Maracujás

flor-de-maracuja-1

O meu muro dos fundos dá pra lateral do muro do meu vizinho. O pé de maracujá – não sei nem se é assim que se diz – dele escala o meu muro. Eu só sei como é porque está aqui: ele sobe no muro, vai se agarrando como trepadeira. A folhagem invade o meu terreno. As flores são grandes, com uns fios avermelhados. São muitas e caem muitas. Todo dia preciso catar flores no chão. Elas atraem uns bichos pretos, daqueles que zumbem de maneira assustadora e me disseram que a picada dói muito. Depois vem o maracujá propriamente dito, uma fruta verde que vai se pendurando por dentro da flor e vem surgindo como uma lâmpada verde e lisinha. Atrai bicho pra caramba também, o que também faz com que vá caindo. Cato flor, cato maracujá verde. Aí, quando eles estão grandes e começam a amarelar, eu acordo numa manhã e meu vizinho puxou todas as folhas, flores e maracujás de volta. Encontro meu muro pelado e o resto de alguma folhagem que caiu no chão.

Talvez você tenha ficado indignado com meu relato, o grau de egoísmo do meu vizinho. Sim, eu já pensei em falar alguma coisa. Se eu cato tanta coisa, ele cata ainda mais e sabe que isso acontece. Não custava nada, pelo menos, deixar que os maracujás que surgem do meu lado do muro ficassem comigo. Mas, olha, certeza que o que ele faria seria podar tudo pra não deixar uma folhinha entrar. Tem gente que prefere se prejudicar a dividir. Eu gosto das folhas por cima do meu muro, então deixo quieto.

Pequenos ódios

dogbert karma

Sacos de lixo também precisam ser de qualidade. Já apareceu meu lixo todo esparramado na frente da casa, eu desconfiei que foi alguma forma de protesto de vizinhos, e no fim era apenas saco vagabundo que arrebentava embaixo. Investi em sacos melhores. Mas olha o problema: o caminhão passa sempre na mesma direção, claro. Ele pega o lixo da casa da esquerda, da minha, corre pro caminhão. Com mais frequência do que eu gostaria, o saco da minha vizinha arrebenta e cai lixo dela na frente da minha casa. Dias desses catei, cheia de ódio, um vidrinho minúsculo. Além de tudo não separa o lixo. Pensei em falar com ela, mas é justamente a vizinha maluca. Depois pensei em apenas jogar o lixo na frente da casa dela, o que ainda cogito fazer, aí lembrei de um dia que estava chegando em casa e ela me perguntou se eu vi quem ficou de madrugada perto da lixeira dela, porque a câmera não pega muito bem aquele pedaço. Ou seja, louca do jeito que é deve olhar todo fim de semana o que acontece na frente da casa dela. E até o cachorro dela é louco, é do tipo que passa alguém na frente e ele passa mais de minutos latindo. No fim, recolhi o vidrinho. Sabe o Dogbert, do Dilbert? Tem uma historinha que ele vai se tornando chefe apenas por mandar as pessoas saírem dos seus lugares e ninguém o enfrenta. Funciona mesmo.

