Nossos corpos

praia anos 80

Um dia o Suplicy começou a aparecer de sunga nas minhas redes sociais. Em todas, repetidamente. Ele estava na praia e parou pra ver um protesto. Fotografaram e disseminaram até à loucura. Vi dizerem que era sinal de senilidade, outros exaltando o gesto. Não achei uma coisa nem outra. Lembrei do meu ex-sogro, que ficava todo queimado porque ia cortar grama sem camisa em dias de sol. Lembrei do meu pai, que considera que o clima ideal é quando a casa está toda aberta e ele de chinelo e bermuda. Suplicy, pai, ex-sogro, são todos da mesma geração. A geração deles não tem problema nenhum em ficar sem camisa. Como pessoa de infância anos 80, convivi com eles e peguei um pouco disso também. Eram os adultos que estavam à minha volta. Eles fumavam na nossa frente. Nós dizíamos – vou pra casa do Fulano – e isso era justificativa pra passar o dia inteiro fora e viver altas aventuras, bem como mostra no Stranger Things.

Estávamos na praia, e alguém pegava uma máquina fotográfica e decidia registrar o momento para sempre. Eram máquinas de filme, filme era caro pra comprar e mais ainda para revelar. Você tirava duas fotos e o momento especial já estava registrado, as próximas duas fotos seriam gastas só em outro momento especial – podia levar um ano inteiro até gastar um filme e mais tempo ainda pra revelar. Não dava pra descobrir se a foto ficou boa até ver, você até esquecia o que tinha lá dentro. O adulto falava “foto”, e nós que estávamos com a água até as canelas, de roupa de banho, parávamos e olhávamos para a câmera. Só isso. E nos víamos quando o filme era revelado. Acho que o sentimento de “credo, eu sou esquisito assim” foi inventado junto com a câmera escura, mas o que realmente incomodava era só você piscava. De resto – barriga, mancha, rosto brilhante de suor, dentes tortos -, era tudo apenas corpo, pessoas. Uma pancinha era só uma pancinha, assim como a parte de cima do biquíni quase no pescoço, ou pernas finas. Era uma relação menos neurótica com os corpos e como os corpos eram registrados.

Eu me dei conta que somos apenas duas no flamenco que se vestem de uma maneira mais fora do padrão, digamos assim. Ela adora brechós e garimpar peças, eu tenho me esmerado na arte de usar o maior número de cores possíveis e ainda ornar (ou não). O que eu e ela temos em comum é: anos 80. Nós vivemos uma época em que cada roupa não precisava ressaltar que você está magro e malhado, talvez porque todo mundo fosse meio magro e fraquinho. Eu lembro que baby look foi inventada quando eu estava no início da faculdade, até então usávamos o mesmo modelo de camiseta para homens e mulheres. Isso sem falar das cores 80’s; havia tons de verde até nos fuscas, o que dizer então das polainas, das ombreiras, das faixas no cabelo.

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Dois pitacos e meio sobre Marguerite

Marguerite, que tem no Netflix, é baseado em fatos reais. É a história de uma aristocrata que canta muito mal, e que não tem a menor noção disso.

1. Tenho pensado bastante o quanto a diferença entre ser alguém e não ser ninguém é toda diferença entre levar porrada ou não da vida. Preto e pobre leva muito, e literalmente. Há poucos dias uma muito rica fez algo completamente sem noção num grupo de pessoas. Se fosse eu a fazer aquilo, a resposta seria imediata – fariam caras, alguém me mandaria parar e me colocariam de volta à minha insignificância em poucos segundos. Como era alguém que um-dia-pode-me-dar-uma-vantagem, não apenas não falaram nada como fingiram que estava o máximo. Igualzinho Margarite. O filme mesmo faz esse contraponto, mostrando a cantora talentosa e pobrinha. Me deu vontade de mandar pra umas Marguerites que eu conheço assistirem, quem sabe se tocassem.

