Guarda-roupa

guarda roupa

Minha tia preferida passou um período morando na casa do meu pai, em Salvador, e depois voltou para São Paulo. Sobre o período, ela me disse uma vez: “bem quando eu tinha conseguido fazer um excelente guarda-roupa, deixei de usar todos os meus casacos”. Olha, difícil. Eu considero que até hoje não montei o guarda-roupa que eu queria pra Curitiba, que me garanta estar à vontade quando é pra ficar à vontade e elegante nos momentos elegantes, ainda estou chegando lá. Semana passada eu fui mandar a minha bicicleta pra fazer uma revisão, algo que exige de mim uma programação extra, porque normalmente ando de bicicleta com roupa berrante e elastano e se deixo a bicicleta pra ir de ônibus (e vice-versa), preciso de algo intermediário. Naquele dia me programei, pronta para pagar pros freios novos e quem sabe até pneu. O cara foi sincero e me disse que não precisava, ela estava excelente. Deixei ela lá pra fazer a super limpeza e revisão, considero que é o meu IPVA. Paguei, perguntei se não precisava pegar uma ficha, algo que descrevesse qual delas era a minha bicicleta. “Imagina, você já é de casa”, ele me disse. Não esperava, eu passo lá poucas vezes por ano. De roupa mais ou menos berrante e colante, fui comer no posto de gasolina de sempre; agora eles olham pra mim e já vão pegando o café e o pão de queijo de provolone. Tem o vizinho que conserta coisas, o pão de queijo certo, a turma de que topa confraternização na data que eu propus, a turma que marca segunda confraternização pra eu ir, o verdureiro que dá as dicas, a loja de bike de confiança… Enquanto mordendo o pão de queijo quentinho, pensei: o que a vida vai me aprontar agora? Porque ela é assim, não pode ver um guarda-roupa ajeitadinho que manda a gente pra longe.

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Curtas de necessidades

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Aquele dia que você passa no supermercado sem saber muito o porquê. Passa pelas prateleiras, revisa mentalmente o que tem na geladeira, lembra que fez feira há poucos dias e se decide por um suco e um docinho. Quando chega em casa, descobre que precisa comprar arroz e óleo.

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Meu super poder x-men: empatia. Me pego falando de cachorro com a mocinha do caixa, recomendando kindle pro verdureiro, falando de corrupção com outro verdureiro. Ouço a confidência sobre o homem casado, recebo mensagem de uma inconsolável com uma injustiça. Na hora parece tudo normal, mas depois fico sabendo que foi só comigo. É sem querer.

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Não é de hoje que pensei isso, e talvez soe meio triste: meus blogs suprem a necessidade que tenho de compartilhar coisas que no mundo real não consigo. Quero que vocês assistam Atypical, quero que vocês leiam a biografia do Churchill, quero que mais alguém goste de nakshatras. Quando consigo influenciar uma única vivalma, fico tão feliz.

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“Já perdemos essa eleição”, me disse uma amiga bem desanimada esses dias, “pra que continuar lutando?” Eu lhe disse que temos obrigação. Nem que seja apenas para, no futuro, não se envergonhar. Pelo menos nós não nos omitimos.

Todas as manhãs

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…você chama o seu cachorro pra lhe fazer um carinho, mas chega uma manhã que ele, com a cara já toda branca, prefere permanecer deitado. Na padaria do bairro, de novo, uma funcionária some e nunca se saberá o motivo. Na festa de encontros de ex-colegas de faculdade, além da exibição das rugas e barriguinhas, um casamento não vai bem colide com um coração que está livre. Os tapumes e a sujeira da calçada somem e, como mágica, se transformam em mais um arranha-céu. Na turma da academia, cheia de pessoas da terceira idade, é a jovem que está com câncer. Uma área inteira da cidade, um trajeto de ônibus e um lojinha somem da sua vida, deixam de existir no mapa, porque o motivo pra ir até ali não existe mais. Ser chamada de “senhora” se torna tão corriqueiro que deixa de ser ruim. A peça que estava à venda e já esquecida no meio da decoração da loja finalmente sai e rende um dinheirinho. A filha que nunca passava em medicina finalmente passa no vestibular, ou decide fazer outro curso, mora num apartamento e tem namorado. O calendário ideal, com espacinhos para escrever todos os compromissos do mês, no próximo ano não vai ter mais. Grandes amigos do passado e grandes ódios do passado desbotam e ficam quase iguais. A alça pra abrir a porta do guarda-roupa se solta. O irmão que era galinha se casa, o irmão mais amado não dá notícias. A longa estadia no exterior já foi e já voltou. A comida que era apenas para “se virar” se torna boa. A morte que parecia insuperável se mistura na rotina. Eu prossigo, vocês insistem em mudar.

