Uma vantagem linguística na matemática

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Li recentemente um livro fantástico, chamado Outliers. Ainda estou tentando organizar na minha cabeça para escrever uma crítica à altura no outro blog. Há um pedaço que fala de matemática que certamente vai ficar fora da crítica, porque é apenas parte do raciocínio, mas achei tão massa que tenho que dividir com o mundo:

Existe também uma grande diferença em como os sistemas de nomeação de números das línguas ocidentais e asiáticas são estruturados. No nosso sistema, dizemos dezesseis, dezessete, dezoito e dezenove. Seria de esperar, portanto, que disséssemos “dezeum”, “dezedois”, “dezetrês”, etc. Mas não fazemos isso, usamos uma forma distinta: onze, doze, treze… Na maioria dos números a dezena vem primeiro e a unidade depois: dez(e)sete, vinte e sete, trinta e sete, porém os números de onze a quinze não seguem a mesma lógica. Não é estranho? Isso não acontece na China, no Japão e na Coréia. Eles dispõem de um sistema de contagem lógico: onze é “dez-um”, doze é “dez-dois”, vinte e quatro é “dois dez quatro”, e assim por diante.

Essa diferença proporciona às crianças asiáticas duas vantagens. A primeira é que elas aprendem a contar com muito mais rapidez. As crianças chinesas de quatro anos sabem contar, em média, até 40, enquanto as americanas nessa idade contam apenas até 15 e só chegam aos 40 aos cinco anos. Ou seja, as crianças americanas de cinco anos já estão um ano atrás das asiáticas na habilidade matemática mais elementar.

A regularidade de seu sistema numérico também permite às crianças asiáticas realizar funções básicas, como a soma, com mais facilidade. Peça a uma criança ocidental de sete anos que some, de cabeça, trinta e sete mais vinte e dois. Ela terá que converter as palavras em números (37 = 22), para depois cuidar da matemática: 2 + 7 = 9 e 30 + 20 = 50, o que perfaz 59. Peça a uma criança asiática que some três-dez-sete e dois-dez-dois. A equação está implícita na frase. Não é preciso converter nada: cinco-dez-nove. (Parte II, Capítulo 8: Arrozais e testes de matemática)

Antes desse trecho havia a relação entre a língua e a memorização dos números e depois há da influência dessa confusão linguística na relação das crianças com a matemática. Sério, que livro massa.

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Descultura

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Vi no mural de um amigo no facebook um que surgiu pra peitar todo mundo, dizer que no Brasil não teve ditadura e que os que foram torturados eram pessoas ruins que mereceram. Começou a discussão previsível, pessoas dizendo que ele deveria se informar, citaram Herzog e Rubens Paiva. Gente jovem e bem informada. E aquele, que pela foto era muito mais velho do que todos nós, se defendia dizendo que é tudo mentira contra os militares, que ele não frequentou faculdade e não foi alienado pelos livros e pela rede Globo como nós fomos.

Suspiro. Também no Facebook vejo de vez em quando vídeos de músicos de fim do mundo. Mostra o sujeito sem sapatos, roupas em andrajos, chão de terra e no meio de latas e plásticos ele cria instrumentos musicais toscos. E produz uma música identificável. As pessoas postam comemorando, veem naquilo uma amostra de que a pobreza e a falta de estudos não conseguem sufocar o verdadeiro talento.

Para mim as duas informações – o que diz que não foi alienado pelos livros e o músico com um talento maior do que a pobreza – se equivalem por me deixarem triste. Quando penso na história do Brasil, nas bases como as coisas foram construídas, na desigualdade brutal, não me parece que nada do que estamos passando seja imerecido. No meio desse caldeirão de hostilidade, há uma contra a cultura. Uma que coloca a cultura de um lado e a verdade de outro, ou a cultura de um lado e o talento de outro. Cultura com C maiúsculo, sempre tão inacessível porque a boa escolaridade é quase inacessível. Das pessoas que não chegaram lá, que nunca saberão escrever um belo texto, exigimos uma atitude reverente que chega a soar como auto-desvalorização – “você não entende, nunca vai entender, mas tem que achar bonito e aplaudir”. Não acho viável, não é humano.

Aprendemos, como espécie, a fazer registros, a transmitir informação, a construir degraus. A cultura é o que nos faz humanos. Graças à linguagem e o que derivou dela, não precisamos descobrir a roda a cada geração. Ou reescrever a escala musical. O tal músico pobrezinho tão feliz no meio das latas, gastou um talento e uma energia preciosos para refazer o que está pronto. Quem sabe até onde ele iria.

