Cores do mundo

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Do filme “Com amor, Vincent”.

Já é sabido que a depressão atua de uma forma específica nos neurotransmissores responsáveis pelos sentimentos positivos, e nesse estado o mundo parece cinza e sem gosto. Se é fato para a depressão, podemos extrapolar esse raciocínio e concluir que também há aqueles que sentem mais prazer e vivem num mundo mais colorido. Quando lemos Cartas a Theo, concluímos que a pintura de Van Gogh mostra exatamente como o mundo era aos seus olhos, que ele via e sentia com mais intensidade do que nós. Sempre pensei nisso nos ônibus lotados de manhã, as pessoas espremidas na porta, sem conseguir nem se segurar, caindo umas por cima das outras cada vez que o ônibus partia pra outro ponto, e algumas pessoas começam a gargalhar do seu próprio ridículo. Ou a amiga de anos, cuja vida já mudou tanto desde que a conheci e sempre que eu pergunto como ela está sua resposta é um “é…” desanimado. Às vezes as coisas estão bem enroscadas, assim como às vezes seguem a rotina ou aparecem surpresas boas. Mas ela tem o dom de encarar com normalidade qualquer prêmio de loteria e ver na unha encravada a prova de que a vida não a deixa em paz e nada melhora para ela. Por isso que o “oh, vida, oh azar” é irritante, porque dá pra perceber que ele não é uma consequência direta da realidade.

E muito pior do que os queixosos, essa onda de ódio. Indignação no café, medo no almoço, ódio no jantar. Touros furiosos à procura de vermelho para ficarem mais furiosos ainda. É como andar o dia inteiro no esgoto e reclamar que só vê ratos. Há certas escolhas que escapam à minha compreensão.

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Com todos

my-fair-ladyTem uma cena em My Fair Lady que Eliza Doolittle acusa o Professor Henry Higgins de ser um grosso, um insuportável. E ele lhe diz que sim, mas que ele era grosso e insuportável com todos, sem distinção. Eu acho que é por isso que meus amigos, mais dia menos dia, deixam de se sentir desprestigiados por não poderem contar com a minha companhia nas suas casas, suas rotinas ou suas vidas noturnas. Não é que eu exclua, que goste mais de uma turma do que de outra, que saia com um e não com outro – não faço isso com ninguém. O que eu gosto é de ficar no meu canto com os meus livros e minhas coisinhas. Nada pessoal.

Em fuga

É como estar no Eu sou a lenda.  Ver gente que eu achava legal – e diria até que com um esforço consciente pra ser mais legal do que sua posição de classe dispõe – achando que “até que não é má ideia” as diversas violências que tem sido legalizadas nos últimos dias está muito difícil. Conhecer gente nova? Eu não duvidaria nada que o galã bem nascido espancasse o flanelinha com a maior naturalidade na saída do jantar. Porque, pelo menos no discurso, as coisas estão assim.

Tenho tomado doses cavalares de Miguel Araújo.

Uma mulher para empurrar

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No filme sobre Gonzagão, ele fala para o filho, Gonzaguinha, algo como “mulher é como batida de automóvel, ela que empurra o homem para frente”. No caso de ambos, uma excelente administradora para a carreira de um e uma péssima madrasta para outro.

“Meu filho teve uma fase que só namorava mulherão”, ela me contou. O mais bonito de uma prole bonita, sempre chamou muita atenção, e escolhia as mais mais. Um vizinho morria de inveja, dizia que era desfile. “Não serviam para nada, apenas para serem bonitas”. A mãe alertou que ele não iria para lugar nenhum com aquele tipo de mulher. Ele amadureceu e parou.

“Eu tive um amigo que tinha uma noiva que tinha sido capa da Capricho. Sofreu um acidente de carro e foi parar na U.T.I. Ela nunca o visitou. E pensar que eu ia casar com ela, ele me disse”.

Além desse caso do amigo, eu poderia falar sobre aquela que é a pior união que eu conheço, a que fez a frase do Gonzagão fazer todo sentido para mim, só que no sentido negativo. Mas era pessoal demais pro horário.