2. Peguei o filme para rir, mas acabei me sentindo #somostodasmarguerite. Gostamos dos grandes talentos, mas a arte se faz principalmente pelos grandes entusiasmados. Pensei em dizer que os medíocres são o adubo da terra que gera os gênios, mas aí fica parecendo que estou dizendo que medíocre é merda… O que quero dizer é que não é possível investir só no gênio; quando vemos classes inteiras de pessoas que nunca se destacarão, ou que estão lá só de passagem, parece que é dinheiro jogado fora. Que se não é pra ser Bolshoi, não vale abrir escola de balé; se não é pra ganhar Nobel, pra quê fazer pesquisa. Não é assim, é preciso criar o ambiente. É preciso uma turma, uma geração, um bando de pessoas, o ruim, o bom e o mais ou menos. As pessoas aprendem vendo umas às outras, incorporando gestos inconscientemente, disputando entre si, criam uma história. Cada apresentação feiosa e erro é importante. É um caminho que se trilha e as pessoas precisam estar juntas. Cada pequeno é um pedaço que forma uma cultura inteira. 

2,5. Levei muito tempo querendo ser a parte do gênio e não a parte do adubo – e quem não quer? Se eu fosse o gênio, tudo seria contaminado pela crença de que sou especial. Comecei a dançar tarde, persisti sem ter jeito igual a Margarite, vejo pessoas ultrapassarem rapidamente o que eu conquistei a duras penas. Mas posso dizer com sinceridade: sou do meio artístico, sou uma pessoa que convive com artistas. Uns na frente do palco, outros no fundo, todos nós no teatro. Eu não seria quem sou se eu não tivesse entrado nesse caminho. Marguerite tem razão: sonhar é muito melhor do que o conformismo.

Os favores dos Deuses

shiva murudeswar

Eu acho fascinante como a cultura modifica a maneira de olhar o que até mesmo “deveria” ser igual. Astrologia, por exemplo, o quanto a abordagem do ocidente e do oriente é diferente. Já falei algumas vezes que o cálculo é diferente, que as lendas são diferentes, que as técnicas são diferentes. Mas o que eu acho de mais fundamental  são os tais “remédios” da astrologia védica. Nos primeiros vídeos que eu vi, peguei uns astrólogos falando meio mal, que não era pra colocar um anel no dedo e achar que com isso todos os assuntos relativos àquele planeta – Saturno para carreira, Vênus para amor e prosperidade, Sol para auto-confiança, etc.  – estavam resolvidos. Depois que eu entendi que eles não são tão dispensáveis assim. Enquanto numa leitura ocidental o astrólogo vai te dizer que você pode ter dificuldade de ser firmar na carreira e ser responsável, ou que tem que se esforçar muito para arranjar um casamento, na leitura védica você tem um karma ruim com relação a esses assuntos que precisa ser queimado. Somos muito self made man até em astrologia. Então você não é uma pessoa com uma carreira ruim, você está com Saturno fraco; ou não é uma pessoa com dificuldades na vida amorosa e sim tem um Vênus muito aflito no mapa. Você escolheu nascer assim, a questão não é um simples “rever atitudes”. Se você está sofrendo demais é porque a escolha saiu pesada, então o único possível é querer que haja uma misericórdia no pagamento de suas penas. Os “remédios” são para melhorar a relação da pessoa com os deuses relacionados ao assunto problemático. Há coisas que soam engraçadas, como alimentar corvos ou nunca aceitar amostra grátis. Como todo tipo de penitência, a pessoa aprende sobre si no processo e precisa de força de vontade (já psicologizei, olha o vício ocidental). E, sabe como são os deuses, o pedido é nosso e atender ou não é com eles – ou melhor, com a nossa possibilidade kármica.

Outras musiquinhas

De tanto ler uma coisa aqui e outra ali, descobri que tinha interesse pelo Brasil da geração da década de 50 – não a geração que nasceu em 50, e sim a que produzia cultura naquela época. Bossa nova, Brasília, Darcy Ribeiro, Carmen Miranda, eu quis saber o que fez que o Brasil que um dia foi tão vanguarda acabar. E foi isso que me fez estudar a década seguinte… As pessoas não lamentam a saída das ciências sociais do currículo porque não podem lamentar o que desconhecem. Antropologia, todos deveriam ter o prazer de estudar antropologia. Ficamos mutilados de nascença, como país, sem estudar sociologia.

