Os deuses e os joões

Quero presenteá-los com um vídeo incrível e dar um pequeno pitaco sociológico.

Eu sei que é uma mulher, você também. Eu sei que ela vai pra aula, que veste jeans, que come e vai ao banheiro. Sei que escolheu esta música por um motivo bem banal, porque gostou e porque estava acessível, e que cada pedaço da coreografia foi construído aos poucos. Escolhas foram feitas durante o processo; movimentos que poderiam ficar ainda melhores não foram colocados porque ela não conseguia fazer, porque não encaixavam na música, ou apenas nem pensou neles. Apesar dela ser uma pessoa com história, nome, maquiagem, roupa encomendada, no momento que vemos o vídeo é como se ela encarnasse uma deusa. Vi inúmeras vezes e em todas eu me arrepio.

O pitaco: ganharemos mais quando as análises deixarem de se focar apenas no João da Silva. Seja o João da Silva um juiz poderoso que cometeu atos ilícitos, seja o João da Silva um segurança que cometeu um ato violento. O João da Silva é ele mesmo mas é também um grupo, uma forma de encarar, uma causa e uma consequência. O João da Silva reflete a forma que outros João da Silva agiria no mesmo lugar. Eliminar um João da Silva sem levar em conta o contexto significa apenas trocar um João da Silva por outro.

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Tripé

tripé

Sabe quais são as notas musicais? Dórémifásollásidó, você disse aí do outro lado, do jeito que eu escrevi. É quase como se fosse uma musiquinha. A não ser que você seja músico, você só sabe o que vem antes do Si se recitar a musiquinha toda. Hoje eu falei, depois de muitos anos MarxWebereDurkheim. A ordem correta, se for pensar em termos cronológicos é: Durkheim, Weber e Marx. Mas a minha musiquinha é invertida, não sei o motivo. MarxWebereDurkheim são os três autores fundamentais da sociologia, são o tripé, os três porquinhos, os três pilares fundamentais- defina como quiser desde dê a eles o mesmo status. Você terá que saber o nome deles se alguma vez na vida se meter com sociologia, nem que seja de raspão. Se um dia alguém tiver que falar de sociologia e se dispor a ter apenas uma aula na vida, nesta uma aula tem que ter MarxWebereDurkheim.

Talvez a luz vermelha já tenha acendido do outro lado da tela, e o leitor horrorizado pensou: “mas quando você diz Marx, você quer dizer… Marx, aquele Marx?” Sim. Ele não é importante apenas na política ou apenas na economia, e estou falando “apenas” de forma irônica. Quer goste ou não do que ele disse, o mundo não foi mais o mesmo depois que ele escreveu. Ninguém entendia direito de onde vinha o lucro antes dele, achavam que era só das máquinas. Funcionários revoltosos quebravam as máquinas, achavam que estava ali o problema. Revoluções foram feitas em torno das ideias de Marx. Teorias contra, teorias à favor, sistemas de governo, perseguições. É usado como xingamento, como elogio, inspira discussões até hoje. Querer ser puro de Marx é como achar que passar álcool nas mãos te deixa sem bactérias, sendo que elas estão em toda parte e a vida nem seria possível sem elas. Ideologia, lucro, exploração, mercadoria, fetiche, concentração de riqueza – as pessoas usam conceitos marxistas o tempo todo sem saber. Influenciar a história da humanidade é um privilégio para poucos, e Marx faz parte desse seleto grupo.

Uma amiga minha, professora de Sociologia, vai ter que se explicar no colégio onde dá aula de sociologia o porque de ter Marx na ementa da disciplina. No aguardo do dia que vão decidir que as crianças devem aprender apenas a somar, diminuir e multiplicar, sem dividir. Dividir é muito subversivo.

Outras musiquinhas

De tanto ler uma coisa aqui e outra ali, descobri que tinha interesse pelo Brasil da geração da década de 50 – não a geração que nasceu em 50, e sim a que produzia cultura naquela época. Bossa nova, Brasília, Darcy Ribeiro, Carmen Miranda, eu quis saber o que fez que o Brasil que um dia foi tão vanguarda acabar. E foi isso que me fez estudar a década seguinte… As pessoas não lamentam a saída das ciências sociais do currículo porque não podem lamentar o que desconhecem. Antropologia, todos deveriam ter o prazer de estudar antropologia. Ficamos mutilados de nascença, como país, sem estudar sociologia.

