Simprona

Eu esqueço que as pessoas me acham pobre. Claro, não estou dizendo pobre de verdade, pobre base da piramide. Porque se me vissem assim, seria como se o meu CO2 contaminasse o ar, como se o meu toque sujasse e minha voz fosse insuportável, de modo que eu seria uma presença tão destacada e perniciosa no ambiente que as pessoas começariam a se queixar. Quando eu digo pobre, quero dizer sem importância, uma pessoa cujo saco não precisa ser puxado, alguém de quem nunca se vai precisar de qualquer favor. Ninguém se importa em me agradar e falar mal de mim pelas costas, podem se mostrar como são na minha cara mesmo. Só quem é visto como pobre sabe como poucos resistem ao apelo do dinheiro e mudam de atitude diante de quem o tem, às vezes quase sem sentir. É uma posição que arrebentaria o coração dos que sempre foram ricos e – por isso – populares. Eu acho um privilégio ter uma visão mais realista das pessoas. E um privilégio ainda maior saber que os que estão ao meu lado o fazem realmente pela minha companhia.

Existe a teoria que quem diz que gosta de pegar ônibus, feijão com arroz e pobrices em geral, o faz porque sabe que não tem perspectiva de um dia ser rico, então entra num estado de negação. Eu não sei, se for um mecanismo psicológico o meu está bem implantado. Eu não me sinto pobre. Bourdieu me abriu os olhos quando disse que não existe A Elite e sim elites. A elite intelectual e a elite financeira nem sempre coincide. A elite financeira acha que arrasa pagando ingresso caro pra ver peça de ator global no Guaíra, com as suas peles cheias de naftalina; a elite intelectual conhece o círculo artístico, os atores talentosos e as peças adorada pelos que realmente entendem de teatro. A elite financeira não me faz inveja, eu não quero ser um deles.

Com mais dinheiro, eu me imagino fazendo as mesmas coisas, mas de maneira mais relaxada. Carregar compras no muque é um saco, mas fazer longos trajetos a pé é vida. Andar de tênis é uma necessidade, tenha ele amortecimento ou não. Eu poderia me apaixonar por uma roupa e comprar na hora ao invés de esperar mudar o mês – mas, pra ser sincera, nem me acontece porque não ligo muito para roupas. Eu não gostaria de me vestir de uma maneira tão ostensiva que as pessoas comuns deixassem de falar comigo de igual pra igual. Sim, pra continuar amiga das atendentes da padaria, da minha e de futuras padarias, eu não me imagino jamais vestida de modo perua. O único carro que eu acho bacana é o Smart, mas aí me explicaram que ele custa caro. Eu jurava que ele ele custava o mesmo preço de um carro popular, por ser pequeno. Nem sei dizer quanto custa um carro, seja ele popular ou não, Mas, ok, muito rica quem sabe eu tentasse dirigir um Smart. Se eu fosse capaz de dirigir, nunca mais peguei num carro depois de passar no teste, uso a CNH temporária há anos e só como documento. Andar de ônibus cheio é um saco, voltar para casa de ônibus à noite pode ser perigoso, mas eu considero andar de ônibus (e transportes coletivos em geral) algo tão importante para o caráter que duvido que deixaria de andar mesmo se virasse estrela de Hollywood. Taí Keanu Reeves para provar que existe a possibilidade de ser assim. 

Quando eu descrevi esta tirinha pra uma amiga e disse que era eu, ela me olhou com pena. Não sei se vocês vão ficar com pena também, mas a próxima tirinha sou eu.

poor

Espalhando ideias subversivas

carros coloridos

Uma das cobradoras que encontro bastante coloca o celular na tomada e assiste TV. Ela gosta daqueles programas tipo Datena e eu nunca estou atualizada sobre o que ela está assistindo – tiro em igreja, tentativa de atentado em colégio. Na última vez, a notícia era sobre uma moça que havia acabado de se formar e foi atingida na calçada por um carro. O motorista extremamente bêbado.

“Um absurdo”, “um absurdo”, concordamos. Ela me conta os detalhes de idade, entrevista com os pais, etc. Lembramos do caso super famoso aqui envolvendo um político a quase duzentos por hora, também bêbado. Esse tipo de coisa. Estamos indignadas. É um dos assuntos que me tocam por ter vivido na pele, quase perdi meu irmão num acidente de carro. Desde aquela época passei a ser meio “contra” carro, tive até que me conter quando fui tirar minha habilitação (que só uso como documento), porque quase comecei a pregar contra carro e recuei a tempo da psi não me achar (totalmente) doida. Mas a ocasião permitia e soltei minha teoria:

-Eu tenho uma teoria. Se fosse eu que mandasse no mundo, ao invés de mudar a legislação, eu mudaria os carros. Nenhum carro mais poderia correr muito. Todo carro chegaria no máximo a 80 km por hora. Pra que fazem carro rápido, que chega a duzentos por hora, se nem pode dirigir nessa velocidade? Só serve pra vaidade. Se a pessoa bate o carro, não tem como salvar. Não tinha e pronto. Porque aí a gente não precisa contar com a responsabilidade dos outros.