Eu gosto e acho muito importante a provocação que algo diferente nos causa. O seu próprio lugar, numa outra época, pode ser tão diferente. No Brasil da minha infância, ninguém achava que mulher semi-nua na TV estragava alguém – e vejo as pessoas ignorarem o fato na hora de clamar por um retorno moral. Mas também pode ser da mesma época em outro lugar: na série Rita, que se passa na Dinamarca, a professor precisou brigar com as alunas, que não queriam tomar banho depois de praticar esportes. O motivo era excesso de auto-crítica com seus corpos. Para convencê-las, teve ela mesma que tirar a roupa primeiro. Aqui por muito menos um artista foi chamado de pedófilo num museu. Mas quero falar de algo bom: no mesmo mundo e na mesma época, que nós, os portugueses fazem uma música muito gracinha, tão diferente da nossa. Eu ouvi esta pela primeira vez sem ver o clipe, e logo nos primeiros versos pensei que é exatamente o meu nervoso dentro de um engarrafamento.

 

Pelados na TV

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Não vou dizer a conta porque ela já está tendo problemas sem eu anunciar. Tenho uma amiga que está em Portugal e ela descobriu, fascinada, um programa de namoro onde a pessoa escolhe seu parceiro através de anteparos. O programa é em inglês, mas veja bem, ele passa na TV aberta portuguesa. Detrás dos anteparos as pessoas estão nuas e vão sendo mostradas debaixo para cima, cada vez mostrando mais um pouco, à medida que se escolhe. Talvez até por birra porque alguém a denuncia toda vez que ela posta, uma noite dessas ela postou o programa inteiro e eu vi. Apenas que é sensacional, fiquei com vontade de mandar todo mundo ver. A gente vivendo uma onda assustadora de moralismo e Portugal, que para nós lembra muito senhoras católicas de preto, com uma atitude muito mais saudável em relação à nudez. O programa é sensacional pela tranquilidade de tudo. Tranquilidade de olhar para diferentes formatos e ver que nada ali é estranho, cada um é de um jeito e tem sua beleza. Gostei da tatuagem, não gostei porque achei grande, gostei porque me inspira confiança – nada errado. Quando o candidato é eliminado, o anteparo levanta e a pessoa caminha nua até o palco. Caminha nua, cumprimenta, ela está nua mas nada ali é erótico. No fim, quando sobram duas pessoas, a pessoa que estava selecionando que aparece nua. Quando sobra apenas um casal, eles verificam se continuarão gostando um do outro vestidos, num encontro. Fiquei boba, achei lindo. O programa me faz perceber quanto nos gabamos de ser liberais e na verdade somos extremamente retrógrados. E que expor o corpo não é o mesmo que encará-lo com naturalidade, a nossa exposição é muito sexualizada e julgadora.

Agora o jogo virou, pá

Uma vez um português me perguntou até que ponto nós, brasileiros, estudávamos a história de Portugal. Acho que até D. Pedro II voltar, eu respondi. Aí ele pensou um pouco e disse:

-Que bom. Depois é só porcaria.

Bem, esse diálogo faz quase vinte anos e, de lá pra cá, Portugal tem merecido usar o meme “parece que agora o jogo virou, não é mesmo?” com a gente. Ou melhor, conosco.

Quando eu comecei a tentar ler autores sul-americanos foi que eu me toquei do quanto éramos um país orgulhoso que usa a diferença da língua como desculpa para se manter à parte da América Latina. Desculpa sim, porque temos muito mais dificuldade em entender inglês do que espanhol e consumimos muito mais tudo que vem da língua inglesa. De maneira semelhante, foi meu recém adquirido amor pela música portuguesa – sou fã do Miguel Araújo como nunca fui fã de nenhum outro cantor na minha vida – que me fez ver que viramos também demais as costas para os portugueses. Passei a ver entrevistas do Araújo e do Zambujo, vi o Tiago Nacarato cantando no The Voice e outros vídeos dele no youtube, Zambujo concorreu ao Grammy Latino com um álbum com canções de Chico Buarque; todos eles com gravações de músicas nossas e/ou participações de brasileiros, falam dos nossos compositores, têm a música brasileira como uma influência. Eu agora sei estes nomes, mas quantos de nós realmente sabemos alguma coisa sobre os portugueses? Eu mesma não sei, gosto de uns autores e uns músicos. Tenho a impressão de que é muito natural, em Portugal, estar a par do que acontece aqui. Depois de Dom Pedro II voltar, eu só sabia que eles mereceram uma música fofa do Chico: Sei que há léguas a nos separar/ Tanto mar, tanto mar/ Sei também quanto é difícil, pá/ Navegar, navegar.

