me sinto dizendo continuamente: My gift is (to) write/ this one for you.

Agora o jogo virou, pá

Uma vez um português me perguntou até que ponto nós, brasileiros, estudávamos a história de Portugal. Acho que até D. Pedro II voltar, eu respondi. Aí ele pensou um pouco e disse:

-Que bom. Depois é só porcaria.

Bem, esse diálogo faz quase vinte anos e, de lá pra cá, Portugal tem merecido usar o meme “parece que agora o jogo virou, não é mesmo?” com a gente. Ou melhor, conosco.

Quando eu comecei a tentar ler autores sul-americanos foi que eu me toquei do quanto éramos um país orgulhoso que usa a diferença da língua como desculpa para se manter à parte da América Latina. Desculpa sim, porque temos muito mais dificuldade em entender inglês do que espanhol e consumimos muito mais tudo que vem da língua inglesa. De maneira semelhante, foi meu recém adquirido amor pela música portuguesa – sou fã do Miguel Araújo como nunca fui fã de nenhum outro cantor na minha vida – que me fez ver que viramos também demais as costas para os portugueses. Passei a ver entrevistas do Araújo e do Zambujo, vi o Tiago Nacarato cantando no The Voice e outros vídeos dele no youtube, Zambujo concorreu ao Grammy Latino com um álbum com canções de Chico Buarque; todos eles com gravações de músicas nossas e/ou participações de brasileiros, falam dos nossos compositores, têm a música brasileira como uma influência. Eu agora sei estes nomes, mas quantos de nós realmente sabemos alguma coisa sobre os portugueses? Eu mesma não sei, gosto de uns autores e uns músicos. Tenho a impressão de que é muito natural, em Portugal, estar a par do que acontece aqui. Depois de Dom Pedro II voltar, eu só sabia que eles mereceram uma música fofa do Chico: Sei que há léguas a nos separar/ Tanto mar, tanto mar/ Sei também quanto é difícil, pá/ Navegar, navegar.

Sim, claro, agora sabemos que eles estão bem. E graças a um governo de esquerda, o que torna um contra-senso brasileiros que foram lá para fugir da Dilma ou eleitor do candidato que promete exilar esquerdistas. Há os que dizem que eles nos devem, porque fomos a colônia mais rica e tal. Mesmo que a dívida exista, porque o laço sempre existirá, ainda assim a migração me soa como parente que sumiu vinte anos e volta porque agora está doente.

Curtas possíveis

Não poderia ter tatuagem nem se quisesse, por ser alérgica, mas isso não me impede de ter tatuagens imaginárias. Uma grande tatuagem, na realidade. Tenho tanto ciúmes dela que nem vou contar como é pra ninguém imitar. Numa das variantes, ela tem uma frase, tirada de uma música francesa. Me disseram que na França ela é bem conhecida, porque Bourvil é como se fosse o Chaplin deles. O verso que eu escolhi diz que “entre escombros, eles dançavam”.

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Por outro lado, fiz uma única tentativa na vida de ler o Diário de Anne Frank e parei nas primeiras páginas. Ela tinha um jogo com as irmãs de imaginar o que fariam se pudesse ir pra qualquer lugar no mundo exterior, naquele instante. A noção de ter que arranjar estratégias para não se abater numa realidade tão pequena foi demais pra mim.

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Por influência do Milton, comecei a ler Karl Ove, um novo autor querido do mundo. O anseio dele se resume a querer “ser uma pessoa decente”. Ele foi descrevendo com tanto brilhantismo as coisas mais prosaicas, que até me animei – também sou prosaica, quem sabe um dia consiga escrever um livro assim. Aí no segundo volume (é uma série que terminou recentemente no sexto), ele faz um troço que, bem, não somos prosaicos do mesmo modo.

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O nível de decepção das pessoas com as pessoas me faz pensar que talvez eu viva há tempos num lugar escuro, porque ninguém me surpreendeu tanto assim.

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O Miguel Araújo lançou essa música agora. Só mesmo alguém longe, em outro país, vivendo uma situação totalmente diversa, pra escrever isto agora. Saudades de comentar amenidades aqui com todo direito e naturalidade. Saudades de ser leve. Saudades de me incomodar com minhas próprias picuinhas.

