Pequena schadenfreud

Aqui o que é schadenfreud, caso você ignore o termo.

De um lado eu tenho uma clínica cheia de crianças e de outros os vizinhos mais chatos do universo. Como era de se esperar, a clínica causa um certo movimento na minha rua. Raramente entro e saio de casa sem algum público (a cara das crianças quando estou de bike!), enquanto eles esperam ao lado da campainha. Depois deles, vivo jogando fora papéis de bala e outros tipos de embalagens de comidas típicas para crianças – não sei se os pais não se importam que elas joguem embalagens no chão ou se saem voando de dentro dos carros. Mas não me importo, de verdade, porque toda essa frequência faz a alegria da Dúnia e o barulho cessa quando anoitece, melhor vizinho do mundo quando as paredes que dividem as casas são finas. Já dos outros, os malas, já falei diversas vezes aqui, tão detestados que foram os únicos que jamais foram convidados para entrar no grupo de whats do bairro. Grupo de whats, aliás, que vivo pensando em abandonar. Ele foi criado com o propósito único de comunicar emergências e é fonte constante de barracos. Penso em largar porque só tem barracos. Permaneço porque só tem barracos.

Os meus vizinhos malas têm dois carros e são completamente neuróticos com eles, como em tudo. O ritual é chegar em casa e buzinar – a buzina mais estridente do universo – para que as pessoas que estão dentro de casa desliguem o alarme. Porque eles são tão neuróticos que alguém tem sempre que ficar dentro de casa e o sistema de segurança só é desligado no curto intervalo de entrar e sair de casa. Assim que amanhece, tão cedo que nunca cheguei a ver, um carro é retirado da garagem e fica estacionado na frente do terreno, para ser recolocado por volta das onze da noite. Só que nossos terrenos não são assim tão grandes, então estacionar na rua em frente do terreno deles sem impedir a garagem faz com que o carro fique alguns centímetros na frente do meu terreno, coisa que evidentemente eu não ligo. Já mencionei que eles são neuróticos? Então, de vez em quando aparece um prestador de serviço ou um cliente da clínica, alguém que nem tem a intenção de ficar muito, e estacionam na frente da minha casa. Só que de vez em quando os vizinhos chegam com seu segundo carro e encontram outro carro ali, na frente do MEU terreno, mas invadindo o terreno deles naqueles poucos centímetros. Vocês não fazem ideia do drama. Buzinam nem parar, esbravejam, dão a volta na quadra. O outro carro precisa ser removido, mesmo com o resto da rua inteira e a própria garagem à disposição. Eu apenas

cachorro com fogo

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Schadenfreude

Se você procura um confidente, siga essa regra: você precisa de um pecador. Ou de um ex-pecador. Somente quem já errou é capaz de entender e ser solidário com quem também errou. Somente quem já fracassou pode entender um fracassado. É um alívio, comparável a estar descalço em casa, conversar com quem já fez, já aprontou, já fudeu e foi fudido pela vida. Quem nunca nada disso pode responder educadamente, pode até tentar apoiar e ser tolerante, mas no fundo você sente que ele não entende. Que essa fraqueza o tornará menor diante dele. Porque ele não, ele jamais faria uma coisa daquelas. Tenho uma teoria pessoal que diz que a única graça de ser uma pessoa moralmente ilibada é justamente essa, a de olhar para a fraqueza alheia e se sentir superior.

Palavras de Alessandro Martins:

Funciona assim: se ele que faz as coisas diferentes não se foder no final, significa que eu – que fiz tudo de acordo com a cartilha – passei a vida inteira seguindo as regras à toa. Por isso, o povo fica feliz quando os diferentes se ferram, tem uma morte prematura, são presos ou cometem algum deslize. Diferentes se ferrando são uma das maiores fontes de Schadenfreude.

Schadenfreude. Como diz a citação no link acima, é terrível e significativo que exista uma palavra assim. 

UPDATE: Tem musiquinha! Olha só que simpática… (obrigada, Luke!)