Tamagotchi

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Eu já era adulta na época que lançaram o Tamagotchi e, embora alguns adultos não estivessem nem aí pro fato de ser um brinquedo, eu não tive um apesar de ter vontade. Um dia foi passar o dia na casa de uma colega de faculdade que tinha irmãos pequenos e um deles tinha um Tamagotchi. “Caiu no chão, ele está com defeito”. A minha vontade de brincar de Tamagotchi era demais e não liguei. Eu lembro que tinha até gente que ganhava dinheiro cuidando de Tamagotchi. Ele tinha necessidade, hora de comer e de brincar, e se você o ignorasse durante muito tempo, ele morria. Só que eu, naquele dia, fiquei com ele na mão o dia inteiro, o que o Tamagotchi pedia era atendido imediatamente, e mesmo assim ele morreu várias vezes. VÁRIAS. Fazer de tudo e não conseguir impedir aquela morte, mesmo eu sabendo antecipadamente que o Tamagotchi estava com defeito, me fez pegar horror ao brinquedo.

O Tamagotchi pra mim virou um símbolo de coisas que deram errado comigo, talvez só comigo, e me traumatizaram. Quando eu estava casada, acho que tivemos uns quatro carros, e dois deles deram muito problema. Quando digo muito, é muito. Eu lembro que cheguei em casa tantas vezes de carona na boleia do guincho que já estava me sentindo meio Musa dos Caminhoneiros. Carro morreu na subida perto de casa, carro morreu dez horas da noite em rua escura, carro voltou à 40 por hora do litoral soltando fumaça preta por todo caminho. Só que na época eu tinha ao meu lado um marido que por acaso era uma pessoa tranquilíssima. Pergunta se eu tenho coragem de ter um carro sozinha – TENHO HORROR. Acho que se me acontecessem aquelas coisas comigo dirigindo, apenas eu, o mais provável seria que eu paralizasse e começasse a chorar no meio da rua.

E eu sei que tenho outros Tamagotchis. Numa briga que foi muito marcante na época, um amigo me jogou na cara que eu falava tanto em dificuldades de relacionamento no blog que só podia ser uma pessoa muito difícil. Nunca mais me queixei de amizades aqui, mas as pessoas têm tanto prazer na companhia uns dos outros e eu na solidão, que quem sabe seja um efeito Tamagotchi…

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Do meio pro fim

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Harari cita umas experiências que indicam que o nosso cérebro não consegue avaliar uma experiência na sua totalidade. O que ele faz, na verdade, é dar pouco peso ao começo e fazer uma média do meio pro final. Segundo ele, esta tendência explicaria porque, apesar de reconhecer que a dor do parto é uma das piores que tem, as mulheres continuam parindo; elas dão pouca importância à dor e se fixam na que é a emoção de segurar seu bebê, etc. Isto também mostra que a gente reclama e acha eleitoreiro, mas os políticos que decidem trabalhar em véspera de eleição sabem mesmo o que fazem. Quantos filmes que pareciam bons enquanto assistíamos foram arruinados pelo final, ou vice-versa? As pessoas se casam, tem filhos, constroem uma vida juntas e, quando termina, o outro vira um monstro que só lhe fez mal. A média final de um casamento, com o terrível processo de divórcio, é o oposto da contabilidade que uma mulher faz quando pari… Caso você tente dizer que “um dia deve ter sido bom, senão vocês não teriam ficado tanto tempo juntos”, a pessoa vai bater no peito e dizer: É sim, foi péssimo, desde sempre, eu sofri muito!

