Ninguém ouve o Dr. Drauzio

Acho que o Dr. Drauzio Varela é uma daquelas poucas unanimidades – alguém já viu uma pessoa dizer “nossa, não suporto do Dr. Drauzio”? Ao mesmo tempo, por mais que muita gente se diga fã, me parece é como aquela pessoa do grupo de amigas que é muito querida, mas que ninguém vai consultar pra um assunto realmente importante. Ou o amigo que conta piada e quando diz algo sério as pessoas riem do mesmo jeito. Pensei nisso quando me peguei relendo um link que ele fala de presidiárias, um trabalho que fecha sua trilogia sobre o sistema prisional: Estação Carandiru, Carcereiros e Prisioneiras. Demorei para me tocar que havia lido a entrevista há anos, porque basicamente ele sempre fala o mesmo: prisão não reabilita, é infinitamente mais violenta do que a simples supressão da liberdade, tem consequências sociais terríveis. Ou, mais resumido: sistema carcerário não funciona, temos que pensar em outra alternativa. Se a pessoa diz que respeita a opinião dele e quer que todo mundo seja preso, tem alguma coisa errada aí. Nessas entrevistas, Dr. Drauzio nem tenta apelar para nossa empatia, ele trabalha com números e prova que o aumento de prisões não diminui violência e que é um buraco sem fundo em termos de custos.

É uma questão profunda e com muitas nuances e sei que se colocar contra o encarceramento soa para muito como “não vamos fazer nada, vamos deixar roubarem e matarem à vontade e depois ainda dar um buquê de flores”. Que os bandidos, ao contrariarem conscientemente as regras, tornaram-se parte do Mal, e o Mal deve ser combatido sem tréguas e nem acordos; não se colocar frontalmente contra o Mal, não tentar coibi-lo da maneira mais absoluta, é o mesmo que fazer aliança com ele, é como negociar com o diabo. Os discursos mais recentes sobre regulamentação das drogas também me chocam e me assustam – eu não gosto nem de bebida alcoólica, como ser favorável à liberação de substâncias que alteram mais ainda a consciência e com mais rapidez? Mas eu reconheço minha ignorância diante do Dr. Drauzio e de outros estudiosos. Entendo que, por mais chocante e pacto com o diabo que pareça, eles partem de uma lógica simples e que funciona no mundo real: a mesma atitude produz sempre os mesmos resultados. Mais polícia, mais presídios, mais armas, mais verba para polícia, presídio e armas – não é o mesmo que sempre fizemos, mas em escalas cada vez maiores?

 

 

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Jô e os mestres

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Eu cresci vendo as entrevistas do Jô e via que não era apenas que umas entrevistas eram boas e outras nem tanto, mas que também para alguns entrevistados ele se derretia e outros não. Eu não entendia. Um era ator global fazendo sucesso na novela e o outro também, qual a diferença? Eu li uma historinha indiana, num dos muitos livros de filosofia oriental que li pela vida, que contava a história de dois mestres iluminados que eram contemporâneos, cada um com seu séquito de discípulos. Os discípulos se conversaram e arranjaram um jeito de fazer os dois se encontrarem numa cidade. Desvia o caminho de um e de outro e o dia finalmente chegou e as duas comitivas se encontraram. Os mestres se cumprimentaram carinhosamente, comeram juntos. Todo mundo reunido pra ver a que alturas chegaria a conversa e ela pairou em cima dos molhos, do quanto o pão era gostoso, essas bobagens. Depois do encontro, os discípulos perguntaram para seu mestre o que aconteceu, e as respostas foram: Ele alcançou o que eu alcancei, não havia para ser dito.

Eu via famoso e famoso e o Jô via talento em contraste com pessoa que está lá sem merecer, seja porque uma onda levou e já seria esquecido ou porque era parente de alguém. Toda área tem dessas; certos sistemas podem fazer os de fora acreditar que só ficam os que tem mérito, mas nunca se consegue manter a pureza de ter apenas os talentosos. Uma professora de faculdade de design me disse que, de todos os alunos do curso, talvez apenas 15% fossem realmente designers, naquela sentido mais puro do termo, da pessoa que tem pleno talento e amor pelo que exerce. “E quando essas pessoas estão no mundo, como encontramos os 15%?” Na maior parte das vezes só quem está na área sabe. Foi a Marielle que me fez perceber isso, que até mesmo reconhecer a grandeza é preciso ter olhar.