Inimigos ocultos

inimigo oculto

Sempre achei meio paranoico existir um pedaço do mapa astral (eu sei que vocês odeiam quando eu falo de astrologia, calma que já acabou) que trata dos inimigos ocultos. Nem todos têm inimigos, muito menos ocultos, porque nem todo mundo tem uma vida pra isso, eu pensava. Se você ocupa um cargo importante, disputa comissões e etc, tudo bem, mas se você é uma velhinha que frequenta apenas a igreja perto de casa? Pois bem. Um dia encontrei na rua uma senhora cuja história eu já havia contado aqui, ela e seu cachorrinho. Eu passei por eles, ela ofereceu o cachorro pra eu fazer carinho e ele se esquivou. Ela ficou sem graça. Eu também sou dona de cachorro e sei bem como é. “Ele não era assim, ele se dava bem com todo mundo!”. Eu lhe disse que era assim mesmo, que no começo eles eram todos chegados e depois iam escolhendo seus humanos preferidos e que um dia ele iria gostar apenas dela. Os olhos dela brilharam quando eu disse isso. Aí ela me contou toda a rotina dos dois, que se mistura desde o despertar e vai até à noite. Eu passo na frente da casa dela e a vejo falando, brigando, o cachorro late de volta, aquele grude. Eu tive que dar a ela a dica de que é possível sim pegar táxi com o cachorro, que basta ligar pro número do táxi e especificar que vai com um. Que eu precisei fazer isso com a minha. Isso porque ela havia acabado de me fazer descobrir que é possível sim ter inimigos ocultos sendo uma velhinha que só vai pra igreja: uma vez ela encontrou o cachorro comendo alguma coisa estranha que achou no quintal. Ela desconfiou e quis tirar dele. Minutos depois o cachorro estava morrendo, havia sido envenenado. Ela não tinha como levar o cachorro por ser sozinha (por isso a dica) e a veterinária lhe deu todas as indicações por telefone.

Naquele dia ela estava justamente saindo da missa, roupas muito simples e um terço enfeitando o pescoço. É uma paróquia relativamente grande e me parece que sou uma das poucas pessoas da região que não vai. Outras pessoas saiam da igreja, conversavam, a cumprimentavam de longe. Nós nos despedimos e eu não conseguia pensar que alguém ali era o inimigo oculto de uma velhinha que tem num cachorro a sua única fonte de afeto.

Pela parede

ouvir parede
Eu sei que faz um ano porque foi na véspera do natal, mas parece realmente que foi ontem. Eu estava me enrolando para dormir, sentada no sofá, quando os vizinhos do lado começar a brigar. O quebra-pau foi tão grande e durou tantas horas, que o pessoal que mora no lado oposto deve ter ouvido também. Basicamente, a mãe havia fuxicado o celular da filha e descobriu que a adolescente e o namorado tinham conversas picantes. Ela gritava, dizia que tinha vontade de quebrar a cara da menina, que ela tinha de lhe dizer tudo o que fez com o namorado. Eu morri de pena. Minha vontade foi gritar aqui da parede: “olha, já que estou ouvindo tudo, quero dar minha opinião também”. A mãe levou como uma ofensa pessoal a filha estar numa idade cheia de hormônios e sentindo desejo pelo namorado. Conversei com várias pessoas – fiquei muito tensa – e elas foram unanimes em dizer que é pior negar e proibir.

Aí, na véspera do réveillon, teve outro quebra pau. Este não foi tão claro, era um griteiro que incluía, pai, mãe e filho. Parece que a mulher mexeu nas coisas do filho, que já é um homem e ajudava nas contas. Olha, a mulher não é fácil, já falei dela mais de uma vez aqui. Eu sei que pouco tempo depois pai e filho foram embora. Não sei como ela está, eu sei que do meu ponto de vista de vizinha ficou melhor. Se ela fica em casa chorando, é baixinho.

Esta mesma vizinha me lançou o olhar mais maldoso de todos os tempos quando eu me separei. Vocês não fazem ideia, o ar de vitória com que ela me olhou. Entre uma coisa e outra deve ter o quê, quatro anos? Agora que ela se separou, de um casamento que sempre foi péssimo, sempre teve brigas; o meu era silencioso e terminou antes, pacificamente. Não sei se ela se lembra do dia que me encontrou logo depois e estava claro que eu estava sozinha. Claro que lembra, o olhar deve ter sido apenas a ponta de uma iceberg de opiniões e comentários.