Ok, é a tendência natural do cérebro, entendi. Mas existe um caminho menos imediato, de não sujar a história toda por causa do final. Conheci uma moça dançando, antes dela entrar na faculdade. Era daquelas adolescentes que passavam o tempo todo se queixando que era encalhada e feia. Passou num curso disputado, conheceu um veterano, namoraram quase até se formarem. Acompanhei de Facebook: fotos sorridentes em passeios, com os amigos, com a família, tinha até charge dela vestida de noiva. Quando a reencontrei: “Nossa, você não sabe o que eu passei, me livrei, aquilo foi um atraso na minha vida, um castigo!”. Eu me pergunto do que ela se queixaria caso tivesse ficado completamente sozinha durante esse período… Vejo que quem não joga sobre a sua história toda mágoa do meio-final se sente mais feliz. O que seria isso, uma reprogramação cerebral?

Trauma da fome

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Eu tive até que pedir oração na igreja por causa do trauma que eu tenho de passar fome. Eu saía do trabalho e qualquer dinheiro que eu tinha eu ia pro supermercado comprar comida. Minha filha dizia “para, mãe, vai encher de caruncho!”. Eu estava com vinte e seis sacos de arroz e trinta de feijão. Peguei os bons, coloquei em garrafa pet e tampei bem, os outros eu joguei fora. Doeu. De saco de macarrão eu tinha mais de quarenta. Aí eu parei. Mas agora está voltando.

Ouvi uma noite dessas, no ônibus.

Curtas vampirescos

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Já vi muita nostalgia anos 80 mas nunca achei em lugar nenhum alguém fazer referência a um desenho japonês que eu adorava, de um vampiro todo atrapalhado que tinha uma filha bem correta. Num episódio ele inventa uma super cola que fica por dentro do lápis e dá pra ver pela lateral; em outro, ele olha pro sol, vira pó e a filha tem que reconstruí-lo. Só que ele estava com um guarda-chuva na hora e ele reaparece com o guarda-chuva no nariz. Alguém?

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Tinha também um desenho japonês de uma nave que parecia um navio e tinha uma contagem regressiva porque estava procurando outro planeta para a humanidade porque o nosso ia acabar. Nada a ver com vampiros, mas também nunca vi referências e gostaria de saber qual era.

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Voltando aos vampiros. Conversa do meu irmão para o seu melhor amigo, no tempo dos DVDs, da qual rimos muito:

– Estou vendo Drácula de Bram Stoker.

– Eu vi no cinema. Em que parte você está, a Winona Rider já morreu?

– Putamerda, ainda não!!!

Na época nem existia o termo spoiler, quanto mais spoiler falso.

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Nunca vi Entrevista com Vampiro. Fiquei doida pelo livro quando li, doida, doida, doida. Acho que cada época tem seu vampiro galã. Quando anunciaram as filmagens, a autora disse que devia ser o Jeremy Irons e ficou indignada quando colocaram o Tom Cruise. Eu concordei tanto com ela que nunca quis ver.

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Traumas não são como vampiros, tal como sempre se dá a entender. Eles não viram pó instantaneamente quando a luz da razão os atinge. Nem ao menos some depois de um momento de choro catártico. Os traumas grandes, atávicos, que definem nossas vidas são muito mais como Jason, Freddy Krueger, a mãozinha saindo da cova quando todos estão ingenuamente tranquilos.

Um trauma dentário

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Eu adorava água quando era criança, dizia que queria ser nadadora, pegava onda. Mas a vida é a vida e fui ter chance de fazer aulas de natação há poucos anos. Mal comecei as aulas e veterano que nadava comigo profetizou: essa daí vai ser nadadora. Até comentei com meu irmão, que fazia aula de natação há anos, e ele fez uma careta de quem achou que foi pura cantada. Não era. Em pouco tempo estavam me dizendo para participar do campeonato que teria em poucas semanas. Foi aí que começou o problema, eu disse que não poderia participar por não saber dar aquele pulo pra cair na água, que eu a vida inteira havia chamado de Ponta e chamam de Saída. Eu dava barrigada, ou melhor, nunca tentava pular por ter vergonha das minhas barrigadas. No prédio tinha piscina e cada barrigada era careta, as crianças rindo e eu me sentia mal, então nem tentava. O professor foi um fofo e ia comigo até o bloco (aquele lugar onde se sobe pra pular) e segurava a minha mão porque só de estar de pé ali me dava tontura (ainda dá, nunca fico de pé). Com esse professor eu consegui me propor a subir no bloco e cair na água. Participei de uma competição, meses depois, e voltei pra casa com medalhas.

