Capital simbólico jovem

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Falar em “capital”, todo mundo entende: dinheiro, o que tem valor, o que define se somos ricos ou pobres, o que nos faz ser considerados vitoriosos diante do mundo e nos permite consumir. Bourdieu tem um termo que é o capital simbólico, que é um dinheiro próprio de cada grupo, um dinheiro mais abstrato. Todos concordamos que o dinheiro é dinheiro, mas pra você ser uma pessoa respeitada no meio acadêmico, o “dinheiro” são os títulos. E quando você sai da academia e entra numa aula de dança, ninguém está nem aí se você é doutor com artigo publicado em revista internacional, o julgamento ali é feito em termos de musicalidade e expressão corporal, e por aí vai. Cada área tem o seu “dinheiro”, mesmo que nem sempre seja evidente. Eu fiquei surpresa quando fiz balé em descobrir o quanto formato de pé era importante.

Um dia apareceu na minha TL um amigo compartilhando a sério uma brincadeira que pedia para compartilhar aquela publicação para ajudar um homem com câncer. O homem era Walter White, e só quem tem intimidade com o mundo das séries entendeu a piada. Redes sociais tem o seu capital simbólico, feito por memes, expressões da moda, o conhecimento de códigos e saber a hora certa de usar. Existe a má formação que faz com que alguém escreva errado e não saiba pontuar, assim como existe a piada de escrever errado e sem pontuação. Para os envolvidos é tão claro que, por mais que nos dois casos a norma culta não esteja sendo seguida, o primeiro é humilhado e o segundo é engraçado. Existe até o período certo de uma piada, que cada vez dura menos dias.

Eu sou de uma geração que ficou bem no meio da revolução tecnológica. Eu digito com os dez dedos porque aprendi com métodos de máquina de escrever, o mindinho doía a beça pra digitar o A. Embora hoje estejamos todos usando computador e whatsapp, existe um capital simbólico que não é tão democrático quanto parece. Meu palpite é que a (r)evolução tecnológica que aconteceu nas últimas décadas foi como um abismo que brotou no meio das gerações. Às gerações mais velhas sempre coube um papel de detenção de saber e educação dos mais jovens, mas eles não conseguiram se adaptar à tecnologia. Ser conectado se tornou um capital simbólico básico, como uma alfabetização, para a geração que nasceu sob ela. Eles olham para os mais velhos e só vêem ali pessoas ignorantes e inábeis. Como alguém que não sabe nem anexar uma foto vai ter algo a me ensinar? Teria sim, e muito, mas não me parece que seja mais possível convencê-los disso.

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Ciganos e o capital simbólico

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Num dos meus trechos preferidos do meu romance preferido, Orlando, protagonista do livro com o mesmo nome, da Virginia Woolf, está vivendo entre ciganos e, como nobre que era, não resiste e começa a falar de sua família. Porque desvestir títulos por fora é fácil, quase uma brincadeira, enquanto algo dentro de nós assiste como uma novela ou vê na pseudo-humildade um motivo ainda maior de orgulho. Então Orlando começa a falar dos seus títulos de nobreza, que remetiam a-não-sei-quantos séculos, das propriedades e castelos, de não-sei-quantos alqueires. E ao invés de deixar os ciganos admirados, eles ficam com vergonha alheia. Transcrevo o trecho porque é demais:

E ao dizê-lo notou que os ciganos estavam contrafeitos, mas não zangados como antes, quando tinha exaltado a natureza. Agora estavam corteses, mas preocupados, como gente de fina educação, quando um forasteiro vem a revelar seu baixo nascimento ou sua pobreza. Rustum acompanhou-a fora da tenda, e disse-lhe que não se preocupasse com o fato de seu pai ser duque e possuir todos os dormitórios e móveis que ela havia descrito. Ninguém, por isso, pensaria mal dela. Apoderou-se então de Orlando uma vergonha que antes nunca sentira. Evidentemente, Rustum e os outros ciganos pensavam que uma ascendência de quatrocentos ou quinhentos anos era a mais modesta possível. A deles remontava pelo menos a uns dois ou três mil anos. Para os ciganos, cujos ancestrais construíram as pirâmides, séculos antes do nascimento de Cristo, a genealogia dos Howard e Plantagenetas não era melhor nem pior do que a dos Smith e dos Jones: ambas eram insignificantes. Além disso, se um pastorzinho tinha uma linhagem tão vetusta, nada havia de especialmente memorável ou desejável numa velha estirpe: vagabundos e mendigos também a possuem. E assim, embora fosse extremamente cortês falar abertamente, era claro que o cigano pensava não haver mais vulgar ambição que possuir centenas de dormitórios (conversavam no alto de uma colina, era de noite, as montanhas levantavam-se em redor), quando a terra inteira é nossa. Do ponto de vista de um cigano, um duque – entendeu Orlando – não era mais do que um aproveitador ou um ladrão, que arrebatava terra e dinheiro a gente que considerava essas coisas de pouco valor, e não pensava em coisa melhor que construir trezentos e sessenta e cinco dormitórios, quando um seria bastante, e nenhum, ainda melhor. Ela não podia negar que seus antepassados tinham acumulado campos sobre campos, casas sobre casas, honras sobre honras; no entanto, nenhum deles tinha sido santo, herói, ou grande benfeitor da humanidade. Nem podia deixar de reconhecer (Rustum era muito cavalheiro para insistir, mas ela compreendeu) que qualquer pessoa que fizesse agora o que os seus antepassados tinham feito há trezentos ou quatrocentos anos atrás devia ser denunciada – principalmente por sua própria família – como vulgar arrivista, um aventureiro, um nouveau riche. [p.87]