Homo sapiens

Nos primeiros ajuntamentos de Homo sapiens o material genético era distribuído sexualmente entre diversos parceiros, de maneira a gerar com comprometimento coletivo com a prole ou sempre houve um desejo exclusivo de proteger o seu próprio, por isso o atual predomínio da monogamia? Cada vez que esse tipo de questão é colocada, um historiador, um sociólogo ou qualquer estudioso da área de humanas sente um arrepio na nuca. Quando surge a proposta de fazer uma macro história, de tentar adivinhar os comportamentos do ancestrais que não deixaram escritos, é muito comum apelar por um biologicismo rasteiro, que pega o que convém de diversas espécies e com isso tenta justificar o que há de pior na humanidade. Harari corrige tal posicionamento em poucas palavras:

Os debates acalorados sobre o “estilo de vida natural” do Homo sapiens perdem de vista a questão principal. Desde a Revolução Cognitiva, não existe um único estilo de vida natural para os sapiens. Há apenas escolhas culturais, dentro de um conjunto assombroso de possibilidades. (Sapiens: uma breve história da humanidade)

Também pudera, Harari é historiador. E fala, nesta entrevista, de uma maneira tão simples do surgimento do seu primeiro best seller mundial (o já citado Sapiens) que nem fica parecendo que o livro é brilhante. Se você tem preconceito com best sellers, supere, porque de quando em quando eles têm razão de ser. Harari, para reconstruir a história da humanidade, encadeia fatos que a princípio não são novidade e com eles gera insights deslumbrantes. Por favor, consumam.

Pergunta cruel

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Foi logo nos primeiros meses da faculdade, logo, nem dezoito anos eu tinha. Deveríamos entrevistar uma gestante. Consegui marcar com uma faxineira da faculdade, que respondeu as perguntas enquanto limpava o banheiro. Em algum momento ela me disse que continuava fumando. Eu não prossegui o assunto, mas na hora de escrever o trabalho fingi que tinha perguntado alguma coisa do tipo “você não sabe que isso prejudica o bebê?” e, pra não inventar tanto assim, que ela tinha dado de ombros. Quando o trabalho voltou, havia a observação: “Pergunta cruel!”. Aí fiquei sem saber se me desmentia ou não. Levei alguns anos pra superar o conflito entre o que acho que esperam e o que realmente sou capaz – pelo menos na hora de fazer uma entrevista. Seria cruel mesmo, tanto que não perguntei.

Dez mil

Li a entrevista de algum cartunista, em algum lugar, e nela ele dizia que se você se propõe a ser cartunista e vai procurar um lugar pra te publicar, eles vão querer que você leve pelo menos dez mil tirinhas. Não sei se ele falou figurativamente, mas lembro que o número era esse. Você tem que provar pro editor do jornal que você é consistente. Fazer algumas histórias divertidas todo mundo faz, algumas, durante um tempo. O problema é o desafio diário de alimentar o jornal com elas sempre, então o editor não vai correr o risco de ter uma história ótima durante um mês, acostumar os leitores e depois ouvir um “puxa, desculpe, não consigo mais”.

No livro Conversando com Deus tem uma frase que eu coloquei na geladeira (nota mental: reescrever porque o papel está todo ensebado) que não sei se está mal traduzida ou se a culpa é de Deus mesmo. Ela diz:

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Caso não entendam minha letra, a frase diz: “Escolha sempre a mesma coisa. Até a sua vontade se manifestar em sua realidade”.

Por isso que venho bater um ponto imaginário aqui, dia sim dia não. Um dos meus grandes medos é ser desses que tem projetos incríveis na gaveta pra um dia. Conheço muitos grandes futuros escritores, assim como conheço tediosos convictos que se fizeram publicar. Que entre os dois extremos, eu consiga encontrar meu caminho.

Entrevistas

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Uma vez eu disse pra um novinho (acho esse termo muito engraçado!) que nenhuma entrevista com gente com menos de quarenta anos de idade valia a pena. Quarenta sendo boazinha, nem todo quarenta, melhor ainda se a pessoa tiver pra lá dos sessenta. Ele não gostou, é claro, achou papo de gente velha que se valoriza, porque afinal eu estava mais perto dessa idade interessante do que ele. Estou realmente perto dos quarenta, e mesmo assim ainda acho que uma entrevista minha não vale a pena. Quem sabe daqui há uns vinte anos, se eu de lá pra cá eu conseguir superar esse marasmo.

