Curtas levinhos

bullying do bem

Vi um vestido num site e gostei. Adorei o modelo, a cor, as bolinhas, a descrição do tamanho era perfeita, os detalhes, as opções de cores. Fui olhar a avaliação dos clientes e tinha inúmeros depoimentos, com fotos, todas garantiam que o vestido é bonito mesmo e cai bem. Mas um dos elogios me fez tirar o botão do comprar e olha, quase não comprei mesmo: “Lindo vestido, perfeito para ir a igreja”. Pô.

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Eu peguei um ônibus pra uma região que nunca fui antes, na Cidade Industrial. Mais de meia hora no ônibus, no meio do nada, horário apertado, tudo merda. A cobradora mentiu descaradamente quando disse que não sabia me dizer onde eu deveria descer porque havia um muro enorme pintado com o nome do local. Mas, no final, quando estava para descer, fiquei esperando bem para olhar pra cara dela e ia agradecer. E era capaz de sair sincero. Por que? Mesmo sentimento do dia que olhei pelo portão e a Dúnia tinha fugido. Ela estava na frente de casa, cheirando a grama, sem nem ter o que fazer com a tal liberdade. Não tinha forças para brigar, o alívio por ter dado certo suplanta tudo.

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Eu acho que sofro bullying dos lixeiros. Tive que colocar dois lixos dia desses, porque comprei dois côcos muito grandes e eles não cabiam no mesmo saco. Só recolheram um. Por outro lado, quando me separei e colocava sacos ridicularmente pequenos, eles também não recolhiam. Teve uma semana que eu voltava pra casa e tinha um rastro de lixo na frente de casa. Mas aí depois descobri o valor de investir em sacos de boa qualidade, o saco de lixo lixo arrebentou assim que tentei levar de volta pra dentro.

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[…] Já estava começando a reclamar de novo e parei. Tô muito cansada. Como é difícil ser leve com falta de sono.

Láááááá longe

Eu arranjei um bico que vai me obrigar a ir em escolas estaduais durante alguns dias. As coisas não foram da maneira como deveriam. Sabe quando o atrapalho vem desde cima e vai fazendo um efeito dominó e quem está embaixo é que sente mais o impacto? Bem assim. Como pessoa extremamente organizada, correta e tensa, não gostei e reclamei. E fui ficando de mau humor. Não pude me organizar com a antecedência que gostaria, reclamei em grupo de zap, estava quase organizando levante dos insatisfeitos. Aí, finalmente, com muito atraso, chegou a lista das turmas e escolas. Como temia, lidarei com adolescentes, aqueles animais barulhentos cheios de hormônios. Aí fui de puta mau humor procurar o endereço e ver como chego em cada uma. Sou ninja em Google Maps, conheço vários segredos. Um deles é você inverter as rotas de ida e volta. Bem bobo: coloca o endereço de ida e volta, vê o que aparece, e depois inverte os endereços. Às vezes faz um diferença imensa.

Descobri um ponto de ônibus totalmente novo perto de casa, uma linha que nunca peguei. Já senti uma cosquinha. Estudei quando dá pra ignorar parte dos trajetos e ir a pé. Não conheço ninguém que já tenha cruzado a cidade inteira de ônibus como eu. A escola mais longe é num lugar muito bróder, que eu ia quando comprava tecido, conhecia o nome de todas as ruas. Mas o que matou mesmo foi quando entrei nos sites e vi as escolas. Pátio pequeno, as árvores, as paredes feiosas. Eu estudei em Escola Estadual. Toda escola estadual tem um pouco desse combo de falta de manutenção, mesmo quando elas são mais centrais (como a minha era).

Quando fiz segundo grau, não tinha linha de ônibus até a minha escola, e andávamos um montão a pé. Sol do meio dia e aqueles estudantes todos de azul subindo a rua, era uma pernada boa. Garrei afeto vendo a foto das escolas, tudo muito familiar. Assim como já gosto antecipadamente do novo caminho de ônibus que vou pegar. Claro, tô falando isso porque é pouco tempo e vai entrar um dinheirinho… Ter que ir longe e andar tanto sempre fez parte da minha vida; puxei pela memória e percebi que jamais tive o prazer de morar do lado de onde precisava ir. Quem sabe eu vá, ache péssimo, detestável, odeie os adolescente e lamente não estar numa posição que possa recusar dinheirinho, mas por hora eu tive um insight cheio de afeto: isto que é o que todos querem distância – o ônibus, o esforço, a escola pública – está entranhado em mim. É esta vivência que me faz nunca olhar o “povo” como “eles”. Nós nos olhamos nos olhos, nós balançamos juntos no ônibus lotado de manhã.