Curtas vampirescos

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Já vi muita nostalgia anos 80 mas nunca achei em lugar nenhum alguém fazer referência a um desenho japonês que eu adorava, de um vampiro todo atrapalhado que tinha uma filha bem correta. Num episódio ele inventa uma super cola que fica por dentro do lápis e dá pra ver pela lateral; em outro, ele olha pro sol, vira pó e a filha tem que reconstruí-lo. Só que ele estava com um guarda-chuva na hora e ele reaparece com o guarda-chuva no nariz. Alguém?

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Tinha também um desenho japonês de uma nave que parecia um navio e tinha uma contagem regressiva porque estava procurando outro planeta para a humanidade porque o nosso ia acabar. Nada a ver com vampiros, mas também nunca vi referências e gostaria de saber qual era.

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Voltando aos vampiros. Conversa do meu irmão para o seu melhor amigo, no tempo dos DVDs, da qual rimos muito:

– Estou vendo Drácula de Bram Stoker.

– Eu vi no cinema. Em que parte você está, a Winona Rider já morreu?

– Putamerda, ainda não!!!

Na época nem existia o termo spoiler, quanto mais spoiler falso.

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Nunca vi Entrevista com Vampiro. Fiquei doida pelo livro quando li, doida, doida, doida. Acho que cada época tem seu vampiro galã. Quando anunciaram as filmagens, a autora disse que devia ser o Jeremy Irons e ficou indignada quando colocaram o Tom Cruise. Eu concordei tanto com ela que nunca quis ver.

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Traumas não são como vampiros, tal como sempre se dá a entender. Eles não viram pó instantaneamente quando a luz da razão os atinge. Nem ao menos some depois de um momento de choro catártico. Os traumas grandes, atávicos, que definem nossas vidas são muito mais como Jason, Freddy Krueger, a mãozinha saindo da cova quando todos estão ingenuamente tranquilos.

Louca obsessão

Contém spoilers (é um filme de 90´s, pô!).

Havíamos acordado cedo. Foi um dia inteiro viajando de carro pelas cidades do Recôncavo Baiano, comendo bem, ouvindo Folia de Santo sem parar, passando por altas aventuras como a busca pela casa da Dona Canô. À noite estávamos exaustos e ainda tinha algumas horinhas até o horário de dormir. Ligamos a TV à procura de qualquer coisa razoável para ver e passamos por um filme chamado Louca Obsessão. Regina quis deixar lá, era um filme bom, ela havia visto. “Ainda mais pra você, que escreve. Tem uma cena massa, pena que eu acho que já passou…” Aí ela nos explicou o contexto: um escritor famoso caiu perto da casa de uma enfermeira, que era fã dele. Não encontraram o sujeito e ele era dado como morto. Ele havia escrito uma série com uma personagem que tinha muitos fãs, e no último livro deu um fim nela. Então a tal enfermeira fã cuidou dele e o mantinha em cárcere privado para que ele escrevesse um novo livro que trouxesse a mocinha de volta. Ele não gostou disso, tentava chamar atenção das pessoas naquela casa isolada, fingiu que ainda continuava doente, essas coisas. Até que a louca nota que ele está se recuperando. Não lembro o que acontece, mas sei que ele acorda todo amarrado na cama. “Eu me enganei, ainda não passou”. A cena seguinte se passa quase toda do ponto de vista do escritor, na cama. A louca começa a conversar com ele, diz que ele tem se comportado mal, que ela tem cuidado tão bem dele. Ele reclama, quer ir embora. Enquanto isso, ela se movimenta pelo quarto, claramente se preparando. Ela pega um pedaço de madeira e coloca firmemente entre os tornozelos dele, e continua. Ficamos sem saber pra que serve aquilo – as pernas sustentando uma madeira, os pés soltos no ar.. Até que ela pega um martelo bem pesado, puxa para trás e bate com toda força na lateral do pé. Cena de pé virado e osso partido. Eu e Laécio pulamos no sofá. Regina ri da nossa cara. Fico traumatizada para sempre. Fim.