Horas preciosas

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Tem vezes que te acontece uma coisa que te estraga não apenas o dia inteiro mas também a semana. Pior ainda quando acontece na segunda, você ainda tem mais quatro dias pela frente e está com as energias totalmente esgotadas. Às vezes é uma bobagem, o cruzar com um idiota no Facebook, ler comentários dos sites de notícias. Não consola mas é totalmente justo naqueles dias que você mal coloca a bunda na cadeira, de tanta coisa que tem para resolver. Às vezes o resolver é ficar no telefone, em vários telefonemas ou apenas um longo repetir de dados para um telemarketing. Pode ser passar correndo no banco, porque não instalou o itoken ou descobre uma taxa de 17 reais por algo totalmente online e sem custo para eles. Quando não se acha vaga pra estacionar. Quando a loja fecha e com ela o único lugar da cidade que você sabia que vendia aquele produto. Ao encontrar um amigo que te pergunta o que você fez, e a resposta é: atendi o cara da net e fica parecendo que você não fez nada. Mas esperar, não ficar à vontade, prender o cachorro e ficar cuidando te consumiu horas. O problema que é hoje em dia quando se precisa de um correio. Os cartórios, as pessoas se demoram em caixas eletrônicos, o horário de rush na padaria e demais coisas do demo. Horas preciosas. A pessoa com problema no joelho que surge na sua frente bem quando você está com pressa. Ou ser a pessoa com problema no joelho. Dormir tarde já com o cálculo das horas de sono em a ver. A resposta que não chega nunca. Os astros que só acertam as previsões ruins. Errar de roupa, sair encalorado demais ou de menos, chegar em casa exausto e suado com qualquer um das duas. O dia de trocar toalhas e roupas de cama. As milhares de folhinhas de maço de coentro. As contas que se renovam, o cabelo que precisa de outro corte. Estar preocupado com alguém que você ama. Agora, quando.

Caos

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Chego em casa no início da noite, com um pouco de frio, porque saí de casa pouco depois do almoço e achei que conseguiria voltar mais cedo. A Dúnia me cumprimenta no portão, feliz de me ver, no amor incondicional que só um cachorro é capaz. É o segundo dia seguido que a deixo sem passeio e os cocô dela salpicam a parte de frente da casa. Encho o potinho de água, coloco os cadeados, pego o saco plástico que já fica com os ossinhos dela e procuro os cocôs sob a luz do poste. Deveria aproveitar para colocar a sacola de lixo reciclável para fora e decido deixar para depois. Meu telefone começa a apitar enlouquecido assim que entra na área do wi-fi e recebi e-mails, mensagens privadas, notificações do facebook e retuítes. Respondo tudo enquanto como o macarrão que estava na geladeira, vejo uma entrevista do Programa do Bial e depois de poucos minutos a adrenalina baixa e tudo na internet começa a me irritar, sinal inconfundível de que estou esgotada. Deito com as pernas pra cima, não sem antes me reprovar por fazer isso de barriga cheia. Sei que vou dormir e me deixo, na esperança de conseguir acordar nova. Acordo uma hora depois, ainda podre e decido que aquelas 21:30h pro meu organismo estão mais para 3h e vou dormir. Desligo o computador, tiro o som do celular. Quando me deito, ao contrário do que esperava, não apago, mas também estou cansada demais para abrir os olhos ou voltar a levantar. Na manhã seguinte levanto tarde, perco minha carona, a pia está tomada por panelas e pratos cheios de água, no tanque dois baldes cheios de roupas de molho por mais de 24h. Preciso tomar café apesar da louça, preciso pelo menos trocar aquela água se não tiver disposição para lavar a roupa, preciso organizar o que comprei no dia anterior, preciso sair de novo porque acordei atrasada. Acho que já perdi o caminhão do lixo reciclável. Poucos dias ocupada e cansada e minha vida é o próprio exemplo da entropia.