(E viva Chile!)

xadrez

Os ninhos

ninho de pássaro

Era um horário de pouco movimento. Eu me sentei cheia de sacolas de supermercado num banco duplo preferencial, que ficava em frente à porta. Quando paramos no terminal, a senhora que tinha do meu lado saiu e uma mulher com seus cinquenta se sentou no lugar dela. Percebi que ela começou a mexer no celular e me ajeitei, abracei as sacolas no colo e fiquei olhando pela janela. Depois de algum tempo, senti o braço da mulher bater no meu. Virei instintivamente, mas meu pensamento foi o de que ela devia ter encostado em mim sem querer, tentado rolar uma tela ou tirado o casaco. Não tinha sido por querer, ela realmente havia me cutucado.

Olha isso aqui!

Era uma postagem no Facebook, várias fotos de ninhos.

-Olha que interessante, os passarinhos construíram vários ninhos, um em cima do outro.

-Ah, não é sempre foto do mesmo?

-Não, olha aqui. Esse é um, o outro é do galho de cima e outro galho mais pra cima.

-Um condomínio de ninhos!

-Sim! Eles construíram todos juntinhos, por cima um do outro. Olha só, é um pinheiro.

-Vai ver que são da mesma família.

-Devem ser. Queriam ficar juntos.

-É mais prático. Um pode aparecer no ninho do outro e falar: você tem uma minhoca pra me emprestar?

Eu pedi licença porque já ia descer. De pé, me despedi dela, que olhava para a tela do celular e ria baixinho: “minhoca”.

Constante

mendigo

Agora a cada parada de ônibus tem alguém para “interromper o silêncio da viagem de vocês”. No meu supermercado a segurança não dá conta de tirar todos os mendigos do caminho, então sempre tem algum, em uma das saídas, para causar incômodo com sua falta de banho, roupas rasgadas e falando de fome. O mesmo sujeito me pediu dinheiro no terminal, na ida, e depois me pediu dinheiro no ônibus, na volta. A história de fitoterápico fortíssimo para doença degenerativa talvez não cole com ninguém com o mínimo de instrução, mas ele tinha o rosto retorcido de uma maneira que não é possível fingir então, tanto numa ocasião como outra, as pessoas ajudaram. Eu ajudei na ida e não ajudei na volta. Num supermercado comprei um café com leite pra um, no outro estava espantada diante de uma compra leve que saiu mais de cem reais, então não olhei e fingi que não ouvi, e o mendigo se queixou da minha falta de consideração de nem ao menos olhar para ele. Voltei para casa convicta da minha falta de trocado, que era verdadeira, mas com o coração apertado. Outro dia, naquele mesmo supermercado mas em outra saída, eu ajudei um homem que estava abordando pessoas, uma depois da outra, e elas lhe ignoravam. Eu estava subindo a rua e observava. Quando ele chegou perto de mim, não consegui ser dura com ele, não depois de ver aquela cena se repetir tanto. “Graças a Deus a senhora parou pra me ouvir, eu estou aqui há mais de uma hora…”. Eu não acreditei em uma palavra do que ele disse sobre passagem errada, mas lhe dei uns trocados. Eu tinha trocado e não estava me sentindo pobre. Para mim o tempo também parece estar correndo contra, eu também não sei o que fazer. Será que aquele pra quem eu nem olhei estava realmente com fome? Meu mundo está se desfazendo. Será que eu tinha a obrigação moral de entregar pra ele os meus dez reais? Tudo o que eu acho importante pra sociedade está sendo jogado no lixo, e a indiferença dos que têm posses me enlouquece. Vi um colega num carro todo caro e ao invés de ficar interessada vi naquilo a injustiça do mundo. Quase voltei, o mendigo não ia sair do lugar, mas é uma subida tão difícil. Me dei desculpas até chegar em casa. Vai me fazer falta. Vai mesmo? Não tanto quanto faz a ele, mas vai. Este mês, em especial. Eu também não sei mais o que fazer de mim. Eu estou perto deles, eu também sou eles.