Eu gosto e acho muito importante a provocação que algo diferente nos causa. O seu próprio lugar, numa outra época, pode ser tão diferente. No Brasil da minha infância, ninguém achava que mulher semi-nua na TV estragava alguém – e vejo as pessoas ignorarem o fato na hora de clamar por um retorno moral. Mas também pode ser da mesma época em outro lugar: na série Rita, que se passa na Dinamarca, a professor precisou brigar com as alunas, que não queriam tomar banho depois de praticar esportes. O motivo era excesso de auto-crítica com seus corpos. Para convencê-las, teve ela mesma que tirar a roupa primeiro. Aqui por muito menos um artista foi chamado de pedófilo num museu. Mas quero falar de algo bom: no mesmo mundo e na mesma época, que nós, os portugueses fazem uma música muito gracinha, tão diferente da nossa. Eu ouvi esta pela primeira vez sem ver o clipe, e logo nos primeiros versos pensei que é exatamente o meu nervoso dentro de um engarrafamento.

 

Ciganos e o capital simbólico

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Num dos meus trechos preferidos do meu romance preferido, Orlando, protagonista do livro com o mesmo nome, da Virginia Woolf, está vivendo entre ciganos e, como nobre que era, não resiste e começa a falar de sua família. Porque desvestir títulos por fora é fácil, quase uma brincadeira, enquanto algo dentro de nós assiste como uma novela ou vê na pseudo-humildade um motivo ainda maior de orgulho. Então Orlando começa a falar dos seus títulos de nobreza, que remetiam a-não-sei-quantos séculos, das propriedades e castelos, de não-sei-quantos alqueires. E ao invés de deixar os ciganos admirados, eles ficam com vergonha alheia. Transcrevo o trecho porque é demais:

E ao dizê-lo notou que os ciganos estavam contrafeitos, mas não zangados como antes, quando tinha exaltado a natureza. Agora estavam corteses, mas preocupados, como gente de fina educação, quando um forasteiro vem a revelar seu baixo nascimento ou sua pobreza. Rustum acompanhou-a fora da tenda, e disse-lhe que não se preocupasse com o fato de seu pai ser duque e possuir todos os dormitórios e móveis que ela havia descrito. Ninguém, por isso, pensaria mal dela. Apoderou-se então de Orlando uma vergonha que antes nunca sentira. Evidentemente, Rustum e os outros ciganos pensavam que uma ascendência de quatrocentos ou quinhentos anos era a mais modesta possível. A deles remontava pelo menos a uns dois ou três mil anos. Para os ciganos, cujos ancestrais construíram as pirâmides, séculos antes do nascimento de Cristo, a genealogia dos Howard e Plantagenetas não era melhor nem pior do que a dos Smith e dos Jones: ambas eram insignificantes. Além disso, se um pastorzinho tinha uma linhagem tão vetusta, nada havia de especialmente memorável ou desejável numa velha estirpe: vagabundos e mendigos também a possuem. E assim, embora fosse extremamente cortês falar abertamente, era claro que o cigano pensava não haver mais vulgar ambição que possuir centenas de dormitórios (conversavam no alto de uma colina, era de noite, as montanhas levantavam-se em redor), quando a terra inteira é nossa. Do ponto de vista de um cigano, um duque – entendeu Orlando – não era mais do que um aproveitador ou um ladrão, que arrebatava terra e dinheiro a gente que considerava essas coisas de pouco valor, e não pensava em coisa melhor que construir trezentos e sessenta e cinco dormitórios, quando um seria bastante, e nenhum, ainda melhor. Ela não podia negar que seus antepassados tinham acumulado campos sobre campos, casas sobre casas, honras sobre honras; no entanto, nenhum deles tinha sido santo, herói, ou grande benfeitor da humanidade. Nem podia deixar de reconhecer (Rustum era muito cavalheiro para insistir, mas ela compreendeu) que qualquer pessoa que fizesse agora o que os seus antepassados tinham feito há trezentos ou quatrocentos anos atrás devia ser denunciada – principalmente por sua própria família – como vulgar arrivista, um aventureiro, um nouveau riche. [p.87]