Uma vez estava passando uma entrevista da Carolina Dickman com o Faustão. Não lembro se estava na casa de alguém ou se estava fazendo outra coisa no momento, só sei que eu não estava prestando atenção e a toda hora ouvia ela dizer “eu acho”. Foram tantos “eu acho” que fiquei com vontade de matar a criatura. Depois me dei conta que a culpa não era dela. Ela era uma novinha. Quando se é novo, tudo o que você pode dizer é o que você acha. Uma pessoa quando jovem não passa de um projeto. Ela tem muitas opiniões, faz generalizações, pretende muita coisa, mas tudo pro futuro – e esse futuro pode nunca se realizar. Interessante é entrevistar que não é projeto e sim quem já é. Essa pessoa vai não te falar o que ela acha, ela vai falar o aconteceu, qual sua participação, o que ficou ou o que mudou, as pessoas que estavam ao lado dela. A fase do “eu acho” é o início da régua e os desafios estão todos nelas: os caminhos disponíveis, que escolhas fará, que exemplos têm, o que consegue fazer no dia a dia. Mas para ouvir, vai por mim, a outra ponta é mais interessante.

Camus e a moralidade

Nas primeiras vezes que eu vi falarem em comunismo e socialismo nas discussões na internet, eu não achei que fosse sério. Achei que fosse um comunismo entre aspas, com muitas críticas, um comunismo como forma simplificada de definir algo como um humanismo, um desejo maior por justiça social, algo do gênero. Porque me parece totalmente inviável que se abrace o comunismo não apenas após as experiências da URSS ou da China, mas porque mudamos muito profundamente nesses anos. E essa mudança me parece exemplificada no que esta professora diz sobre o afastamento de Camus do círculo de intelectuais franceses:

Não eram apenas os intelectuais franceses. Este senso de sacrifício algumas vezes recaía apenas sobre a costas dos outros mas que muitas vezes implicava a submissão da vida a um ideal. Somente ele explica Olga, Marighella e tantos outros que lutaram empunhando bandeiras. A ideia de sacrifício também estava presente na postura intolerante da esquerda que achava o governo Jango conciliador demais. Quando a situação ficou insustentável, o governo paralisado e o cheiro de golpe no ar, essas esquerdas ficaram felizes porque acreditavam que uma crise intensa poderia desencadear o levante da classe operária que eles tanto sonhavam. Hoje a gente tende a dar razão ao Camus, porque somos mais carpe diem, a vida é uma só. etc. E de vida em vida, vimos muita gente morrer e o mundo ideal nunca chega.

Uma ponte

A Suzi me enviou o link no final da tarde ou à noite, lembro que não tinha tempo para ver. No dia seguinte, vejo a mesma recomendação no blog do Charlles. “Nossa, deve ser bom mesmo!”. Aí, quando pude, sentei confortavelmente e vi a entrevista inteira do Leandro Karnal. Sobre o conteúdo, deixo vocês se deliciarem sozinhos. Eu já tinha visto o nome dele aqui e lá, e terminei a entrevista fã. Este post quase foi sobre o quanto o documentário sobre a Vivian Meyer e um amigo parisiense desajustado que Paul Auster descreve em O inventor da solidão me tocaram. Eu estava para dizer que, tal como eles, também me sinto presa ao mundo produtivo por uma linha muito tênue. Depois vi uma frase da Kahlo, que ela diz que se sentia uma estranha, e que depois descobriu que outros se sentiam também, então que vissem o trabalho dela e soubessem que não estavam sós. Foi nisso o que a entrevista do Karnal me serviu como bálsamo: eu não estou só. O mundo não é só ódio e histeria. Existe espaço para a inteligência, a cultura e o bom senso.

Sonho

Posso sonhar em voz alta?

Estava vendo o Roda Viva, a entrevista com o Cao Hamburguer (chatinha. Não por ele, e sim pelos entrevistadores. Faltou chamar gente mais bróder do Cao, sabe?). Antes das entrevistas eles sempre dão o currículo da bancada: Fulano de tal, jornalista e editor do caderno de cultura de tal; Beltranho, adido cultural, duas vezes premiado em não sei onde e atualmente dirige uma fundação, etc. Tudo pra que a gente olhe aquelas pessoas desconhecidas e entenda e aceite que elas estejam na bancada. Ah, nunca vi, mas é adido e premiado, então tem cacife pra fazer essa entrevista.