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O velho chato do cinema

CINEMATECA

É uma dessas lembranças que de vez em quando nos invade e nem sabíamos que estava lá:

Morávamos eu, meu irmão e minha mãe. Eu sempre fui preguiçosa com relação a ir ao cinema, enquanto os dois estavam sempre de olho na programação de um dos três cinemas da Fundação Cultural. Eles decidiam que filme ver e eu ia junto, normalmente com um dos dois. Vi muito filmes-feitos-em países-sem-rede-de-esgoto, como gostávamos de definir, assim como também vi muita coisa boa. Embora não combine nem um pouco com o tipo de filme que víamos, lembro que naquela vez estávamos assistindo Truman Show. E ele estava lá. Ele, o velho chato do cinema. Assim como nós, ele estava sempre de olho na programação. Não sei se era coincidência e ele gostava de ir nos mesmos horários que a gente, ou se o cara simplesmente estava lá sempre. A gente fazia o possível para evitar ficar perto dele, mas o cara também era chegado em sentar no meio. O comportamento dele era sempre o mesmo. Lembro que no Truman Show era aquela parte que Truman está atravessando o mar pra chegar até o “Boni”, todo mundo emocionado diante da TV. Aí o velho chato se vira pra gente e “quanta baboseira, né?” e começa a discursar contra o cinema americano. Na hora era ruim, depois a gente lembrava dele e ria.

Humanismo, Nise e Claire

Eu antes não entendia quando se usava o adjetivo humanismo – “Fulano é um humanista”. E não somos todos?, eu pensava. Se não pela religião que nos manda amar uns aos outros, por termos absorvido os ideais de igualdade entre os homens da Revolução Francesa e que são lei. Nise da Silveira, a psicóloga, era uma humanista. Já falei que ando viciada em House of Cards e que acho Claire Underwood uma mulher linda. Aquele cabelo curto num rosto tão quadrado dá uma mistura estranhamente bonita, e ela sempre está impecável em vestidos que ressaltam suas formas; ao mesmo tempo, suas roupas lembram armaduras e parecem falar muito sobre o rigor da própria personagem. Se me permitem avançar um pouco nos spoilers, ela é um excelente contraponto ao marido por ter seus escrúpulos. Enquanto Frank vê as pessoas mais próximas se ferrarem e diz que “batalhas são assim”, “o arrependimento não faz parte”, Claire oscila. Numa mini trama ela pensa em fazer tratamento engravidar. No meio do caminho, ela faz uma maldade com uma ex-funcionária grávida para ganhar uma disputada e logo depois cancela os exames do tratamento. Nenhuma palavra é dita, mas dá pra perceber que por detrás do ato há uma conscientização: não somos boas pessoas. Mas essa dor não é forte o suficiente para deter o egoísmo e a vontade de subir cada vez mais. Volto à Nise. Não vi o filme, mas conheço a história dela. Numa época que paciente psiquiátrico era pra ficar trancado, ela aplicou a psicologia junguiana e viu através dos trabalhos deles os arquétipos previstos na teoria. Loucos não são fáceis, ainda mais naquela época. Detrás de agressividade, sujeira, rótulo, falta de sentido, ela conseguiu ver pessoas. Vivemos uma época que as conquistas sobre direitos fundamentais parecem ter regredido de maneira assustadora. Eu acredito que, na verdade, ainda bebemos muito do passado escravocrata. Depois da frase “não é que eu tenha preconceito, é que” tem se dito as piores sentenças, justificativas de exclusão e violências sob a desculpa de… olha, às vezes sem a menor desculpa mesmo. Os argumentos estão todos aí; o fato de outro ser também de carne e osso e um ser que ama e tem direito à felicidade deveria ser argumento suficiente. De conceito óbvio, o ser humanista, pra mim, acabou se revestindo de caráter de necessidade e pedra fundamental.

A Oportunidade

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Uma das cenas mais tocantes do Mente Brilhante é quando, já maduro, aparece um professor que vem lhe oferecer a Nash aquela honraria que ele sonhou a vida inteira. Tantas coisas já haviam acontecido, e a convivência com os seus delírios era um fato consumado. Então ele se vira pra uma pessoa qualquer e lhe pergunta se aquele professor que estava lá existia mesmo. Eu acho que quando A Oportunidade – que para cada um tem um nome e simboliza alguma coisa – aparecer, se um dia ela me aparecer, vou precisar fazer a mesma coisa.