O conceito de capital simbólico, de Bourdieu, nos diz que existem diferentes grupos dentro da sociedade, e cada um desses grupos possui seu próprio sistema de valores. Há sim o capital como dinheiro, para quase tudo e todo mundo, mas há também símbolos e maneiras muito próprias de atribuir valor que podem não fazer o menor sentido para outros grupos. Por exemplo: no balé, a rotação da coxa para fora e o formato dos pés tem uma importância definitiva, e ela não faz o menor sentido não apenas no mundo lá fora como em qualquer outra dança. É o que acontece com Orlando, que vai pra uma alteridade tão radical que o que para ela era valor se torna vergonhoso diante dos ciganos. E em alteridades não tão radicais, penso em ocasiões em que a pessoa se aproxima de você pensando que algo vai soar como valor e tem o efeito contrário. Como aquele que se gaba do carro pro ecologista, da churrascaria pro vegano, dos hábitos libertários para o puritano. Uma vez eu estava numa fila de balada e um sujeito se gabou de ser do Clube do Uísque, ou seja, ele tinha a própria garrafa dele no bar. Não consigo pensar em algo pior que um homem possa me dizer – eu não suporto cheiro de álcool.

Que Bourdieu me perdoe o psicologismo, mas concluo que a inveja só é possível dentro do mesmo capital simbólico.

Embrace

Uma das coisas que me afastou da psicologia foi quando percebi que há uma personalização de problemas que são coletivos. Se a mulher vai para o consultório com problemas de auto-estima porque se acha gorda, e quase todas as mulheres do mundo estão se achando gordas, fazendo plásticas e dietas porque se acham gordas, tanto as que fazem parte das estatísticas crescentes de obesidade quanto as que estão abaixo do peso, temos aqui um problema que não é apenas da mulher que vai no consultório. É um problema de todas nós. Ao mesmo tempo, a psicologia existe porque existe um problema que, para a pessoa, pouco importa se é pessoal ou coletivo: é algo que a impede de ter qualidade de vida e ela quer mudar.

Esse é um buraco tão profundo, um caminho tão difícil a ser seguido. Conheço gente que usa PP e acha gordura em si mesma, que diz que gostaria de serrar parte do quadril; também conheço quem quase não consiga comprar roupas e se sinta julgada o tempo todo por causa do peso. E existe sofrimento em ambas. Então eu quero, de coração, indicar este documentário (Netflix) pra ser uma pedrinha em meio a tantas mensagens que nos levam à insatisfação todos os dias. Que ele te emocione e te faça refletir também.

Arte degenerada

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Quando eu vi Arquitetura da Destruição, uma das coisas que me assustaram no filme foi perceber que eu e Hitler, no campo artístico, tínhamos ideias parecidas. Assim como ele, eu também gosto mais da arte clássica, renascentista, e tendo a ver a arte moderna pura e simplesmente como arte ruim. O filme me fez pensar que se por acaso eu fosse alçada à condição de semi-deusa, que qualquer coisa que eu pensasse ou dissesse foi levada tão à sério que adquiriria o status de dogma, minha ignorância e limitações estéticas trariam um período de ignorância e obscurantismo artístico. Porque é isso o que vemos no filme, a exaltação de uma arte voltada aos ideias nazistas de força e perfeição e empobrecida de outros aspectos – o que dá uns 95% da própria essência da arte. Quando vemos a arte produzida por períodos ditatoriais de outros países – penso na China Comunista e URSS, mas devem haver outros exemplos por aí – há o mesmo fenômeno.