É que, apesar do pulo patético, eu nado bem, provavelmente pela minha história prévia com a água. Eu mudei de escola e nela a pressão para participar de competição se tornou ainda maior, tanto porque lá eu fiz mais amigos como também por ter melhorado ainda mais. Quando as datas das competições se aproximavam eu passava a treinar saída, coisa que nunca fazia nas aulas. Me programar pra começar a fazer saída, mesmo não dando mais barrigada, nunca deixou de ser desagradável e fazer com que eu me sinta exposta. “Como pode”, as pessoas começam a se questionar e me questionar, “uma pessoa que nada tão bem fazer uma saída tão ruim? Você tem que” aí começam a me dar aulas de como fazer a saída, como se ouvir explicações fosse o que me falta. Uma professora me sugeriu, para aprender a mobilizar a força das pernas e pular pra longe, subir no degrau do bloco e dar um pulinho. O degrau não devia ter mais que 30 cm de altura. Quando ela me mandou pular, a ansiedade foi tão grande que não consegui. Não era pra saltar na água não, era pra dar um pulinho no chão. Fiz outras tentativas em casa, pra ter meu tempo e não ser vista por ninguém, e em todas elas eu sentia uma mini-crise de pânico. Me dava a impressão de que eu ia morrer, desequilibrar, bater com a cara no chão, não sei.

Comecei a me perguntar de onde aquilo, uma sensação tão atávica de medo e justamente naqueles dias meu irmão mais velho passou por aqui. Perguntei sobre um episódio que eu não tenho a menor lembrança, mas que cresci ouvindo e via as marcar num sofá que meu pai teve durante anos: eu e ele estávamos brincando de saltar pela sala, vendo quem saltava mais longe. Eu não devia ter mais do que três anos. Num dos saltos eu calculei mal ou me desequilibrei e caí de boca na madeira do sofá. “Tinha tanto sangue, você berrava de um jeito!” O sofá era de laca preta e ficou a marca direitinho – todos os meus dentes superiores entraram na gengiva. No começo acharam que eu tinha quebrado e estranharam quando não acharam nada. Meus dentes tiveram de ser puxados, o que explica também o fato de eu ter sido a única da família a precisar usar aparelho. Acredito que depois disso nunca mais quis brincar de pular. No balé todos meus pulos eram horríveis, sem força, eu caía dura e forçava o joelho. Tentar pular alto me deixava com medo.

Ok, aposto que te convenci. Tenho a melhor explicação do mundo para o meu problema com a Saída. Só que isso não muda nada, não pro mundo. Não faz com que os outros achem justificável que eu, que nado “tão bonitinho”, continue fazendo uma saída ruim. Quando me pedem para treinar durante a aula e tem uma platéia de outros nadadores, não faz com que eles deixem de achar menos esquisito o descompasso entre minha técnica na água e a minha entrada na água. E, principalmente, não faz com que numa competição me deem de volta os dois segundos que eu reduziria se saísse bem. Eu acho que esse é o grande X quando a gente realmente se encara como adulto: traumas psicológicos são nossos pontos de partida e ajudam a explicar a origem das nossas limitações, apenas isso. Na hora de seguir em frente, temos que fazer e pronto, igualzinho os outros.