Cemitério indígena

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Se eu não me engano, meu amigo Leilson, que adora filmes de terror, uma vez comentou de onde surgiu essa história de construção feita em cima de um cemitério indígena. Não surgiu do nada, é o enredo de um filme específico. E essas brincadeira de cemitério indígena pegou, virou um daqueles clichês que todo mundo entende, até quem nunca vê filmes de terror (meu caso). Vi um episódio de South Park em que tudo dava errado, apareciam espíritos e tal, e quando investigaram tinha um comercio qualquer construído em cima de um cemitério indígena. “Então vocês simplesmente encontraram um cemitério indígena e construíram em cima dele?” “Nãããão, claro que não! Antes de construir a gente mexeu em todos os ossos, pisou em cima e fez xixi neles, só depois a gente construiu…”

A lógica por detrás do cemitério indígena é simples: que felicidade é possível quando construída em cima de um extremo desrespeito ao que é importante para os outros? Uma vez ouvi uma história mística, que era mais ou menos assim: a Terra ia sofrer uma provação e o que havia aqui – Atlântida, Civilização Maia ou sei lá o quê – tinha que ir embora. Aí teve um que não foi. Não quero, não vou, a mim isso não atinge. Ah, tudo bem. Diz que tudo foi destruído, só a casinha do sujeito ficou de pé. Eu fico imaginando a pessoa acordar de manhã e na sua janela se levantam rios de lava, furacões, gritos de desespero e só na sua casa tudo fica de pé. Pelo que me lembro da história, o sujeito acabou mudando de ideia e foi embora também.

Estou no fim do livro do Jango, lendo o que aconteceu logo em seguida à deposição dele, ou seja, o Golpe de 64. Foi de uma caça às bruxas e violência que nenhum dos envolvidos previa ou até mesmo gostaria, nem os articuladores. Mas apesar de tudo isso, apesar do desmonte, cassação de direitos e as sabidas torturas, pra quem defende o golpe militar nada disso importa: “Éramos felizes e prósperos, a estabilidade tem seu preço”. Ou seja, tem quem não se incomode em dormir sobre ossos desde que seu colchão seja fofinho.

Com inveja de Simone de Beauvoir

O filme mostra que Sartre se interessou por Simone porque ela estava sempre lendo, estudando, escrevendo. Tanto que a apelidou de “Castor”.

 

Eu sempre sou aquela que defende os não-leitores da detração dos leitores, a que se coloca contra essa maneira de dividir o mundo. Sempre sou contra que coloquem o número de livros como medida de inteligência. Sou a que no meio de uma discussão sobre a incultura nacional, no meio de gente onde citar Machado de Assis é coisa de principiante, fala: “Vocês são uns elitistas. Estão colocando algo que sabem fazer bem como medida de superioridade só porque isso os beneficia”. E cito uma frase do Millôr que diz que jogar xadrez desenvolve muito a inteligência de jogar xadrez. Mas ninguém me leva à sério. Talvez não devam mesmo, não sei.

 

Sempre gostei muito de ler, desde criança. Ao longo da vida, passei por fases em que lia mais ou que lia menos, mas mesmo nas fases de baixa eu sempre li mais do que a média – o que, convenhamos, não é difícil no nosso país. Eu me acostumei, aprendi a não esperar, sei que as pessoas a minha volta não leem. Das descobertas incríveis que faço nas minhas leituras, eu sei que não apenas não terei interlocutores, como nem ao menos posso tentar comentar – é um saco o teatral ar culpado de “ler é tão importante, eu deveria ler mais!”, que logo se transforma num “pobre de mim, não leio porque não tenho tempo pra na-da!“. Não discuto, não tento converter ninguém, cada um sabe de si e deixa pra lá. Só que a ideia de alguém se aproximar de mim – quanto mais romanticamente! – por ser leitora e estudiosa é tão impossível que fiquei triste quando vi o filme. A leitura sempre me tornou intimidante para os outros e pessoalmente solitária.