Vi que ela concordou meio espantada. O ônibus despontou lá longe. Seu olhar se perdeu durante alguns segundos e depois voltou, decidido:

-Sabe que você tem razão? Eu saio com meu filho, na BR, e ele chega a 80 km e eu já mando ele diminuir, é rápido demais. Aí digo que é pra ir pela rua mesmo, que ele me respeite. Não devia poder correr mais do que isso.

Ônibus encostando. Nós duas:

-Com baixa velocidade tem menos acidente. Se tem um acidente com baixa velocidade, nem machuca tanto, só um braço ou uma perna quebrada. E por não ter acidente, o trânsito não fica parado.

Quando entrei no ônibus, vi pelo olhar dela que havia plantado a subversão contra carros em mais uma mente.

Pequena schadenfreud

Aqui o que é schadenfreud, caso você ignore o termo.

De um lado eu tenho uma clínica cheia de crianças e de outros os vizinhos mais chatos do universo. Como era de se esperar, a clínica causa um certo movimento na minha rua. Raramente entro e saio de casa sem algum público (a cara das crianças quando estou de bike!), enquanto eles esperam ao lado da campainha. Depois deles, vivo jogando fora papéis de bala e outros tipos de embalagens de comidas típicas para crianças – não sei se os pais não se importam que elas joguem embalagens no chão ou se saem voando de dentro dos carros. Mas não me importo, de verdade, porque toda essa frequência faz a alegria da Dúnia e o barulho cessa quando anoitece, melhor vizinho do mundo quando as paredes que dividem as casas são finas. Já dos outros, os malas, já falei diversas vezes aqui, tão detestados que foram os únicos que jamais foram convidados para entrar no grupo de whats do bairro. Grupo de whats, aliás, que vivo pensando em abandonar. Ele foi criado com o propósito único de comunicar emergências e é fonte constante de barracos. Penso em largar porque só tem barracos. Permaneço porque só tem barracos.

Os meus vizinhos malas têm dois carros e são completamente neuróticos com eles, como em tudo. O ritual é chegar em casa e buzinar – a buzina mais estridente do universo – para que as pessoas que estão dentro de casa desliguem o alarme. Porque eles são tão neuróticos que alguém tem sempre que ficar dentro de casa e o sistema de segurança só é desligado no curto intervalo de entrar e sair de casa. Assim que amanhece, tão cedo que nunca cheguei a ver, um carro é retirado da garagem e fica estacionado na frente do terreno, para ser recolocado por volta das onze da noite. Só que nossos terrenos não são assim tão grandes, então estacionar na rua em frente do terreno deles sem impedir a garagem faz com que o carro fique alguns centímetros na frente do meu terreno, coisa que evidentemente eu não ligo. Já mencionei que eles são neuróticos? Então, de vez em quando aparece um prestador de serviço ou um cliente da clínica, alguém que nem tem a intenção de ficar muito, e estacionam na frente da minha casa. Só que de vez em quando os vizinhos chegam com seu segundo carro e encontram outro carro ali, na frente do MEU terreno, mas invadindo o terreno deles naqueles poucos centímetros. Vocês não fazem ideia do drama. Buzinam nem parar, esbravejam, dão a volta na quadra. O outro carro precisa ser removido, mesmo com o resto da rua inteira e a própria garagem à disposição. Eu apenas

cachorro com fogo

Duas razões para viver

no vuelan

Não é um post-reflexão pós desejo suicida. Eu estava vendo o episódio do Abstract (Netflix), um dos poucos cujo tema não me era nada interessante: o trabalho de um designer de carros. Meu nível de desinteresse por carros é tamanho que eu pretendo na vida jamais ter um, não faço a menor ideia de quanto custam e se um dia ganhar num sorteio venderei. Também não foi pela história de superação do sujeito, embora tenha sido interessante ver os altos e baixos dele bancando sua escolha com a família, na empresa que quase faliu, as críticas a um modelo que ele criou e foi um fracasso. O Abstract costuma falar da biografia do profissional e acompanhar um projeto importante na qual ele está trabalhando e nesse programa mostrou a criação de um novo modelo de carro. Eu fiz uma dessas associações loucas de achar que a vida era mais ou menos quanto aquele futuro carro. Meses de reuniões, montaram protótipos de plástico, alteraram milímetros, montaram de novo, fizeram o esqueleto, criticaram, pensaram em estofamento, se preocuparam que a textura do botão que ficava no volante se parecesse com um focinho de gato. Tudo pra apresentar pra um tal fulano que realmente decidia. Investiram tempo e trabalho de verdade naquilo. Eu comecei a pensar o quanto somos todos como aquele protótipo, com o trabalho de tanta gente envolvida desde antes mesmo do nosso nascimento, a luta do bebê humano – o mais frágil de todos os bebês – tem para aprender, se desenvolver, virar uma personalidade, e o quanto é duro até uma personalidade se fortalecer e ser o que é. Muitos dizem que a vida começa aos quarenta porque passamos muito tempo apenas polindo, descobrindo o que realmente somos ou o que nos serve, e o que fazer com as nossas possibilidades tão limitadas. Então me parece que morrer cedo, seja de morte matada ou morrida, é pegar aquele protótipo com o trabalho de não sei quantos profissionais e simplesmente jogar no lixo antes da hora.

