Expectativas

sci-fi

Tem aquela brincadeira, do homem que chega na balada e às 22h estabelece que “só loiras”, e às 3h da manhã já está aceitando qualquer uma que diga sim. O chato é que isso não é apenas uma atitude de homem, de balada, de sexo. Estava conversando sobre casamento com umas amigas e me calei, porque elas não haviam se casado e não tinham essa experiência: antes de você casar, quem sabe até o último minuto, existe apoio pra você sair da relação se não for totalmente maravilhosa pra você. Depois do papel, é um carimbo, uma expectativa. O “briga de marido e mulher ninguém mete a colher” não existe à toa. A festa custou uma nota. O seu antigo quarto já virou escritório. É uma instituição, envolve papelada, como se explicar. É tudo amor e tudo relacionamento a dois, mas regras são outras. O ato é o mesmo, mas não se olha uma traição de namorado como idêntica a uma traição de marido. Quando você é jovem, sua obrigação é comer o mundo – a melhor seleção, o melhor emprego, o cargo mais alto. É um gênio, vai trabalhar na ONU, vai… Depois, muito bom se você conseguir pagar as contas.

Não estou dizendo que não tenha seu sentido. Mas é um daqueles envelhecimentos que começa de fora para dentro. Você ainda se sente aquele, o de comer o mundo.

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Velhos, feios e amados

cachorro velho

Eu nunca tinha acompanhado o envelhecimento de um cachorro como agora. Nós tivemos o Flock, que morava com meu pai, e ele havia se acostumado a passar mais tempo fora do que dentro de casa. Eu lembro quando meu irmão me disse, por telefone, que o Flock havia morrido. Lembro de ter sentido muito, mas pra mim foram umas férias que ele estava lá e outra que ele nunca mais esteve. Sempre me deu um certo calafrio as fotos dos cachorros com os olhos azulados. Os donos falando no diminutivo e com carinho de cachorros já tão feios, acabados. Agora que tenho uma velhinha em casa, não sei dizer se ela já chegou no estágio de alguém olhar uma foto e se sentir mal, acho que ainda não. As fotos são porque nós, donos de cachorros, só vemos ali o nosso filho peludo muito amado. Quando um cachorro deixa de ser louco, se divertir com tudo o que aparece pela frente e disparar frente a qualquer provocação, passamos a amá-lo ainda mais do que antes, porque tomamos consciência de que cada dia a mais com ele um presente. Vemos ali uma história.

Eu me pergunto que hiato tão grande de amor é esse que nos faz amar cada vez mais um cachorro velhinho e fugir de pessoas velhas. De fotografar a decadência do cão com a maior naturalidade e lutar contras as marcas do envelhecimento humano com todas as forças. De trocar quem tem uma longa história por um “modelo” mais novo, que não terá nem tempo de formar tanta história com você. Enfim, como o coração pode ser tão enorme para com uma espécie diferente e cheio de barreiras, até mesmo de ódio, com aquele que nos é igual.

Curtas de três senhoras no ônibus

lugar preferencial

Esta foi desagradável: eu estava de pé e vi quando entrou a senhora cutucou o ombro de uma moça que estava sentada com fones de ouvido. Nem era lugar preferencial. A moça provavelmente pensou que a mulher havia apenas esbarrado e nem olhou. Aí a senhora colocou a cara bem na frente da moça e arrancou o fone de ouvido da orelha e ordenou que ela saísse dali, porque ela era de idade, estava de pé à seis horas e muito cansada. A moça respondeu a grosseira com grosseira também, a senhora ameaçou bater nela, a moça bateu palmas ironicamente. Que clima logo de manhã.

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Cada dia mais normal pessoas olhando no celular dentro do ônibus, até as de pé. Uma senhora estava olhando seu whatsapp. Baixinha, óculos, cabelo branco, expressão tranquila, bem o tipo que dá vontade de chamar de tia. Aí eu tive que me aproximar porque ia descer em pouco tempo e ela estava assistindo, como descreverei… uma cena de grande intimidade entre homem e mulher.