O frio está chegando

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“Já está frio?”. Eram cinco da manhã e me pareceu que não. Dormi mais, o alarme tocou e ainda não parecia frio. O termômetro do despertador marcava 15ºC, o que no meu quarto nem é frio. Tirei as cobertas e não estava frio enquanto me arrastei até o banheiro. Peguei o celular e lá marcava 12ºC, fiz outras coisas, vi de novo para ver como ele se atualizava. Teve dias que eu confiei na primeira olhada e ele atualizou para uns 5ºC a menos, mas hoje não. Fui para os fundos da casa, coloquei o braço para fora da janela – não estava frio. Dava para usar minha blusa nova, com mangas bufantes estilo medieval que não permite que eu use um casaco grande por cima. Para prevenir, uma blusa de algodão de manga comprida e uma camiseta por baixo. Que bom que não era clima de roupão, eu esperava, senão meu profe de natação me repreenderia, de novo, por ir para a beira da piscina apenas de sunquíni. É que eu plano era andar a manhã inteira e com roupão na bolsa fica muito pesado. Depois da aula, no banheiro com a única colega que veio, comentamos sobre o frio prometido. Abri meu whatsapp e já tinha três fotos – que não consegui carregar – de neve no Chile, dizendo ameaçadoramente que era a frente fria que vinha pra cá. “Por isso que eu fiz questão de vir hoje, pra garantir, porque se estiver mesmo zero grau na quarta eu não venho. Você vem, né?” Concordei com a cabeça, envergonhada porque na verdade não apenas iria quarta como já tinha combinado de ir também terça. Todo mundo sabe que eu nunca falto. Saí da aula com o já cabelo seco, com o sol na cara e dizendo para mim mesma que eu não poderia me queixar, aquele era o último dia. Na padaria, tirei a camiseta que estava por cima da manga comprida e embaixo da medieval. A moça avisou que o café com leite não estava muito quente e pedi pra deixar como estava, porque estava faminta, e não foi uma boa decisão. Passei na sapataria, comprei aplique de roupa e fita de cetim, depois bati perna com a sensação de que deveria comprar mais alguma coisa. Quase comprei várias coisas e só quando a Dúnia sentou em frente à porta eu me toquei: ossinhos. Coloquei todas as roupas para lavar e lavei toda louça, com o pensamento de que em breve qualquer contato com a água pode se tornar intolerável. Passeei com a Dúnia como se fosse o último sol, antes que ela precise ficar vestida quase o tempo todo, cheirando mal e o pelo cheio de caspa. Choveu. Jantei. Tirei o esmalte velho e coloquei novas cores, porque ainda dá pra esperar tudo secar sem meias. Me depilei, antes que doa mais e fique difícil expor a pele. Tomei banho também como se fosse o último, o último sem ter que ligar aquecedor, sem me colocar debaixo de uma água fervendo, ruim para entrar e mais ainda para sair. Ao pendurar a toalha no varal, verifiquei o grau de umidade das roupas. Estavam geladas. Mas ele ainda não chegou.