A outra razão, tão importante quanto, ainda que menos extensa pra explicar, é a minha descrença na vingança e certeza absoluta de que o rio traz o cadáver. Causa e consequência. O carro em alta velocidade em direção ao muro, a persistência na direção errada, o orgulho sem limites – a gente sabe onde tudo isso vai parar. O dia mal começou, estou com a enxada na mão e sei onde as coisas vão parar. Eu quero estar aqui pra ver, quero estar na hora da minha colheita e na dos outros. Sim, outra grande razão de viver é uma espécie de schadenfreude.

Sem carro

carro-bicicleta1

É uma tendência quase irresistível a de se ver como um núcleo flutuante, como se o que somos e pensamos fosse gerado independente da realidade. Muito pelo contrário, quem aposta que o homem não passa de um conjunto de hábitos – sendo que a maioria deles foi adotada por mera repetição – está muito mais perto da verdade. Uma das coisas que me determina muito é não ter carro. O não ter carro me torna uma pessoa que anda à pé, de ônibus e de bicicleta. Ah, e carona dos amigos. Você pode pensar que isso, então, nada mais é do que um atestado de pobreza. Não é (apenas), eu nunca quis ter um carro. Era pra ter ficado com carro no divórcio e me recusei.

Nunca consegui convencer ninguém sobre as vantagens do não ter carro. O único argumento que faz as pessoas realmente balançarem é dizer que a vida sem carro é mais magra. No mais, nada posso contra o evidente conforto, rapidez e status (principalmente o último). Sem falar da lista de motivos, todos excelentes, que fazem com que meu interlocutor, por mais que admire a vida sem carro, não possa abrir mão de um – é filho, é distância, são horários impossíveis, fascite plantar… Tudo bem que meus amigos muitas vezes sejam mais jovens e moram mais perto do que eu, mas eu sou eu, eles são eles, e eu ando de ônibus e eles não, fim.

Eu acho que a vida sem carro nos modifica de uma maneira profunda, é uma vida slow. Quando eu digo que emagrece não ter carro, isso para mim não é apenas uma questão de gasto calórico. Andar faz com que a pessoa tenha uma outra relação com seu tempo, seu corpo e seus pensamentos. O aborrecimento vai embora no passo apressado. É um momento de perceber o horizonte, sentir o contato da pele com o tempo, olhar para as pessoas, ser parte da lenta mudança de cenário. Claro que de carro costuma ser mais rápido, que ônibus lotado e acordar mais cedo é uma vida que ninguém quer. O transporte coletivo não é ruim apenas por ser coletivo, ele é sucateado por estar relegado à “pobreza”. Quem não dirige demora mais a chegar, mas tem mais chances de chegar tranquilo. O lento é uma maneira diferente de lidar com o tempo, de não ficar tão focado no fim e sim no caminho. Carro deixa o sujeito trancado; os outros meios de transporte levam a dividir mais o espaço, participar, negociar com um tempo alheio à você. Acho que temos precisado muito disso: ser arrancados de nós mesmos, não estar constantemente envolvidos no próprio inferno. Por isso que digo que não ter carro fala de quem eu sou. É um cotidiano que exige de mim mais paciência, tolerância e empatia. Empatia, esse sentimento que tem feito tanta falta no mundo.

Curtas de é sério isso?

é sério isso

Sim, tudo pretexto pra usar essa foto maravilhosa.

.oOo.

Fui puxar papo com a mocinha do caixa da padaria. Ela tinha várias tatuagens coloridas num braço e uma Frida em preto e branco no outro. Perguntei se ela ia colorir a Frida também e a mocinha fechou a cara. Conversei com uma amiga e descobri algo importante: jamais pergunte se uma tatuagem preto e branca vai ficar colorida. Aparentemente todo mundo pergunta isso e é um saco. Nem toda tatuagem ficará colorida, óquei?

.oOo.

Como classificar quando você insiste em marcar um café com uma amiga que diz que te ama, só porque sabe que ela vai ter que inventar uma boa desculpa?

.oOo.

