Eu estava no último ano de faculdade e durante algumas semanas fui muito amiga de um psicanalista argentino. Lembro de ter lhe dito que não sabia muito o que fazer, que como poderia ser psicóloga, que não tinha nada a dizer para as pessoas porque eu mesma não sabia de nada. Ele respondeu que achava que eu seria uma boa psicóloga justamente por isso. Mas eu não me tornei psicóloga.

escada na sombra

Ela se sentou ao meu lado e me disse coisas tão difíceis, que eu não imaginei que ouviria. Eu gostaria de ter podido dizer alguma coisa. Mas acho que ela me procurou porque sabia que eu não diria.

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Confidente

gato na banheira

Lembro do João, um dos melhores amigos que já tive na vida, e que quando alguém lhe perguntava se podia fazer uma confidência, ele dizia que Não. Outra alternativa seria: “Se eu puder escolher, não, mas você vai me contar do mesmo jeito, né?” E contavam mesmo. Mesmo eu lhe fiz uma confidência, mesmo sabendo que ele não gostava. Hoje eu me pergunto porque ele foi o único que ouviu aquilo da minha boca naqueles anos, um assunto que ainda hoje é meio difícil pra mim. Talvez justamente por ele não gostar, por eu saber que diria e tudo morreria ali. Me pego pensando nisso pra entender o porquê hoje sofro desse mesmo mal, de ser confidente involuntária das coisas mais dolorosas. É de uma confiança e consideração muito grandes, mas eu me sinto novamente o tal do Nostradamus português (“Ah, vou escorregaire nesta casca de banana!”). Estou anos luz na frente dos outros, que estão vendo a aparência e eu sei o que significa e onde vai dar. Talvez o grande mal do confidente seja a certeza da sua impotência.

Trouxa

“Como eu era trouxa.” – eu dizia para mim mesma, quando pensava na minha adolescência – “Ficava o tempo todo trancada no quarto, lendo, ouvindo música. Era insegura, tinha mil complexos bobos, me achava feia. Se naquela época eu tivesse a confiança e a cabeça que eu tenho hoje, teria aproveitado, saído, namorado bastante”. Adivinhem, agora, o que esta mulher madura e confiante faz todas as suas noites?

A gente é o que é, não adianta.

Em Sum Paulo

O relacionamento de Don Drapper e Peggy Olson é um dos pontos interessantes de Mad Men. Nos ultimos dias, fiz uma maratona e assisti quase toda a série. Don e Peggy, embora nunca tenham se relacionado como um casal – acho que dizer isso não estraga surpresa nenhuma – e tenham suas proprias capacidade e caminhos, parecem nunca perder a ligação que possuem. Na ultima temporada, ja com tantas aguas passadas entre os dois, Don e Peggy estao conversando, ela muito insegura, ele num dos seus altos e baixos, e ele lhe diz:

– Eu tenho muitas preocupações na vida. E voce nãé uma delas.

Esse é o resumo do que eu senti agora que vim para Sao Paulo. Antes de casar, eu vivia por aqui, acho que tinha todos os anos. Depois fui ficando preguiçosa e parece que a ultima vez que vim tinha sido em 2006. Então mudamos eu, mudaram as pessoas, mudaram as relações. E me parece – posso agora dizer uma grande besteira, dessas regras gerais que criamos e que não resistem ao menor debate – que não existe ficar no mesmo lugar. Nada ficou no lugar, nada fica no lugar. E meu movimento para fora, por mais medroso e desajeitado que possa ser, ainda é melhor do que a tentativa inutil de manter tudo igual.


(estou num teclado sem acentos, fiz milagre pra colocar os poucos que tem)

Sem ela saber, a minha amiga morrendo de medo da vida pós-casamento me ajudou muito. Me ajudou perceber o quanto que a minha experiência e a de outros não a ajudava em nada; o quanto ter escolhido o que viria a seguir não ajudava nada; em resumo, o quanto não saber o que nos espera, mesmo que seja algo bom, traz ansiedade. O desconhecido traz ansiedade. Talvez sejamos todos essencialmente pessimistas, e supomos que se não vemos é ruim, se não podemos controlar, vamos nos machucar. 