Eu não sou uma pessoa tão inculta e condenável assim por ter minhas limitações de gosto artístico, vai. E nem Hitler. Todos nós temos gostos limitados, ninguém dá conta da totalidade da existência. O que para mim é sujeira e ruído, para o outro pode ser a forma de expressão possível. O que eu vejo como erro e pecado, para o outro pode ser liberdade ou redução de danos. O erro está em um gestor ter tanta certeza da sua posição que a transforma em verdade para uma cidade ou país, quando transforma em lei ou atitudes. Para decidir sobre o corpo dos outros, a escolha dos outros, a arte dos outros, o melhor ainda é perguntar pra eles.

Das escolhas que a gente faz quando não faz

Ainda tenho muitos amigos professores, mestrandos, ou ligados à vida acadêmica de alguma forma. E quando eles postam fotos sentadinhos em palestras, sentimentos antigos vêm à tona. Tédio. Bunda doendo. Olhar para a pessoa que fala desejando estar em outro lugar. Claro que não foi sempre assim, claro que ao longo da minha vida me interessei e assisti palestras interessantes. Mas é esse o sentimento que ficou. Olho pras fotos e me sinto aliviada, como quem lembra de um karma que já pagou.

 

Às vezes eu olho pra minha vida e penso que escolhi tudo, que sou responsável por estar onde e como estou. Outras vezes me parece que cheguei aqui levada pela maré. É um pouco das duas coisas. Acho que tem momento na vida que falamos – É isso! e vamos naquela direção. Em outros, escolhemos sem escolher. Não sabemos pra onde vamos, até nem sabemos que existe outro lugar e que gostaríamos de ir pra lá. Aí nos tornamos meio moles, meio sem comprometimento… é aquela vontade de ser demitido porque não temos coragem de nos demitir.

 

Quando estava tudo certo pra eu entrar no doutorado, eu voltei a frequentar o grupo de estudos. Voltei a sentar nas cadeiras. Meu tédio era profundo. Sentava naquela cadeira alta, que me deixava na ponta dos pés e as horas se arrastavam. Eu olhava para aquelas pessoas como se estivesse atrás de um vidro, seus lábios se mexiam em câmera lenta, dizendo coisas sem importância. Eu não tinha a menor vontade de estar ali, mas achava que precisava. Tinha escrito um projeto muito bom, cujo tema me daria prazer de escrever até hoje. Queria ganhar uma bolsa de estudos e quem sabe escrever outro livro. Só que pra chegar lá, precisava estar nas reuniões, precisava fingir que me importava. As reuniões começaram como um grupo de estudos, e nessa época era interessante. Até que o grupo começou a organizar uma Jornada por ano, e isso tem tantos detalhes tudo passou a se limitar ao evento. Um dos membros até se queixou disso, e foi prontamente desqualificado. A verdade é que poucos se importavam com a mudança, porque fazer parte da organização de um evento científico enriquece muito o currículo.

 

Faltavam algumas semanas para a Jornada e decidiram que era preciso fazer um texto, que colocaria no papel o posicionamento do grupo e a ligação de todos os temas que seriam tratados. Seria algo chato e difícil de escrever, levaria várias tardes e não teria a assinatura do autor. Um a um, em fila, todos foram pulando fora. Quando chegou em mim, aleguei que não teria tempo de escrever porque estava estudando para a prova teórica do doutorado, que seria dali poucas semanas. Meu orientador não gostou nem um pouco, mas não insistiu. Os motivos que o levaram a não me aprovar no doutorado serão para sempre um mistério, ele nem ao menos assume que não me aprovou; no entanto, eu sei que a minha recusa em aceitar escrever aquele artigo deve ter pesado na decisão.

 

Por que eu não fui, apesar de saber que pegaria muito mal? No momento, achei que foi preguiça. Mil vezes ficar em casa sem fazer nada do que ir pra universidade escrever um artigo chato pra um evento que eu nem gostaria de estar. Hoje vejo que foi um boicote inconsciente, uma forma de escolher sem escolher. Quando você tem prazer no que está fazendo, quando está no caminho certo, não tem essa de preguiça. Você faz o que é preciso, vira noites, desmarca compromissos, olha para trás e fica impressionada com o que fez. Estar lá, na reunião, já era esforço demais. Que bom que eu tanto não fiz que acabei indo embora.