Dia desses cheguei em casa carregada de compras. Havia um carro quase enfiado na garagem. Fiquei preocupada, achando que era alguma má notícia que teria que ser dada pessoalmente. Cumprimentei a moça no carro, que me virou a cara. “O que você está fazendo estacionada na minha garagem?” “Oh, meu Deus, é sua garagem? É que eu estava esperando meu filho (sair da clínica do vizinho). Quer que eu tire meu carro?”. Deveria ter aproveitado e oferecido um chá.

.oOo.

Com muito pesar, estou bebendo a última Gengibirra da minha adega. Meu supermercado parou de vendê-la. Não sei o que farei do meu vício. Eu subiria o morro pra comprar Gengibirra. Me sinto uma alcoólatra em pleno anos 20.

Três ofensas involuntárias

A primeira é bem antiga. Eu fazia piano numa escola e às vezes ficava lá de secretária. A dona da escola era jovem, fazia Belas Artes e os professores também eram todos jovens. Havia um professor de sax que eu achava gatinho. Claro que eu era muito tímida para arriscar qualquer coisa, ele nem devia saber que eu existia. Um dia eu estava na escola, na hora do almoço e ele apareceu na porta:

– Oi.
– Oi.
– Fulana (dona da escola) está aí?
– Não.
– Fulano? Beltrano?
– Não.
– Então não tem ninguém aí?

É, para ele eu realmente não existia.

.oOo.

 

Minha vizinha é psicóloga, então estou acostumada a ter um monte de jovens e crianças aí do lado. Quando saiu um adolescente de um carro aqui na frente, achei que era mais um, e quando ele bateu palmas pra minha casa, achei que fosse engano. Acho que é filho do marido dela.

– Oi, você recebeu alguma carta da gente?
– Um monte, tenho sempre que…

– É que a gente está esperando uma carta e ela não vem. Não sabemos onde foi parar.
– Eu sempre coloco na caixa de correio de vocês. Aproveita e avisa pra informar o endereço completo nos lugares, especialmente no CRP, porque as cartas vem parar todas aqui.

Humpf.

.oOo.

 

Eu, de carona no carro. Ela, uma advogada muito rica. Vejam bem, eu estava de carona. Sinal de que eu mais tarde voltaria, e não seria dentro de um carro.
– Minhas filhas no começo até me cobravam, queriam andar de ônibus. Hoje elas cresceram e pararam. Eu digo que não, eu proíbo. Primeiro porque é muito perigoso e depois porque elas não precisam. É um risco que eu não preciso correr. Uma vez, quando eu era jovem, eu estava no ônibus vazio e um sujeito baixou as calças. Se ele fosse um tarado e quisesse me agarrar…! Andar de ônibus é muito perigoso, eu e meu marido não queremos essa preocupação. Hoje elas esqueceram o assunto, nem querem mais. Não tem problema, elas nunca vão precisar.

Depois eu não me animo a postar certas posições políticas e ninguém entende o porquê.

Curtas de puro glamour

Já teve noite que cheguei cansada da aula de flamenco, tomei um banho e coloquei minha camisola branca transparente sem nada por baixo. Estava puro erotismo e glamour. Mas, sejamos sinceros: o grande prazer de morar sozinha está mais pra comer uma tigela de pipoca inteira usando roupa puída.

 

.oOo.

 

O motivo definitivo pela qual eu não coloco whatsapp: a quantidade de gente que me pede pra colocar. Se todo mundo que me pediu whatsapp realmente me adicionar, eu não faço mais nada da vida. Sem dizer que digito mensagem como quem acaba de ser alfabetizada. Não daria certo.

 

 

Quando estou andando na rua – e as condições climáticas não são extremas – passo pelos carros com seus motoristas estressados, aborrecidos, engarrafados e sempre sempre me sinto superior. Vocês estão presos e eu estou aqui, andando, sentindo o vento no rosto, saudável, feliz.

 

.oOo.
Fiquei muito irritada e considerei má fé do fabricante descobrir que a minha cafeteira cara, que tem clube exclusivo que me dá café grátis no shopping, com cápsulas que custam mais um real por café, estraga com menos de dois anos de uso. É que o filtro entope. Você liga pro atendimento – tão ótimo, bonito e cheiroso quanto – e eles mandam a gente esfregar a dita com escova de dente (!). Depois de uma manhã inteira escovando minha máquina, me dei conta de que aquilo nem adianta, é por dentro. É cenzão de reparo (eles buscam em casa. Aposto que o funcionário usa luvas brancas) ou uma máquina nova.
.oOo.

 

Se tem uma coisa que atrai homem bonito e câmeras de televisão é quando você resolve sair de casa de cabelo sujo, óculos, moletom velho e camiseta de pijama por baixo. É por isso que sempre saio pra passear com a Dúnia com uma roupa pelo menos razoável. Por isso também que eu jamais conheci alguém enquanto passeava com ela.
.oOo.
@SushiDeBatman: Homem pra mim é igual iate: não tenho nenhum.