Meu sonho é que meu currículo possa ser resumido assim: “escritora”. Sabe quem mais é “escritor”? Paulo Coelho. Ele dispensa maiores apresentações. Não precisa listar onde os livros dele vendem e etc, ele é Paulo Coelho. Meu sonho é a palavra “escritora” dizer tudo a meu respeito.

Vida após a vida

Quando o Chicuta colocou este vídeo na página do Facebook dele, fui ver na minha TL e as três últimas tirinhas que eu tinha compartilhado nos últimos dias eram dos Malvados. Então nem preciso dizer se gosto.
Gostei muito da parte, mais pro final, que ele fala sobre não saber direito o que dizer para sua filha pequena sobre a morte, se a pessoa que morre vai para o céu. Aí ele diz que, como ateu, sente que sua responsabilidade pela própria vida é bem maior. Também tenho essa impressão, de que os ateus são muito mais comprometidos com a vida do que os crentes. “Você está aqui e é só uma vez que você está aqui, você não vai voltar como um cachorrinho, uma borboleta ou uma outra pessoa. Você está vivendo isso e vai acabar. Então é uma responsabilidade muito maior você ser feliz, você fazer as coisas direito dentro de um princípio moral e ético (….). Pro ateu, se eu não for feliz aqui, eu não vou ser feliz em lugar nenhum”.

Taí mais um motivo pra eu me sentir tão compatível com ateus, apesar de não ser uma. Eu concordo com eles, essa vida é única, e precisamos ser urgentemente felizes nela, agora. Mesmo que exista uma outra vida, e que nela eu receba o que mereço e o que me falte nesta, eu seria outra pessoa, com outros pais, em outra época, com outras vivências e necessidades. Nada do que me aconteceu ou me acontecerá será igual a este momento. Receber no futuro não compensa o meu presente, uma outra vida não teria nada a ver com quem sou hoje. Cada dia, cada encontro, tudo é único e precisa valer a pena.

Na superfície

Da fabulosa entrevista do Dr. Drauzio no Roda Viva
(Sim, vejo os programas com atraso. Roda Viva on line: melhor coisa pra quando você tem muito tempo livre pra ficar na net.

– O senhor gosta desse ambiente (presídio)? Por que não fazer outra coisa, ir ao cinema, sei lá?

– Porque eu acho que é um ambiente muito rico. Eu acho que isso me deu uma visão, não só da vida, da organização da sociedade brasileira, mas acho que da complexidade da alma humana muito mais profunda da que eu tinha e da que eu teria se não tivesse frequentado esse mundo. Eu acho que é ao contrário, cada vez eu tento penetrar mais fundo, porque é um mundo muito rico. E você hoje na vida moderna, se você bobeia um pouco, você começa a conviver com pessoas que são idênticas a você o tempo inteiro. Pessoas que pensam mais ou menos como você pensa, que usam mais ou menos as mesmas roupas, frequentam os mesmos lugares… isso empobrece muito a visão do mundo. Eu acredito que a vida seja uma só e que no decorrer dela você tenha que ter a experiência mais profunda possível, a mais abrangente que você conseguir.

.oOo.

Estou em aula. O prof. Bodê lança para a turma a pergunta sobre como a questão da doação de orgãos tinha repercutido nas pessoas, as novas carteiras de identidade que tinha recém surgido, onde era possível discriminar a informação de não ser doador. Eu levanto a mão:
– O porteiro lá do prédio da minha mãe veio me mostrar a carteira nova dele, que ele tirou só para colocar que não era doador. Ele estava feliz. O que ele me disse era que essa doação compulsória era para salvar os filhos dos ricos. Que se ele, pobre, fosse parar no hospital, poderiam matá-lo para dar os orgãos para os outros. Com a carteira nova, ele garantia sua sobrevivência.

Silêncio na sala. A turma há muito me era hostil e tive a certeza de que meu comentário não tinha soado bem quando uma das CDFs líderes ergue o braço e mal esperou a permissão do professor para falar num tom muito irritado, como quem não se continha diante de tanta burrice.
– Claro que não é isso. A questão da doação de orgãos levantou toda a problemática social do imaginário da morte e… [insira aqui uma explicação altamente erudita]

Depois de ouvir a aluna com muita paciência, prof. Bodê delicadamente disse que não sabia dizer a posição das pessoas com relação ao imaginário da morte, mas o que ele tinha sentido era exatamente o que eu disse, que as pessoas tinham medo dos seus orgãos serem retirados em prol dos mais ricos…