Curtas de uma vida solitária

Certas ilusões nos são muito caras, a gente nunca deveria ser obrigado a perder. Como, por exemplo, achar que jamais encontrará uma cobra venenosa no portão da casa, já que mora numa cidade grande.
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São duas as coisas que demarcam a passagem do tempo: pessoas e TV. Quando há falta da primeira e ausência de hábito da segunda, você se pega sentindo fome depois lanchou de tarde e não viu que já passa das nove, ou engata um trabalho ou vídeos de gatinhos e quando vê é quase uma da manhã.
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Eu que cuido, mal e porcamente, da grama da frente da minha casa. Pelo menos enquanto não consigo encontrar outra solução. Chego em casa, arranco um matinho; espero uma carona na frente do portão, arranco um matinho; volto do passeio com a Dúnia – matinho. Agora quando estou andando e vejo matinhos por aí, em qualquer terreno e lugar, sinto comichões. Não apenas tenho que me segurar pra não ir lá arrancar como fico medindo qual o melhor jeito.
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Eu não tenho um Wilson. Falo com todos os objetos da casa, indistintamente, que é pra não deixar ninguém enciumado.

Viagem de ego

Se me permitem um baita spoiler de um livro que ninguém lerá, tem um trecho do Os resíduos do dia que mostra direitinho uma coisa que eu chamo de “viagem de ego”. É daqueles conceitos que a gente tem de si para si, sabe como? Igual apelidos que damos pra estranhos e eles nunca vão ficar sabendo – “olha lá o Tartaruga Ninja”, “o Chef Gostosão não veio hoje”, etc. O que eu chamo de viagem de ego é quando a gente acha que tomou uma grande decisão, que está sendo disciplinado, controlado e/ou racional, mas na verdade está apenas fazendo uma grandissíssima besteira. Está pisando nos próprios sentimentos e se privando do que lhe seria mais caro. Mas faz, geralmente tendo como base um orgulho, uma crença de que somos melhores assim. É como se fosse um prazer masoquista de se fazer mal. Quem sabe o trecho do livro explique.

 

O livro está melhor apresentado no meu outro blog. Nesta cena que representa a viagem de ego, o mordomo narra como, só pra variar, os acontecimentos dramáticos da vida dele acontecem no meio de acontecimentos profissionalmente importantes. Então ao invés de cuidar das coisas dele, ele fica tendo que se alternar e acaba sempre escolhendo ser um bom profissional. Um exemplo é quando o pai dele morre e o sujeito não apenas não está perto como nem se permite chorar para servir os convidados. Outro momento, Miss Kenton fala para ele que vai se casar. A única mulher que esse homem amou. Ela dá as deixas, diz que estava na dúvida, e ele nada. Aí ela lhe diz que vai casar sim, e ainda o provoca, diz que imitá-lo lhe rende muitas risadas junto ao noivo. Ele nada, de novo. Depois ela pede desculpas, ela se tranca no quarto, ele fica parado no corredor com vontade de bater na porta e a certeza de que ela estava chorando. Aí você pensa que o cara vai lamentar o que não volta jamais, a chance de ficar com a mulher que ama, e o que o filho da mãe escreve? Uma baita viagem de ego.

 

Atravessando o hall de novo, retomei minha posição usual, debaixo do arco, e durante a hora seguinte – ou seja, até os cavalheiros finalmente irem embora – não aconteceu nada que me obrigasse a deixar meu posto. Mesmo assim, aquela hora que passei ali ficou viva em minha mente ao longo dos anos. Primeiro, meu espírito estava – não me importa admitir – um tanto abatido. Mas, permanecendo ali parado, uma coisa curiosa começou a acontecer; isto é, uma profunda sensação de triunfo começou a brotar dentro de mim. Não consigo me lembrar de até que ponto analisei aquele sentimento à época, mas hoje, olhando para trás, não me parece difícil de entender. Eu havia, afinal de contas, encerrado uma noite extremamente exigente, ao longo da qual havia conseguido preservar uma “dignidade condizente com minha posição”, e o fizera, além disso, de um jeito que teria deixado meu pai orgulhoso. E ali, do outro lado do hall, atrás daquelas portas sobre as quais pousava meu olhar, dentro da sala onde eu havia acabado de realizar minhas tarefas, os cavalheiros mais poderosos da Europa estavam conferenciando sobre o destino do nosso continente. Quem haveria de duvidar, naquele momento, que eu de fato chegara tão perto do eixo das coisas quanto um mordomo poderia desejar? Acho, portanto, que ali parado, ponderando sobre os acontecimentos da noite – os que haviam se desenrolado e os que ainda estavam por acontecer-, eles me pareceram uma espécie de resumo de tudo o que eu havia conquistado até então em minha vida. Não encontro outras explicações para a sensação de triunfo que me elevou aquela noite*.