Epifania

Estava eu no carro, debaixo do sol, durante uma hora naquela manhã quente de terça-feira esperando que o meu examinador me levasse para fazer a baliza. Era o meu segundo teste. No primeiro, fui muito bem na baliza. Pode parecer incrível, mas eu gosto de fazer baliza. Durante as aulas práticas, tinha vontade de ficar fazendo baliza durante uma hora. Parece um joguinho. Chato mesmo era o resto, quando eu tirava o carro da garagem e tinha que enfrentar o trânsito. Não gosto de dirigir e isso não deve ter ajudado em nada no processo. Voltando: estava lá observando as pessoas fazerem baliza, eu e as outras duas pessoas que também estavam tostando entediadas dentro dos carros. Numa média, oito em cada dez candidatos não passam na baliza. A gente vai assistindo e se angustia. Teve uma deixou pouco espaço e errou na saída. Teve outra que fez tudo direitinho e quando deu ré pra voltar pra linha vermelha, ou seja, nos finalmentes, deu uma ré tão torta que ela quase estacionou o carro de novo. Muita gente ficou indo e voltando em busca da posição perfeita e o tempo estourou.

 

Tentei não me deixar abalar, mas aquilo me afetou. Na minha curta experiência, já vi que dá pra ver se a pessoa vai passar no teste só dela se aproximar do carro, já na partida. Gente que chega com a intimidade de quem já dirige há anos sem carteira e só foi lá oficializar. Digo mais: homens. Eles chegam chegando. Um deles chegou tão seguro e estacionou com uma facilidade que o examinador disse (juro por deus!):

– O pneu de trás não ficou muito bem alinhado com o da frente, tire da vaga e faça de novo.

Tudo sem dar mais tempo pro rapaz, claro. Pense, amiga leitora, se isso acontece com você. Aquilo me abalaria na hora, eu não ia conseguir mais. O rapaz tirou o carro, colocou, tirou de novo e passou no teste. Ele não se deixou levar. Lembrei do meu primeiro teste, onde arrasei na baliza. Na saída do DETRAN não quis colocar o carro muito no meio da rua e saí com pouca visibilidade. O meu examinador, um cara grandão com cara de mau, me passou o maior pito, com direito a “como é que você me explica você ter feito uma coisa dessas” e tudo. Eu já estava nervosa e aquilo acabou comigo, meu teste acabou ali, depois só fiz besteira. Todo mundo me dizendo que é máfia, que o interesse deles é reprovar o máximo possível e eu não acreditava. Vou falar: interesse em deixar a gente à vontade eles não têm não. No segundo teste, depois de uma hora no sol, vendo todos aqueles absurdos, saí com o carro e mesmo longe demais do protótipo eu manobrei, porque tive medo de ajeitar e estourar o tempo. Vai que eu teria que tirar e colocar de novo, por “rodas desalinhadas”. Resultado: cuidei tanto das rodas alinhadas que bati atrás, um erro totalmente estúpido. E dale mais duzentos e cinquenta contos.

 

Foi aí que eu tive minha epifania: Freud é quem tem razão. Homem é outra coisa, homem é outra história. Homem não se abala igual a gente. Pode deixar uma hora no sol, dar pito, mandar repetir baliza, não importa. Eles decidem ignorar e ignoram, simples assim. A opinião de mundo e os testes dos outros não importam, porque eles são mais eles. Tudo o que eles precisam, o que realmente importa, já está grudado no meio das pernas deles.

Que ódio.

Drogon

Eu tinha uma amiga que tinha um Herbie, e eu achava o cúmulo da falta de originalidade. A Suzi tem o Átila e eu demorei pra entender de onde tinha surgido o nome. Original ou não, sempre achei importante dar um nome, personalizar.

No início eu pensei na nave do filme 2001, Hal. Porque não era uma nave qualquer e porque havia pensado que levaria um modelo branco. Chegando lá, vi que pelo preço não era essas coisas todas, que tinha outras opções. A branca era cara porque era feminina e quem liga? Eu queria algo bom. E a melhor opção pelo mesmo preço era uma preta. Mais resistente, mais confortável, mais segura. Preta como um Bat Móvel. Pensei em usar Bat Móvel, mas… Não, quero algo mais significativo. Algo que expresse a força e a liberdade disso pra mim.

A partir de hoje serei mais uma ciclista pela cidade. Eu e minha bike Drogon.

Catástrofe

Não consigo nem expressar o que sinto com o filme Mad Max – além da cúpula do trovão. Ele passava na Sessão da Tarde quando eu era pequena e me deixava apavorada. O argumento de um mundo onde ter gasolina fosse essencial me parecia totalmente convincente; então, eu comprava todo o resto. Eu tinha medo de, na minha vida adulta, ter que estar sempre suja, em auto estradas e quem sabe até ter que lutar numa arena. Tina Turner vestida daquele jeito me marcou para sempre, aquela pra mim era ela. Nunca vi e nem nunca vou ver esse filme inteiro, não é algo racional. Ele traz à tona um medo infantil muito básico.

