A lavanderia

Você já tentou, sozinho, gerar lucro? Eu já. Ao invés de ir de táxi e incluir nos custos, eu fazia tudo de ônibus. Quase duas horas só de ida. No começo eu sentia sede e comprava alguma coisa, depois passei a levar garrafa d´água. Eu percebi que fazia péssimas escolhas com fome e pressa de voltar pra casa, então comecei a comer e me programar pra ficar mais tempo fora – mas sempre o lanche na lanchonete baratinha. Ia na loja de tecido mais barata e comprava os retalhos. E, claro, para economizar viagem, comprava estoque para meses e levava tudo na mão, em sacolas pesadíssimas. Vendia para conhecidos, levava na mochila. Administrava eu mesma a página, os moldes, a máquina de costura. Não obedecia horários, ignorava fins de semana. Enfim, tudo o que eu pude fazer para cortar custos eu fiz, e logo percebi que o que eu podia era muito pouco. O lucro que uma pessoa consegue gerar individualmente é um nada.

Mas se você pensou que a saída é ter uma confecção inteira, com dezenas de funcionários, máquinas de costura e rolos de tecido direto do fabricante, também está sendo ingênuo. O lucro que se gera por trabalho ainda assim não é o lucro dos bilhões. Porque a exploração do trabalho e o corte de custos tem um limite. O capitalismo entrou num grau de desenvolvimento e descolamento do trabalho tão grande que não é mais o trabalho que gera dinheiro, pelo menos não nas grandes quantias. Não, os 4% de pessoas que são mais ricas do que os 96% no mundo não estão lá porque trabalham bastante ou são geniais e criaram produtos que todos consomem.

O filme A Lavanderia, da Netflix, fala um pouco sobre o mundo do dinheiro que gera dinheiro.

 

Ramayana

Foi quando eu tentei ver o filme do Mahabharata, numa madrugada qualquer na tevê aberta, que eu descobri o porque de nunca ter virado a noite estudando. O filme começou pouco depois da meia noite e foi até às três da manhã – provavelmente cheio de cortes, porque é longuíssimo. Eu dormia durante os intervalos e me forçava a acordar quando voltava, porque a vontade de conhecer a história era muita. Na manhã seguinte, a única – ÚNICA – lembrança que eu tinha do filme eram as duas famílias diante de um tabuleiro.

Até hoje não consegui ver o filme, então vou recomendar outro. O Ramayana não é tão importante quanto o Mahabharata, mas também está cheio de histórias deliciosas que só a mitologia hindu tem – deuses que crescem de tamanho, promessas que têm que ser cumpridas à risca, noções de fidelidade extremadas, rituais como forma de tecnologia, etc. Eu li o livro na adolescência e um monte de detalhes haviam me escapado. Finalmente entendi porque Hanuman é representado segurando uma montanha. De outras coisas eu lembrava bem como, por exemplo, que o fim não é exatamente o mesmo do desenho. Sabe o Senhor dos Anéis que tem o tal do Expurgo do Condado mas o filme termina antes? Por aí.

É desenho, vai! Eu me emociono, sei lá. Acho tão rico.

Lute como uma menina

Eu vi passar um vídeo na minha TL de uma moça com um cartaz numa mesa que dizia que ela era anti-feminismo, e quem quisesse podia tentar convertê-la. Não vi tudo, vi algumas mulheres que sentaram e tentaram seus melhores argumentos, enquanto a fulana ouvia tudo de braços cruzados, feliz na sua teimosia. Pensei para comigo que o que realmente a convenceria seria um homem qualquer passar lá e aplaudi-la, falar que é isso mesmo, que ela é bem comível e levanta daí e me faz um café. Como aquele sujeito que elegeram que se referiu a um gay como “aquela menina” para desmerecê-lo. Eu gosto de conhecer todos os argumentos, e uma mulher independente e religiosa que eu conheço uma vez falou sobre a mulher não conseguir se manter no lugar dela porque os homens falharam com seu papel primeiro – como exigir da mulher um papel passivo-feminino enquanto aquele que deveria lhe proteger se torna seu abusador?