Odor

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Já passam das 22h, o céu está encoberto e não há estrelas para olhar. Verifico olhando para cima e confirmo que não há nada. No prédio chique por onde passo, a luz da garagem se acende e sempre me parece um cumprimento. Eu me pergunto se o porteiro que certamente está debaixo do vidro espelhado sabe quem eu sou, se ele reparou nos meus horários tanto quando os cobradores dos tubos. Estou de vestido. Não é prudente estar naquele horário de vestido, eu sei e não ignoro, mas é que eu achava que as chances de ganhar carona até a porta de casa eram quase certas e não foram. É um vestido novo, que já havia namorado na loja e acabei ganhando numa promoção. Estou feliz, me sinto bonita dentro dele. A noite está agradável, a conversa foi boa e tem comida pronta me esperando na geladeira. Na direção oposta, na mesma quadra, vejo dois rapazes passarem. São jovens e bonitos, provavelmente vizinhos, num desses prédios grandes e chiques da região. Devem ter ido para a padaria, conversaram muito, ficaram até fechar. Eu me sentindo tão bonita no meu vestido novo, me pergunto se eles também vão me achar bonita. Devem ser mais novos do que eu, mas sinceramente já nem sei mais qual a minha faixa etária ideal; antigamente era pra lá de anos pra cima, uma década, aí me pego surpresa quando um homem da minha idade ou pouca coisa mais novo olha pra mim. Eles conversam animados, sem me dar bola, eu sigo no meu passo e finalmente nos cruzamos. Eles vão um pouco mais para a esquerda, eu um pouco mais para a direita, num balé de fingida indiferença. Sinto, muito claramente, naqueles poucos segundos, cheiro de álcool. Arriscaria dizer que foi cerveja importada, qualquer uma da imensa variedade que vende na padaria, que por sinal também é muito chique. Importada, deve ser importada, digo pra mim mesma, daquelas garrafinhas que se compra uma ou duas. Mas já é tarde. O cheiro entrou em mim e senti o que sempre sinto, senti que não conseguiria, não consigo, não consigo. Estou bonita no meu vestido novo na noite agradável e penso que nunca serei como os outros, eu não consigo, o que deveria ser tão normal, o cheiro, o álcool.

Rigor

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Eu vi que tenho que me controlar, senão acabo virando fiscal de colegas de flamenco. Fico doida quando tem férias: somos avisados semanas de antecedência, por todos os meios possíveis; somos avisados durante as férias; somos avisados dias antes; somos avisados no dia. E todo ano aparece uma: Nossa, não sabia que tinha aula hoje, saí de casa despreparada, já marquei compromisso, etc. Ou tem aqueles que simplesmente faltam. Eu sou daquelas loucas que nunca falta, que se atrasa alguns minutos todo mundo acha que morreu, porque não é possível. Além de ser uma das minhas muitas características TOCs, é lição aprendida nos tempos de dureza. Eu fazia faculdade e tive que deixar inúmeros cursos interessantes passarem porque não tinha dinheiro. Os que tinham que viajar e pagar mensalidade, claro que nem pensar; o mais triste é quando o curso era gratuito e eu não tinha dinheiro para ônibus e lanche. Quem sempre teve grana acaba não tendo noção disso, que o gasto de transporte e comida, somado a outros, pesa. Então eu sei que nem sempre conseguimos unir tempo, dinheiro e possibilidade para fazer algo. Quando posso, quero aproveitar ao máximo – e me irrita quando as pessoas não têm noção do que estão desperdiçando.

Buraco

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“Ela só estava interessada no meu dinheiro“, e a palavra dinheiro foi dita com tanta dor que eu entendi: o ex-marido, aquele interesseiro, dos homens que buzinavam apenas porque ela estava num carrão, as mulheres que se avaliam através de sobrenomes e roupas. Fiquei com medo de eu mesma falar alguma coisa e soar dinheirista. Foi a primeira vez eu percebi o buraco numa outra pessoa. Só que não são buracos onde caímos, aqueles no chão – eles estão mais  para buracos negros, com o poder de sugar tudo à sua volta. O buraco não apenas atrai situações semelhantes, como também faz com que situações neutras ou que poderiam ser interpretadas de várias formas soem como mais do mesmo. A questão do dinheiro era atraída, batia, doía, confirmava. E nada poderia convencê-la do contrário.