Por isso que às vezes eu penso no futuro, me preocupo, depois paro e abandono. Você vai estar isso, você vai estar aquilo, vai ganhar tanto, vai trabalhar não sei quantas horas – são apenas rótulos. Ela se sentia vitoriosa pelo quê, por ter um marido? Hoje ela deve achar que perdeu tempo, que eu que sabia o que estava fazendo e estou quatro anos livre na frente. Não importa a situação e sim você, seu sentimento, dentro dela.

Torneira

torneira-pingando-vazandoEu tenho um vizinho de confiança pra as emergências da casa. Ele tem uma empresa disso e mora na frente. Mando zap pra ele, que se não pode me atender na hora manda alguém. Num fim de semana uma torneira começou a pingar. Esperei passar o fim de semana e mandei um texto bem leve, dizendo que era coisa rápida, que quando ele pudesse. Tudo pra não ter que pagar como urgência. Ele esqueceu, eu tive que comprar tela nova do computador, ele me encontrou saindo de casa e pediu desculpas e eu falei que foi até bom, porque tinha ficado sem dinheiro e seria melhor esperar uns quinze dias. Passaram os dias, mandei mensagem dizendo que agora dava, ele estava ocupado na hora. Um dia estava voltando com compras e ele me surpreendeu aqui no portão, disse que não esqueceu. Vou confessar: tenho resistência. Resistência a ele ter que passar pelo meu quarto e eu tenho que me preparar e arrumar a cama, que sempre fica aberta por causa da história de que assim acumula menos ácaro. Mas, principalmente, tenho meus pudores porque aqui em casa não se anda de sapato. Quando vem um prestador de serviço não tenho coragem de exigir, o que me faz limpar o chão imediatamente depois. É a minha única mania mais séria de limpeza, já me peguei limpado chão de madrugada. De um lado quero arrumar a torneira e de outro um dia já limpei o chão, outro dia estou com preguiça. Então falei pra ele com toda tranquilidade que não tinha pressa, é coisa simples, tudo bem. Resultado: já faz um mês que estou com a ridícula situação de nunca abrir uma torneira. A outra está quase começando a ficar pinga-pinga também. E quando eu penso em apressa-lo, lembro da cama e do chão. É neurose o nome, eu sei.

Música da verdura

velho up

O ônibus da verdura parou em frente a uma casa que está sendo praticamente reconstruída, de tão ambicioso o projeto que dá para adivinhar por quem passa pela rua. Eu já estava na rua esperando ele estacionar. Mal entrei e entrou também um rapaz, que trabalha na casa. O homem da verdura veio repondo mercadoria, conversando comigo e com o rapaz, até que teve uma hora que ele se tocou que ainda não havia desligado a música – Quem é que quer verdura, quem quiser pode falar. Você deu uma risadinha, você quer verdura minha e está sem jeito de pegar.

 

-Vocês me dão licença que eu tenho que desligar correndo a música, não quero ouvir reclamação.

O ônibus vai parando em três ruas diferentes do bairro durante o dia, e justamente naquela tinha um morador que reclamou. “Reclama de um trabalhador! Se fosse maloqueiro com som alto na frente de casa, duvido que reclamava, ficaria com medo”, falou o rapaz. O Verdureiro não queria confusão, porque outras pessoas da vizinhança estavam dispostas a comprar a briga por ele. O homem que reclamou disse que naquele horário a música acordava o netinho dele. Os outros vizinhos contaram que é mentira, que ele não tem netinho nenhum.

-Hahahahahaha, sensacional, o cara inventou um netinho só pra poder reclamar!

A pessoa que deu essa risada fui eu. Só eu. Esse negócio de ficar de ouvido atento à qualquer história interessante deixa a pessoa meio perturbada.