Quero recomendar o desenho A Ganha Pão (Netflix). Fala em desenho e já penso em personagens felizes, mas não é o caso. No mundo ideal de um tipo fundamentalismo árabe, a mulher não pode sair na rua desacompanhada. Mas como fazer quando não há nenhum homem disponível para o papel? O desenho é lindíssimo, com tantas camadas. É uma declaração de amor, mas também é um sofrimento tão difícil de assistir – por que criar uma situação onde todos saem perdendo? Eu não acho que o que tem faltado aos teimosos felizes de braços cruzados é argumento e sim pele, empatia, experiência, carinho.

Dois pitacos e meio sobre Marguerite

Marguerite, que tem no Netflix, é baseado em fatos reais. É a história de uma aristocrata que canta muito mal, e que não tem a menor noção disso.

1. Tenho pensado bastante o quanto a diferença entre ser alguém e não ser ninguém é toda diferença entre levar porrada ou não da vida. Preto e pobre leva muito, e literalmente. Há poucos dias uma muito rica fez algo completamente sem noção num grupo de pessoas. Se fosse eu a fazer aquilo, a resposta seria imediata – fariam caras, alguém me mandaria parar e me colocariam de volta à minha insignificância em poucos segundos. Como era alguém que um-dia-pode-me-dar-uma-vantagem, não apenas não falaram nada como fingiram que estava o máximo. Igualzinho Margarite. O filme mesmo faz esse contraponto, mostrando a cantora talentosa e pobrinha. Me deu vontade de mandar pra umas Marguerites que eu conheço assistirem, quem sabe se tocassem.

2. Peguei o filme para rir, mas acabei me sentindo #somostodasmarguerite. Gostamos dos grandes talentos, mas a arte se faz principalmente pelos grandes entusiasmados. Pensei em dizer que os medíocres são o adubo da terra que gera os gênios, mas aí fica parecendo que estou dizendo que medíocre é merda… O que quero dizer é que não é possível investir só no gênio; quando vemos classes inteiras de pessoas que nunca se destacarão, ou que estão lá só de passagem, parece que é dinheiro jogado fora. Que se não é pra ser Bolshoi, não vale abrir escola de balé; se não é pra ganhar Nobel, pra quê fazer pesquisa. Não é assim, é preciso criar o ambiente. É preciso uma turma, uma geração, um bando de pessoas, o ruim, o bom e o mais ou menos. As pessoas aprendem vendo umas às outras, incorporando gestos inconscientemente, disputando entre si, criam uma história. Cada apresentação feiosa e erro é importante. É um caminho que se trilha e as pessoas precisam estar juntas. Cada pequeno é um pedaço que forma uma cultura inteira. 

2,5. Levei muito tempo querendo ser a parte do gênio e não a parte do adubo – e quem não quer? Se eu fosse o gênio, tudo seria contaminado pela crença de que sou especial. Comecei a dançar tarde, persisti sem ter jeito igual a Margarite, vejo pessoas ultrapassarem rapidamente o que eu conquistei a duras penas. Mas posso dizer com sinceridade: sou do meio artístico, sou uma pessoa que convive com artistas. Uns na frente do palco, outros no fundo, todos nós no teatro. Eu não seria quem sou se eu não tivesse entrado nesse caminho. Marguerite tem razão: sonhar é muito melhor do que o conformismo.

Cores do mundo

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Do filme “Com amor, Vincent”.

Já é sabido que a depressão atua de uma forma específica nos neurotransmissores responsáveis pelos sentimentos positivos, e nesse estado o mundo parece cinza e sem gosto. Se é fato para a depressão, podemos extrapolar esse raciocínio e concluir que também há aqueles que sentem mais prazer e vivem num mundo mais colorido. Quando lemos Cartas a Theo, concluímos que a pintura de Van Gogh mostra exatamente como o mundo era aos seus olhos, que ele via e sentia com mais intensidade do que nós. Sempre pensei nisso nos ônibus lotados de manhã, as pessoas espremidas na porta, sem conseguir nem se segurar, caindo umas por cima das outras cada vez que o ônibus partia pra outro ponto, e algumas pessoas começam a gargalhar do seu próprio ridículo. Ou a amiga de anos, cuja vida já mudou tanto desde que a conheci e sempre que eu pergunto como ela está sua resposta é um “é…” desanimado. Às vezes as coisas estão bem enroscadas, assim como às vezes seguem a rotina ou aparecem surpresas boas. Mas ela tem o dom de encarar com normalidade qualquer prêmio de loteria e ver na unha encravada a prova de que a vida não a deixa em paz e nada melhora para ela. Por isso que o “oh, vida, oh azar” é irritante, porque dá pra perceber que ele não é uma consequência direta da realidade.