Sim, claro, agora sabemos que eles estão bem. E graças a um governo de esquerda, o que torna um contra-senso brasileiros que foram lá para fugir da Dilma ou eleitor do candidato que promete exilar esquerdistas. Há os que dizem que eles nos devem, porque fomos a colônia mais rica e tal. Mesmo que a dívida exista, porque o laço sempre existirá, ainda assim a migração me soa como parente que sumiu vinte anos e volta porque agora está doente.

Nodo faminto

rahu

Quanto mais leio sobre astrologia védica, mais me parece que não sei nada. E ainda por cima devo estar desaprendendo o que eu sabia da ocidental. Mas tão lindas as histórias! Olha que diferente a maneira como tratam os nodos: os nodos norte e sul existem em ambas, embora a astrologia ocidental dê tão pouca importância ao nodo sul que geralmente ele nem aparece no mapa. São pontos matemáticos relativos à posição do sol e da lua e cobre um eixo de casas opostas, a saber: casa 1 e 7, casa 2 e 8, casa 3 e 9, casa 4 e 10, casa 5 e 11, casa 6 e 12. Se você o nodo sul em uma casa, necessariamente o nodo norte está na direção oposta, nodo sul na casa 1 indica que o nodo norte fica na casa 7 e por aí vai. A astrologia ocidental não gosta de pensar em vidas passadas, então geralmente falam que o nodo sul trata daquele assunto que você já domina, por isso ele lhe é sem graça, enquanto o nodo norte fala daquilo que você deve procurar aprender. Tudo muito limpo e racional.

Agora, à maneira védica: Rahu é o nodo norte e Ketu o nodo sul, também chamados, respectivamente, Cabeça do Dragão e Cauda do Dragão. Ele era uma espécie de demônio, que provou do néctar da imortalidade apesar de não lhe ser permitido. Vishnu tentou detêlo e o cortou – como ele já estava imortal, virou um corpo com dois pedaços. Ketu é a cauda e indica o que já foi feito repetidamente nas vidas passadas. É um corpo sem cabeça, burro; indica facilidade e isolamento, o que vem fácil mas sem o menor sabor, e espiritualidade. Rahu, como cabeça sem corpo, come sem parar porque não tem um estômago pra reclamar que já está cheio. Mais do que o que buscamos nessa vida, Rahu mostra onde temos uma verdadeira compulsão. A sua energia se molda de acordo com o lugar do mapa que ele está, mas numa versão “com esteroides”: exagerado, indomável, apto a tomar atalhos para conseguir o que quer. Enquanto Ketu fica quietinho no canto dele, Rahu quer fama, holofotes, prazeres. Ele é a figura simpática que coloquei para ilustrar o post.

Por mais que os dois termos falem do mesmo ponto matemático, Rahu e Ketu não são muito mais interessantes do que nodo norte e sul?

Não existe mais o Museu Nacional do Rio de Janeiro

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Grande parte da nossa população não entende o peso da perda de um museu. É só pensar na histeria em torno na exposição Queer e a tal performance “incestuosa”. E a parte do país que entende, é elitista demais pra querer educar a outra parte – mais do que isso, tem feito de tudo para reduzi-la à subsistência. Tem dias que é duro demais.

Vai lá, vota em candidato que não quer ter nem Ministério da Cultura.

Carta de amor

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Ainda escreverei sobre Mo Yan no outro blog. Por enquanto, neste mundo cheio de desamor, deixo uma carta de um camponês apaixonado em plena Revolução Cultural chinesa. Uma explicação prévia: como era uma região agrícola, todo mundo produzia o que comia, ou trocava com os vizinhos. As pessoas das poucas profissões que não eram ligadas a terra, compravam sua comida com cupons. Não ser responsável pela sua própria comida era visto como sinal de status. Isto que é “comer grão comercial”.

Minha amada, sou filho de camponês, nascido em berço humilde, tu, por outro lado, és uma ginecologista que consome grão comercial, a diferença social entre nós é enorme, talvez me desprezes e, ao terminar de ler minha carta, deixarás escapar um riso de desdém da tua delicada boquinha antes de rasgar esta carta em pedaços; ou ainda, quem sabe, nem te dês ao trabalho de ler minha carta: vais mandá-la para o lixo tão logo a recebas. Mesmo assim, quero te dizer, minha amada, minha adorada, que se aceitares o meu amor, serei como um tigre alado, um corcel ajaezado, encontrarei uma força inesgotável, estarei revigorado, lépido como se tivesse tomado uma injeção de sangue de galo novo, não te há de faltar pão, nem leite, acredito que, com teu incentivo, poderei mudar de posição social e me tornar alguém que consome grão comercial, para poder ficar do teu lado…