Caminhão de mudança

mudança

Sábado. Exerço meu sagrado direito de dormir até o sono acabar. Quando finalmente saí da cama e abri as cortinas, havia um enorme caminhão de mudança na vizinha do lado, onde tem a clínica. Enorme, do tipo que minha mãe chamava quando morávamos de aluguel e cabia a casa inteira lá dentro e ainda sobrava. Nem pra me avisarem, eu pensei. Temos um relacionamento cordial, eu e a vizinha. Eu a avisei quando, num domingo, a torneira da cozinha dela abriu sem motivo, e parecia que na minha casa a água jorrava sem parar. Ela dividiu comigo os custos das reforma das nossas calçadas e não me cobrou nada por usar o resto dos seus tijolinhos. Não vá, tive vontade de ir até a janela lhe dizer. Comecei a pensar no que faria, que teria que começar a acender vela pedindo vizinhos tão bons quanto, ou se faria igual Roberto Benigni no filme O Monstro e espantaria todos os possíveis inquilinos que aparecessem.

Antes, deixa eu explicar o porquê do pensamento: a acústica aqui é terrível. Até a chegada da clínica, eu sofri com cada vizinho que morou do lado. Primeiro foram dois irmãos, estudantes que vieram do interior e tinham um pai político. A moça brigava com o namorado e andava de madrugada de salto e dava para acompanhar os seus passos furiosos. Ela engravidou e foi embora. O irmão era mais comportado, bombeiro, mas fez um grupo de pagode e eles ensaiam adivinha aonde. Depois veio uma moça com dois filhos em idade escolar e que namorava o sósia do Marco Luque. O fato das crianças só dormirem pra lá da meia noite – dava para ouvir a manha cada vez- não me incomodava. O problema eram as longas sessões de sexo, sem dúvida regadas a viagra, que começavam 3h da madrugada e iam quase até de manhã. Eu tinha vontade de avisar que, assim como eu acordava com os gritos (não estou exagerando na expressão), os filhos dela também deveriam acordar. Como se não fosse o suficiente, ela deixava a cama encostada na parede que divide comigo e a cabeceira ficava batendo num ritmo bem característico.

Para espantar os inquilinos, bastava contar a verdade sobre o número assustador de roubos de carros por aqui, e uma das vítimas foi justamente um paciente. Antes da clínica, um casal bateu na vizinhança querendo saber se era violenta e eu disse que não, mas a vizinha do lado falou tanto de assalto que eu nunca mais vi aquele casal por aqui. Fui para o meu banho, tentando me conformar em perder minha vizinha favorita, e a imaginação voou: eu espantando novos inquilinos, o imóvel vazio, vândalos quebram as janelas, pichadores estragam as paredes, mendigos ocupam o imóvel, meus vizinhos a favor de amarrar bandido em poste colocam forças policiais para retirar os mendigos, tiroteio, pessoas morrem aqui do lado, eu começo a ver fantasmas. Quando saí, chateada em meio a uma nuvem de Phebo, olhei de novo e o caminhão tinha ido embora. Meu banho não é tão demorado assim, nem se fosse uma mudança feita pelo The Flash. Acho que eles erraram na proporção do caminhão de frete. Assim espero. Se encontrar minha vizinha, choramingarei pedindo para que ela nunca me deixe.

Socão na parede

vizinha

Numa noite dessas eu estava ouvindo música e meu vizinho – dos vizinhos loucos – bateu na parede. Era pouco antes das 23h. A acústica aqui é terrível e eu estava ouvindo Chopin num Motorola, deixo a cada um julgar o quanto isso pode ser alto ou não. O que me surpreendeu foi a intensidade. Foram tantos socos e dados com tanta raiva que o sujeito deve ter machucado a mão. Se eu batesse com toda minha força não soaria daquela forma. Pensei em mandar o sujeito socar a mãe ou dar uns minutos de cu pra ver se relaxa, tascar uma música realmente irritante e deixar o celular ali e ir dormir. Mas não. Na penumbra da minha casa tranquila, fiquei pensando no estado de espírito da pessoa. Em todo esse ódio. Que se uma situação tão pequena leva àquilo, como é a pessoa no trabalho, no transito, em situações realmente estressantes. Como diz aquele meme, acho que ele é infeliz ou algo assim. Pra mim isso é doença, desequilíbrio mental grave. Por isso tanto eleitor de candidato que prega ódio, linchamento, gente presa no poste. Parecem normais, mas uma contrariedade e perdem totalmente a proporção, viram animais sedentos de sangue.