Curtas de condições físicas

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Uma das minhas mais queridas ex-professora de balé foi morar fora e veio pra Curitiba há poucos dias. Ela fez uma publicação pra avisar de um big encontro,o aniversário dela, marcou um monte de gente, eu dentre eles. Ela é tão querida que cheguei cogitar aparecer, apesar de tudo: lugar público, barulhento, sozinha no meio de bailarinos. Penso que isso de ser tímido é quase como uma condição física que a gente se acostuma, como se fosse uma dor no joelho, daquelas limitações que os outros até sabem e ao mesmo tempo não até onde vai. Com o tempo a gente conhece o nosso próprio organismo, olha pra situação e diz: não, isso eu não dou conta, vai ser ruim.

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A série Atypical (Netflix) é toda uma gracinha. É a história de um adolescente com grau leve de autismo que quer arrumar uma namorada. Tem uma cena que o pai dele vai para o grupo de apoio. Ele todo fofo, interessado, falando que está feliz do filho dele estar bem, e é corrigido o tempo todo: “não dizemos melhorar, porque é uma condição física irreversível”, “ah, você quer dizer que as estratégias comportamentais dele estão eficientes”. Muito internet, muito grupos de bandeiras-legais-que-agem-de-maneira-nada-legal que vemos por aí. É perder o conteúdo em nome da forma. Não sejam essas pessoas.

 

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Aceitei a recomendação de uma vitamina C turbinada, para cansaço. Na bula diz: “para gerar energia, as células do organismo realizam várias reações químicas. Durante o processo (de geração de energia), as células liberam amônia, que é um produto tóxico para o organismo, incluindo o sistema nervoso central, desencadeando a fadiga. A arginina atua, transformando a amônia toxica em uréia que é eliminada pela urina, ajudando a combater a fadiga (cansaço) tanto física ou muscular quanto mental ou psíquica, causada pelo acúmulo de amônia no organismo”. Agora eu mijo cansaço.

Louco é o desejo do amador

Escrever pra mim é algo banal. Aprendi cedo, na escola, na época certa. Minha aspiração, quando criança, era ver filmes legendados sem ninguém precisar narrar pra mim. Por gostar de ler, aprendi as regras gramaticais intuitivamente e nunca tive grandes problemas com a ortografia. Mesmo a idéia de escrever bem, de ter algo diferente pra dizer, é algo que ainda me causa suspeita. Sei que vocês vêem aqui e me lêem; a prática me levou a saber o momento certo de cortar as frases ou de prolongá-las, o que consigo perceber claramente quando leio textos antigos do blog (e tenho vontade de deletá-los). Trechos mal escritos me saltam os olhos, minha mente organiza as frases naturalmente. Bom de verdade com as letras era Guimarães Rosa, o resto é só gente alfabetizada.

Quando aprendemos uma linguagem desde criança, nos tornamos experts sem nenhum esforço. Essa falta de esforço é que permite inovar, brincar, alçar vôos maiores, ou até mesmo ter qualidade apenas ao fazer o básico. Penso naqueles que dominam linguagens que eu amo e que não foram passadas pra mim desde criança: músicos, que lêem partituras, adivinham acordes em canções, que desenvolveram uma coordenação motora precisa nas mãos. E, claro, bailarinos, que aprenderam a submeter cada movimento ao que querem, que dominam a técnica de girar e não perder o eixo, que conseguem se equilibrar numa base mínima, que podem alterar a sua movimentação de acordo com a música sem perder a qualidade. Mas poderia estar falando também em nadar, fazer uma horta, programar um site, cozinhar, andar a cavalo, aprender um novo idioma, costurar, pilotar um avião ou saltar dele. É difícil entender, pra quem foi alfabetizado desde criança, que dificuldade um adulto pode ter em entender a lógica de juntar vogais e consoantes, os cálculos sonoros na hora de juntar as sílabas, a vitória em finalmente escrever o próprio nome. Somos todos assim, quando inventamos de começar depois de adultos. Na maioria das vezes gente se convence de que não pode e não tenta… mas quando tenta! Vejam um adulto aprendendo, é lindo. Funciona com qualquer adulto e com qualquer linguagem. Aprender desde cedo traz domínio, tranquilidade e virtuosismo; aprender tarde traz tantas pequenas vitórias, tanta superação, que às vezes chega a ser mais desejável ser sempre um principiante.