Se não me responderes, minha adorada, não vou recuar, não vou desistir, vou seguir-te em silêncio. Aonde fores, irei também, vou me ajoelhar no chão para beijar tuas pegadas, e ficarei em pé diante da tua janela fitando a luz de dentro do quarto, do momento em que ela se acende até o momento em que se apaga, quero ser uma vela e queimar por ti, queimar até o fim. Minha adorada, se eu morrer por ti cuspindo sangue e me concederes a graça de lançar um olhar à minha sepultura, já estarei realizado. Se derramares por mim uma lágrima que seja, já não terei morrido em vão, tua lágrima, minha adorada, há de ser o elixir milagroso que me devolverá à vida.

Mo Yan/ As rãs, 5. posição 1800 de 6018

Descultura

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Vi no mural de um amigo no facebook um que surgiu pra peitar todo mundo, dizer que no Brasil não teve ditadura e que os que foram torturados eram pessoas ruins que mereceram. Começou a discussão previsível, pessoas dizendo que ele deveria se informar, citaram Herzog e Rubens Paiva. Gente jovem e bem informada. E aquele, que pela foto era muito mais velho do que todos nós, se defendia dizendo que é tudo mentira contra os militares, que ele não frequentou faculdade e não foi alienado pelos livros e pela rede Globo como nós fomos.

Suspiro. Também no Facebook vejo de vez em quando vídeos de músicos de fim do mundo. Mostra o sujeito sem sapatos, roupas em andrajos, chão de terra e no meio de latas e plásticos ele cria instrumentos musicais toscos. E produz uma música identificável. As pessoas postam comemorando, veem naquilo uma amostra de que a pobreza e a falta de estudos não conseguem sufocar o verdadeiro talento.

Para mim as duas informações – o que diz que não foi alienado pelos livros e o músico com um talento maior do que a pobreza – se equivalem por me deixarem triste. Quando penso na história do Brasil, nas bases como as coisas foram construídas, na desigualdade brutal, não me parece que nada do que estamos passando seja imerecido. No meio desse caldeirão de hostilidade, há uma contra a cultura. Uma que coloca a cultura de um lado e a verdade de outro, ou a cultura de um lado e o talento de outro. Cultura com C maiúsculo, sempre tão inacessível porque a boa escolaridade é quase inacessível. Das pessoas que não chegaram lá, que nunca saberão escrever um belo texto, exigimos uma atitude reverente que chega a soar como auto-desvalorização – “você não entende, nunca vai entender, mas tem que achar bonito e aplaudir”. Não acho viável, não é humano.

Aprendemos, como espécie, a fazer registros, a transmitir informação, a construir degraus. A cultura é o que nos faz humanos. Graças à linguagem e o que derivou dela, não precisamos descobrir a roda a cada geração. Ou reescrever a escala musical. O tal músico pobrezinho tão feliz no meio das latas, gastou um talento e uma energia preciosos para refazer o que está pronto. Quem sabe até onde ele iria.

A segunda fileira

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Vi um documentário longo e interessante sobre a escritora Fran Lebowitz, e nele ela diz que quase todos seus amigos, ícones dos seus campos artísticos, morreram de AIDS, porque eram gays e transavam muito, e que a morte deles fez com que a segunda e a terceira fileira, pessoas que não tinham tanto talento assim, acabassem se tornando os expoentes das suas áreas. Estou no fim do Handmaid´s Tale, da qual escrevi um texto quando terminei o livro. Eu diria que a principal diferença entre a protagonista da versão filmada está na força. A da série tenta fugir, enfrenta olhares, se dá ao luxo de ser espirituosa nas suas colocações. No livro, ela chega a dizer: me envergonho de contar a história assim, de ser tão passiva. E  a autora, numa entrevista, justifica: os movimentos autoritários matam os manifestantes. Ou seja, os mais indignados e combativos, os melhores de nós, morrem primeiro. Se não morrem fisicamente, são calados, demitidos, deportados, silenciados. Será que estamos condenados, como sociedade, a ser encabeçados – quando muito – sempre pela segunda fileira?