Mi amigo Manuel

A única vez que saí do país (Paraguay não conta) foi pra fazer um intercâmbio na Espanha. Como todas as viagens e coisas culturais, hoje quando penso no assunto concluo que aproveitei muito pouco. Não por falta de tentativa, pois conheci umas onze cidades espanholas de trem; foi falta de maturidade, de vivência, e quanto a isso nada se pode fazer. Ao mesmo tempo, me diverti muito com amigos de toda América Latina, e nesse grupo estava um doutor chileno em sociologia, o Manuel. Talvez por não ser tão jovem quanto os outros, ou por já ter sido um exilado, ele não se envolveu como os outros na tentativa de manter contato. Eu e o os outros intercambistas nos correspondemos durante anos, éramos a Associación Internacional del Caldo Gallego, algo assim, por causa de uma sopa que era servida todos os dias no restaurante universitário.
Fui lá como estudante, mas a verdade é aquele intercâmbio valeu mais como experiência de vida. Viajei achando que estudaria uma coisa, chegando lá eles faziam algo diferente e que eu era profundamente contra… Falando claramente: fui lá estudar psicomotricidade, e na faculdade seguíamos uma linha francesa toda baseada em carinho e atenção. Quando cheguei, a Atención Temprana era totalmente behaviorista. Eu não conseguia atender crianças autistas forçando-as a todo momento da indicar onde ficavam as coisas, dando respostas mecânicas para as perguntas. Era um enfoque totalmente voltado para resultados e eu não conseguia trabalhar daquele jeito. Guardei para sempre na memória a psicóloga repetindo “rojo, rojo, rojo!” enquanto a criança, exausta depois de uma hora de perguntas, não conseguia indicar o rojo.
Como eu ia dizendo, fui lá pra estudar e não fiz nada disso. Viajei, andei pela cidade, falei espanhol, fiz amigos. De tanto andar com o Manuel e frequentar o departamento de sociologia, lá me encantei com o assunto e decidi que iria me voltar para essa área. Disse isso pra ele, que achou ótimo. Só que o decepcionei em dois momentos: na dúvida entre comprar um excelente livro de sociologia ou um CD de música galega, fiquei com o segundo; escrevi um esboço de um artigo para aplacar a fúria da minha orientadora de Atención Temprana (não aplaquei) e mostrei a ele aquela porcaria (e ele achou uma porcaria). Um ano depois, na minha primeira tentativa de entrar no mestrado, escrevi ao Manuel pedindo uma carta de recomendação, pois a seleção exigia. O orientador do departamento de sociologia da Espanha me mandou prontamente uma carta elogiosa; Manuel não me mandou nada e culpou a falta de tempo. Nunca engoli aquela desculpa. Fiquei com a impressão de que ele me considerava uma companhia ótima, mas academicamente…
Essa história me voltou à memória agora, depois de mais de dez anos. Lembrei de algo que me propus a fazer há anos e que havia esquecido: mandarei o meu livro para o Manuel. É uma linda pesquisa, totalmente sociológica, merecedora da leitura de um doutor. Não gosto de pensar que deixei a imagem de incompetente ou de brasileira malandra. Revirei sites e encontrei o endereço da faculdade onde ele ainda leciona. Mandarei o livro sem uma dedicatória, nada. Para saber quem foi, ele terá que ler o remetente e puxar o nome pela memória. Quando se lembrar, sei que vai sorrir. Minha alegria é imaginar a cena.

O que seria

Era pra eu estar fazendo doutorado agora. Foi a publicação da minha dissertação que me reaproximou do meu ex-orientador. Levei um exemplar de presente pra ele e outro pro departamento, que seria usado na avaliação do curso pela CAPES. Meu ex-orientador, que durante dois anos me pediu para entrar no doutorado, se mostrou aberto quando eu falei que pretendia voltar pra sociologia. Voltei a frequentar o grupo de estudos, escrevi um projeto muito bom, ajudei a organizar evento, mandei material para congresso, passei o ano inteiro estudando. Nas nossas conversas, ele me perguntava se estava atenta aos prazos, me dizia que desta vez eu teria bolsa e me disse pra já ir pensando que país eu iria para o meu doutorado-sanduíche. Eu já havia escolhido Espanha, porque é a única língua que eu falo e pra ir pra Sevilla, o berço do flamenco.