Utopias

dinheiro

Tem as estações tubo, o cobrador recebe o dinheiro para que não se cobre dentro do ônibus, e assim ele pode demorar menos tempo em cada parada. Eu pego ônibus numa estação de bairro, é comum os cobradores estarem batendo papo, assistindo TV, deve ser bem tedioso. Também é comum eles não terem muito troco. Já nas estações tubo centrais, os cobradores não param um minuto, não conseguem nem ao menos ir ao banheiro uma única vez durante todo expediente.

Uma vez eu estava conversando com um cobrador, e disse que na minha opinião os que trabalham nas estações mais movimentadas deveriam ter turnos menores. Ele pensou um pouco e disse que não dava, que atrapalha a escala, que a empresa não faria. Aí eu fiquei quieta, porque estava falando de um mundo ideal – num mundo onde a escala não é pensada nos termos mais cômodos e lucrativos, e sim que oferecesse condições mais justas. O mundo onde os carros são mais lentos para que as pessoas morressem menos.

Enfim, utopias. Para mim, um país que criminaliza arte e ciências humanas quer matar qualquer possibilidade de sonho.

Sem troco para vinte reais

troco

Eu havia visto a discussão de manhã e passei muito tempo pensando nela. Depois voltei de ônibus e parei no tubo da frente e ainda eram as mesmas cobradoras. Quando eu já estava na rua, elas me pediram pra voltar. Eu achei que iam me pedir pra ser testemunha. A história do antes: uma moça tentou passar com uma nota de vinte reais de manhã cedo e a cobradora disse que não tinha troco. Quando eu fui pegar ônibus, vi uma moça fora do tubo mexendo no celular e paguei minha passagem. Entraram mais dois ou três. A cobradora disse para a moça que agora ela poderia passar, porque tinha troco. Dali a pouco chegou a mãe. A moça histérica, dizendo que “agora ela disse que pode”. A mãe mais grossa ainda, falando que pagava quatrocentos reais pra sei lá onde a moça ia e tinha que chegar 7:30h. Que faria a cobradora pagar. Que era a obrigação dela ter troco. Que a filha traria vinte reais todo dia naquele mesmo horário e ai dela se não tivesse troco. Um dos moços do tubo até gravou a briga e disse que postaria no FB. Quando o ônibus chegou, ouvi a mãe dizer: “eu nem ia falar nada, mas o meu marido é policial”. Ainda foi com um “nem ia falar nada” quando eu saí, mas depois soube que ela completou: “sabe como policial é louco, uma hora você pode levar um tiro na cara”.

De manhã cedinho, por causa de uma adolescente mimada, a cobradora do tubo foi ameaçada de morte.

Consulta

tubo cobrador

Era final da tarde, por volta das 17h e havia chovido forte e parado, chuva de verão. O tubo estava vazio. Veio uma mulher, uma senhora que ela nunca havia visto antes, nem naquele horário e nem em outro. Estava de bermuda e usava um óculos de grau grande, igual se usava antigamente. Ela deu uma nota de dez e, enquanto a cobradora separava o troco, perguntou se podia fazer uma pergunta. O que será que viria, a cobradora pensou, quem atende público ouve de tudo. A mulher perguntou se a cobradora tinha cachorro e ela disse que não. A mulher soltou um “ah” decepcionado, mas a cobradora se sentiu obrigada a dizer que não tinha hoje, mas já teve, um pincher, quando o seu filho era pequeno. Aí a mulher começou a contar que estava com um cachorro em casa que se coçou até abrir buraco no pelo, que havia passado semanas com aquele cone, e ela achava que era sarna. A pergunta era se a cobradora sabia se tinha que ir no veterinário ou dava pra comprar remédio pra sarna direto. Nisso foi entrando gente, era bem o horário que as domésticas saem dos prédios que tem por ali. Tinha que levar no veterinário, a cobradora falou, porque só assim pra ter certeza de que era sarna. Muitas coisas fazem o cachorro se coçar. Stress é uma delas. Às vezes podia ser tristeza, a pincher uma vez também se coçou até abrir buracos no pelo, mas foi quando o filho parou de ir e voltar com ele para a escolinha. Também teve que usar cone, levou um tempão pra curar. Sarna era muito contagioso. A mulher disse que estava saindo justamente pra comprar tudo novo pro cachorro. Mas o cachorro dela havia tido contato com outro cachorro, a cobradora quis saber, porque até onde ela sabia era de outro cachorro que pegava. A mulher disse que leu na internet que pode ser que as coisas do cachorro fiquem contaminadas, que o dela tem um monte de almofadas que deveriam ser só para o verão mas o cachorro se apegou e não deixava mais ela tirar, então pro cachorro não ter que passar a noite sem nada quando o veterinário mandasse jogar tudo fora e aplicar remédio, ela já estava saindo pra comprar tudo novo. A cobradora e as outras pessoas do tubo, que até o fim da conversa já eram umas oito, concordaram que dá muita dó do cachorro porque ele acha que a culpa foi dele. A mulher falou, de si mesma: “a culpa não é do cachorro, é do dono”. Aí o ônibus chegou e o tudo ficou vazio outra vez. Quem atende público sempre ouve umas histórias.