E muito pior do que os queixosos, essa onda de ódio. Indignação no café, medo no almoço, ódio no jantar. Touros furiosos à procura de vermelho para ficarem mais furiosos ainda. É como andar o dia inteiro no esgoto e reclamar que só vê ratos. Há certas escolhas que escapam à minha compreensão.

Com todos

my-fair-ladyTem uma cena em My Fair Lady que Eliza Doolittle acusa o Professor Henry Higgins de ser um grosso, um insuportável. E ele lhe diz que sim, mas que ele era grosso e insuportável com todos, sem distinção. Eu acho que é por isso que meus amigos, mais dia menos dia, deixam de se sentir desprestigiados por não poderem contar com a minha companhia nas suas casas, suas rotinas ou suas vidas noturnas. Não é que eu exclua, que goste mais de uma turma do que de outra, que saia com um e não com outro – não faço isso com ninguém. O que eu gosto é de ficar no meu canto com os meus livros e minhas coisinhas. Nada pessoal.

Em fuga

É como estar no Eu sou a lenda.  Ver gente que eu achava legal – e diria até que com um esforço consciente pra ser mais legal do que sua posição de classe dispõe – achando que “até que não é má ideia” as diversas violências que tem sido legalizadas nos últimos dias está muito difícil. Conhecer gente nova? Eu não duvidaria nada que o galã bem nascido espancasse o flanelinha com a maior naturalidade na saída do jantar. Porque, pelo menos no discurso, as coisas estão assim.

Tenho tomado doses cavalares de Miguel Araújo.

Uma mulher para empurrar

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No filme sobre Gonzagão, ele fala para o filho, Gonzaguinha, algo como “mulher é como batida de automóvel, ela que empurra o homem para frente”. No caso de ambos, uma excelente administradora para a carreira de um e uma péssima madrasta para outro.

“Meu filho teve uma fase que só namorava mulherão”, ela me contou. O mais bonito de uma prole bonita, sempre chamou muita atenção, e escolhia as mais mais. Um vizinho morria de inveja, dizia que era desfile. “Não serviam para nada, apenas para serem bonitas”. A mãe alertou que ele não iria para lugar nenhum com aquele tipo de mulher. Ele amadureceu e parou.

“Eu tive um amigo que tinha uma noiva que tinha sido capa da Capricho. Sofreu um acidente de carro e foi parar na U.T.I. Ela nunca o visitou. E pensar que eu ia casar com ela, ele me disse”.

Além desse caso do amigo, eu poderia falar sobre aquela que é a pior união que eu conheço, a que fez a frase do Gonzagão fazer todo sentido para mim, só que no sentido negativo. Mas era pessoal demais pro horário.

Curtas vampirescos

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Já vi muita nostalgia anos 80 mas nunca achei em lugar nenhum alguém fazer referência a um desenho japonês que eu adorava, de um vampiro todo atrapalhado que tinha uma filha bem correta. Num episódio ele inventa uma super cola que fica por dentro do lápis e dá pra ver pela lateral; em outro, ele olha pro sol, vira pó e a filha tem que reconstruí-lo. Só que ele estava com um guarda-chuva na hora e ele reaparece com o guarda-chuva no nariz. Alguém?

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Tinha também um desenho japonês de uma nave que parecia um navio e tinha uma contagem regressiva porque estava procurando outro planeta para a humanidade porque o nosso ia acabar. Nada a ver com vampiros, mas também nunca vi referências e gostaria de saber qual era.

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Voltando aos vampiros. Conversa do meu irmão para o seu melhor amigo, no tempo dos DVDs, da qual rimos muito:

– Estou vendo Drácula de Bram Stoker.

– Eu vi no cinema. Em que parte você está, a Winona Rider já morreu?