.oOo.

Eu só pude olhar para a senhora de costas, quando saí do ônibus. Ela me surpreendeu por estar com um cabelo branco lambido até os ombros, sem corte e talvez sem lavar. Uma camiseta folgada pra fora da calça também desajeitada. Estava sentada quando ela entrou no ônibus e passou o trajeto inteiro exortando as pessoas à felicidade. “Amar é tão bom, amar é a melhor coisa da vida. Amem muito, não importa se é homem ou mulher, namorado, amante, o que for, o importante é ser feliz. Eu nos meus sessenta anos estou amando, sou muito amada, a melhor coisa do mundo é amar”.

Velho, velho e gift

Fiquei muito emocionada quando vi esta propaganda com o Elton John. Mandei pra amiga cujo filho está aprendendo guitarra, e sei que ela se identifica muito com o final da propaganda. Pra mim a propaganda toca mais de outra forma, legado é um tema importante pra mim. Talvez por sempre ter tido a tendência de fazer amigos mais velhos. Não falo em legado num sentido financeiro, e sim como história construída, o que você pensa da sua própria trajetória quando olha para trás. Aquele sorrisinho do Elton John no final da propaganda diz tudo. Uma das coisas que me fez querer chacoalhar e gritar no ouvido de algumas pessoas neste período recente da nossa história: o que você pensará a respeito das suas escolhas quando olhar para trás?

Ainda sobre velhice: fui, com amigos, fazer uma apresentação num asilo. Era o mais bonito e bem cuidado e feliz dentro das circunstâncias, mas era um asilo. Um lugar aonde vão pessoas que, na sua maioria, estão impossibilitadas de cuidar de si mesmas. E me vi menos tocada, menos emocionada que os outros. Talvez por já ter acompanhado deterioração física de perto, de saber o quanto o mundo se estreita. Ou, antes disso ainda, eu pesquisei cegos. Uma das minhas entrevistadas, a que tinha a história mais dolorosa, me ensinou que todo mundo tem limitações, a diferença é que a deles está evidente. Acho que para trabalhar com o sofrimento precisa ter uma aceitação muito profunda do que ela me disse.

O último ponto, voltando pra propaganda. Passei a ficar doida por Your Song, como quem ouve pela primeira vez. Meu verso preferido é: My gift is my song/ This one for you. Uma tradução rápida seria: Meu presente é a minha música/ Esta é para você. Mas gift também significa dom. Do mesmo modo, com este blog, me sinto dizendo continuamente: My gift is (to) write/ this one for you.