Mais uma manhã

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Abro os olhos. O alarme não tocou, o quarto está escuro e tudo está silencioso. Penso durante alguns instantes, tentando localizar em que dia da semana estou. É domingo. Vou até o banheiro fazer xixi e pelo relógio do corredor descubro que não são nem sete horas. Quando não precisa acordar cedo o corpo é um metrônomo. Faço xixi, lavo as mãos e olho para a minha cara amassada à procura de marcas de sol. Estão lá, mas nada muito indecente. Me arrasto até a cama, abraço os dois cachorros de pelúcia e viro de lado. Quando abro os olhos de novo minha mente está vazia. Tento pensar em algo bom e nada me vem à mente, nada que me faça enrolar mais um pouco. Consulto o relógio da cabeceira e são nove horas. Abro as cortinas ajoelhada na cama, sento na beirada e pego a camisola jogada no chão, procuro o chinelo com os pés. Arrasto os chinelos até o banheiro para um segundo xixi e sentada no vaso começo a pensar no meu dia. Nenhuma programação, mesmo? Lavo o rosto e olho de novo pra minha cara, que ficou até com um aspecto saudável com o vermelho na testa e nas maçãs. À caminho da escada passo pelo computador, ligo, desço, desligo o alarme e abro a porta dos fundos, a grande saída de ar da casa. O céu está limpo, vai ser outra alegria de viver ter sol de novo. Vou pegar a toalha e lembro que hoje é dia de colocar pra lavar. Bom, sol e toalhas, já temos parte de uma programação pra hoje. Subo de novo, abro o Chrome, todas as janelas da casa, pego toalhas novas e coloco as usadas no cesto. Ou será que já seria bom colocar de molho? Tenho doze notificações no facebook e duas no twitter, pouco. Me consulto e acho que tenho fome. Pego toalha nova, separo vestido de ficar em casa, roupa íntima, atiro a camisola na cama e vou pro meu banho. Posso procurar um documentário sobre ciência, ainda mais que descobri novas estrelas de programas científicos. Tem o Bernhard. Tem o capítulo um. Affe, nem me lembre do capítulo um. Está apenas ficando menos pior. Mas é o que tem pra hoje, a não ser que. Termino o banho, me enxugo, faço a risca no cabelo, desço com a toalha e olho novamente pro céu. Já está ensolarado. Será que monto um QG pra aproveitar o tempo bom, com rede, livros, caderno de citação, gengibirra com limão e celular? Acho que vai dar. Abro a geladeira e procuro os quatro itens necessários ao café da manhã. Quando estão todos reunidos – café na xícara, duas fatias de pão de fôrma cobertas com requeijão e grossas fatias de queijo – subo de novo e me sento na frente do computador. Veremos o que são essas notificações. Abro o arquivo com o capítulo um com desânimo. Talvez seja melhor voltar pro Bernhard. Ou talvez eu precise nascer de novo. Busco consolo no cheiro de café e na foto da lua que recebi por DM. Bem que eu podia ser capaz de unir lembranças, caminhadas, conversas, risos, reflexões, leituras, desejos e intuições numa história coerente e interessante. Mordo uma fatia de pão.

Namoro?

 

Me disseram que namoro é status, mercadoria rara. Assim como o casamento é, e percebi claramente quando casei. E mesmo agora, que não sou mais, o status permanece em mim, uma marca eterna. Não sou, mas fui. Eu consegui, uma vez na vida um homem me escolheu para ficar o resto da vida do meu lado. Que se dane se não deu certo, sou mais do que as outras que nunca viveram isso. Acho terrível, mas quase todos vocês pensam assim.

 

Por outro lado, já ter vivido é diferente. Eu sei o que ser a “oficial” – agora falo também de namoro – implica. Tem o andar de mãos dadas, o apresentar para os nossos amigos na expectativa que ele se misture, ser apresentada aos amigos dele na expectativa de agradar, a mudança de status no facebook!, o ajuste das agendas, o entrar num ambiente e ser olhada como propriedade daquele homem, a dificuldade em conciliar gostos na hora de escolher um cardápio, a tampa da privada e o papel higiênico, os gostos bestas que você deve amar, e se isso não acontecer, lembrar de jamais jogar na cara. E tem a família. (suspiro). Tem a família.

Não sei se consigo mais. Neste momento, não.