– Putamerda, ainda não!!!

Na época nem existia o termo spoiler, quanto mais spoiler falso.

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Nunca vi Entrevista com Vampiro. Fiquei doida pelo livro quando li, doida, doida, doida. Acho que cada época tem seu vampiro galã. Quando anunciaram as filmagens, a autora disse que devia ser o Jeremy Irons e ficou indignada quando colocaram o Tom Cruise. Eu concordei tanto com ela que nunca quis ver.

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Traumas não são como vampiros, tal como sempre se dá a entender. Eles não viram pó instantaneamente quando a luz da razão os atinge. Nem ao menos some depois de um momento de choro catártico. Os traumas grandes, atávicos, que definem nossas vidas são muito mais como Jason, Freddy Krueger, a mãozinha saindo da cova quando todos estão ingenuamente tranquilos.

Louca obsessão

Contém spoilers (é um filme de 90´s, pô!).

Havíamos acordado cedo. Foi um dia inteiro viajando de carro pelas cidades do Recôncavo Baiano, comendo bem, ouvindo Folia de Santo sem parar, passando por altas aventuras como a busca pela casa da Dona Canô. À noite estávamos exaustos e ainda tinha algumas horinhas até o horário de dormir. Ligamos a TV à procura de qualquer coisa razoável para ver e passamos por um filme chamado Louca Obsessão. Regina quis deixar lá, era um filme bom, ela havia visto. “Ainda mais pra você, que escreve. Tem uma cena massa, pena que eu acho que já passou…” Aí ela nos explicou o contexto: um escritor famoso caiu perto da casa de uma enfermeira, que era fã dele. Não encontraram o sujeito e ele era dado como morto. Ele havia escrito uma série com uma personagem que tinha muitos fãs, e no último livro deu um fim nela. Então a tal enfermeira fã cuidou dele e o mantinha em cárcere privado para que ele escrevesse um novo livro que trouxesse a mocinha de volta. Ele não gostou disso, tentava chamar atenção das pessoas naquela casa isolada, fingiu que ainda continuava doente, essas coisas. Até que a louca nota que ele está se recuperando. Não lembro o que acontece, mas sei que ele acorda todo amarrado na cama. “Eu me enganei, ainda não passou”. A cena seguinte se passa quase toda do ponto de vista do escritor, na cama. A louca começa a conversar com ele, diz que ele tem se comportado mal, que ela tem cuidado tão bem dele. Ele reclama, quer ir embora. Enquanto isso, ela se movimenta pelo quarto, claramente se preparando. Ela pega um pedaço de madeira e coloca firmemente entre os tornozelos dele, e continua. Ficamos sem saber pra que serve aquilo – as pernas sustentando uma madeira, os pés soltos no ar.. Até que ela pega um martelo bem pesado, puxa para trás e bate com toda força na lateral do pé. Cena de pé virado e osso partido. Eu e Laécio pulamos no sofá. Regina ri da nossa cara. Fico traumatizada para sempre. Fim.

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O velho chato do cinema

CINEMATECA

É uma dessas lembranças que de vez em quando nos invade e nem sabíamos que estava lá:

Morávamos eu, meu irmão e minha mãe. Eu sempre fui preguiçosa com relação a ir ao cinema, enquanto os dois estavam sempre de olho na programação de um dos três cinemas da Fundação Cultural. Eles decidiam que filme ver e eu ia junto, normalmente com um dos dois. Vi muito filmes-feitos-em países-sem-rede-de-esgoto, como gostávamos de definir, assim como também vi muita coisa boa. Embora não combine nem um pouco com o tipo de filme que víamos, lembro que naquela vez estávamos assistindo Truman Show. E ele estava lá. Ele, o velho chato do cinema. Assim como nós, ele estava sempre de olho na programação. Não sei se era coincidência e ele gostava de ir nos mesmos horários que a gente, ou se o cara simplesmente estava lá sempre. A gente fazia o possível para evitar ficar perto dele, mas o cara também era chegado em sentar no meio. O comportamento dele era sempre o mesmo. Lembro que no Truman Show era aquela parte que Truman está atravessando o mar pra chegar até o “Boni”, todo mundo emocionado diante da TV. Aí o velho chato se vira pra gente e “quanta baboseira, né?” e começa a discursar contra o cinema americano. Na hora era ruim, depois a gente lembrava dele e ria.