 

A mulher que fez consulta veterinária com cobradora fui eu.

Curtas de três senhoras no ônibus

lugar preferencial

Esta foi desagradável: eu estava de pé e vi quando entrou a senhora cutucou o ombro de uma moça que estava sentada com fones de ouvido. Nem era lugar preferencial. A moça provavelmente pensou que a mulher havia apenas esbarrado e nem olhou. Aí a senhora colocou a cara bem na frente da moça e arrancou o fone de ouvido da orelha e ordenou que ela saísse dali, porque ela era de idade, estava de pé à seis horas e muito cansada. A moça respondeu a grosseira com grosseira também, a senhora ameaçou bater nela, a moça bateu palmas ironicamente. Que clima logo de manhã.

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Cada dia mais normal pessoas olhando no celular dentro do ônibus, até as de pé. Uma senhora estava olhando seu whatsapp. Baixinha, óculos, cabelo branco, expressão tranquila, bem o tipo que dá vontade de chamar de tia. Aí eu tive que me aproximar porque ia descer em pouco tempo e ela estava assistindo, como descreverei… uma cena de grande intimidade entre homem e mulher.

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Eu só pude olhar para a senhora de costas, quando saí do ônibus. Ela me surpreendeu por estar com um cabelo branco lambido até os ombros, sem corte e talvez sem lavar. Uma camiseta folgada pra fora da calça também desajeitada. Estava sentada quando ela entrou no ônibus e passou o trajeto inteiro exortando as pessoas à felicidade. “Amar é tão bom, amar é a melhor coisa da vida. Amem muito, não importa se é homem ou mulher, namorado, amante, o que for, o importante é ser feliz. Eu nos meus sessenta anos estou amando, sou muito amada, a melhor coisa do mundo é amar”.

Curtas de só derrotas

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Quando eu cheguei, o tubo estava vazio, o ônibus devia ter acabado de sair. Fiquei na frente da porta, a fila começou a se formar atrás de mim. Quando o Inter 2 chegou, estava vazio, literalmente, zero passageiros. E eu a primeira. A porta se abriu e o ônibus era meu, podia sentar onde quisesse. Fui direto para a fileira de cadeiras individuais. O motorista foi dar uma volta, o ônibus estacionado, pessoas chegando e preenchendo os espaços. Quando o motorista estava voltando, a última pessoa a entrar no ônibus foi uma grávida, com um barrigão enorme. Ela veio direto do meu lado e praticamente colocou a barriga no meu rosto. Tive que oferecer meu lugar.

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Começou a chover quando eu paguei pelas compras. Era daquelas chuvas de final de mundo. Todo mundo parado esperando a chuva passar. Os carros passaram a estacionar praticamente dentro do supermercado. Eu me encostei no carrinho e fiquei pensando na vida, e mesmo assim levou muito tempo. Depois de uma meia hora já não entrava nenhum carro, as pessoas chamavam uber, a chuva parecia ficar mais e mais intensa, trovões e relâmpagos. Eu já estava com dor na lombar e cansada quando desisti e fui carregando minhas compras debaixo da chuva. A única coisa que eu torcia era que ela não acabasse no meio do caminho, seria humilhação demais. Fui andando nas ruas vazias, sem ligar pro banho, pensando que não era tão ruim assim. Aí quando estava quase em casa, uma quadra, enfiei o pé na grama e sujei de lama até a meia.