Me vê um ovo

ovos

O outro comércio que tinha por aqui e faliu com o tempo foi o armazém da Dona Laide. Era mais profissional do que o sorvete, ficava na parte da frente do terreno, com uma porta de metal que dava pra calçada. Faliu porque abriram uma grande padaria quase do lado. Eu passava lá de vez em quando, para comprar um ovo. Nunca compro ovos. Quando eu me propunha a fazer uma receita de bolachinhas de mel, que usava um ovo ia lá e comprava. Na época custava 0,35. Dona Laide enfiava o meu um ovo num saquinho de papel e eu voltava pra casa e fazia a receita. Um dia, quando fui abrir o portão, acabei rachando o ovo e tive que voltar lá e comprar outro – naquele dia ela lucrou o dobro. Até que um dia eu descobri que aquelas bolachinhas faziam peidar muito e parei.

Pequena schadenfreud

Aqui o que é schadenfreud, caso você ignore o termo.

De um lado eu tenho uma clínica cheia de crianças e de outros os vizinhos mais chatos do universo. Como era de se esperar, a clínica causa um certo movimento na minha rua. Raramente entro e saio de casa sem algum público (a cara das crianças quando estou de bike!), enquanto eles esperam ao lado da campainha. Depois deles, vivo jogando fora papéis de bala e outros tipos de embalagens de comidas típicas para crianças – não sei se os pais não se importam que elas joguem embalagens no chão ou se saem voando de dentro dos carros. Mas não me importo, de verdade, porque toda essa frequência faz a alegria da Dúnia e o barulho cessa quando anoitece, melhor vizinho do mundo quando as paredes que dividem as casas são finas. Já dos outros, os malas, já falei diversas vezes aqui, tão detestados que foram os únicos que jamais foram convidados para entrar no grupo de whats do bairro. Grupo de whats, aliás, que vivo pensando em abandonar. Ele foi criado com o propósito único de comunicar emergências e é fonte constante de barracos. Penso em largar porque só tem barracos. Permaneço porque só tem barracos.

Os meus vizinhos malas têm dois carros e são completamente neuróticos com eles, como em tudo. O ritual é chegar em casa e buzinar – a buzina mais estridente do universo – para que as pessoas que estão dentro de casa desliguem o alarme. Porque eles são tão neuróticos que alguém tem sempre que ficar dentro de casa e o sistema de segurança só é desligado no curto intervalo de entrar e sair de casa. Assim que amanhece, tão cedo que nunca cheguei a ver, um carro é retirado da garagem e fica estacionado na frente do terreno, para ser recolocado por volta das onze da noite. Só que nossos terrenos não são assim tão grandes, então estacionar na rua em frente do terreno deles sem impedir a garagem faz com que o carro fique alguns centímetros na frente do meu terreno, coisa que evidentemente eu não ligo. Já mencionei que eles são neuróticos? Então, de vez em quando aparece um prestador de serviço ou um cliente da clínica, alguém que nem tem a intenção de ficar muito, e estacionam na frente da minha casa. Só que de vez em quando os vizinhos chegam com seu segundo carro e encontram outro carro ali, na frente do MEU terreno, mas invadindo o terreno deles naqueles poucos centímetros. Vocês não fazem ideia do drama. Buzinam nem parar, esbravejam, dão a volta na quadra. O outro carro precisa ser removido, mesmo com o resto da rua inteira e a própria garagem à disposição. Eu apenas