 

Talvez seja por Mad Max o medo que eu tive durante muitos anos do problema do petróleo. Aprendi que o petróleo é formado ao longo de tanto tempo que nem dá pra medir, assim como não dá pra esperar que a terra produza mais. Então, um dia nosso petróleo acabará e com ele todos os seus derivados, dentre eles a gasolina. Como faremos sem gasolina, como sairemos do lugar, o que fazer com tantos carros? Digito isso e já sinto minha respiração se alterar um pouco. Um dia, acho que no final do ano passado – vejam, recentemente – eu vi um longo documentário sobre combustíveis alternativos. Tem até carro movido a ar. Minha preocupação com a humanidade sem petróleo, alimentada durante tantos anos, deu lugar à indignação: dá pra ficar perfeitamente bem sem petróleo, a indústria automobilística é que não tem interesse nisso.

 

O que me faz lembrar de uma pesquisa que um sujeito fez no século dezenove, preocupado com a quantidade enorme de fezes que os cavalos gerariam no futuro. Ele fazia uma projeção das pessoas andando cada vez mais de cavalo, e o quanto cada um deles geraria de cocô e… vocês já entenderam o ponto.

 

.oOo.

 

Numa escala muito pessoal, tenho dito continuamente a mim mesma: respira, está tudo bem. Às vezes eu me apavoro, outras vezes tudo está da melhor forma. Surgiu na minha mão um surto alérgico que eu não tinha desde que morava com a minha mãe, antes de casar…

Curtas e amargas

Autores que impressionam seus leitores, por ser mostrarem pessoas humildes e gentis, na sua noite de autógrafos. Mestres com instituições que tem o seu próprio nome, em palestra feita para seus alunos, e que os impressionam por sua humildade e gentileza. Atores, famosos e celebridades em geral, conquistam a todos ao se mostrarem tão gentis e humildes. Ora, ora, só eu leio isso e acho muito natural? Do lado de alguém que sabe minha biografia, consome o que eu faço e já me ama antes de ver, eu também seria um poço de humildade e gentileza. Difícil é ser assim ao ser barrado pelo segurança numa agência da Caixa Econômica.

 

.oOo.

 

Ah, eles estão indignados! Não consigo levar muito à sério quem está sempre indignado. Com o Brasil, com o governo, com a falta de respeito dos jovens, com o efeito estufa. Uma causa ou substitui outra ou a sobrepõe, o que eles não podem e ficar sem ter do que reclamar. Eu sempre lembro da minha tia-avó que não perdia um capítulo do Hilda Furacão, só pra ver até onde a Globo tinha coragem de ir com aquela indecência toda. Não são as coisas que causam indignação a essas pessoas – elas têm dentro de si uma insatisfação, uma amargura, um sei lá o quê de muito ruim e que precisa de uma vazão. Na verdade, “esse bando de canalhas” está é lhe fazendo um favor por existir.
.oOo.

 

Na gênese da coisa, as instituições de ensino e seus diplomas tinham o objetivo de garantir uma certa qualidade. Vamos ensinar o básico, o corpo comum que cada profissão deve ter. Vamos criar a coisa de tal forma que mesmo o maior dos idiotas saia daqui sabendo o mínimo. Quem já esteve lá dentro, numa universidade, sabe que entre os formados existem os brilhantes e os empurradores com a barriga, aqueles que passaram raspando. Deles, a gente tem dúvida se uma faculdade é realmente capaz de informar o básico necessário e essencial. Mas enfim.

 

Aí quando vejo alguém falar de diploma como se resolvesse todas as questões do universo, como se substituísse anos de experiência e de vivência, como se fosse mais do que uma vida inteira dedicada a um assunto, dá vontade de bater de leve com o cotovelo e dar uma piscada marota. É brincadeirinha, né?

 

.oOo.

 

Pessoas que estacionam em vagas para deficientes. Algumas usam a desculpa da pressa, outros que existem vagas demais. Tem também os que se assumem – eles têm mais direito a qualquer vaga vazia do que qualquer outra pessoa. Digo mais: eles têm direito a tudo o que desejam e na hora que desejam. Na verdade, todas essas pessoas usam a vaga de deficientes com muita propriedade: eles são deficientes morais.

Auto escola

Resolvi aprender a dirigir. Quis aprender assim que tinha idade pra tirar carteira, mas não tinha dinheiro. Depois casei e passei a ter dinheiro e não ter tempo. Passei muito tempo alternando falta de dinheiro e de tempo, até que quando os dois puderam andar juntos, eu já não queria mais. Eu comparo essa vontade de aprender a dirigir à mesma vontade louca de entrar em balada e filmes para maiores de dezoito quando não temos dezoito: passamos anos aguardando aquele momento, invejando que pode, fazendo planos… e quando finalmente chega, não é nada demais. Pra mim, dirigir não é nada demais. Fui criada pegando ônibus, andando, aproveitando carona. Sempre vi o carro como uma exceção e não como um direito. Depois que meu irmão sofreu acidente de carro, passei a ter antipatia. Não consigo achar normal tantos carros, cada dia maiores, transportando um (1) fulano dentro, enquanto o trânsito fica cada vez mais caótico e perigoso. Se pra essa questão do carro o coletivo e o bom senso fossem minimamente levados em conta… enfim, deixa pra lá.