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Eu tento marcar todos os meus exames neste período em que o ano não começou direito, para ficar menos puxado. Mesmo assim, foi difícil marcar uma das ecografias, e pra ficar ainda no começo do ano, topei fazer o exame do outro lado da cidade, às 13:40, no mesmo dia que cortaria o cabelo pela manhã, horário que eu havia agendado no ano passado. A velha história do muito tempo pra ficar na rua e pouco tempo para voltar pra casa, e preferi voltar para casa. Comi uma saladinha às 11:30, e saí de casa pouco depois do meio dia. Três ônibus depois e muita ansiedade, cheguei  no laboratório com 5 min de atraso. Esperei por um encaixe mais de uma hora. Fiz o exame. Fui numa padaria comer. Peguei outros três ônibus para voltar. Choveu muito, a cidade estava um caos, e ainda assim estava quente. Cheguei em casa quase 18h, esgotada e grudenta.

As desventuras de Rodolfo

fale com o motorista

Uma mulher conversando com o motorista do Inter 2:

Dava vontade de nunca mais pisar no bairro, mas a minha mãe não sai de lá. A gente conhece todo mundo. Mas depois do que aconteceu a minha mãe ficou derrubada, ela parou de andar. Agora que ela voltou a andar, está andando bem devagarzinho, mas ela ficou de cama, não conseguia mais levantar. Depois ele arranjou outra. Ele estava saindo com essa moça, ela separada, vivia junto com o marido. Aí ela apareceu grávida. Rodolfo disse que era dele, a moça disse que era dele, e o marido disse que era dele, mesmo a moça dizendo que era do Rodolfo. Ele tentou matar o Rodolfo três vez. Ele chegou tirando o revolver, eu jogava meu corpo em cima, dizia pra não fazer isso, um forfé na rua. Ele dava um monte de tiro e não acertava a gente, atirava pro alto. Depois que a criança nasceu, fizeram DNA e era dele mesmo. A mulher voltou pra ele, estão juntos até hoje. Depois o Rodolfo ficou amigo dele, hoje ele é amigo nosso. Agora ele tá na cadeia. Justo agora, que tinha se acertado, não estava usando nada, estava limpo, estava namorando. Ele tava namorando uma moça com duas crianças, nenhuma dele. As crianças me chamam até de vó. O Rodolfo conseguiu o indulto e quando nós fomos buscar ele, ele já tinha saído no dia anterior. Ele saiu e foi direto pra casa da namorada. Aí já estavam procurando ele, ele saiu com a tornozeleira e tem um perímetro de onde eles avisam que vão ficar. E de lá já estava se preparando pra ir pro litoral, passou na casa da mãe só pra pegar roupa. Já tinha tudo acertado com outra namorada esperando ele por lá. Não podia porque estava fora do perímetro, o advogado foi lá e tirou o indulto. Isso matou ele.

Pessoas, cachorros e indiferentes

passear-com-seu-cachorro-1

Eu entrei há poucos dias num aplicativo que é tipo um karaokê. Tem opção paga e você canta o que quiser. Na gratuita, que é a que eu uso, só se pode entrar pra cantar na música dos outros. Mal estou lá e já me apeguei às pessoas. Tem um que fala “éramos todos jovens” antes de cada música, na sua maioria da Jovem Guarda. Tem o japonês louco e deixa tudo com ritmo de rock e a gente se esgoela. Tem o rapaz sexy. Tem o de inglês péssimo que escolhe músicas dificílimas, que eu nunca me proporia sozinha, e a falta de pudores dele me estimula. Assim como tem gente tentando cantar bossa nova e é interessante perceber quais as partes difíceis para outras línguas.

Tem os cobradores do tubo que se revezam. Tem os vendedores Manassés. Nunca mais encontrei a médica que vai conversando até o hospital, sempre reclamando. Tem a mulher que sempre puxa papo com a mais madame que encontra no ônibus. Os papos dos universitários. O pessoal que desce na favela. As pessoas que têm problemas de locomoção e atravancam toda saída. As mulheres que riem alto no ônibus de manhã cedo. Adolescentes barulhentos. Riquinhos de GPS. O cobrador politizado que vai conversando com o motorista até o terminal. A maluca com problema nos olhos.