A grandessíssima forma cultural mais elevada

Tem a história que todo mundo já deve meio conhecer, do sujeito que encontra outro dormindo debaixo da árvore e quer convencê-lo a trabalhar. As perguntas vão indo e, no final, o cara da árvore leva o raciocínio até o fato de o grande privilégio de ter muito dinheiro era fazer exatamente aquilo que ele, sem dinheiro nenhum, já estava fazendo. Com suas ressalvas, eu me pergunto se o discurso em torno da cultura letrada, acadêmica e elevada não é um pouco assim, como se fôssemos o primeiro cara da história, o capitalista. Ler, ouvir música e meus vários envolvimentos com a cultura podem realmente me engrandecer como pessoa, mas isso é um efeito secundário. O que leva alguém a um livro ou uma música é o prazer – acredite em mim, quem diz que lê para melhorar vocabulário ou se informar nunca é um grande leitor. Com a cultura buscamos um prazer que vai além do simples comer e fazer sexo; existe um prazer etério, fora do chão, uma imersão em algo maior. Não me parece que a cultura seja um fim em si mesma, talvez seu grande objetivo seja nos tornar mais humanos. O que eu sinto ouvindo Schumann o outro pode sentir com coisas diferentes, eu não tenho como saber. Então, muita calma nessa hora de classificar as pessoas.

(Não acho que ele se importe mas não custa dizer: o Milton Ribeiro que indicou este vídeo)

Arte degenerada

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Quando eu vi Arquitetura da Destruição, uma das coisas que me assustaram no filme foi perceber que eu e Hitler, no campo artístico, tínhamos ideias parecidas. Assim como ele, eu também gosto mais da arte clássica, renascentista, e tendo a ver a arte moderna pura e simplesmente como arte ruim. O filme me fez pensar que se por acaso eu fosse alçada à condição de semi-deusa, que qualquer coisa que eu pensasse ou dissesse foi levada tão à sério que adquiriria o status de dogma, minha ignorância e limitações estéticas trariam um período de ignorância e obscurantismo artístico. Porque é isso o que vemos no filme, a exaltação de uma arte voltada aos ideias nazistas de força e perfeição e empobrecida de outros aspectos – o que dá uns 95% da própria essência da arte. Quando vemos a arte produzida por períodos ditatoriais de outros países – penso na China Comunista e URSS, mas devem haver outros exemplos por aí – há o mesmo fenômeno.

Eu não sou uma pessoa tão inculta e condenável assim por ter minhas limitações de gosto artístico, vai. E nem Hitler. Todos nós temos gostos limitados, ninguém dá conta da totalidade da existência. O que para mim é sujeira e ruído, para o outro pode ser a forma de expressão possível. O que eu vejo como erro e pecado, para o outro pode ser liberdade ou redução de danos. O erro está em um gestor ter tanta certeza da sua posição que a transforma em verdade para uma cidade ou país, quando transforma em lei ou atitudes. Para decidir sobre o corpo dos outros, a escolha dos outros, a arte dos outros, o melhor ainda é perguntar pra eles.

Eu e o Cristo

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Se você parar pra pensar, raramente um dos nomes que hoje nos é referência foi reconhecido e amplamente divulgado na sua época. A maioria deles eram pessoas comuns e fizeram um trabalho no meio de outros, que talvez se destacasse apenas no seu círculo ou nem isso. Os grandes gostavam de outros grandes: Chopin, Lizst, a escritora George Sand, tudo a mesma patota; o Grupo de Bloomsbury tinha Virginia Woolf e Keynes; Gertrude Stein chamava Hemingway e James Joyce para apreciar sua coleção de Picassos. Ou seja, por fora era apenas um grupo de amigos. Quando a gente é fã, pensa: “Já pensou que legal, estar lá nas primeiras montagens de Shakespeare, ver as posições originais dos atores, quem sabe o próprio no palco?”. O mais provável é que a gente não fizesse parte. É uma dezena de pessoas destinada a fazer história, fazendo o que lhe parece melhor no momento. Pessoas que tinham parentes que lhes pediam atenção, vizinhos que às vezes se incomodavam com o barulho, cortavam o cabelo e compravam roupa nos mesmos lugares que todo mundo. Neste mesmo instante, um movimento importante pode estar surgindo do nosso lado e a gente nem está sabendo. Ou até está e ficou com preguiça de ir.

-E aí, tá sabendo daquele cara polêmico, o tal de Jesus?

-Ouvi falar, um que fica andando por aí, enfurece uns sacerdotes, um troço assim, né?