O conceito de capital simbólico, de Bourdieu, nos diz que existem diferentes grupos dentro da sociedade, e cada um desses grupos possui seu próprio sistema de valores. Há sim o capital como dinheiro, para quase tudo e todo mundo, mas há também símbolos e maneiras muito próprias de atribuir valor que podem não fazer o menor sentido para outros grupos. Por exemplo: no balé, a rotação da coxa para fora e o formato dos pés tem uma importância definitiva, e ela não faz o menor sentido não apenas no mundo lá fora como em qualquer outra dança. É o que acontece com Orlando, que vai pra uma alteridade tão radical que o que para ela era valor se torna vergonhoso diante dos ciganos. E em alteridades não tão radicais, penso em ocasiões em que a pessoa se aproxima de você pensando que algo vai soar como valor e tem o efeito contrário. Como aquele que se gaba do carro pro ecologista, da churrascaria pro vegano, dos hábitos libertários para o puritano. Uma vez eu estava numa fila de balada e um sujeito se gabou de ser do Clube do Uísque, ou seja, ele tinha a própria garrafa dele no bar. Não consigo pensar em algo pior que um homem possa me dizer – eu não suporto cheiro de álcool.

Que Bourdieu me perdoe o psicologismo, mas concluo que a inveja só é possível dentro do mesmo capital simbólico.

Impensável

O ruim de mudar muito é que chega uma hora que a gente começa a duvidar de si mesmo. Começa a achar que não está buscando um lugar melhor, e sim que é incapaz de ficar quieto, que não sabe o que quer. Lembro que fui muito acusada disso – você não sabe o que quer. Olhando para trás, eu vejo que realmente não sabia o que queria, só que não da maneira como julgavam. Eu não sabia o que queria quando fiz aquela faculdade inteirinha, concorrida e cheia de status. Não sabia o que queria quando fui fazer pós e tentei virar professora. Meu guarda-roupa sempre soube: eu tentava me tornar uma pessoa séria, comprava umas calças sociais, umas camisas sem graça e pastinha e achava que em breve seria uma mulher de salto atrás de uma mesa, ou de um divã, ou numa sala de aula. Meses depois a roupa ia pro sacolão da doação, porque eu simplesmente não conseguia vestir aquilo. Nunca conseguirei vestir o papel de pessoa séria e exemplar.
Por incrível que pareça, eu sabia o que queria quando era criança. Eu insistia para fazer aula de natação, adorava praia, adorava mar, adorava me manter em movimento. A escola de natação ficava poucas quadras do colégio, e minha mãe sempre se recusou a me matricular – não sei dizer o motivo. Ainda hoje, qualquer rua mais movimentada é pretexto pra eu sair correndo, porque adoro sair correndo. Quando preciso pensar, ou sempre que posso escolher, faço os meus percursos a pé. Só que eu cresci numa família que despreza profundamente todas as carreiras que têm haver com o físico, de dançar a ser atleta, e numa escala ainda mais baixa, ser professor de educação física. Então jamais pensei, jamais cogitei, não cheguei nem a pensar na possibilidade. A família nos determina, como diria Bourdieu, na medida que ela determina o que é impensável. E o impensável deles deixava de fora o que combina comigo. De maneira oposta mas com o mesmo resultado, escrever era impensável pra mim. Desta vez não por desprezo, e sim por ser grandioso demais.
Se tivesse nascido numa família com aptidões parecidas com as minhas, quem sabe… Hoje eu vejo que se por fora eu mudei muito, por dentro segui uma trajetória retilínea. Eu sempre fui a mesma, meus gostos e necessidades não mudaram. O que eu estava buscando era uma maneira de ser coerente. Eu queria ser o que sou, eu queria chegar ao que combina comigo. O resto sempre foi barulho.

Capital simbólico

O grande fio condutor de todas as ações sociais, para Bourdieu, é o desejo de distinção. A sociedade é formada por vários grupos, onde a moeda de troca (ou capital simbólico) é específica de acordo com os valores do grupo. Dentro da universidade, onde me criei, o que importava era o quanto você se sai bem nas provas, se publica artigos, se fez alguma pós, como está seu currículo Lattes, que instituição freqüenta. Ser muito bonito, vaidoso e exibir símbolos de riqueza são até mal vistos – mostram que você investe seu tempo em coisas que não importam.