 

Mas se a ciência provar o contrário

Eu já estive dos dois lados do conselhos e já vi de tudo. Pessoalmente, não gosto e muito raramente peço; tem os que são o contrário, que montam verdadeiras comissões, abrem a discussão com os colegas de trabalho, as amigas, o porteiro do prédio, quem quer que ouça. Mas se do meu lado, fico com fama de pessoa teimosa que não confia em ninguém por não pedir conselhos, eu notei que mesmo as pessoas que consultam todo mundo não são tão abertas assim. Tinha uma que tinha problemas recorrentes com o namorado sempre estranho, sempre com histórias que podiam ser tanto mal contadas como diferenças culturais, até que um dia ela veio me falar de versículos que abriu por acaso na Bíblia depois de perguntar a Deus. Os verculos apontariam para uma direção clara, que não era a que me parecia que os fatos apontavam, o que me colocou numa posição “oposta” a Deus. Da minha parte, não vejo diferença entre fazer isso com a Bíblia ou com outro livro qualquer, nem com querer consultar a tabela de planetas retrógrados, o que me pediram recentemente. A pessoa, que entende de astrologia por posts do Facebook, queria a ajuda dessa informação para saber se deveria dizer SIM a alguém que retornou à sua vida, numa lógica que nem eu entendi direito. Tanto a moça da Bíblia quanto a dos planetas retrógrados já sabiam o que queriam ouvir – a única coisa que aceitavam ouvir, na verdade.

Será falta de chocolate?

Pensei em falar sobre o professor Victor, que tinha acabado de voltar de Paris 7  e falava das Paixões Tóxicas na Adolescência, tese que ele tinha acabado de defender. Estar apaixonado, adolescentemente apaixonado, era como usar droga. Pensei em falar de drogas, da DMT (documentário Netflix) que leva a estados de viajar pelo universo, conversar com as células, sentir o amor que permeia tudo. Pensei em Bhakti Yoga, em meditação, no grande objetivo que é controlar a mente, termo que me confundiu durante muito tempo, e hoje me parece que é mais uma retirada do que uma imposição. Do quanto eu meditava e me isolava na adolescência até ver de nada importava a paz de espírito cheia de exigências, que eu deveria conseguir me manter equilibrada no turbilhão da vida.

Mas o mais honesto mesmo é dizer: passei a vida incólume a esse sentimento, me sentindo meio superior e sentindo pena, mas finalmente chegou: virei uma fã.

Em fuga

É como estar no Eu sou a lenda.  Ver gente que eu achava legal – e diria até que com um esforço consciente pra ser mais legal do que sua posição de classe dispõe – achando que “até que não é má ideia” as diversas violências que tem sido legalizadas nos últimos dias está muito difícil. Conhecer gente nova? Eu não duvidaria nada que o galã bem nascido espancasse o flanelinha com a maior naturalidade na saída do jantar. Porque, pelo menos no discurso, as coisas estão assim.

Tenho tomado doses cavalares de Miguel Araújo.

Anda comigo ver os aviões

“Eu nunca pensei que na minha idade ainda fosse possível”, diz a pessoa madura apaixonada. Poderia falar dos adolescentes ou quase adultos que conheço, que pula na cama da mãe às três da madrugada porque descobriu que é correspondida; das conversas infinitas da outra testando o clima, ambos lindos, interessados e sem a menor consciência disso; ou do que terminou, e semanas depois terminou definitivamente, agora sem amizade, sem mensagens, sem pretexto para manter contato e a dor não para de doer. Tudo tão pouco adulto. Adultos miram. Adultos conversam, pesam prós e contras. Adultos sabem que sexo é bom mesmo quando é ruim. Adultos não se cobram e nem exigem perfeição. Adultos combinam. O sim é todo mais fácil e o não, depois de outros tantos, já encontra estratégias de restabelecimento prontas. Mas nada disso é…

Cegueira e matemática

Tem uma música do Alejandro Sanz que eu adorava e que se tornou insuportável pra mim depois que fiz pesquisa e convivi com pessoas que perderam totalmente a visão. É esta aqui, Siempre es de noche:

A história da música é de uma conversa que ele teria visto, o moça descreve para o rapaz o mundo que ele não vê. Quando ela se afasta, ele pergunta para o observador, o Alejandro, num tom apaixonado, se ela é bela. Acho que já disse isso aqui uma vez, que essa pergunta é bastante comum, pelo menos entre aqueles que um dia foram videntes: como ela é, qual é o rosto, que impressão passa? É curiosidade pura, porque para tocar em alguém é preciso intimidade. Saber que a pergunta é comum retira todo romantismo que o Alejandro atribuiu… Mas o pior, pra mim, é o refrão: “o que eu não faria para contempla-la, ainda que fosse um só instante”.