cachorro com fogo

Local ermo e tranquilo

260421_528375_parque_ibirapuera_090914_foto_josecordeiro_53

Já apelidei o campinho que tem aqui perto, com árvores e um caminho que antigamente não dava em nada (agora tem um condomínio fechado) de maconhódromo faz tempo. Um atleta que eu conheço meio de vista, que mora por aqui desde sempre, não simpatizou muito com o termo, quase me desmentiu, mas meu faro quando eu vou passear com a Dúnia não mente. Digo mais: a Boca não é muito longe, fica numa rua pra cima. Eta lugares para terem aquele cheiro característico. A Boca não sei onde é e como é, mas o maconhódromo foi claramente escolhido pela privacidade do lugar. E agora que a rua que não dava em nada melhorou, o local foi descoberto por casais dentro de carros. O problema, como já disse, é que passo sempre por ali pra passear com a Dúnia. E ela tem uma paixão toda especial pelo cheiro de rodas de carro. Faço o possível pra evitar, puxo pra longe e tal, porque atrapalhar casal em carro é até pecado – afinal, quem nunca?

Curtas de expectativas curtas

no balanço

Vou confessar uma coisa: é extremamente difícil arranjar o que escrever quando passei o dia sozinha. Eu gosto, mas é como se minha inspiração funcionasse melhor com um debate silencioso com os outros.

.oOo.

Estava conversando com uma amiga sobre aquelas roupas que não estão limpas o suficiente pra voltarem pro guarda-roupa mas também não estão sujas pra ir no cesto. Você foi até a esquina e voltou, não teve nem tempo de suar. Aí elas ficam num limbo de roupas, esperando para serem usadas pra valer. Ela me disse que na casa dela chamavam de roupas “começadas”. Já adotei.

.oOo.

À caminho da padaria vi um cartaz que dizia que há um local para consertar bikes a 300 m. Na volta decidi ir pra lá, virando à esquerda ao invés de seguir em frente, pra ver se achava o tal lugar. Não achei o conserto de bikes mas vi adolescentes suspeitos numa praça que até então acreditava segura, o escritório novo do meu ex vizinho numa casa enorme, uma mecânica de carros e uma igreja Quadrangular exatamente uma quadra de casa. Me senti a pessoa mais ignorante do bairro.

.oOo.

Acreditam que veio um outro cobrador, à noite, que ao contrário do que tinha jeito de malandro é um que eu conheço faz tempo, gente boa, evitava assaltos, e ele quis que eu passasse pagando dois reais fora da roleta. Sério, é cada história que ele conta, a expressão de pessoa sofrida, pra ele não tem como dizer não. Pior que ele quer ter esquema porque sempre pego ônibus o mesmo horário e tal. A gente quer ser bom e a sociedade…

Curtas da gengibirra

GENGIBIRRA

… que além de ser o melhor refrigerante do mundo, fica (descobri recentemente) maravilhosa com limão. Se tivesse álcool, já teria que começar a comprar os brindes de Missão Resgate da vida (digam que no resto do país também se pede contribuição no ônibus para tirar as pessoas “do mundo das drogas e do crime”) pra saber onde me internar. E se eu fosse famosa, a Cini mandaria fardos mensais de gengibirra aqui pra casa, porque sou a maior divulgadora do produto deles.

.oOo.

Sempre achei que ter cabelo curto faria com que jamais me confundissem com evangélica. Mas fui. Uma foi sutil: o dono da academia que eu frequentava falava de brincadeira “queima ele, Jesus” e “Jesus, apague a luz”. Eu achava engraçadíssimo e non sense e adotei. Uma amiga próxima, espírita, que me conheceu lá, levou um tempão com medo do que dizia do meu lado. Acho que tinha fama de crente e nem estava sabendo. Não sei até hoje se quem achou que eu era por causa disso tem uma visão estranha de religião ou eu é que sou muito por fora do que os evangélicos falam.

.oOo.