-Ele mesmo.

-Qué que tem ele?

-Tá vindo pra cá.

-Opa! Vem fazer o que aqui?

-Deve vir dar uma palestra. Eu viaja pelos lugares e fala. Um parsa meu que é amigo de um primo que segue ele que soube. O Jesus deve chegar daqui há três dias. Tá a fim de ir?

-Não sei… vai ser muito longe?

-Não, aqui pertinho. Ele gosta de falar nos montes, é mais fácil de organizar.

-Hum, legal. É caro? É que esse mês teve uma seca e…

-Não, é de graça.

-Aí já está mais dentro do meu orçamento. Fiquei a fim.

-Formô. Só tem que chegar cedo pra conseguir um bom lugar…

-Belê!

-…porque vai bastante gente e…

-Hum… o que você chama de bastante gente? Você convidou mais de três, quatro pessoas?

-Ah, vai uma multidão, né? O cara é polêmico, é de graça, a notícia se espalha.

-É que eu tenho uns pergaminhos aqui pra ler… Vamos fazer o seguinte, a gente vai se falando? Qualquer coisa você me faz um resumo.

Tudo é privado

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Meu irmão conta histórias ótimas do período que ele passou no Japão, do tipo que faz a gente se apaixonar pelo país sem ter colocado os pés lá. Uma coisa que chamou atenção dele foi quando a imprensa falou do comportamento dos japoneses nos estádios, que eles começavam a limpar tudo. Ele me falou do quanto essa reportagem soava estranho lá, por ser um comportamento totalmente natural. “Não é que eles se programem para limpar tudo”, ele me explicou, “eles simplesmente levantam e começam a fazer. Um pega os copos, outro acha a vassoura, outro pega a louça e quando as pessoas terminam de arrumar tudo elas vão embora”. Como se fosse a gente, na própria casa, que vai levantando e fazendo as coisas pra não deixar pra depois. Mas eles agem assim em todos os lugares. Então é como se todos os lugares fossem sua casa. Ou se a sua casa – já que a deles é tão pequena – fosse em todos os lugares. É uma divisão diferente entre público e privado, quase como se não existisse quando comparada com a nossa. Aqui, o privado é aquilo que cuidamos muito e o público é o que não tem o menor cuidado ou, dependendo do caso, o que pode ser depredado porque outra pessoa que venha substituir mesmo.

Pode parecer meio louco isso, mas fiquei pensando que essa coisa de tratar tudo com cuidado, de não achar que o que está lá fora deve receber menos carinho do que o que está dentro, me fez pensar se não era isso o que o originalmente se pretendia quando se falava de amor universal.

Um lugar dentro de si

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Há de se amar a cultura, o conhecimento; geralmente identificamos isso como amar os livros. É que os livros nos permitem tanta coisa, são tão ricos, mas vamos fazer justiça: existem documentários, revistas, teatro, música, HQs, etc. O importante é amar a cultura, a informação, o estudo. Somos todos muito incultos. Somos sim, nós brasileiros, um país que investe tão pouco em educação e tem currículos tão defasados. Nós que temos atrás de nós gerações de incultura, nós que não lemos nem dois livros por ano, nós que não tivemos sociologia e filosofia nas escolas. E recentemente, nós que não precisamos decorar mais nada porque existe o Google. Não vou discutir o quanto saímos perdendo enquanto país porque isso é amplo demais pra este bloguinho. Quero falar da perda pessoal. Eu vejo que quem lê, quem tem amor ao conhecimento tem aonde ir quando tudo lhe falta. Essa pessoa pode estar sem dinheiro, sem amor, sem amigos, sem possibilidades, tudo dentro de si pode parecer escuro e sem perspectiva – mas ela tem interesses e esses interesses podem preenchê-la. Falo de cadeira. Ela pegará um livro do seu autor ou assunto preferido e isso lhe bastará por dias, horas, o tempo que ela quiser. Enquanto isso, o coração descansa e o tempo cura o que precisa ser curado. Ao contrário de tarja preta, não tem contra indicações e torna a pessoa melhor no final do processo. Seu universo se tornará cada vez maior. É uma espécie de poder, é como ter um refúgio dentro de si. Dá uma independência danada. Um bom livro, um lugar confortável, luz e está feito. Para mim, a falta desse lugar é a maior perda de quem não ama o conhecimento.