Humanidade se acha grandes coisas, mas somos igualzinho cachorro: basta fazer algo juntos que cria laço.

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Quando vejo notícias de pessoas sem médico ou queimadas pelo preço alto do gás, sempre me esforço pra pensar no pessoal do ônibus. Tenho visto tanta indiferença e tenho medo de ficar assim, de perder a minha humanidade. Vejo e penso que se não faria pessoalmente a nenhum deles, então não posso deixar fazer a outra pessoa apenas porque não está sob meus olhos. Nenhum sofrimento humano deve ser pouco, ninguém pode ser reduzido a uma estatística.

 

Mais quebrado do que arroz de terceira

motorista

Quando minha carona estacionou o carro, o ônibus estava no tubo e eu o perdi. A cobradora estava conversando com duas amigas. As amigas iam num centro espírita e a cobradora estava em dúvidas. “É que eu sou católica”. “Nós também somos, deixa eu explicar, o espiritismo aceita”. E começou a contar, com um tom de voz que só pessoas que gostam de falar de religião têm, sobre ter ouvido falar há anos e não se interessar, e agora viveu coisas difíceis, e ela sentiu no seu coração algo inexplicável, uma vontade urgente de ir. No meio da história, entrou no ponto o cara que corre. Não sei se ele é íntimo, mas quando a cobradora perguntou como ele estava, sua resposta foi ótima: “Hoje eu estou mais quebrado do que arroz de terceira”. Eu saquei discretamente o celular discretamente pra anotar, mas não precisava – a frase é tão maravilhosa que provavelmente lembrarei pro resto da vida. A mulher contou que sai tão bem das reuniões, que no primeiro dia parecia ter deixado quarenta quilos lá, que ela sai leve, eufórica. Meu primeiro ônibus chegou e fui perdida nos meus pensamentos. Saí dele e entrei no outro, que fica muito tempo parado. Entrei e sentei. Logo em seguida entraram duas mulheres, que cumprimentaram efusivamente o motorista. Pensei que eu deveria ter cumprimentado também. Mas aí eles começaram uma conversa animada, os três. Elas dizendo que era muito ruim trabalhar à noite. Ele contou que a “amiga delas” – percebi uma certa ironia – tinha ido na viagem anterior. Começaram a falar de uma outra conversa, um certo clima, uma história de que haviam passado mel nele. “Ela conta tudo pra gente, tudinho”. Aí falaram que iriam perguntar pro motorista anterior qual o nome dele. Que sabiam o nome dele. Ele as desafiou a dizer qual era. “Lourenço”. Ele disse que era quase isso, que era Lawrence. “Nome de artista”. Eu acreditei, mas aí ele colocou um outro nome em inglês depois. Elas também ficaram na dúvida. “Será que eu vou ter que mostrar a identidade?” – ele fez charme. Aí elas falaram que Lourenço era uma das alternativas, que também podia ser Marcelo. Ele riu, disse que não tinha cara de Marcelo. “Mas também podia ser Alberto. Ou Capeletti”. Todos riram. Elas desceram. Eu desci quase em seguida, pedi pro Lawrence ou Capeletti me deixar numa esquina. Agradeci, desejei um bom trabalho e desci a rua pensando no quanto papo de ônibus é maravilhoso.

Insight

biarticulado

Eu estava na última parte do Biarticulado, ou seja, no ônibus, para variar. Entrou um mendigo pela porta 3 e ele começou a se dirigir às pessoas que estavam ali, naquele pedaço. Eu podia vê-lo falar e seus gestos, mas não conseguia entender o que ele dizia. Depois passou de cadeira em cadeira. O discurso – ou o método de parar na frente de cada um – foi muito eficiente, porque pelo menos três pessoas lhe deram esmola. Lembro especialmente da última moça, que pegou um porta moedas barulhento e prendeu as mãos dele nas suas enquanto lhe falava alguma coisa, acho que de Deus.

Meu dia havia sido agitado e bom. Quando ele chegou na parte do ônibus que eu estava, se encostou na pilastra e falou algo como: “Eu agora vou lhes falar sobre Respeito”. Eu estava sentada bem na ponta. Antes de começar a discursar, ele se virou para mim e eu coloquei na palma da mão dele uma moeda de um real, aquela moeda gorda. Ele olhou para mim e eu olhei para ele. Eu estava de óculos escuros. Aí ele me perguntou se eu era enfermeira, psicóloga, assistente social ou alguma dessas profissões que cuidam de pessoas. Fiz que não com a cabeça e ele me disse que parecia, e foi para o banco contar suas moedas.