Pazes

Naquela noite minha mochila estava especialmente pesada com o material de costura. Geralmente eu me programo pra fazer algo que não exija muito material quando vou da costura para o flamenco, mas daquela vez eu calculei mal. Fui pelo caminho pensando em que alívio seria tirar a mochila das costas. Bastava chegar na escola – aí eu dançaria, ganharia carona até o ponto de ônibus, iria sentada o trajeto todo e do ponto até em casa é rapidinho. O caminho do ponto até a escola é que é longo. Só que bem naquela noite, justo naquela noite, a aula foi desmarcada. Conseguiram avisar todas com antecedência menos eu. Tentaram me ligar várias vezes. Sempre que pedem meu celular, eu alerto as pessoas que o último lugar pra tentar me encontrar é o telefone, que eu nunca ouço. Lá estavam, as mais de cinco ligações e mensagens. Tentaram também me avisar pelo FB, mas passei o dia longe de computador e não acesso internet pelo celular, então nada feito.

 

Minha vontade foi de dar as costas e ir embora assim que ouvi a notícia. Mas as minhas profes ficaram sinceramente sentidas e quiseram conversar comigo e me compensar de alguma forma. E eu quis que elas não ficassem tão sentidas, que eu entendia o que tinha acontecido, e fiquei conversando com elas um tiquinho. Depois, voltei por todo aquele caminho, com a mochila ainda mais pesada por ser um peso que eu não esperava mais. Nos dias seguintes, ficaria toda dolorida. No caminho, não sabia se calculava como vantagem a uma hora que chegaria mais cedo em relação à programação normal ou as duas horas de prejuízo por não ter voltado direto pra casa depois da costura.

 

Cheguei em casa cansada, com peso nas costas, faminta. E encontrei minha casa escura, inesperadamente escura. Olha, no estado em que eu estava, nem deu pra achar triste, silencioso ou depressivo. Eu só queria tirar aquele peso, aquela roupa, comer alguma coisa, parar. Acho que eu e a casa fizemos as pazes.

Casa vazia

Eu passo muito tempo em casa e isso não é de hoje. E como sou uma pessoa introvertida, isso sempre me fez bem. Introvertidos têm a necessidade de recarregar as baterias depois de estarem acompanhados. A impressão que dá é que os extrovertidos se alimentam da companhia de pessoas, e quanto mais saem com pessoas, melhores e mais energizados eles se sentem. Para os introvertidos, por mais que a companhia seja boa, depois dá vontade de ficar um pouco sozinho, de assimilar. Senão ficamos chatos, mal humorados. A minha rotina de passar muito tempo dedicada às tarefas silenciosas, como escrever e cuidar das minhas coisas, têm me garantido ser uma companhia disponível quando tenho que estar com as pessoas. Até mesmo quando surgem programas, tenho conseguido ser uma pessoa disponível, porque estou sempre em dia com as minhas baterias introvertidas.

 

Só que agora é como se a rotina que tanto amei se voltasse contra mim. As mesmas coisas de sempre, os mesmos horários, o mesmo tempo disponível agora me parecem sufocantes. Parece que tudo isso fazia sentido apenas porque a solidão não era completa. No final da tarde ela seria interrompida, nos fins de semana ela seria interrompida. Quem tem uma companhia constante não precisa se preocupar em formar um grupo de amigos, em frequentar seus vizinhos, criar programas novos. Porque, mesmo sem fazer nada, eu sempre tive um outro ser que anda pela casa, que abre a geladeira, ou seja, alguém. Posso passar horas sem falar nada, mas no momento em que eu abro uma página ou vejo um vídeo engraçado, eu tenho uma audiência, alguém para dizer “quero te mostrar uma coisa”.

 

A minha rotina de sempre, a minha tão amada rotina, tornou-se de repente um motivo de terror. Quando penso no assunto – às vezes porque me obrigo, às vezes porque me despeço – o ansiedade sobe e me sufoca. Tenho medo de passar o dia inteiro sem ouvir outra voz, sem uma conversa, sem contato humano. Tenho medo de ficar igual a minha mãe. Agora me parece que tudo seria mais fácil se eu tivesse que acordar cedo, sair correndo, passar o dia fazendo coisas chatas, lidando com colegas de trabalho e preocupada com outras coisas. Que apenas no fim do dia eu chegasse em casa cansada e percebesse a casa vazia.

