Bauman na arara de promoção da C&A

Hanger for clothes

Eu li, acho que no livro da Glória Kalil, que pra saber o valor da roupa é só dividi-la pelo número de vezes que você usou. Essa conta é pra dizer que a peça cara que resiste a muitas modas e se torna essencial no seu guarda-roupa pode ter saído mais barato do que a blusinha vagabunda. Só que eu fiquei cismada em perceber que algumas peças minhas saíam quase de graça, porque acabo favoritando peças que comprei em promoção. Uma calça jeans que usei até esburacar e que, à primeira vista, me pareceu muito roqueira pra mim. Tem uma blusa de moletom, e além de eu não ser chegada em moletom, é rosa.  Tento me livrar dela e não consigo. Ambas estavam naquelas araras da C&A de últimas peças, quase de graça. Fiquei cismada que tipo de coincidência ou masoquismo é esse, e percebi que talvez o que melhor explique isso seja Bauman (!!!).

De acordo com Bauman, o nosso excesso de opções não nos deixa felizes e sim eternamente insatisfeitos. Porque nunca conseguimos provar tudo para ter certeza antes de escolher. Então, temos as tais relações líquidas, sempre na expectativa de que a próxima será melhor, porque a certeza de ter feito a melhor escolha é impossível. Quando você não tem escolha, simplesmente aceita. Como os casamentos antigos, onde no máximo você escolhia entre o vizinho e o sujeito que frequenta a sua igreja. Minhas peças em promoção me tiram a ansiedade da escolha perfeita, faço mais esforço para me adaptar do que normalmente faria e, como resultado, somos felizes. Isso me lembra quando eu herdava roupas das minhas primas. Quem era rico o suficiente pra nunca herdar roupa não sabe o que é esperar numa peça escolhida por outra pessoa a renovada no guarda-roupa que não poderia acontecer de outra forma. E o quanto isso às vezes é muito legal.

Curtas de conclusões totalmente científicas

super placebo

A Dúnia passou um tempão de cone. O cone e impede de entrar na casinha com teto, então eu tiro. Por causa da largura do cone, entrar na casinha era meio enroscado, ela precisava erguer um pouco a cabeça, esbarrava, era triste. Aí, finalmente ela ficou sem cone e estava com tudo novo e limpinho. Passaram-se dois dias inteiros sem que ela pusesse os pés lá. Tive que mandar entrar, dar osso. Percebi que ela ficou com aquela imagem de que era difícil e resistia passar por aquilo de novo. Descobri que até cachorro desenvolve neurose.

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É mais do que sabido que se o Facebook nos oferece muito uma pessoa pra ser nosso amigo é porque a dita nos estalkeia, né?

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Os hindus são fogo. A explicação pra astrologia deles ser tão mais completa do que a nossa é que ela tem milênios de anotações e observações, ao contrário da nossa que vai e volta. Descobri que eles têm casas e aspectos que dizem se a pessoa é boa ou ruim de cama. Agora, como viver sem pedir pra ver o mapa do pretendente antes mesmo de começar? (e não adianta vir me perguntar inbox, tem que saber meia dúzia de princípios pra entender)

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O único momento da vida que é melhor ser mulher do que ser homem são as roupas de verão. A gente tem diversos comprimentos de calças, saias, bermudas, decotes que contemplam várias partes do corpo, opções de sapatos e onde começa o braço. Eles, de bermuda já ficam informais e de regata receberão olhares. Mas, ao mesmo tempo, a arma mais poderosamente indestrutível da espécie humana é o ego masculino. Coloque-o na posição mais desfavorável, pense que ele foi soterrado pelos fatos e reduzido à sua insignificância, que ele ressurgirá assim mesmo, quem sabe até mais forte, igual vilão de filme de terror.

Roupas reencarnadas

ziper jeans

Eu ia fazer trinta nos e achava que seria uma séria professora universitária, então fiz a tentativa número cento e tanto de tornar o meu guarda-roupa sério. Comprei calça social, paletozinho bege, lenço. E me livrei da minha bermuda preferia, uma bermuda quv eu chamava carinhosamente de “bermuda do mano”: ela era larga, ia até um pouco abaixo do joelho, tinha bolsos nas coxas, tinha fivelas na cintura que era meio baixa. Não combinaria com a nova eu, já estava na hora de me vestir como adulta.