Insights chegam de maneira inexplicável. Quando ele me olhou nos olhos, alguma coisa aconteceu. Lembrei das pessoas com quem havia tratado nas últimas horas. Me dei conta de que todas sorriram pra mim. Algumas dessas pessoas eram conhecidas, digamos assim – sou uma pessoa arraigada a hábitos e horários, e desenvolvo com meus lugares preferidos uma relação de amizade. Outras pessoas não, resolvemos alguma coisa naquele momento e talvez nossos caminhos nunca mais se cruzem. Estou sempre sozinha e não estou. Aquelas pessoas haviam me dado um pouco do seu calor, provavelmente porque eu dei um pouco do meu para elas. Quando percebi isso, alguma coisa se curou aqui dentro. Mais especificamente, minha tristeza por não escrever um livro. Este blog, estas linhas, e uma pessoa ou outra achar que eu tenho talento para a literatura, tudo isso é uma consequência dos meus passeios pela rua e nos ônibus, da maneira como eu reparo nas pessoas e gosto das suas histórias. Meu verdadeiro talento talvez seja esse, a capacidade de olhar para as pessoas e gostar delas. Como uma Oprah sem programa. Talvez eu escreva para sempre livros que não satisfazem editoras. Tudo bem.

Duas histórias sobre sexto sentido

vagão metrô

Uma é minha e outra é de uma amiga:

Eu conversava muito com uma mulher na academia, fazíamos a mesma aula. Ela morava ali perto, sozinha, filho já casado. Um dia ela sumiu, não soube o que aconteceu. Reapareceu meses depois, sem nenhuma mudança visível na aparência. Mas, quando eu a via andando pela academia, não sentia vontade de falar com ela. Era inexplicável, levando em conta que eu gostava muito dela. Pensava em falar e vinha um sentimento de rejeição de novo. Ela tampouco me procurou. Um dia finalmente coincidiu que sentarmos juntas, esperando a aula. Naquele tempo que ficou sumida, não sei o motivo, ela entrou numa religião bem fundamentalista, que classificava o mundo como puros e impuros de acordo com um tal ritual que a igreja dela fazia. Eu, consequentemente, não era da turma dos puros.

Minha amiga fazia pós-graduação em Barcelona e pegava metrô com frequência. A lembrança surgiu porque conversávamos sobre como andar em transporte público é uma baita vivência sobre tolerância, que nem sempre alguém que nos choca é necessariamente agressivo ou vai nos fazer mal – ele está ali porque quer chegar em outro ponto da cidade, como qualquer um. Minha amiga um dia estava sentada em um vagão vazio e um homem veio e sentou do seu lado. Ela se sentiu muito mal perto dele, um sentimento de urgência, uma vontade de ir correndo pra outro vagão; só que o outro lado dela condenou isso, a atitude discriminatória com alguém que não lhe fez nada. Ela ficou sentada. Pouco tempo depois ele desceu, e antes de sair colou um adesivo acima da porta do metrô. Era um adesivo neonazista que pregava o ódio a imigrantes.