Humanismo, Nise e Claire

Eu antes não entendia quando se usava o adjetivo humanismo – “Fulano é um humanista”. E não somos todos?, eu pensava. Se não pela religião que nos manda amar uns aos outros, por termos absorvido os ideais de igualdade entre os homens da Revolução Francesa e que são lei. Nise da Silveira, a psicóloga, era uma humanista. Já falei que ando viciada em House of Cards e que acho Claire Underwood uma mulher linda. Aquele cabelo curto num rosto tão quadrado dá uma mistura estranhamente bonita, e ela sempre está impecável em vestidos que ressaltam suas formas; ao mesmo tempo, suas roupas lembram armaduras e parecem falar muito sobre o rigor da própria personagem. Se me permitem avançar um pouco nos spoilers, ela é um excelente contraponto ao marido por ter seus escrúpulos. Enquanto Frank vê as pessoas mais próximas se ferrarem e diz que “batalhas são assim”, “o arrependimento não faz parte”, Claire oscila. Numa mini trama ela pensa em fazer tratamento engravidar. No meio do caminho, ela faz uma maldade com uma ex-funcionária grávida para ganhar uma disputada e logo depois cancela os exames do tratamento. Nenhuma palavra é dita, mas dá pra perceber que por detrás do ato há uma conscientização: não somos boas pessoas. Mas essa dor não é forte o suficiente para deter o egoísmo e a vontade de subir cada vez mais. Volto à Nise. Não vi o filme, mas conheço a história dela. Numa época que paciente psiquiátrico era pra ficar trancado, ela aplicou a psicologia junguiana e viu através dos trabalhos deles os arquétipos previstos na teoria. Loucos não são fáceis, ainda mais naquela época. Detrás de agressividade, sujeira, rótulo, falta de sentido, ela conseguiu ver pessoas. Vivemos uma época que as conquistas sobre direitos fundamentais parecem ter regredido de maneira assustadora. Eu acredito que, na verdade, ainda bebemos muito do passado escravocrata. Depois da frase “não é que eu tenha preconceito, é que” tem se dito as piores sentenças, justificativas de exclusão e violências sob a desculpa de… olha, às vezes sem a menor desculpa mesmo. Os argumentos estão todos aí; o fato de outro ser também de carne e osso e um ser que ama e tem direito à felicidade deveria ser argumento suficiente. De conceito óbvio, o ser humanista, pra mim, acabou se revestindo de caráter de necessidade e pedra fundamental.

A Oportunidade

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Uma das cenas mais tocantes do Mente Brilhante é quando, já maduro, aparece um professor que vem lhe oferecer a Nash aquela honraria que ele sonhou a vida inteira. Tantas coisas já haviam acontecido, e a convivência com os seus delírios era um fato consumado. Então ele se vira pra uma pessoa qualquer e lhe pergunta se aquele professor que estava lá existia mesmo. Eu acho que quando A Oportunidade – que para cada um tem um nome e simboliza alguma coisa – aparecer, se um dia ela me aparecer, vou precisar fazer a mesma coisa.

Cemitério indígena

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Se eu não me engano, meu amigo Leilson, que adora filmes de terror, uma vez comentou de onde surgiu essa história de construção feita em cima de um cemitério indígena. Não surgiu do nada, é o enredo de um filme específico. E essas brincadeira de cemitério indígena pegou, virou um daqueles clichês que todo mundo entende, até quem nunca vê filmes de terror (meu caso). Vi um episódio de South Park em que tudo dava errado, apareciam espíritos e tal, e quando investigaram tinha um comercio qualquer construído em cima de um cemitério indígena. “Então vocês simplesmente encontraram um cemitério indígena e construíram em cima dele?” “Nãããão, claro que não! Antes de construir a gente mexeu em todos os ossos, pisou em cima e fez xixi neles, só depois a gente construiu…”