Não me lembrava dessa bermuda até um dia estar fazendo uma organização e encontrar um foto minha daquela época e perceber que comprei uma bermuda praticamente igual há poucos meses. Percorri a cidade inteira, páginas e páginas do Ali até encontrá-la, porque tinha uma imagem muito clara do que eu queria e não achava em lugar nenhum Eu queria uma bermuda pra andar de tênis, pegar ônibus de noite sem me sentir desconfortável com olhares. Ela é tudo isso, amo. Assim como também estava olhando outras fotos de quatro anos atrás, e me vi com um casaco comprido e listras grandes em tons vermelhos. Eu comprei, de novo, praticamente o mesmo casaco. Uso pouco porque ele não é muito prático, fresco demais para o frio curitibano e lã demais no calor. Eu me lembrei que o casaco da foto também foi doado pouco tempo depois pelo mesmo motivo.

Pra quem não direito minha idade, entre uma bermuda e outra foram uns dez anos. Mas pelos menos aprendi a não gastar mais dinheiro com paletózinho, lenços de seda e roupas combinando. Nunca serei.

Um curta leva a outro

quadros vudu

Um amigo meu, que tinha passado a infância numa favela, que me fez perceber o detalhe numa foto: a pessoa estava diante duma parede com tijolo à vista. “Olha, um favelado”. Num extremo, acho que estão as pessoas que bastou ter uma cobertura para elas se mudarem. Aí o reboco e outros acabamentos são luxos de quando o dinheiro permite. Já do outro lado está aquele que chega e a casa já está toda decorada, só falta colocar a própria cara no porta-retrato. Eu estou mais para a primeira ponta – em breve, serei capaz de decorar uma parede do corredor com quadros. Meu outro projeto é cobrir o mofo do teto do banheiro.

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Minha parede de quadros não é (apenas) pobrice, é que sempre tive uma dificuldade imensa em escolher figuras que me agradem. Não vou colocar mensagens de músicas que não ouço ou cara de pessoas que não admiro. Rejeito também cenários onde nunca estive ou até mesmo flores, já que não sou do tipo que olha para elas durante horas. Fiquei feliz da vida quando me apaixonei por três quadros da Vudu e encomendei. Quando chegaram descobri que a parede precisaria de mais. Quando chegarem, a dificuldade será comprar aqueles ganchinhos especiais de colar na parede. Sabia que eles têm limites de peso? Uma vez tive a ilusão que conseguiria resolver todos os meus problemas pendurativos com ganchos de colar e joguei dinheiro fora.

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Da minha dificuldade em comprar roupas já falei mais de uma vez. Há quem diga que eu tenho estilo, o que eu nego. Ou talvez tenha, mas de forma negativa. A pessoa cheia de estilo, suponho, tem conhecimento de moda e amor às escolhas. A única vez que me identifiquei com o processo de escolhas de alguém foi quando vi Atypical. Pra quem não conhece, o protagonista da série tem um grau leve de autismo. Pra incrementar o visual, ele tenta não vestir sempre a mesma coisa, que tinha um corte e tecido específicos. Mas a jaqueta moderna cheia de metais o irrita, por causa do barulho, e ele joga fora. Meu processo é o mesmo, eu visto o que sobra de uma lista de rejeições.

Curtas de gostos peculiares

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Existem muitas características a serem consideradas numa calça jeans: o cavalo estar na posição correta, nem pra cima e indecente e nem pra baixo calça caindo; não gosto das cinturas que nunca mais subiram e o fiofó vive aparecendo e as costas ficam geladas; qual o índice de gordura corporal necessário para não ficar com o bacon pra cima com essas malditas cinturas baixas? Mais ou menos aquele que a mulher deixa de menstruar; detesto que o botão acima do zíper seja dourado; brilhos e apliques, proibidos. Ou seja:

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Claro que comprar calça jeans é sempre uma tortura, experimento dezenas delas, odeio todas, volto depois, me conformo com a menos pior e costumo andar com as calças sempre meio caindo, porque prefiro assim do que muito apertada. Ah, mencionei que não gosto delas afunilarem embaixo?

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Doce pra mim sempre foi chocolate e sofria se passava mais de alguns dias sem. Aí peguei o hábito de comprar coisas frescas da padaria, experimentando cada dia um doce diferente e agora me dá nojinho de chocolate, sei lá.

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Fiz, meio sem querer, uma quantidade absurda de manteiga com coentro. No fim acabou sendo bom, porque coloco na sopa como se fosse óleo e ela fica com um gostinho de coentro mesmo sem ter coentro. Sim, manteiga de coentro, sem querer.

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Decidi que gosto de séries inglesas e nunca mais recomendar a ninguém. Falei muito bem de uma de matemática pra amiga depois dizer que achou um porre. É que elas são um porre na medida certa: gosto de assistir algo enquanto escrevo. Prefiro que não seja totalmente ficção e que tenha muitas horas, uma continuidade. E se for interessante demais, atrapalha.