A outra foi recentemente. Acho que por causa da crise, pipocaram os carros que vendem coisas aqui no bairro. Sempre ignoro o carro com ovos, perco todas as vezes o carro que conserta panelas, enquanto estava na dúvida o das tortas se foi, aí quando passou o dos salgados quase me atirei na frente dele. Tem sem carne? Presunto é carne. Não moça, salame também é carne. Aí ela me perguntou se eu era adventista. Que raiva que me deu, não se fala isso pra uma cliente que acabou de ser frustrada no seu desejo de se encher de fritura.

.oOo.

Não comentei aqui pra não dar zica, mas tive um semi-entrevero legal com o meu vizinho, por causa de um muro. Gastei com advogado e tudo, foi tenso. Mas, no fim, deu tudo certo. Aí tive que mandar fazer um teto pra cobrir a lage atrás, que estava vazando, e a obra nem começou e o cara se pendura no muro, indignado, achando que eu ia cobrir a área que até alguns meses estava brigando com ele para manter intacta. Depois, ficou um tempão dando pitaco no trabalho do pedreiro. “Teu vizinho é um chato, né?”, ele me disse no final do primeiro dia de obra. Nem me fale, queridão, nem me fale.

Pedriscos

pedra_brita_a_granel_9m3_88470823_0001_600x600

Eu tenho uma séria desconfiança de uma coisa que levou a minha casa a ser uma das poucas da vizinhança que nunca foi assaltada é o pouco cuidado que dedico à minha fachada. Um lado é falta de dinheiro mesmo, não vou mentir. Todos os meus vizinhos já retocaram a pintura – alguns mais de uma vez – e a minha ainda é a mesma de quando eu me mudei. Meu muro eu pinto com cal fino mesmo, a barateza do método é simplesmente de Deus. O outro é falta de comprometimento. Por exemplo, é bastante anti-ecológico pessoas que lavam suas calçadas com mangueira, certo? Pois eu sou mais ecológica ainda: eu jamais lavei minha calçada. Não passa pela minha cabeça, não há ser humano que me convença da necessidade de passar água e sabão numa calçada. Então quando eu tirei a grama aí da frente, e o pedreiro disse que quanto mais tempo deixasse a areia mais ela penetraria nos tijolinhos e melhor ficaria, foi a união do útil ao agradável. Deixei lá e esqueci. O problema é que não tinha só areia, sobrou bastante pedrisco e a prefeitura não vinha pegar. Mais de um mês e eles lá, entulhando minha entrada. Acho que outra pessoa teria chamado caçamba, varrido, enfiado em sacos, tomado alguma providência que não fosse deixar aquela bagunça exposta ao tempo.

Até que uma tarde, estava eu passeando com a Dúnia, e quando passei na frente de uma casa aqui perto, o sujeito que estava pintando a grade puxou conversa comigo. “Você é a dona da casa com pedriscos?”. Eu já fui dizendo que havia sim chamado a prefeitura três vezes e nada deles aparecerem. Aí ele me perguntou se poderia pegar um pouco, porque estava fazendo uma reforma numa chácara que ele tem, estava fazendo um galinheiro. “Claro, pegue o quanto você quiser, é um favor que você me faz!”. O cara era conversador: ele me contou da pintura que estava fazendo, que eu podia falar com Dona Fulana pra ela dar as referências, que ele trabalhou mais de vinte anos na empresa tal, que se eu quisesse pintar minha casa, que revestimento era bom e não encarecia muito, que ele tem acordo com uma loja de material de construção e cliente dele paga mais barato, que serviço grande ele já não pegava mais e o irmão dele tem uma empresa… Nessas alturas a Dúnia já estava louca da vida, uivando de impaciência e eu me despedi. Naquele dia mesmo ele foi lá com uma lata, pegou um pouco de pedras e foi embora.