A lógica por detrás do cemitério indígena é simples: que felicidade é possível quando construída em cima de um extremo desrespeito ao que é importante para os outros? Uma vez ouvi uma história mística, que era mais ou menos assim: a Terra ia sofrer uma provação e o que havia aqui – Atlântida, Civilização Maia ou sei lá o quê – tinha que ir embora. Aí teve um que não foi. Não quero, não vou, a mim isso não atinge. Ah, tudo bem. Diz que tudo foi destruído, só a casinha do sujeito ficou de pé. Eu fico imaginando a pessoa acordar de manhã e na sua janela se levantam rios de lava, furacões, gritos de desespero e só na sua casa tudo fica de pé. Pelo que me lembro da história, o sujeito acabou mudando de ideia e foi embora também.

Estou no fim do livro do Jango, lendo o que aconteceu logo em seguida à deposição dele, ou seja, o Golpe de 64. Foi de uma caça às bruxas e violência que nenhum dos envolvidos previa ou até mesmo gostaria, nem os articuladores. Mas apesar de tudo isso, apesar do desmonte, cassação de direitos e as sabidas torturas, pra quem defende o golpe militar nada disso importa: “Éramos felizes e prósperos, a estabilidade tem seu preço”. Ou seja, tem quem não se incomode em dormir sobre ossos desde que seu colchão seja fofinho.

Com inveja de Simone de Beauvoir

O filme mostra que Sartre se interessou por Simone porque ela estava sempre lendo, estudando, escrevendo. Tanto que a apelidou de “Castor”.

 

Eu sempre sou aquela que defende os não-leitores da detração dos leitores, a que se coloca contra essa maneira de dividir o mundo. Sempre sou contra que coloquem o número de livros como medida de inteligência. Sou a que no meio de uma discussão sobre a incultura nacional, no meio de gente onde citar Machado de Assis é coisa de principiante, fala: “Vocês são uns elitistas. Estão colocando algo que sabem fazer bem como medida de superioridade só porque isso os beneficia”. E cito uma frase do Millôr que diz que jogar xadrez desenvolve muito a inteligência de jogar xadrez. Mas ninguém me leva à sério. Talvez não devam mesmo, não sei.

 

Sempre gostei muito de ler, desde criança. Ao longo da vida, passei por fases em que lia mais ou que lia menos, mas mesmo nas fases de baixa eu sempre li mais do que a média – o que, convenhamos, não é difícil no nosso país. Eu me acostumei, aprendi a não esperar, sei que as pessoas a minha volta não leem. Das descobertas incríveis que faço nas minhas leituras, eu sei que não apenas não terei interlocutores, como nem ao menos posso tentar comentar – é um saco o teatral ar culpado de “ler é tão importante, eu deveria ler mais!”, que logo se transforma num “pobre de mim, não leio porque não tenho tempo pra na-da!“. Não discuto, não tento converter ninguém, cada um sabe de si e deixa pra lá. Só que a ideia de alguém se aproximar de mim – quanto mais romanticamente! – por ser leitora e estudiosa é tão impossível que fiquei triste quando vi o filme. A leitura sempre me tornou intimidante para os outros e pessoalmente solitária.

Curtas de uma vida solitária

Certas ilusões nos são muito caras, a gente nunca deveria ser obrigado a perder. Como, por exemplo, achar que jamais encontrará uma cobra venenosa no portão da casa, já que mora numa cidade grande.
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São duas as coisas que demarcam a passagem do tempo: pessoas e TV. Quando há falta da primeira e ausência de hábito da segunda, você se pega sentindo fome depois lanchou de tarde e não viu que já passa das nove, ou engata um trabalho ou vídeos de gatinhos e quando vê é quase uma da manhã.
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Eu que cuido, mal e porcamente, da grama da frente da minha casa. Pelo menos enquanto não consigo encontrar outra solução. Chego em casa, arranco um matinho; espero uma carona na frente do portão, arranco um matinho; volto do passeio com a Dúnia – matinho. Agora quando estou andando e vejo matinhos por aí, em qualquer terreno e lugar, sinto comichões. Não apenas tenho que me segurar pra não ir lá arrancar como fico medindo qual o melhor jeito.
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Eu não tenho um Wilson. Falo com todos os objetos da casa, indistintamente, que é pra não deixar ninguém enciumado.