Curtas do Quico desfalecido

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Previously on Caminhante… Durante quatro longos meses a minha máquina de costura deu problema com a agulha dupla, só com agulha dupla, e por isso ninguém acreditava em mim. Mais pra eu parar de encher o saco do que realmente acreditar, a Singer me deu uma máquina nova, igualzinha à anterior. É outra máquina, outro tudo, faz tempo… mas sempre que vou costurar agulha dupla me pego hesitante, enrolo, dou uma rezada e começo devagar. É que agora eu sei que existe o dar errado, entende?

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Por um acidente do destino, eu fui convidada pra um aniversário no Country Club. Agora, imaginem a cena, a pessoa querendo descobrir que ponto de ônibus para perto do Country Club. Suzi: “Os ponto de ônibus que tinha perto eles PASSARO POR CIMA CO TRATOR pra não correr risco de pobre aparecer”.

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A gente tenta ser uma pessoa saudável, se apega a beber chá, se enche de chá, vive à base de chá, compra todas as variedades de chá, mancha os dentes, vai parar no dentista, ouve que aquilo foi culpa do chá, paga caro pra fazer limpeza de bicarbonato e que seria bom repetir a cada três ou quatro meses, dado o meu ritmo veloz de manchamento. Resultado: voltei pro refri.

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Última, mas tão desfalecida quanto: alguém por favor diz pro ex-crush sumir da minha frente, porque bastou não me servir de nada pra eu viver encontrando o sujeito.

Infância comum

Não era aquele um bom momento para nascer. Os pais eram novos, ainda queriam curtir. Ou a situação financeira estava ruim. Já tinham o outro filho. Haviam perdido eles mesmos alguém e estava de luto. Estavam em crise, quase se separando. Não, era um bom momento. Mas queriam um menino ao invés de uma menina. Aí veio você, fraca, insuficiente, sem levar o nome adiante. Ou você, fraco, insuficiente, sem as grandes qualidades másculas que o seu pai valoriza. Que você fosse a extroversão, ao invés de ser a introversão em pessoa. Que fosse a encarnação da beleza e popularidade, ao invés de um bicho esquisito e arredio. E com graus maiores ou menores de crueldade, a infância seguiu. Com uma mãe que deixava a sogra ou a empregada cuidando do bebê choroso, ou o pai que estava sempre nas festas ou no trabalho em outras cidades. Ou com uma mãe trancada em casa cheia de rancor, olhares críticos, insatisfeita. Um pai que, pelamor, cada vez que ele chegava o ar se tornava pedra. A comparação sempre negativa com irmãos ou primos, as palavras rudes, a incapacidade do carinho. E aquele sentimento constante de inadequação, de falta. Quem sabe o amor dos seus pais, entre eles, fosse um clube exclusivo onde não cabia mais ninguém, ou a relação soltasse tanta faísca que todos à volta ficavam machucados, a ou falta de um deles fosse irremediável. Crianças que foram amadas na infância se melhores em qualquer coisa, em tudo o que fazem, em tudo o que tocam. Crescem por aí com seus dentes perfeitos, estrelas entre os muitos amigos. Elas se propõem e fazem com tanta segurança e imediatismo que é quase como se o universo colocasse uma almofadinha debaixo dos seus pés. Mas esse não é você, claro. Nunca será, nunca foi, ser com um rombo no peito. Você, que nasceu na família, país e época errada. Você, comum.