IDIOTA!!!!

*ISHIGURO, Kazuo. Os resíduos do dia, seguido de “Depois do anoitecer”. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p.248

Reserva um (1) lugar

* Eu recebo um informativo de um grupo que passa filmes cabeça. Taí um povo que tem uma vida sexual pior do que a minha, porque no mínimo são três por semana. Tentei companhia duas vezes e ninguém quis ir. E nessas duas vezes, eu pensei como foi bom não ter ninguém lá comigo, porque possivelmente a pessoa me xingaria muito. Não é todo mundo que guenta ver filme de duas horas e meia em carteira de faculdade, um frio do caramba e o sujeito sendo chamado de pai pela própria mãe porque ela achava que o filho era a reencarnação do pai, que era bailarino e tinha longos cabelos loiros.

 

* Sento elegantemente na padaria e peço um café e um pão com queijo minas. Meu pedido chega e interrompo a leitura do Murakami. Aí, bato com o cotovelo na borda do livro, que bate no pires e quase derruba a xícara, espalhando café pela mesa, pelo pão, pelo próprio livro. Assim fica difícil tentar ter glamour.

 

* Me inscrevo num evento com apresentação de guitarra espanhola e degustação de empanadillas. A única coisa que precisa é reservar lugar. Tento dois amigos, que não podem. Decido não partir para a tática desesperada de convidar qualquer um e vou sozinha, pra variar. Não tenho nem palavras pra descrever o quanto foi legal. Estava eu sentada no chão, de frente ao guitarrista, que estava sentado diante da frase “júntate a los buenos y serás uno de ellos”, com uma recém-amiga ao lado e meus olhos se encheram de lágrimas. Existem universos lá fora.

 

* O Teatro Guaíra já foi meu caminho de todo dia, e naquela época só de passar na frente eu sabia dos principais shows. Acessei o site porque me deu aquele estalo de retomar o antiquíssimo hábito de ver as apresentações da orquestra no fim de semana. Com o que me deparo? Show da Salmaso no próximo domingo! Os melhores lugares, claro, já estavam ocupados, mas é muito fácil comprar lugar quando precisamos de apenas um ingresso. Vocês não têm noção do que foi esse presentão que me dei. Minha dúvida não é nem se vou chorar quando ela pisar no palco e sim se não sou capaz de chorar no caminho, dentro do ônibus.

Leitora em multidões

Escrevi a um amigo pedindo que, por favor, fizéssemos alguma coisa juntos no fim de semana. Eu acho que ele não notou que quando escrevo assim, querendo para já qualquer programa junto com ele, é porque costumo estar meio desesperada, mas tudo bem – quem é que vai adivinhar que uma pessoa que mal pediu ajuda quando tudo explodiu, está tendo crises depressivas um ano depois? Mesmo problema que eu digo para as pessoas que querem fazer a dieta Dukan: enquanto você está emagrecendo, as pessoas dão o maior apoio que você tenha cardápios restritivos. Mas quando você está na fase de manutenção, meses depois e magra, ninguém aceita que você abra mão de uma batata frita. Eu também acho que não tenho nada que me deprimir um ano depois, que merda. Mas diz isso pro meu organismo. Ao meu apelo, meu amigo me respondeu enviando um evento do Facebook, uma festa julina que aconteceria numa igreja ortodoxa nas Mercês.