Promessas quebradas

vaso quebrado

Tenho pensado muito – apenas pensado, sem respostas – sobre a amargura própria de quando ficamos mais velhos. Eu sempre observo, nas novelas da Globo, que a pessoa deixou de ser galã quando ela ganha papel de vilão; algumas infantilidades, manipulações e horrores não cabem em carinhas de anjo. Não é apenas porque os atores novos não sabem expressar, é porque gente nova não chegou lá. Elas ainda não descobriram que o número de pessoas que realiza integralmente os seus sonhos é pequeno. Eu vejo que a minha geração, do final dos anos 70, é especialmente ferrada. O meu pai nunca pode evitar um sentimento de superioridade diante dos filhos, porque aos quarenta ele era O Cara: conceituado na área dele, sustentava duas famílias, dava festas, viajava o Brasil inteiro. O diploma de engenharia dele rendeu pra tudo, enquanto eu e meus irmãos somos muito mais instruídos e não há perspectiva de um dia chegar perto do que meu pai conseguiu. E estamos todos da gerão 70´s assim, com um longo histórico de empresas falidas, mudanças de área de atuação, ainda precisando de ajuda financeira. Vai chegando a idade que já não somos mais bonitinhos, já não temos muito mais tempo pra errar, e parece que se não conseguimos ainda é sinal de que não conseguiremos mais. Depois de tantas tentativas frustradas, estou aqui tendo que encarar o fato de que talvez o desejado livro nunca saia e meu talento se limite a estas linhas que você está lendo. Na dança, vejo gente que amou e se dedicou intensamente e agora já está “velho”, vendo gente mais nova e talentosa surgir. Vejo a aposta de merecer um grande amor não se concretizar, a dúvida se no fim não era melhor ter ficado na relação morninha mesmo. Com a idade, chega a dura escolha do chinfrim: ficar no emprego que não é dos sonhos, o casamento que não tem paixão, as férias na CVC, os quilos a mais. O que eu me debato, na verdade, não é nada disso, porque à princípio não há nada de ruim no que eu falei. O que me mata é a amargura. O que eu tenho horror e quero fugir a todo custo, e não sei direito como, é da raiva do fracassado diante de quem está chegando agora, diante de quem tem energia e fé. Do novinho que não sabe o que nós passamos e quer que o mundo seja generoso com ele, sendo que na nossa vez ninguém foi. Não quero ser o que desacredita o talentoso e tenta puxar para baixo os que conquistaram o que eu sonhei e não consegui. A pedra no sapato, a que piora o clima, a que usa o sem importância como desculpa para humilhar. Eu não quero ser assim, tenho horror de ser assim, mas à medida que a maré tem trazido meus fracassos para a areia, a possibilidade me acena e entendo cada dia mais.

A curva

curva normal

Eu tive um professor na faculdade que é um sujeito importante na área dele, e por coincidência ele foi orientador de pós-graduação do meu ex. Por causa disso, ao longo dos anos, de vez em quando eu encontrava com ele. Sempre que eu o reencontrava, me dava aquela sensação de “como está velho, da última vez…” . Eu sabia que a cada reencontro eu não estava pior. Um dia, numa aula de dança, a professora falou algo que fica meio óbvio depois que alguém explica: existe uma curva no nosso corpo, que sobe até os trinta anos, fica pouco tempo estacionada ali e cai lentamente até o fim da vida. Eu estava subindo a curva e meu professor descendo. Agora que estou do outro lado da curva, sei que a cada reencontro meus amigos novinhos se surpreenderão em ver como estou cada dia mais velha, da última vez…

Agora pensem comigo: se a curva sobe apenas até os trinta e o resto é queda, e a expectativa de vida a cada dia que passa torna mais fácil ultrapassar os oitenta, mais da metade da nossa vida será na queda. Não estamos mais na Idade Média, a vida está longa. Achar que só o corpo jovem é bonito, que só as características jovens são qualidades, valorizar a mão de obra apenas do jovem… bem. No mínimo não é muito esperto. Da minha parte, acho que deveríamos aprender a gostar de rugas e corpos mais pesados. Junte-se a mim.

Carpe nada

ampulheta

A expressão carpe diem é bonitinha mas, tal como diz as propagandas, precisa ser apreciada com moderação. É um equilíbrio difícil o de aproveitar o dia, não deixar para depois e perder o momento, mas também não estragar o futuro por um impulso sem sentido. Porque o futuro é malvado, o futuro é Saturno devorando o filho. O tempo traz de volta o cadáver, o tempo traz a verdade, o tempo revela tudo. Quando me esqueço do quanto o tempo é valioso, penso em alguém que tenha sido preso sem culpa. Se a pessoa passa vinte anos na prisão e depois soltam porque reconheceram o erro, nosso primeiro impulso é pensar que ela deve processar o Estado e ganhar uma fortuna. Mesmo que ganhe, de que adianta? Ela entrou jovem, cheia de forças e ilusões e saiu um velho amargo, não há dinheiro que pague. A pior coisa para o canalha, para o carpe diem alalaô, é o tempo. Eles acham que vão morrer na farra, garrafa na mão e de preferência penetrando uma prostitua. Mas não morrem. Um monte de pessoas fitness morrem cedo, às vezes de câncer do pulmão sem fumar nem cigarro eletrônico, e o sujeito que exagera continua aí. Tenho certeza que é castigo. É pra olhar no espelho e ver a feiura, o pau caído, se sentir doente quando está de ressaca, sentir o desprezo dos que chegaram no mundo agora. Saturno não, é Deus Saturno pra você.