 

Mas, como as pessoas sempre ressaltaram, é bom que eu saiba dirigir. É isso que eu pretendo, saber. Às vezes não saber dirigir nos leva a arranjos burros aqui em casa. A região onde eu moro é insegura de noite e fico igual um bebê que precisa ser transportado. Muitas mulheres me disseram que passaram a dirigir só por causa dos filhos. Não sabemos o dia de amanhã e sempre tem a possibilidade de uma emergência. Foi esse tipo de raciocínio que me levou à auto escola. Uma decisão consciente e de bom senso. Porque ter desejo de dirigir eu não tenho.

 

Iniciei o “processo” há semanas. É realmente um processo. Liguei pra uma auto escola, que disse tão resumidamente o que eu tinha que fazer, que fui lá muito alegre e feliz sem ter o suficiente pra matrícula. Porque só então soube que primeiro tem que entrar com a papelada, pagar escola, marcar foto, pagar DETRAN, falar com a escola, marcar exames… Imagino como deve ser aflitivo pra quem sonha em dirigir. Pra mim, só tem dado tempo de observar ainda mais o trânsito, agora com olhos de – “esses motoristas serão os meus colegas”. Olha, que terror.

 

Não duvido nada de eu chegar, quando chegar, nas aulas práticas, eu seja daquelas com pânico. Antes, pensar em gente que senta pra dirigir e se sente impossibilitada me parecia totalmente fora da realidade. Aposto que chegaria no DETRAN cheia de gás e de coragem, se tivesse feito isso aos dezoito. Eu não teria medo, simplesmente porque me parecia estúpido ter medo. Isso me leva a outras reflexões – de perceber que o tempo passou, de que não sou mais aquela. Será que essa é uma regra inevitável, de sempre ficar cada vez mais medroso com o tempo? Será que a partir de agora, sempre que eu me arriscar, terei que fazer passando por cima das minhas inseguranças?

Carros são todos iguais

Existe um distúrbio cerebral chamado prosopagnosia que faz com que a pessoa se torne incapaz de diferenciar rostos. Li um caso severo de prosopagnosia onde todo mundo que chegava perto do paciente tinha que dizer seu nome pra que ele soubesse quem é, inclusive a mulher dele. Os únicos que não precisavam fazer isso eram dois amigos, um por ser muito alto e o outro por ter um defeito físico. Quem tem essa doença vê perfeitamente, mas para ele dois olhos, um nariz e uma boca são todos muito parecidos, ele não consegue diferenciar esses detalhes minúsculos que tornam cada rosto único. Não existe diagnóstico para isso, mas acredito que a incapacidade que eu e muitas pessoas temos para identificar carros seja mais ou menos por aí.

Meu amigo Anderson tem. Ele locou um carro, viajou com ele, e quando devolveu não sabia dizer que carro era. Eu teria feito a mesma coisa, se soubesse dirigir. Não sei e não pretendo saber. Eu digo que se tivesse um carro, seria obrigada a fazer uma adesivagem bem aberrante nele, algo como encher o carro de bolinhas roxas. Senão, certeza de que perderia um carro no estacionamento para nunca mais encontrar. Já passei muitas vergonhas por causa dessa minha autopagnosia. Pior coisa é quando vou receber carona de alguém e a pessoa: “Me espera no estacionamento da farmácia, eu tenho um C3”. E lá vou eu no lugar, na hora marcada, e fico passando pela bunda de todos os carros à procura do nome. E quando acho o nome certo, passo discretamente pela frente do carro – vai vou entrando e nem é da pessoa? A não ser que a pessoa tenha uma Kombi, um fusca, um Uno (modelo antigo) ou um Ford Ka, é certeza que eu não sei que carro é.

Antes eu sentia vergonha por não saber diferenciar os carros. Até que um dia eu saí com um paquera. Ele me pegou na faculdade e parou o carro poucas quadras antes de um barzinho. Conversamos, voltamos pelo mesmo caminho e parei na frente de um carro. 

– Por que você parou?
– Esse não é o teu carro?
– Não, ele está na quadra debaixo. E nem ao menos é dessa cor.

Enquanto eu estava quase me escondendo debaixo daquele carro de cor diferente, ele viu a coisa de maneira muito otimista: “Isso mostra que você não é Maria- Gasolina”. 