Um exemplo, para depois voltar no Alejandro. Eu era muito CDF quando era criança, do tipo que já passava de ano no terceiro bimestre. Uma das poucas matérias que eu não ia tão bem era matemática. Aí quando entraram física e química no currículo, talvez porque naquela altura eu já estava em escola pública, meu desempenho caiu de uma maneira absurda. Eu senti como se de repente tivesse ficado retardada. Aquilo se tornou um tormento, eu tinha que colar e chutar o tempo todo, por mais que tentasse eu não conseguia entender. Nunca fui de decorar e aquelas fórmulas eram simplesmente impossíveis para mim, símbolos que não faziam sentido. Ao mesmo tempo, eu era apaixonada por trigonometria e logaritmos, gostava de fazer caminhos enormes só com o teorema de Pitágoras, resolvia logaritmos de cabeça enquanto andava até o colégio. Até hoje não sei o quanto eu teria me beneficiado por uma maneira diferente de ensinar matemáticas e afins ou eu estava destinada a ser pior do que os piores porque sou uma pessoa de humanas. Hoje uma das grandes invejas da minha vida é justamente esse tipo de raciocínio. Eu, que mal consigo fazer conta sem olhar para os dedos, se pudesse escolher teria uma mente matemática. Eu sei que para quem o possui o mundo é diferente, existe uma beleza subjacente, uma ordem. Quanto mais abstrato mais legal deve ser, meu deus, babo só de olhar aquelas fórmulas e imaginar o que se imagina para chegar até elas.

Existe um mundo cuja existência eu sei e não entendo, que é o mundo da matemática. Digo que tenho inveja mas, na verdade, é uma desejo bastante abstrato, porque como invejar algo que é tão longe de qualquer coisas que eu já vivi. Lembro que ele existe, penso que bom seria, mas estou bem aqui. Onde outra mente veria matemática, eu não vejo nada ou vejo outras coisas. É mais ou menos assim, acho, que um cego de nascença se sente com a pergunta se ele não sente falta de enxergar. Vários deles me disseram: NÃO, em si. Mais pelos outros, por saber que existe, por viver num mundo organizado assim. Ou seja, “o que eu não daria para contemplá-la blablablá” é coisa de vidente.

Incorreção

Hallellujah é uma das músicas do primeiro Shrek e foi a Anne, do Belos e Malvados, que me ensinou a gostar dela, na versão do Rufus. Ainda amo a versão do Rufus, ainda me parece a que alcançou a dose certa de doçura, sem ao mesmo tempo se derramar demais como nas muitas interpretações gospel que existem no youtube. Falando nisso, antes de entrar onde eu queria, me enfurecem que muitas dessas versões, além do tom excessivamente meloso, praticamente só mantém o Aleluia, porque “corrigem” a letra. Ao invés do Rei Davi em crise, da solidão e do estar quebrado, aquela louvação de sempre. (It’s not a cry that you hear at night, it’s not somebody who’s seen the light, it’s a cold and it’s a broken!) Deixaram o Cohen lisinho, correto e com a brancura do Omo! Quando conhecia a versão do Rufus tentei gostar do Cohen e não rolou, não gostei da voz, achei arrastado, achei brega. Há poucos dias parei no I´m your man e queria morder o homem, apertar as bochechas dele. Amo que ele seja tão tímido, judeu, desajeitado e incorreto. Por um mundo mais Cohen e menos (insira o ídolo teen-galã-rebolativo do momento).

(Lembrei que também gosto muito da feiura do Gonzaguinha. )

Depois

E se, ao invés de pregar a volta imediata por cima, medicada e de bocarra vermelha, se dissesse, nos dissessem, que as coisas ficam diferentes durante muito tempo, anos, que algumas partes ficarão rasgadamente emotivas para sempre? Porque o luto, quando é grande demais, deixa de ser apenas uma espera e se torna o começo de um ser humano novo.