Só que quando chegou a hora de oficializar tudo, fui descartada. Normalmente, os alunos de doutorado precisam apenas da aprovação do seu futuro orientador. Como o curso teve uns problemas legais que não é o caso de contar, a seleção de doutorado passou a ter várias etapas, todas eliminatórias, semelhantes a outros concursos. E foi na primeira etapa, de avaliação do projeto, que eu não passei. Algo totalmente impensável pra quem já havia mostrado o projeto e tido o aval do professor há mais de seis meses. É como ser convidado pra trabalhar um lugar pelo dono da empresa e ser barrado pelo departamento de RH – é absurdo, não acontece. Ou seja, por algum motivo que eu nunca saberei qual é, meu ex-orientador decidiu voltar atrás depois de um ano de promessas.

Tudo o que eu havia planejado para os próximos cinco anos, e talvez até mais, não aconteceu. É provável, também, que esse seja o fim prematuro da minha carreira acadêmica – que eu já não amava, mas que não teria coragem de deixar.

Exceções

No curso de sociologia eu aprendi uma expressão que adotei imediatamente, e que de certa forma resume bem o pensamento sociológico. É “a exceção que confirma a regra”.

Eu estava conversando com um amigo de longa data, que se foi meu professor de piano por alguns meses. Larguei o piano há muitos anos, pensando que voltaria numa época de vacas mais gordas e acabei deixando o assunto de lado. Nunca tive ilusões de que um dia seria uma concertista porque sabia que o tempo e minha constituição física estavam contra mim (hum, déjà vu… ). Ele quis desmentir minhas crenças:
– Tem uma velhinha que aprendeu a tocar piano aos 70, lá no leste europeu. Ela se saiu tão bem que aos 80 tornou-se uma concertista. Isso prova que qualquer um, em qualquer idade, pode começar a tocar piano e virar concertista.
– Não, isso indica justamente o contrário. Ela é a exceção que confirma a regra. É tão raro alguém que comece mais velho se tornar concertista, que uma única velhinha no mundo conseguiu esse feito. Foi tão extraordinário que a notícia correu o mundo e você está me contando essa história agora, sem nem ao menos ter certeza do país ou saber o nome dela. Alguma das velhinhas pra quem você deu aula por acaso chegou perto disso? Ou algum dos teus alunos adultos?

Assim são as exceções. Quem sabe tenha corrido por Curitiba a história de uma mulher que começou a dançar ballet com 30 e até fez umas apresentações. Posso ter simbolizado erroneamente que o ballet é para todas, de qualquer tipo físico e idade. Homens não-inseguros se queixaram de que eu não os valorizei na minha postagem. Entendo a indignação deles: as mulheres os condenam pelo comportamento que não compartilham, e entre outros homens são taxados de gays ou trouxas. Seja no piano, no ballet ou na masculinidade, regras não gostam de ser contrariadas e punem quem se afasta delas. Vida de exceção não é fácil.

Fantasma do natal passado

Eu a conheci numa aula de ballet. Lembro bem que foi a primeira vez que fizeram um ponché de 180 graus na minha frente, e aquilo me desconcentrou. Além disso, foi umas das bailarinas mais delicadas que eu já vi em aula. Isso sem falar que ela chama atenção: alta, ruiva, olhos claros. Foi a única mulher que deixou o Luiz sem graça quando os apresentei.

Qual não foi minha surpresa quando nos reencontramos em uma apresentação de contemporâneo e ela disse que me conhecia de algum lugar, e não era da aula de ballet. Ela foi minha caloura em ciências sociais. E claro que eu não lembrava dela, porque como as pessoas mal olhavam pra minha cara ali, me acostumei a andar pela faculdade sem olhar para os lados. Sem falar que eu tinha acabado de entrar no CDM e ela já tinha feito parte da Téssera. Ou seja, ela já tinha vivido o que eu estava passando e iria passar na federal.