Mas ainda tinha muita pedra e nada da prefeitura. Poucos dias depois o pintor parou com uma picape já toda forrada de plástico atrás e uma pá. Foi quase tudo – o que ele não pegou foi a bagunça de pedra espalhada, o que deixou um tico de pedras e minha fachada ainda mais porca. Simpática, horário de passeio da Dúnia, fui falar com ele: E aí, que bom que você veio, etc. Eis que o sujeito me solta essa:

-Olha, Dona, estava aqui olhando, e a senhora REALMENTE PRECISA de uma reforma nessa fachada. Não é pintura não, precisa de revestimento.

Putaquepariu, viu?

Curtas cismados

Foi olhando para uma das fotos dela – e juro que quase todas foram olhadas rápidas e involuntárias – que eu finalmente entendi o porquê de chamar uma mulher de coelha, porque coelhinha da Playboy. Ela – a mulher a quem meu crush preferiu – é tão loira e perfeita em todos os seus detalhes, tão estudadamente na moda, alisada e pasteurizada, que quando olho para ela não consigo imaginar que no inverno ela vista outra coisa senão um vison imaculadamente branco, bem peludo, e bata delicadamente as pestanas sobre os olhos vermelhos.

.oOo.

Quando eu vou pagar o meu ortodontista, a ajudante nunca sabe de primeira quanto eu pago. Já usaram a frase de várias maneiras, desde perguntar abertamente qual o valor da minha manutenção a dizer o começo e me deixar completar a frase no final. Minha conclusão óbvia é que nem todo mundo paga a mesma coisa, ou seja, ele deve ter mais de uma tabela. Certeza que eu estou na mais cara. (agora olhe para a figura abaixo e saiba que é a cara que estou fazendo).

cachorro te condena

Tudo porque cheguei através de minha ex-dentista, a que eu tinha deixado de frequentar justamente porque era muito cara.

.oOo.

Outra sobre a coelha: ela tem a mesma cara em absolutamente todas as fotos. Saca aquelas pessoas que descobrem seu melhor ângulo e nunca se deixam fotografar em outra posição? Boooooring! (ok, parei)

.oOo.

Eu preciso do meu vizinho mais não gosto dele. Definitivamente não gosto. O que é ruim pra mim, porque era pra falar com ele pra arrumar um pedaço do meu portão e tenho preferido deixar como está. A primeira vez foi quando falei do pedreiro que a vizinha estava pensando em chamar pra fazer nossa reforma, e ele solta um “é, ele é bom, só vai demorar bastante porque ele se descobriu cardíaco e trabalha bem devagar”. Tudo porque ele estava a fim de fazer o serviço. Outro dia no grupo de whats da vizinhança, falaram dos rapazes que vigiam a rua de noite, se eram de confiança – “conversei com eles e me parecem muito principiantes”, meu vizinho disse. Não gostei.

Pequeneza

Eu e meus vizinhos nos mudamos quase ao mesmo tempo. Eles, um casal com um casal de filhos; nós, um casal sem filhos. Desde sempre eles brigavam muito. As paredes finas entre as duas casas praticamente nos permitiam ouvir as brigas como se fossem um programa de rádio. Perdi as contas de quantas vezes o cara saiu de casa. E mesmo quando não estão brigando, o casal nunca pareceu se dar bem. O cara passa horas lavando o carro e tem sempre uma expressão cansada. A mulher é uma grossa que chegou ao cúmulo de um dia destratar o filho do jardineiro porque ele quis fazer carinho no cachorro dela, pelo portão.

 

Aí eu me separei. Apesar de ter rolado climas horríveis, não foi por causa de nenhuma briga catastrófica, menos ainda quando estava tudo decidido. O Luiz foi saindo de casa aos poucos e acho que a vizinhança passou muito tempo na dúvida. Um dia, quando já fazia tempinho que eu estava sozinha e já não tinha como ter dúvidas, encontrei a vizinha pela primeira vez. Eu estava recebendo o cara que veio trocar minha cafeteira. Esta mulher parou e me olhou com uma expressão tão tão tão triunfante que vocês não fazem ideia. Ela “ganhou”, continuava casada e eu não.