TV no sertão

Hoje em dia essas reportagens não são comuns, mas eu já li várias que contavam, com grande alegria, da chegada da televisão em cidades onde as casas não tinham nem luz elétrica. Montava-se uma grande estrutura, vários metros de cabo, e colocavam a TV no meio da praça. As famílias iam todas pra lá, à noite, para assistir novela das oito. Essas reportagens não aparecem mais primeiro porque o sertão não é mais aquele, ainda bem. Segundo porque hoje já temos um tiquinho de noção de antropologia, e as pessoas já não acham mais que você está melhorando a vida das pessoas apenas em importar um item da sua sociedade e plantar no meio da delas. Eu ficava imaginando como seria uma sociedade bem tradicional, patriarcal, com acesso à tão pouca coisa, vendo os personagens das novelas. As casas, as roupas, o modo de falar, as relações – tudo acenaria para um mundo tão perto e tão longe, que eles nunca teriam acesso. Imagino os estragos que essas TVs não fizeram. Nesse sentido, eu até entendo (entender não quer dizer concordar, acatar, justificar, etc) o ódio que alguns grupos islâmicos têm da cultura ocidental. É distante demais, agressivo demais.

Não conheço ninguém que, na verdade, não seja mais do que um conjunto de equilíbrios instáveis. Alguns disfarçam melhor e outros pior. Mas mesmo os que disfarçam bem, os que parecem muito seguros, carregam na mochila um bom número de traumas de infância, incompreensões, pés na bunda, portas que não podem nunca ser abertas. Então, que ousadia e responsabilidade imensa é dizer pra alguém: “pode vir que eu te seguro”. Por isso que pra tudo hoje em dia a gente fala: “olha, acho que você devia procurar terapia”. É uma maneira de dizer: “eu vejo que tem uma coisa muito errada aí, mas não quero nem chegar perto com medo do que pode surgir”. Só gente muito louca faz psicologia, é de sair correndo. O buraco pode não ter fundo, ter mais buracos, pode ser que a pessoa nunca mais volte. Pode não ter monstro nenhum debaixo da cama, mas também pode ser que tenha… Acho que uma das características marcantes dos psicopatas (conheci mais de um, infelizmente) é justamente a coragem de dizer: “Pula!”. E que entusiasmo isso gera no outro, finalmente alguém que se compromete, que ama de verdade, que está disposto a ir até o fundo! Porque o normal é sentir medo, sair de fininho, mandar pro psicólogo. Pouca gente tem culhões pra mexer no buraco dos outros. O problema é que o psicopata fala “pula!” justamente porque nunca teve a intenção de mexer, ele sabe que não vai estar lá quando a pessoa pular de verdade. Ele mandou pular porque soava bem no momento, porque era útil. Quando a pessoa pular e se ver sozinha, ele já estará a quilômetros e o problema não será mais dele.

A dor da gente não sai no jornal

Eu só consegui levar adiante minha pesquisa com cegos quando eles me disseram – e eu acreditei profundamente – que o trauma, a dor que eles possuem só é diferente da dos outros por estar clara pra todo mundo. Apenas isso. A gente olha pra um cego e sabe da sua dor- ele não pode negar, ele não pode fingir, ele não pode disfarçar. Os outros podem; nós, os “normais”, usamos nossas máscaras e fingimos que tudo está e sempre esteve bem. Todo mundo sabe que chato e constrangedor é quando alguém começa a exibir suas dores à luz do dia. Isso me lembra muito aquelas situações que todo mundo fala mal de uma chefia ou organização, e na hora do vamuvê, um ingênuo decide falar a verdade. Em pouco tempo ele se verá sozinho, porque os outros não apenas não o apoiaram como são capazes de defender aquilo da qual todos mal. Aí a tal chefia tem a impressão que só aquele que abriu a boca pensa assim.