Depois daquela conversa, passei a me dedicar cada vez mais à dança. O mestrado e o grupo de estudo ficaram para trás; substituí a cadeiras com braços pela barra. Nossa amizade era baseada em conversas rápidas na academia, porque quando uma estava chegando a outra estava de saída. Um dia, no banheiro, perguntei se o horário do centro acadêmico ainda existia. É assim: nas quartas de manhã, durante uma hora, as aulas são interrompidas para o centro acadêmico se reunir. Isso faz com que as aulas terminem uma hora mais tarde. Durante a faculdade, me coloquei abertamente contra isso – o que explica parte do ódio que as pessoas tinham por mim. Sua resposta foi sim, que aquele horário era “uma conquista do centro acadêmico”.

Então ela começou a defender o tal horário. Falou do senso comum douto e de uma terminologia que conheço a fundo mas nunca mais tinha ouvido, muito menos usado. Enquanto falava disso ela se vestia. Ela colocou um óculos de aro grosso, uma calça jeans larga, uma blusa de tricô cinza sem graça por cima de uma camiseta também apagada. Tudo tão apagado, tão pouco feminino, tudo gritando: “Eu sou uma intelectual!”. Me assustei em perceber que agora eu era a bailarina e ela a socióloga.

Desde então, surge um certo desconforto quando nos encontramos.

A Dádiva de Mauss

O Ensaio sobre a Dádiva é um clássico na área de ciências sociais. Ao analisar a troca ritual de colares nas Ilhas Trobiand (Kula) e de cobertores na Melanésia (Potlalch) Mauss descobre 3 regras simples que são a essência de qualquer sistema de troca que se possa pensar:

1- A obrigação de dar

2 -A obrigação de receber
3- A obrigação de retribuir

De maneira bem resumida, podemos entender assim: quem tem em abundância não é reconhecido e bem visto se não distribui de alguma forma essa riqueza. Por isso a primeira regra, que obriga a circulação dos bens. Quando um bem é oferecido, aquele que o recebe está na obrigação de acolher. É extremamente indelicado recusar um presente, o que gera a segunda regra. Mas, ao receber o presente, uma hierarquia se estabelece: aquele que dá fica numa posição superior ao que recebe. Para compensar essa dívida, o que recebe o presente precisa futuramente retribuí-lo – a terceira regra. A retribuição deve sempre tentar superar o que foi dado; e quanto mais tempo passa, maior deve ser a retribuição. Só uma retribuição generosa é capaz de reverter a posição de inferioridade que o sujeito se colocou ao receber a dádiva. Estabelecer juros é uma tentativa de quitar essa obrigação abstrata. O pobre, que ao receber a esmola pede para que Deus Lhe Pague, coloca sobre o Divino o papel de retribuir a uma dádiva fora de suas possibilidades.

(Adianta pedir pra ignorarem essa pressão toda ao me presentear dia 13?)

Fudeu

Sobre o post anterior, é o seguinte: abriu a vaga pra professor substituto de sociologia na Federal. No ano passado abriu esse mesmo concurso, com 2 vagas. Eu quis fazer, mas como provavel formanda, mestranda e com outra graduação eu não podia porque a única exigência era ser bacharel em sociologia.

Agora o concurso abriu de novo, pra 1 vaga, e eu fiquei muito feliz. Pra vocês terem idéia, no semestre passado eu tirei 3 notas 10. Eu adoro sociologia, adoro dar aula, virar professora da federal seria realizar um sonho. Sem dizer que ficaria lindíssimo pro curriculo na hora de tentar doutorado. Lá na Federal o pessoal me conhece e quase todos gostam de mim. Estava super feliz, confiante, parecia um presente dos céus.

Hoje passei na secretaria e descobri que não posso tentar o concurso por culpa da burocracia. Legalmente, eu não posso ser considerada bacharel até colar grau – mesmo com o certificado de conclusão de curso da própria Federal! Então, por uma questão de algumas semanas (a colação será em abril), continuarei desempregada. Não posso tentar esse ou qualquer outro concurso público por causa de um juramento estúpido e uma assinatura.

Agora com licença, tenho que voltar pra minha cama e me sentir péssima.