Entrevista do Rafinha Bastos

Tenho sentimentos ambiguos com relação ao Rafinha Bastos. Eu vi o stand up dele poucas semanas antes da estréia do CQC. Eu ri tanto que às vezes dava vontade de pedir pra ele dar um tempo, pra poder curtir mais as piadas e até respirar. Depois, com mais visibilidade, discordei de muitas posturas e passei a achá-lo arrogante. Ao mesmo tempo, ele sabe se justificar. Não sou uma fã, mas definitivamente não o odeio. Acho que ele fez muita piada sem graça que não merecia a repercussão que teve, em nenhum sentido. Quem sabe eu me interesse pelo que sai sobre ele justamente pra tentar entender o que ele significa.

Na entrevista do Roda Viva falaram muito sobre o episódio da Wanessa, e a grande questão com relação a isso é o porquê dele não ter voltado atrás. Porquê ele não retirou o que disse, porquê ele pediu desculpas ao marido por e-mail mas não em público, porquê ele quis manter algo que provavelmente foi dito impulsivamente. E ele diz que não se arrepende, que achou importante. Danilo Gentilli agora tem talk show, Marco Luque virou garoto propaganda da Claro e ele foi demonizado e demitido. É difícil não achar que ele fez um péssimo negócio. A explicação que Rafinha tem a nos oferecer é: ele achou que era o certo e não conseguiria ficar em paz consigo mesmo se tivesse feito diferente.
Isso eu admiro. Não com relação a essa piada específica, mas com relação à vida. Admiro não agir sempre pelo que é mais conveniente. Penso na professora que pediu demissão pra poder depor a favor da menina que sofreu racismo. Colocar tudo na ponta do lápis, no que é bom para a minha carreira ou no que não me compromete, aponta para soluções tão seguras quanto pobres. De um lado, não dá pra exigir que as pessoas larguem seus empregos em nome do que acreditam; ao mesmo tempo, que coisa mais triste é pensar que manter um emprego justifica tudo. Nem estou falando em ganhar programas de TV ou contratos milionários; na maioria dos casos, nem em perder emprego. Ás vezes o preço é apenas ficar em baixa. O respeito por si e acreditar em algo estão valendo muito pouco hoje. E quando trazem prejuízo material parecem apenas burrice. 

"Você não é nenhum Fábio Assunção"

Eu nunca lembrava o nome do cara, agora sei: Marcelo Médici. Quando ele começou a aparecer na Globo, sempre em papéis de humor, vi uma entrevista dele em que ele dizia que um tal diretor/professor de teatro, lhe disse “Você não é nenhum Fábio Assunção”, ou seja, que ele nunca seria um galã. Ele disse que na hora doeu ouvir, que o outro chamou ele de feio na cara dura, mas que depois ele entendeu o conselho e aproveitou. Se ele insistisse em querer ser galã, nunca seria mesmo. O jeito foi descobrir outros caminhos, algo que combinasse com ele.

(Nesse ponto do texto, eu adoraria dizer um monte de coisas. Que essa história de “Você não é nenhum Fábio Assunção” também é um mantra pra mim. De quantas vezes na minha vida me forcei a ser coisas que eu não era. Aí eu não era nem uma coisa e nem outra, e não agradava ninguém. Ou as muitas vezes que eu achei que negar o que eu sou facilitaria as coisas, e que também não dá certo. Nem mesmo com as qualidades. Quanto eu tentava me fazer de humilde, estava apenas vendendo barato uma mercadoria cara, e os outros se aproveitavam dessa pechincha involuntária. Gostaria de contar mas não encontro palavras; é uma aprendizagem tão íntima que se recusa a ser transmitida.)

Nem preciso dizer que com ele deu certo e o Marcelo Médici é um baita ator. Vale a pena ver essa entrevista dele:

http://storage.mais.uol.com.br/embed.swf?mediaId=12301376&ver=1

A grande Bahia

Não sou especialmente fã do Marcelo Nova, embora tenha crescido ouvindo as músicas dele porque meus irmãos adoravam. Não lembro onde e nem porquê vi essa entrevista dele, só sei o que ele disse ecoou na minha vida para sempre:

– Eu não gostava daquele ambiente pequeno, mesquinho, aquela coisa que existia na Bahia. Então eu saí da Bahia, quis conhecer outros ambientes, ir pra algo maior. Aí eu fui pra São Paulo, fiquei famoso, fiz sucesso. Só que lá eu percebi que o mundo é uma grande Bahia.