IHHHSSS

nariz-fechado

Eu vi que era um rapaz bonito porque ele ergueu o rosto e nossos olhares se cruzaram quando eu entrei no ônibus.  Era jovem, barbudo. Eu me sentei atrás dele, num dos bancos duplos. Ao lado dele estava uma moça, cujo rosto eu só enxergava de lado e a nuca. Era um dos dias de inverno quentes que fez por aqui, tão quente que parecia o último verão que tivemos, que foi meio frio. Ela estava sentada meio de lado, encostada na parede do ônibus e o joelho no banco da frente, para apoiar melhor o celular. Cabelo preso, jovem. Quando é com a gente, não é um elogio convincente, mas eu acho que qualquer pessoa, quando está feliz e à vontade, fica muito bonita. A moça estava se divertindo muito lendo e digitando no whatsapp, sentada numa postura cômoda – bonita. As unhas eram compridas e rosadas, no mesmo tom da blusa que caía em um dos ombros e deixava a mostra o top que ela usava. Ela digitava, ria, lia, escorregava a barra de rolamento com o dedão. Pensei que ela e o rapaz, jovens e bonitos, faziam um belo casal. Só que assim que eu me sentei, vi que ela enfiava a palma da mão direita nas narinas e puxava pra cima com uma inspiração ruidosa, num gesto de quem está tentando segurar o que sai do nariz – IHHHSSS. Não é bonito estar com coriza e ter que se virar, todo mundo já passou por isso. Mas nem ao menos estava frio para culparmos o clima. Não puxe porque não faz bem, tenha sempre um lenço, minha mãe dizia. Ela não tinha. Já vi algumas pessoas enfiarem a mão assim no nariz, e sempre me pareceu meio exagerado, como se aquilo fosse enfiar a coriza de volta para a glândula que a produziu. O problema é que não volta, ela continua querendo sair, e a moça fez de novo. Ela nem se dava conta do que estava fazendo, dava para ver que era um gesto automático que não a atrapalhava em nada. Digitava, ria, de novo. Não dava nem cinco minutos e lá estava ela  puxando o nariz pra cima com a palma da mão, exibindo as narinas. IHHHSSS. Devia ser muita coriza. Ou talvez não fosse, se ela deixasse sair de uma vez parava. Se eu pelo menos tivesse algum lenço ou papel higiênico pra dar pra ela. A conversa no whats estava muito engraçada, devia ser um grupo, mensagens que não paravam de chegar, risadas. De novo. IHHHSSS. De novo. Comecei a me preocupar se eram áreas diferentes da mão, se o celular estava cheio de vírus, se talvez ela não devesse usar as costas da mão ou até mesmo a barra da blusa. Mas que tirasse, que resolvesse. Ombro pra fora, mais quente mas ainda inverno. IHHHSSS. A postura do rapaz, olhando para frente, começou a me parecer pura tensão. Acho que eles jamais seriam um casal. Primeiros encontros que não dão certo por motivos inconfessáveis, imaginei ele contando pros amigos que a moça era bonita mas IHHHSSS IHHHSSS. Minha mãe teria lenço de papel na bolsa para oferecer. Eu também teria, se estivesse resfriada. Se estivesse resfriada, teria saído com lenço na bolsa ao invés de ficar puxando ranho. IHHHSSS. A moça gargalhava, eram muitas mensagens. Eu aguardava a próxima puxada num misto de ansiedade e nojo – ficava aliviada quando ela finalmente fazia, como um profecia que se cumpre, e ao mesmo tempo desejava não ver mais. O ônibus mal virou a Cruz Machado e o rapaz se levantou rapidamente, muitas quadras antes do ponto. Tive a impressão de que foi um gesto de fuga. Eu também, me levantei logo em seguida.

Demonstração

capinha de celular

Entrei no ônibus um pouco mais tarde do meu horário, por isso não me espantei quando entrou um cara diferente do que tem o fone de ouvido. O do fone de ouvido é um grande profissional, só de ser uma pessoa diferente, já achei que ele estava em desvantagem. O sujeito distribuiu os kits e disse o nome de outra instituição, que não era a Manásses – não sei o porquê, mas quando é da Manassés sempre me passa mais credibilidade. Ele disse que “a medicina e a ciência não conseguiram encontrar a cura do vício das drogas porque é de origem espiritual”, e começou a recitar um monte de versículos. Não sei se foi a velocidade com que ele recitou ou meu desinteresse, mas não entendi uma palavra, só ouvi um monte de números. No kit, apenas o folheto e uma capa anti-impacto para celular. Eu já havia visto antes, é uma borracha retangular feia com bolinhas nos cantos. Ainda por cima era mais caro do que a médias dos kits, 4 reais. Não dá. Até que ele tira o próprio celular do bolso, revestido com uma capinha daquela, e diz que vai fazer uma demonstração. Eu e os outros passageiros paramos de fingir que não estamos olhando pra ele e observamos enquanto o rapaz recua até a parte sanfonada do ônibus e atira aquele celular pra frente sem dó, como quem joga pedrinha no lago. Atônitos, acompanhamos o voo do celular, que não sofre um arranhão. Para os que estavam mais para o fundo, ele vai até lá e atira o celular à distância de novo. Incrível, a capinha é boa mesmo. Dois compraram na hora.