Sem você

Desculpe falar francamente, mas eu tenho autoridade o suficiente pra colocar a roupa na Dúnia sem ajuda. E muito mais autoridade com os poucos comandos e a pouca obediência que ela tem. Com alguma demora, eu consigo acordar cedo e colocar o lixo para fora. Demoro mais porque não tem quem me apresse, é verdade, mas nada do que colocar o despertador pra mais cedo não resolva. Eu vou à biblioteca, ao restaurante favorito, compro chocolates que me dão alergia, – quem vai me proibir? – compro e parcelo tudo no cartão. Em casa, passo pano com a certeza de que ninguém passará pelo chão até ele ficar totalmente sequinho. Penduro meias, calcinhas e o que quiser no banheiro, e sei que elas não vão molhar, não vão cair no chão, não serão uma visão feia. E, sabe, sou organizada o suficiente para tirar tudo de lá em pouco tempo. Tem vezes que nem ligo a TV, nem sei o que está passando. Ou vejo alguma coisa e desligo. A casa fica silenciosa e posso jogar Angry Birds com som. Assisto filmes com todos os controles na mão, na minha mão. E finalmente vi Up, que está gravado por aí num DVD sem identificação. Eu sempre escrevo nos CDs – você teima em não escrever e dá nisso. Mas tenho sentado do meu lado do sofá. E dormido mal.

Volte logo, porque isso daqui não tem a menor graça sem você.

Quando a paixão vira casamento

É tão diferente transformar poucas horas por semana em um convívio intenso! A coisa acontece pelo desejo, pela vontade de mais e mais. Quando finalmente se concretiza, a paixão passa a ser cercada de horários e obrigações. É natural e esperado que seja assim. Não dá mais tempo de sentir aquela saudade, aquela contemplação, aquela rememoração, os planos para o futuro. Porque o futuro está logo ali, e o próximo encontro chega tão rápido que você nem teve tempo de pensar no anterior. Não dá pra esperar pela inspiração, porque agora ela deve ser sempre. Mesmo inspirado, existe gente ao lado, pessoas que parecem ser tão melhores. Por que alguns ficam pelo caminho, por que você e não outra pessoa? Perguntas sem resposta como uma paisagem em movimento. Nos momentos de cansaço a gente não sabe mais o que está sentindo. E se eu parasse, e se eu desse um tempo? Só que você não some e nem dá tempo nenhum, porque ao mesmo tempo que cansa, a rotina vicia. Já não dá mais pra voltar a ser como antes, não dá mais pra ser apenas um amante. Porque quando a paixão vira casamento, ela se torna também um sentido de vida.

Assim sou eu com a dança.

Rotina

Há um ano e meio transformei minha rotina num inferno – há um ano e meio havia decidido que cursaria o mestrado e a graduação juntos. As várias pessoas que me diziam que a carga de leitura do mestrado eram muito pesada nunca me impressionaram – sempre achei que falavam isso só pra se valorizar. Aulas da graduação de manhã, mestrado à tarde, 4 anos em 2, beleza. Beleza nada, meu chapa!

Há um ano e meio eu me transformei em uma máquina de estudar. Nunca acontecia de chegar em casa e eu perguntar o que eu faria aquele dia, porque minha agenda sempre esteve cheia. Pra não virar um alien completo, eu fazia algumas concessões, como jantar fora e receber um amigo do Rio… e para isso eu me matava um pouco mais de estudar antes e depois. Os feriados (Deus abençoe os feriados!) me ajudaram a manter as tarefas em dia.

Depois de um ano e meio de escravidão, finalmente estou realmente com tempo livre. Eu ando pela casa e reparo em sujeiras que há tempos não reparava. Sinto fomes e sonos inexplicáveis. Fico meio tristonha sozinha. Meu organismo desacostumou a esse luxo que é fazer as coisas com calma. Quem sabe agora eu possa encontrar os amigos, que inexplicavelmente fiz e que sentem a minha falta. Quem sabe consiga voltar a esculpir, porque não há como tentar esculpir correndo pra depois deixar tudo parado durante dias. Quem sabe eu consiga ir ao dentista, lixar meu pé, parar pra ouvir música e escolher as roupas com calma antes de vestir. Quem sabe.