Tenho medo da Grande Bahia.

É psicológico

Pobre de quem não gosta ou não se dá bem com o orientador. Ele é o que mostra o caminho, que critica, que dá as diretrizes. Tem gente que se enrola, que foge, que atrasa, que desiste do mestrado sem saber que a culpa é dele. Tem orientador que some, que impõe, que nunca lê e até mesmo aqueles que só recebem bem os orientandos jovens do sexo oposto.

Fui parar na mão do meu porque é o único especialista em saúde do departamento. E talvez um dos maiores em saúde no país. Tem gente que o detesta: pelos seus passeios (temerários?) pela psicanálise, por participações arrasadoras em bancas, por ser curto e grosso – “não nunca é bom o suficiente para ele”. Tem também os que o amam, que dizem que ele é gente boa, sincero. O que sei que ele é um dos campeões do departamento em artigos e orientações. Por acaso é que não deve ser.

Nunca tivemos problemas. Mas confesso que a fama dele me fazia temer uma divergência a qualquer momento. Marcamos finalmente a orientação onde ele leria, na hora, as três entrevistas que realizei. Estaria lá, nua e crua, minha capacidade de extrair, com pertinência e delicadeza, o que precisava dos meus entrevistados. Confesso que entre a pertinência e a delicadeza, sempre acabo optando pela última. Temi que ele criticasse algumas omissões que poderiam ter levantando mais dados. Ou algumas brincadeiras que fiz para tentar descontrair. Ou alguns pontos em que fui muito pessoal com os meus entrevistados.

Acho que ele simpatiza comigo tanto quanto eu com ele. Falei sobre o que eu pensava, minhas novas hipóteses. Minhas dificuldades com a teoria. Fizemos anotações. Ele me emprestou 3 livros e me recomendou outros tantos. Enquanto tudo isso acontecia, ele lia minhas entrevistas. Ele se interessou vivamente pelas histórias tão interessantes e, em certos pontos, tão inesperadas. Disse estar preocupado com as perguntas, porque as respostas não dependem de mim.

Depois de dizer por três vezes que as entrevistas estão muito boas, ele completou:

– Por isso que eu gosto de trabalhar com psicólogos. Por saberem conduzir uma entrevista, irem de acordo com o discurso da pessoa, sem interromper e, ao mesmo tempo, sabendo colocar os pontos.

Não sei se a psicologia tem algo ou não haver com isso*, o que sei é que todo o cansaço que eu estava sentindo nos ultimos dias sumiu e me sinto ótima!

* ok, ok. Detesto admitir, mas aquele curso talvez me servido pra alguma coisa!

A volta da Abominável Fernanda das Neves II

Caminhante: Abominável, a internet é essa maravilha interativa. Estamos aqui com centenas de mensagens de seus fãs. Como o tempo é curto, selecionei algumas para que você possa responder ao vivo. Nosso amigo Max, que mora no bairro Boqueirão em Curitiba, diz:
Abominável, sou teu fã de longa data. Você é linda e todas as mulheres de Curitiba deveriam seguir o teu exemplo de beleza e simpatia. Gostaria de saber o motivo de você ter passado 6 meses fazendo o Caminho de Santigo, sendo que as pessoas normalmente o fazem em muito menos tempo.
Abominável: Realmente, as pessoas fazem em menos tempo. É que eu quis aproveitar melhor a paisagem e refletir bastante. Sem dizer que não quis andar muitas horas por dia para não ficar com as pernas muito musculosas. Max, obrigada pelo carinho. Um beijão para você e todos os teus amigos da zona rural!

Caminhante: Nossa amiga Regina, de Brasília, pergunta:

Abominável, também quero fazer essa peregrinação mística, pois sua tua fã e do Paulo Coelho. Mas não tenho um empregado para carregar as malas para mim. Como fazer?

Abominável: Regina, querida, a solução é muito simples: arrume um homem.

Caminhante: Por último, o Renato, do Rio de Janeiro, diz que é teu fã e pede para que você não se esqueça do teu fiel público carioca.
Abominável: Renato, meu lindo, nem precisava falar. Eu amo a cidade do Rio e os cariocas moram no meu coração. Eu tenho uma ligação cármica muito forte com essa cidade. Quem olha vovó, aquela senhora classuda, elegante, educada e saudável, nem imagina que ela é carioca. Um beijão para todos vocês, smack!