Um amor maduro

frango-assado

Passávamos de carro pela Avenida Batel, um dos endereços mais caros de Curitiba. Aquela região, em especial, era cheia das antigas mansões dos barões de café, hoje todas transformadas em estabelecimentos comerciais. Ela me apontou uma casa de esquina, que naquele momento era uma das clínicas do meu plano de saúde. “Minha mãe vivia aqui, com seu segundo marido”. Minha amiga estava, conforme sua própria definição, na idade do sexo – sex agenária. Estava grande, vestia sempre roupas largas e desleixadas, enquanto a mãe se mantinha magra, era vaidosa, num daqueles casos clássicos que a mão parece ter menos idade do que a filha. O primeiro casamento, com o pai da minha amiga, havia sido um desses longos, de bodas que cobriam todas as pedras preciosas, e a mãe ainda passou muitos anos sozinha, de maneira que nesse segundo casamento a mãe dela já estava na terceira idade e o marido tinha pra lá de oitenta. Ela me mostrou de carro: todo final de tarde, a mãe e o marido trancavam a casa, passavam o cadeado pelo portão, e andavam de mãos dadas por toda avenida, tranquilamente, até chegarem no supermercado (que também não existia mais). Lá compravam um frango congelado, porque uma das especialidades da mãe dela era frango recheado.

-Que bonito, murmurei.

-Você achou bonito? Bonito nada, era uma porcaria! Você não imagina a quantidade de frango que os dois compraram em quatro anos de casamento, parecia um holocausto de frango. Eu pedia pros dois pararem de comprar frango, eram freezers e freezers, impossível comer tudo aquilo. Até hoje eu não suporto ver frango na minha frente!

Minha Dudu

minha dudu

Tem umas coisas que o cachorros não gostam, que eles fazem apenas para nos agradar. Pode pesquisar. Uma delas é se deixar abraçar. Eu brinco dizendo que a Dúnia é vintage, porque a crio de uma maneira bem anos 80 – fora de casa, latindo pra rua, meses a cada banho, sem entrar pra dormir comigo e outros mimos que os atuais cachorros têm. E não a abraço. Essa parte não é por minha causa, ela que nunca deixou. Ela fugia de um jeito quando eu tentava abraçá-la que uma vez ela caiu das minhas mãos com o topo da cabeça no chão e fez um barulho oco, achei que depois daquilo ela passaria a ter retardo. Quando treinei para brincar de pegar a bolinha e ela ficava me encarando como se não fizesse o menor sentido, vi ali uma confirmação. Depois soube que ela era muito inteligente, totalmente inteligente. Devia olhar pra mim e pensar: humana besta, pra que jogar e pegar de volta?

Além de não gostar de abraço, a Dúnia não é muito chegada que eu a olhe diretamente nos olhos. De longe sim, mas digo chegar bem perto do rosto do cachorro e olhar. Outra coisa que para humanos é normal e para eles fica agressivo. Falo sério quando digo que tenho inveja de quem tem cachorro dengoso que quer contato e ser alisado. A minha demonstra que me ama quando se coloca diante de mim enquanto limpo lá na frente ou deixa a pata em cima do meu pé sem motivo. Como vocês podem ver, consegui alterar muito pouco a sua natureza canina. Nunca reclamei; dizem que os cães sempre se parecem com os donos e, bem, descobri que sou até meio Iansã, ou seja, nada fácil. A Dúnia sempre foi cachorro de agito, de brincar. Ela tinha tanta energia e era tão louca, mas tão louca, que agora que está velhinha ela ficou normal. Até aprendeu a gostar de carinho – só não muito, cadê o ossinho?