Todo se transforma

Sou bestona bestona. Tanto que quando fui tentar explicar em palavras, ficou parecendo outra coisa. Em palavras ficou assim: um amigo descobriu agora que me separei, e a ele me escreveu umas palavras de apoio e com isso eu ganhei a noite. Não, não houve nada de sexual no apoio dele ou na minha felicidade. Da minha parte, quem sabe, exista um respeito exagerado, de achar que é uma pessoa que nem deveria me ver como amiga? É que é um desses amigos que a gente encontra uma vez na vida, ele em trânsito, e você leva pra conhecer Curitiba e fala mais do que o homem da cobra. Aí cada um volta pra sua casa, uns têm netos e outros se separam, e vira aquela amizade de Facebook, com uma curtida aqui e outra ali.

O motivo da minha felicidade talvez nem tenha sido tanto pelo amigo, e sim do simbolismo. Vou te dizer que tem aí duas pessoas de quem eu esperava receber apoio, e jamais me disseram nada. Pessoas que na minha visão, me colocando no lugar delas, pelo que vivemos juntas, eu achei que se sentiriam mobilizadas ao saber que eu estava separada. Porque sabem o que é isso. E, de ambas, não recebi uma única mensagem. Aí tem o outro, que conversou comigo há anos, de quem eu jamais esperei nada, que poderia passar batido pelos meus assuntos e eu nem saberia, e sente vontade de me dizer alguma coisa. Fiquei tocada. Eu vejo nisso um bem que eu lancei ao universo sem esperar nada em troca e que voltou. Vejo a volta das minhas boas ações, o universo me amparando. É um baita motivo ganhar a noite.

You are far

Lembrei esses dias dessa música, que é uma dessas músicas dos anos 80 ainda gostosas de ouvir, mas da qual nunca lembramos. Naquela época, gaydar praticamente não existia, e as pessoas ficaram chocadas do George Michael ter sido encontrado no banheiro com outro homem. Hoje a gente olha pra ele e pros clipes e se pergunta como não estava na cara.
Mas essa música é muito mais do que isso. Meu irmão mais velho tinha um CD duplo do George Michael. Minha prima, Ana, foi passar as férias em Salvador com a gente. Desde criança, quando ela e minha tia iam pra casa do meu pai e ficavam pelo menos um mês. Minha tia, que morava em São Paulo e odiava a cidade com todas as suas forças. Tia Lourdes era assim, tudo nela era com todas as suas forças. Naquela visita a Ana veio sozinha, eu e a Ana não éramos mais crianças. Ela já tinha começado o (segundo) curso de engenharia. Ana se encantou com um dos melhores amigos do meu irmão, o Márcio, e no último dia jantamos com ele no restaurante chinês que tinha quase em frente à praia. Eu quis dar à Ana boas lembranças, e quando fomos ao Pelourinho eu disse pra um desconhecido que nós o havíamos eleito o homem mais bonito do local – ele estava meio puto, e disse que deveríamos dizer isso “pr´aquele cara ali”. Lembro de nós duas saindo indignadas da praia, depois que um senhorizinho com uma longa barba branca nos cantar. A Ana fumava e bebia dry martine, ou seja, compensava duplamente o estilo que eu não tinha. Fomos muito ao shopping, fizemos planos para a próxima Oficina Mix em São Paulo, ela me contou como era a F1 no autódromo. Nós não sabíamos que aquelas seriam nossas últimas férias juntas, a nossa última qualquer coisa juntas. Que pouco depois eu casaria, que ela terminaria o curso de engenharia. Que eu passaria praticamente uma década sem viajar, que um dia tia Lurdes ficaria tão doente e deixaria de ser uma mulher forte pra ficar fraquinha e triste. Que a tia morreria, que eu me separaria e ela… não sei o que será dela agora e me preocupo. Naqueles dias, as horas passavam devagar, quentes e melancólicas. Ana no computador, eu lendo. Os assuntos surgiam, os CDs do George Michael o dia inteiro no repet. Foi tanto repet que meu irmão passou a odiar todas as músicas e se livrou dos CDs. Aquela época está far, so far.