Agora estou em outro meio e o capital simbólico é totalmente outro. Ter um corpo bonito e jovem agora faz parte da profissão e confesso que esse determinismo genético me parece muito mais cruel do que quem vai ou não para congressos. É claro que eu sabia que o papel de solista não estava reservado pra pessoas que começam tarde. Mesmo assim, sei lá, eu tinha minhas ilusões. Algo como se emagrecesse e me esforçasse bastante. Isso sem falar naquele item maldito (na qual algumas pessoas não acreditam) chamado talento.

Em outras palavras, onde eu fui amarrar meu burro?

Uma frase solta

O Ale fez um convite para quem quisesse entrar e eu entrei. Pra não ficar convidando as pessoas e no fim elas não seguirem adiante (e eu ficar me sentindo desprestigiada), também digo que quem quiser é só seguir as regras e colocar no próprio blog. É o seguinte: abra o livro que estiver mais próximo na página 61 e transcreva a quinta frase completa. A minha:

Pero lo esencial es que la oposición entre los primogénitos por un lado, y los segundones, los obreros e los criados, por el otro, queda relegada a un segundo plano, sin quedar abolida, sin embargo, por la oposición entre el ciudadano del pueblo y el campesino del caserío.

Não entendeu nada, né? Me explico: como eu nunca deixo os livros que estou lendo aqui no escritório, tive que roubar o jogo e buscar entre os livros mais próximos na minha papelada de faculdade. O primeiro que eu achei foi El baile de los solteros: la crisis de la sociedad campesina en el Bearne, de Pierre Bourdieu.

Bourdieu é um autor que adoro à distância, por ser brilhante e complicado de ler. Nesse livro, ele volta à sua terra natal e percebe que as regras de casamento campesinas e a desvalorização do homem interiorano estão causando impecílios enormes para o casamento, e os homens estão “ficando para os tios”. Ao lado do Elias, Bourdieu é meu autor sociológico preferido. Esse lado tão humano dele, de ser genial e ao mesmo tempo gauche, faz com que ele coloque os problemas de uma forma que ninguém colocou antes. Nossa, deu até saudades das ciências sociais!

Balcão

Eu parei no balcão da cantina da academia e perguntei pra atendente se tinha algo sem carne. Ela começou a me mostrar as opções, disse que me faria um sanduíche e que ele vem com um matte leão grátis. Aí ela me preparou um big sanduíche, com direito a mussarela de búfula e tudo. Depois de assistir o Bob Esponja, disse pra ela que esses dias estava andando na rua com meu matte leão e um adolescente em bando me pediu um gole e fui obrigada a dar o matte para ele. Ela me contou que estava com um sorvete delicioso no ônibus e foi obrigada a dar o sorvete pra um louco qualquer. “Por que esse pessoal não vai trabalhar?” – ao invés de ficar roubando nossos refrescos de verão?

Aí, muito delicada e sem querer ferir meus sentimentos, ela me disse se não sabia se eu trabalhava ou não. Eu, sem querer ferir os sentimentos dela e muito timidamente disse que estava de férias, que tinha acabado de terminar a faculdade. Ela se entusiasmou, quis saber qual era o curso, onde era, que a federal era muito difícil, que Fulana não passou, que é muito difícil, que legal que eu estudei na federal. Aí ficamos em silêncio.

Eu, do lado de cá do balcão da minha academia. Ela, do lado de lá do balcão da cantina da academia que eu freqüento, me servindo um sanduíche. Ela, tão adolescente quanto tantas outras que entram na Federal. Mas elas nunca foram para o balcão, assim como eu nunca fui. Porque estudaram em escolas melhores, porque não precisaram trabalhar, porque nasceram em famílias com mais dinheiro. Tive vontade de falar pra ela o que Bourdieu* diz sobre esse processo cruel, chamado por ele violência simbólica – as idéias dos dominantes estão tão arraigadas que os dominados consentem com elas ingenuamente. Isso faz com que as pessoas desejem o que está dentro dos seus limites. Ela faz com que todos acreditem que o que separa as pessoas em servidores e servidos é a inteligência e o mérito. Que as adolescentes que fazem faculdade são muito mais inteligentes e esforçadas do que as que ficam atrás dos balcões.

Mas eu não disse. Ela quebrou o silêncio e voltamos a falar do sanduíche. Eu paguei e desejei sinceramente que ela tivesse um bom fim de semana. Ela sorriu de volta e eu fui embora.

* um dos sociólogos mais badalados da nossa época. De epistemologia a feminismo, passando por educação, ele escreveu um pouco sobre tudo. De acordo com Bourdieu, a sociologia é “um esporte de combate” . Eu adoro essa frase.