No inverno, eu saía de casa a zero grau e ela saía do quentinho pra me dar Oi, e eu tentava evitar isso mandando que ela me esperasse na casinha. Não adiantava muito – ela saía, entrava de volta, esperava pelo ossinho e depois saía de novo, pra fazer xixi. De qualquer forma, agora, quando eu saio cedo, ela vem me cumprimentar e depois volta pra casinha, bem fofa, esperando o ossinho. Foi num desses raros dengos, há poucos dias, que eu pude olhar bem nos olhos dela, de perto, e vi que eles estão começando a clarear de catarata. Minha Dudu, apesar de toda energia, já tem pra lá dos seus treze anos. E como todo cachorro que vive muito, vai ficar ceguinha.

Quando eu adotei a Dúnia, senti que isso abriu em mim um amor imenso por todos os cães. Especialmente os vira-latas, os pretos, os grandes, os de orelha pontuda, os border-collies, os pastores alemães. Eu achava que seria dessas pessoas que sempre se cercam de cães, que vão adotando vários ao longo da vida, e não aqueles que sentem tanto a morte de um único cão que nunca mais querem outro. Agora eu já não sei mais.

Velha

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Às vezes eu tenho a impressão que apenas no dia que me olhar no espelho e eu for tão enrugada a ponto de quase não encontrar o branco dos olhos ou a jovem que um dia fui, é que vou sentir que o interior e o exterior se encontraram. A todos que insistem em dizer que meu cabelo branco me envelhece, meu argumento é que quem diz a verdade é ele, o resto é que me rejuvenesce involuntariamente. Sempre gostei da companhia de pessoas mais velhas, sempre me senti muito bem com elas; quando estou com os da minha idade, sempre esqueço que não são mais novos e acho que é todo mundo criança, que sou a mais madura do grupo. Chega a ser até difícil pra mim não querer virar e usar argumento de autoridade, apelando para uma vantagem de anos que eu de repente nem tenho. Talvez por isso me pegue defendendo a velhice. Baladas me dão bocejos e homens que se aproximam de mim com cantada sempre me fizeram rolar os olhos para cima – garçom, me vê uma fralda geriátrica porque acabo de envelhecer cem anos . Sei que soa triste e anormal, mas o que eu sempre gostei mesmo foi de trabalhar. Gosto da concentração, de fazer as coisas certas e bem feitas e de pensar que ajudo o mundo a se tornar melhor. Psicologicamente, não descarto que a irresponsabilidade do meu pai tenha matado minha juventude antes mesmo dela chegar. Meu mundo deixou de ser macio já cedo. Não lamento, não seria a primeira e nem a última. Há quem me ame assim. Eu amo.

Filtro

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Eu acho que ela exagera nos filtros das fotos. Antes eu diria que exagera nos filtros do Instagram, mas agora eu também tenho celular bom e sei que no próprio celular já tem. Eu é que faço questão de não aprender. Tenho um problema com fotos: se fico linda não me representam e se feia não me gosto. Mas não uso filtros porque sei que o tempo acrescentará rugas e quero acompanhar o crescimento delas, não quero me sentir Dorian Gray ao contrário – eu seria o quadro enrugado e minhas fotos me olhariam lisa. Nossas fotos já são mentirosas demais desde que se tornaram fáceis e sem filme. Já conversei com uma outra amiga e ela acha que exagero no filtro demonstra que a pessoa renega a idade, que gostaria de ser mais jovem, o que faz muito sentido. Aí fico com vontade de dizer que ela não precisa ser mais jovem porque o idiota do ex quis uma mais jovem, que ela é linda do jeito e idade que é, de verdade, não estou sendo gentil. Mas talvez, de todo esse discurso, ela ouvisse apenas que eu critiquei o exagero. Como no dia que fui lavar o cabelo no salão e a moça falou “que grisalho mais lindo!” e eu ainda achava que estava arrasando em enganar as pessoas que eram luzes. Voltei pra casa reclamando e o ex, com muita sabedoria, falou: “Você ignorou o elogio e só ouviu o grisalho, não foi?”. Por isso que eu acho que ela vai ignorar todo resto, toda parte Dorian Gray e linda. Então eu não falo. Mas tá exagerado.