Tenho feito tudo certinho, e quem me conhece e já passou por situações semelhantes garante: posso estranhar nas primeiras semanas, mas me sairei bem. A solidão, embora difícil no começo, chega a ser viciante de tão boa. Ficamos mais fortes, mais criteriosos, mais amigos de nós mesmos. Uma pessoa que sabe viver com a sua solidão jamais cairá no golpe do amor porcaria. No meu histórico, fui sempre amiga de ficar sozinha, quieta, no meu canto. Já passo muito tempo sozinha. Mas, tal como minha amiga, saber e ouvir são uma dimensão, o sentimento é outra coisa. Medo é medo.

Então, a única imagem que eu consigo ter, é daquele que me parece o melhor exemplo de fé. Penso numa criança que está com medo e o adulto que a ama lhe pede para seguir em frente. O adulto lhe pergunta:

– Você confia em mim?

Ela concorda com a cabeça e vai, mesmo com medo. Porque se aquela pessoa lhe disse para ir, nada de mal pode lhe acontecer.

Confia em mim?

Eu não acredito que seja possível viver sem incomodar ou colocar os outros em xeque de alguma forma. Só se a pessoa dedicar toda sua energia ao politicamente correto – e provavelmente, o mundo a surpreenderá com uma intolerância que ela se imaginava à salvo. Em algum momento, algum dos nossos amigos se choca. O mais comum é quando a gente não se mostra entusiasta da própria família. Porque para quem teve uma infância-margarina geralmente não concebe que outras famílias não são assim. Pode ser também porque largamos uma bela profissão, recusamos a proposta dos sonhos, descasamos do partido perfeito…

Nesses momentos, acho um direito de cobrar um voto de confiança. Dependendo do passado, chega a ser crueldade exigir explicações para as atitudes incompreensíveis. Não considero amigo quem obriga a pessoa a trazer à luz todos os traumas, os desentendimentos e as dores que o levaram a tomar certas decisões, apenas decidir se os motivos são válidos. Tudo para matar a própria curiosidade, para descansar a cabeça na travesseiro.

Você confia em mim? Confia no meu julgamento sobre as coisas e as pessoas? Confia que eu avalio as coisas como são, que não saio ofendendo as pessoas por esporte, que não vejo as coisas de maneira maldosa? Se a resposta para essas perguntas é sim, porque não acreditar que eu tenho meus motivos ao rejeitar certas pessoas ou situações? Eu chamo isso de confiança – um dos pilares da amizade. Quem exige explicações, apesar de tudo o que eu sou, é porque não merece estar comigo.

Um quilo de auto-confiança, por favor!

Minha amiga Gabi se queixou em algum scrap por aí que precisava achar o lugar onde vende a auto-confiança, porque ela precisa de vários quilos. Ela não gosta quando eu digo que todos esses dramas são próprios da idade, que ter quase 18 não é tanto assim e que ela ainda vai mudar muito. Então, vou arranjar outra maneira de dizer isso.

A confiança vem quando você é a menor no meio de pessoas incríveis, e elas acham o que você tem algo importante; quando O Gostoso, dentre tantas mulheres, fica a fim de você; quando você participa de uma seleção disputada e é a escolhida; quando, depois de muito insistir, você aprende algo que nunca pensou que seria capaz de fazer; quando tem que fazer uma apresentação e acha que não vai conseguir, e por isso se esforça tanto que faz um trabalho incrível; quando você entra sozinha num lugar onde todo mundo está enturmado e acaba fazendo amigos; quando acha que vai morrer depois de terminar um namoro, e não apenas não morre como arranja coisa muito melhor; quando descobre que aquela Autoridade, quando sai do pedestal é uma completa idiota; quando chega numa cidade desconhecida e consegue se virar; e por aí vai.

Antes, pra estar confiante, eu precisava estar com a roupa certa, a atitude certa e na companhia certa. Já vivi um monte de situações em que tudo isso estava errado, e cá estou mesmo assim. E, quando tudo mais falhar, eu lembro um troço que eu li num livro:

Se você não se sente seguro, finja. Ninguém vai notar a diferença.