Ter uma dor pública ou escondida – eu realmente não sei dizer o que é pior. Quando ninguém sabe dos seus traumas, as pessoas se sentem no direito de te odiar e prejudicar sem pudores. Como se você não tivesse passado pela provação inerente à espécie humana, como se só pudesse ser feliz quem não um dia não sofreu. Concluem que você merece uma lição. De coisas simples à recompensa pelo trabalho árduo, tudo pode ser retirado do seu caminho, pelo simples prazer de prejudicar. São tantos querendo dar lições que é como se o mundo fosse uma grande escola, onde todos são professores e ninguém é aluno. Por outro lado, quando as pessoas ficam sabendo que você tem seus traumas, elas podem (nada garante) até parar de torcer contra. Só que isso terá o preço doloroso da piedade e das explicações reducionistas. Tudo o que você fizer será contaminado com a ótica do coitadinho. Nada mais será uma escolha, nada mais será uma preferência – todas as atitudes serão julgadas pela perspectiva de que foi um infeliz que fez. Se fracassar, tudo está explicado; se deu certo, deu certo apesar de. Uma visão coloca a pessoa como um ídolo a ser derrubado, e outra como ralé.

Minha curta experiência de vida, que conta com centenas de confidências – pessoas que não gostam de ouví-las as atraem – me diz que: todo mundo, nesse mundão, apanhou, apanha e apanhará. Ninguém tem direito de dar lição em ninguém. E ponto.

O buraco

Eu tinha um amigo com a necessidade irritante de ser elogiado. E num terreno muito específico – ele precisava ouvir que era bonito. Então ele vivia dando deixas, o assunto era conduzido até o ponto onde o mais adequado, educado e provável era que eu dissesse que ele era bonito. E era mesmo. Algumas vezes eu dizia, outras vezes não; dá pra imaginar que esse jogo era cansativo. Mas, como acontece em todos elogios provocados, ele não se convencia quando ouvia. Ele mesmo sabia a explicação – “Quando a gente cresce se sentindo feio durante a infância, esse sentimento fica. Por mais que na idade adulta nos elogiem, ficamos sempre com aquela impressão antiga”.

Os adolescentes e as crianças olham para nós, adultos, e não imaginam que temos com eles uma distância tão pequena, emocionalmente falando. O que é bom – eles não seria capazes de nos levar à sério se soubessem o quanto somos frágeis. Lembro da cena do Sexto Sentido, que o menino começa a gritar apelido de infância do professor, que volta a ser gago e desastrado como era na época que o ouvia. Quem dera crescer fosse amadurecer de maneira proporcional, ou pelo menos controlável. É como se crescer fosse uma casa que aumenta em cima das mesmas bases, ou uma construção cujo lixo fosse guardado, ou como se fossemos bonecas russas, em versões maiores e sempre iguais. Na minha vida sinto como se fosse um buraco. Na maior parte do tempo consigo administrar bem meus temores, sei por onde estou andando, me faço de muito confiante e segura. Só que no momento que algum ponto fraco é tocado, sou jogada de volta. Meus pontos fracos são formados sempre da mesma meia dúzia de inseguranças; sua repetição e previsibilidade não consegue alterar sua força. No buraco, nada mais é claro; desaprendo todas as minhas estratégias de sobrevivência, todas as minhas eficientes camuflagens. Lá, nós nunca deixamos de ser a criança feia.

Peninha

Modelo sempre simbolizou, pra mim, a mais burra das profissões. Bastava ser bonita, andar e parar. O America´s Next Top Model me mostrou que até pra ser modelo é preciso empenho e talento. Se elas não sabem o que fazer, como se colocar e interpretar um personagem, a mágica não acontece. Colocam as concorrentes com bichos nojentos, sobre passarelas móveis, roupas desconfortáveis e pra todo tipo de situação elas devem transmitir beleza e segurança. No programa fica muito claro que beleza de modelo e beleza de vida real nem sempre são a mesma coisa. Poucas candidatas são mulheres que nós consideraríamos maravilhosas e que cresceram se achando bonitas. São altas, magricelas e a maioria é sem graça. A mulher pode ser feia e desengonçada na vida real e fotografar muito bem. É o caso da Ann.