 

Entendi e fui, sozinha. Esses eventos de Facebook nunca nos fazem ter muita noção do que é. No cartaz dizia que era uma festa tradicional, de muitos anos, então já imaginei multidões, música junina por toda quadra, pessoas com roupa de prenda e dentes pintados (coisa que não tem no nordeste e muito me surpreendeu). Chegando lá, oh não! Era uma festa pequena, bem família. Foi colocar os pés pra entender que todo mundo lá era da paróquia e se conhecia. E todo mundo com biotipo árabe. As músicas também eram árabes. Desculpem a ignorância, mas nunca pensei que veria pessoas com aquele biotipo numa igreja católica ortodoxa. Levantaram a hipótese de serem gregos, mas devo confessar que não conheço o biotipo grego, então será que eram? Enfim, era um pessoal bonito, morenos de olhos claros e narizes grandes. Deu vontade de sair correndo. Comprei um doce de amêndoas (enjoativo) e mandei mensagem pro meu amigo, na esperança de que ele me encontrasse lá. Por hábito, estava com um livro na bolsa. Deixei o celular à mostra e saquei meu livro, no maior clima de “não sou uma louca que veio sozinha, daqui há pouco meus amigos chegam”. Ele não veio, mas foi gostoso pra caramba ler ali. Lia um pouquinho, olhava as pessoas, lia mais um pouquinho. Depois conheci a igreja. Foi um bom passeio, fez o meu dia. Se estivesse em casa, provavelmente estaria muito mal e isso me impediria de ler. Minhas crises fazem com que o estar sozinha seja ruim, mas elas já não são estão intensas a ponto de precisar que as pessoas me deem atenção. Estar entre seres humanos parece que já é suficiente. O que é ótimo, e dá mais independência e não preciso tanto da boa vontade dos amigos – todo mundo tem suas vidas pra cuidar.

 

Eu me lembrei da moça do quadro de Renoir, aquela que discutem no filme Amelie Poulain. Eu me tornei ela, só que com um livro na mão. Eu diria: A moça do copo d´água não suporta estar fisicamente só. Ela fica no meio dos outros para ficar em paz.

 

Amélie – Sabe a garota do copo de água?
Pintor – Sei.
Amélie – Se ela parece distante, talvez seja porque está pensando em alguém.
Pintor – Em alguém do quadro?
Amélie – Não, um garoto com quem cruzou em algum lugar e sentiu que eram parecidos.
Pintor – Em outros termos, ela prefere imaginar uma relação com alguém ausente que criar laços com os que estão presentes.
Amélie – Ao contrário, talvez tente arrumar a bagunça da vida dos outros.
Pintor – E ela? E a bagunça na vida dela? Quem vai pôr ordem?

Lanternas Vermelhas

 

Sem spoilers, ok? Não vou nem colocar o trailer porque ele entrega muito o filme.
Lanternas Vermelhas mostra um sistema de casamento que é totalmente estranho para nossa cultura. Homens com cargos muito importantes tinham direito a ter mais de uma mulher, desde que tivessem o suficiente para pagar o dote, manter em uma casa com empregados, etc. Esposa mesmo era a primeira, as outras eram as concubinas. No filme, acompanhamos quando Gong Li (esse o nome da atriz, por sinal lindíssima), uma universitária – ou seja, alguém estranho a esse meio – se vê obrigada a ser a quarta esposa de um desses homens. Suas colegas eram: a esposa, que já estava velha e fora da disputa; uma mulher na faixa dos seus quarenta e todo aquele jeitinho de mãe; uma cantora de ópera bonita e arrogante. Todo dia de manhã o marido indicava com qual das esposas ele ia dormir. Aí, a mulher recebia uma série de benesses quando era escolhida: levavam as lanternas vermelhas pros aposentos dela, ela recebia a maravilhosa massagem nos pés (foto) e todas as atenções. As mulheres que não eram escolhidas perdiam prestígio e poder. Então, a vida daquelas mulheres é um inferno, cada qual usando das armas que tem, com o objetivo de fazer o marido dormir com elas o máximo de noites possíveis. Enquanto isso, ao bonitão (modo de dizer porque a cara dele nem aparece) só cabe ir onde lhe tratam melhor.
Gente, gente, GENTE? Vai dizer que não é exatamente isso que temos vivido? As mulheres todas se matando por um pouco de p*. Eles, maravilhosos, indo para onde mais lhes agrada. Como é que deixamos as coisas ficarem tão desfavoráveis pro nosso lado?