Assexuado

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Pela natureza dos exames eu adivinhei que o médico precisaria de alguma habilidade para tornar tudo o mais profissional possível. No primeiro, ele precisaria introduzir uma sonda em mim para verificar meu útero por dentro. Há muitos anos, quando eu havia ameaçado colocar DIU e acabei desistindo, fiz aquele mesmo exame. Uma enfermeira chegou do meu lado, vestiu uma camisinha na sonda, encheu de lubrificante e enfiou aquilo em mim numa velocidade e facilidade que eu fiquei me sentindo uma mulher da vida. O segundo exame do dia era um tipo de mamografia, e eu não fazia a menor ideia de como seria. Eu já havia feito aquele na máquina, o que aperta o peito e nos faz desejar colocar nela o saco do maldito que inventou aquela porcaria. Deve diminuir a vida útil do nossos peitos em alguns anos ter os coitados espremidos de cima e em diagonal daquele jeito. Como na sala do médico que faria meus dois exames não tinha aquele aparelho monstruoso e apenas uma cama ao lado de uma estação com computador, vi que aquele seria inédito.

É possível que o médico não tenha visto nem se eu sou loira ou morena, do tão pouco que ele fez questão de me olhar. Sua assistente me mandou tirar toda roupa no banheiro que tinha ao lado e vestir o avental que estaria num pacote lacrado. O tal avental é tão aberto e fininho que claramente é feito só pra constar, só pra gente não andar pelada por aí como se estivesse em casa. Aí eu me deitei na cama de joelhos dobrados e pernas afastadas. Sem nunca tirar os olhos da tela do computador, o médico me mostrou a sonda, que apesar de comprida e toda coberta por uma camisinha, iria entrar poucos centímetros em mim. Na parede oposta, uma TV mostrava o que a sonda filmava. Terminado esse, sempre em meio à uma conversinha social, ele me mandou aproximar mais e colocar o braço por detrás da cabeça – era o momento dos seios. Aí ele jogou uma quantidade enorme de KY no meio doseio, bem no centro, e passou sonda por cima de tudo. Repito: jogou uma quantidade enorme de KY em cada seio. Não sei se existem outros fins, mais puros, para o KY, mas pra mim aquilo tem cheiro de sexo. Não tem como sentir aquele cheiro e associar com Dostoiévski ou tarde de compras. Eu deitada, praticamente nua, braço apoiado atrás da cabeça e os seios cheios de KY. Se por acaso eu não tivesse notado todo profissionalismo do médico desde que coloquei os pés no consultório, qualquer fantasia teria se desfeito quando ele me falou:

– Para uma mulher da idade da senhora, os exames estão bastante bons.

Depois eu fui pro banheiro, sequei o excesso de KY, me vesti e saí na rua com meus exames na mão me sentindo meio… sei lá.

Nimbus

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O acúmulo de informações faz com que não sejamos mais quem éramos antes, ou seja, há uma parte inevitável de conhecimento – será que dá pra chamar de sabedoria? – que o tempo nos traz. O problema é que converter a informação em ação é outra coisa. Muitas vezes, eu me sinto apenas o Nostradamus português – “vou a escorregaire naquela casca de banana!” Às vezes saber é tão inútil quanto assistir as nuvens escurecerem. Vai chover, dizemos, e a natureza segue em frente.