Ann tem quase 1,90. Orelhas de abano. Ossos saltados. Como toda moça que cresceu complexada, anda encurvada, se escondendo, fala baixo. Ela vive falando do quanto sempre sofreu por ser muito alta, que sempre foi esquisita, que os meninos nunca olhavam para ela. Aí essa criatura vai num reality de modelos e ganha o primeiro lugar cinco vezes seguidas, a primeira (e provavelmente a única) a conseguir essa proeza. As colegas, loucas e se sentindo ameaçadas. O juri, completamente fascinado com o talento e versatilidade da moça. Só que ela não funciona se não for em fotos. Quando tem que andar, que lidar com gente, que estar ao lado de um modelo, ela desaba. Começa a chorar, fala dos complexos, do quanto sempre sofreu por ser alta, que sempre foi esquisita e aquela história toda.

Antes, eu torcia muito pela Ann. Me identificava com as inseguranças, com a dificuldade em aceitar o que estava acontecendo. Só que mais de um mês já se passou, todos já elogiaram a beleza e o talento dela, tanta coisa aconteceu, e ela continua chorando, nessas de cresci-infeliz-e-desajeitada. Apresentam a ela um mundo diferente, as oportunidades batendo à porta, e pode ser que ela perca tudo porque não abandona essa postura. Por mais que seja difícil, e que não se mude da noite para o dia, o que mais ela quer? Nessa de precisar de mais tempo, dá pra passar a vida inteira se queixando. Só que as oportunidades não esperam a vida inteira. É isso que dá raiva em quem se faz de coitado: não é que não apareçam boas oportunidades e sim que as oportunidades não se realizam porque eles preferem chorar pelo passado.

Pelo suicídio limpinho

Imagine a pessoa estar andando na rua e ser surpreendida com um corpo se espatifando na frente dela. Ou em cima do seu ônibus. Ou estar olhando o céu azul e uma pessoa passar diante dela, indo rapidamente até o chão. Terrível, né? É sempre nisso que eu penso quando sei de suicídios. Não vou discutir esse assunto seríssimo aqui. Só quero dizer que nunca deixo de pensar a tremenda sacanagem que é se matar de maneiras públicas, espalhafatosas e sangrentas. Penso nas pessoas que viram porque estavam andando no lugar errado na hora errada, ou em quem descobre o corpo, ou na coitada da faxineira que vai lavar o sangue depois. Se é pra se matar, meu, se mata mas não traumatiza quem não tem nada a ver com a história.

As dores II

Justiça seja feita: é muito mais fácil conviver com quem não assume suas dores do que com quem vive em função delas. Como os traumatizados profissionais. São aquelas pessoas que vivem o(s) trauma(s) de sua vida como se tudo tivesse acontecido ontem, mesmo que o acontecimento seja de 50 anos atrás. Quando um desses, meio à queima roupa, te conta o que lhe aconteceu, você se sente surpreso e até mesmo lisongeado pela confiança. Dá a ele seu tempo, solidariedade e atenção. Fala um pouco de si para mostrar que lições você aprendeu e que podem ser úteis. Quanto mais atenção você der, mais raiva e sensação de ter sido enganado você tem depois. Com o tempo você descobre que aquela dor não é segredo e sim um cartão de visitas. Repetindo sempre a mesma história, as queixas são usadas para justificar qualquer besteira, em qualquer área da vida. O traumatizado profissional não precisa de conselho porque ele nunca quis mudar. Ser traumatizado é seu modo de viver.

O problema para essas pessoas (e alívio para as que as cercam) é que qualquer história – por mais dramática e dolorosa que seja – some de nossas mentes assim que dobramos a esquina. Os problemas alheios têm um poder muito pequeno de mobilização. A vida tem uma característica que é sua benção e maldição: as experiências são incompartilháveis. Ninguém jamais saberá o que vivemos, ninguém sentirá na pele o que nós passamos. Toda descrição será apenas uma idéia aproximada. Não é possível comparar as dores, nem ao menos quando elas são parecidas. Cada um tem sua própria história – única, irrepetível. E quem não consegue fazer da própria vida uma experiência interessante a perde sozinho.