Olha, não sou mesmo. Não que quem ligue pra carro necessariamente seja, claro. Mas isso me lembra um dia que estava no McDonalds e o Luiz encontrou um ex-colega de trabalho. Eles se cumprimentaram de longe e ele comentou que não sabia que o Fulano havia se separado, porque aquela mulher e aquela adolescente que estava juntos com ele não eram a que ele tinha conhecido. Tudo bem, a vida é assim mesmo. Só que mais tarde fui ao banheiro e por acaso a tal mulher e filha adolescente estavam lá. Mãe e filha estavam analisando o currículo do sujeito:

– Ele tem um Fluence. Um Fluence está custando na faixa de pelo menos 65 mil reais.

(Claro que eu tive que inventar o carro e pesquisar o preço, porque eu não lembro)

Um acidente

Eu estava a pé, numa via rápida perto de casa. De longe vi duas mulheres, uma por volta de seus quarenta anos e a outra bem jovem, bonita e com um jeito todo de perua. No início pensei que eram mãe e filha. Só depois vi os dois carros parados, um deles com a lateral toda amassada e os eixos das duas rodas tortos, aquele tipo de coisa que dá perda total no carro. Quando passei por entre as duas, pude ouvir a peruinha falando:
– Na minha concepção, a culpa não foi de ninguém, mas se você quiser eu assumo.
Eu teria matado.

Stand up

O nosso carro ainda era bonitinho no época. Saímos da festa de aniversário já meio tarde, e quando voltamos o estacionamento estava lotado. O cara que cuidava já estava meio bêbado e tinha deixado um carrão – uma dessas caminhonetes – atrapalhando a nossa passagem. De um lado o carrão e do outro lado uma parede que tinha um tanque de cimento. Apesar do Luiz ser um excelente motorista e o nosso carro pequeno, quase não havia espaço. Ele fez o que pode, mas não conseguiu evitar que a lateral do carro acertasse o tanque, e a cada manobra pra tentar desviar, ia riscando mais um pouco. Só depois que o estrago estava feito que o sujeito veio com a chave e tirou a caminhonete. Seria tanta dor de cabeça pra tentar que pagassem o prejuízo, pra provar que estava difícil de manobrar, que o cara estava bêbado e nós não e etc, que resolvemos deixar pra lá e voltar pra casa.

Deixamos pra lá mas voltamos putos. Estávamos naquele estágio de emputecimento que ninguém conseguia nem falar nada. Chegamos em casa sem tocar no assunto. Como não dava pra dormir daquele jeito, ligamos a TV. Estava passando Altas Horas e acho que foi a única vez na vida que vi o programa quando estava passando, e não alguns momentos memoráveis no youtube. Quem estava lá era o Leandro Hassum e ele começou a fazer o stand up dele falando sobre os alpinistas:
Mesmo resistentes no começo, começamos a rir. E quando o Leandro Hassum terminou, já estávamos melhor. Com a alma mais leve, desligamos a TV e fomos dormir.

O arranhão continua lá, serve pra afastar os ladrões.

***

Esse comentário que recebi por e-mail é ótimo, não podia deixar de colocar aqui:

Seus posts no Caminhante Diurno são sempre ótimos, Caminhante. Novamente vou dizer: é uma pena que não abra mais a caixa de comentários. Sobre o post do estacionamento, me fez lembrar um momento histórico da vida de um grande amigo meu. Ele se chama Américo, e era um amigo meu do curso de veterinária que tinha graves dificuldades financeiras. Ele entregava a revista IstoÉ, e como sempre tinha a falcatrua como um de seus talentos máximos_ além do excepcional humor que o fazia ver esses pequenos detalhes como coisas simpáticas e triviais_, ele saía em sua motinha cg velha, todas as semanas, de madrugada, para entregar as revistas, e chegava à universidade sempre atrasado, de modos que sempre ficava de dependência em alguma matéria. Como eramos muito amigos, ele me dava uma IstoÈ toda semana. Ele se apaixonou por uma menina mais nova que ele, e que tinha um pai com fma de bravíssimo, e esse pai odiava o Américo. Uma vez, o Américo teve que se sentar ao lado d o pai da menina, na casa dela, enquanto essa não chegava da casa da avó ou de sei lá quem, e ele sentiu que o pai iria aproveitar a circunstância para dar o ultimato do relacionamento. Ficaram longos minutos em silêncio, o pai com a cara fechadíssima (o Américo mede 1,60, enquanto o pai um homenzarrão de 1,80). Daí começou na tv um filme do Roberto Benigni, O Monstro. A menina nada de chegar. Quando ela chega em casa, encontra o pai e o namorado quase nos braços um do outro, chorando de gargalhadas por causa do filme. A coisa resultou em casamento. O Américo teve uma sorte danada por um antigo conhecido do bairro ter-lhe telefonado oferecendo um emprego em Brasília com alto salário, e deixou de ser o pé-rapado de antigamente. Apenas não nos vemos mais, há dez anos.