Mais prazer

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Todo mundo sabe que pra manter o cachorro comendo ração, nunca devemos dar comida normal para ele. Baste que prove uma vez a comida cozida pra que ele nunca mais se contente com aquelas bolotas secas e de sabor uniforme. Do mesmo modo que você pode se mudar de um apartamento pra uma casa grande com quintal, nunca o contrário, sob o risco de matar o cachorro de depressão. Na escala humana isso corresponde a empobrecer – nossas escolhas ficam limitadas ao dinheiro e um universo de coisas passam a existir apenas para os outros, embora ainda as desejemos. A mulher tinha que ser virgem antes de casar pra não ficar “estragada” e esse estragar nada mais é do que saber um pouco mais do seu corpo e do que ele pede. À mulher que não sabia de nada disso, o marido poderia oferecer o que quiser que estava bom; com a mulher experiente, é arriscado e é preciso se empenhar mais. Envelhecer nos retira potência e olhares; quanto mais isso foi importante, mais dói, mais a pessoa se recusa. Grandes leitores são difíceis de agradar, cada vez mais conhecedores dos mecanismos de escrita, cada vez mais famintos por mecanismos sofisticados. Até mesmo quem tem acesso a um grande professor, quando o deixa, fica na situação difícil de não conseguir ser mais aluno de ninguém. Quem experimenta o amor, aquele grande e marcante, nunca mais quer um mais ou menos. O prazer é a grande força que nos tira da caverna e transforma em sombra tudo o que não faz parte dele.

Critérios pessoais de sucesso

A vida da pessoa pode estar gritando sucesso, nos critérios que comumente usamos, como dinheiro, carros, imóveis e puxa-sacos. Mas eu sou incapaz de acreditar na realização pessoal de alguém chato, estressado, mala, prepotente. Pra mim o sucesso tem a ver com um fazer… adequado? Tem a ver com a difícil equação de agir conforme o tempo, a capacidade pessoal, o desejo e a consciência. Mal e mal a gente sabe se conseguiu isso na própria vida, quanto mais na dos outros. Mas tem algumas pessoas para quem olho e me parece que elas devem ter conseguido.

 

-> Aquelas pessoas que quando o assunto profissão surge, falam sem pensar, na cara, chocando os presentes com a espontaneidade da declaração: eu amo meu trabalho. Não é: “olha, minha profissão é legal a maior parte das vezes, tem dias e dias”. Eles dizem com todas as letras: AMO. Nem se importam com o constrangimento que causam. É como aquelas pessoas que esfregam na nossa cara que encontraram um namorado rico, bonito e apaixonado. Farinatti é esse tipo de gente.

 

-> Tem aqueles que trabalham com coisas que não tem nada a ver com uma vocação no sentido mais profundo e têm total consciência disso. É um trabalho que não define quem a pessoa é, tanto pro bom quanto no ruim, ou seja, não causa vergonha e nem a torna terrivelmente orgulhosa. Nunca é trabalho insuportável – porque isso contaminaria todo o resto – mas lhe permite viver com o conforto necessário e lhe dá liberdade. E com essa liberdade, elas fazem o que realmente amam. Pode ser cozinhar, viajar, cuidar de gatos. A parte mais difícil talvez seja justamente essa – saber o que fazer, se tiver tempo e dinheiro.

-> Pessoas que sorriem muito. À exceção do Coringa, quem sorri muito necessariamente é feliz.

-> Velhinhos interessantes. Aqueles que você consegue enxergar o jovem que ele foi um dia, que conserva um sorriso maroto por debaixo das rugas. São as mesmas rugas e gestos mais lentos de uma pessoa de idade, mas quando você para pra ouvir se surpreende. A pessoa conta que foi corista, que viajou pelo mundo, que largou tudo por amor, que participou da Resistência. Mas você só descobre se começa a conversar, porque velhinhos que contam sempre a mesma história e são carentes por atenção são outra coisa.