Curtas gastando dinheiro (ou não)

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Lembro da primeira vez que entrei numa loja Hering, do quanto fiquei indignada com o preço. Nos anos 80, junto com Sulfabril, Hering era sinônimo de roupa básica e barata, camiseta branca.

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Agora as Havaianas estão assim. Ok, os gringos já amam faz tempo, mas precisa um chinelo custar 40 reais? E as últimas que eu comprei soltaram as tiras bem rápido.

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Lembro que uma vez li como eram várias coisas com a idade, e pra lá dos sessenta o jeans era “aqueles com elástico”. Não cheguei em jeans com elástico ainda, mas os de hoje fazem com que eu me sinta uma salsicha amarrada: gordurinhas saltando pra cima, quase gangrenando na panturrilha.

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Mal comprei um Kindle e já necessito como se não conhecesse outra forma de viver.

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… e já tenho mais livros baixados do que consigo ler. Tudo de graça. Eu, que escrevo. Bem…

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Empresa de gás oferece os seguintes brindes a cada pedido: balde, vassoura, prendedor de roupa, rodo, pote com tampa e suporte plástico para botijão. “Que coisa mais estúpida”, pensei assim que vi, “achar que a gente vai pedir gás deles pra ganhar esses brindes baratos”. Hoje: colecionadora de baldes.

Calcinhas e cuecas

roupas-intimas

Quem está em cima acaba sendo insensível com quem está embaixo sem saber. Dia desses eu estava contando as moedinhas pra não entrar no vermelho e estava para receber um dinheirinho. Só que para a pessoa que me devia aquele era um dinheirinho tão dinheirinho, que tanto fazia me pagar naquele momento ou semana seguinte.

Roupa íntima a gente joga fora quando fica feia ou esgarçada, e muita gente passa a tesoura nelas antes de se livrar. Eu fui informada há anos que em hospitais com grande fluxo de gente, eles repassam as doações de roupas íntimas para os mais pobres. Há pessoas que, quando sofrem acidente e tem a roupa cortada, não têm condições de repor nem a roupa íntima.

Curtas de expectativas curtas

no balanço

Vou confessar uma coisa: é extremamente difícil arranjar o que escrever quando passei o dia sozinha. Eu gosto, mas é como se minha inspiração funcionasse melhor com um debate silencioso com os outros.

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Estava conversando com uma amiga sobre aquelas roupas que não estão limpas o suficiente pra voltarem pro guarda-roupa mas também não estão sujas pra ir no cesto. Você foi até a esquina e voltou, não teve nem tempo de suar. Aí elas ficam num limbo de roupas, esperando para serem usadas pra valer. Ela me disse que na casa dela chamavam de roupas “começadas”. Já adotei.

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À caminho da padaria vi um cartaz que dizia que há um local para consertar bikes a 300 m. Na volta decidi ir pra lá, virando à esquerda ao invés de seguir em frente, pra ver se achava o tal lugar. Não achei o conserto de bikes mas vi adolescentes suspeitos numa praça que até então acreditava segura, o escritório novo do meu ex vizinho numa casa enorme, uma mecânica de carros e uma igreja Quadrangular exatamente uma quadra de casa. Me senti a pessoa mais ignorante do bairro.

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Acreditam que veio um outro cobrador, à noite, que ao contrário do que tinha jeito de malandro é um que eu conheço faz tempo, gente boa, evitava assaltos, e ele quis que eu passasse pagando dois reais fora da roleta. Sério, é cada história que ele conta, a expressão de pessoa sofrida, pra ele não tem como dizer não. Pior que ele quer ter esquema porque sempre pego ônibus o mesmo horário e tal. A gente quer ser bom e a sociedade…

Na ótica

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Pro mês fechar redondinho, eu deveria não fazer mais nenhum gasto que não fosse o básico, de comida. Ao mesmo tempo, eu estava usando o meu último par de lentes de contato, o que é uma imprudência, e a do lado esquerdo estava teimando de ter um fiozinho que precisava de um mergulho adicional na solução pra sair. Entrei na ótica por impulso, quase certa de que elas não teriam a minha lente, ou me mandariam voltar horas depois, como fizeram as últimas – oito, dez? – que iam mandar buscar no estoque.

“Temos!”, ou melhor, não tinham, tinham no estoque. Só que ao contrário das outras vezes, a vendedora me falou pra ficar, que o estoque ficava há cinco minutos e saiu imediatamente para buscar. Fiquei ali sentada e, enquanto esperava, a outra vendedora estava tirando vários óculos escuros da estante, para limpar. Sem ter o que fazer, comecei a experimentar todos. Peguei um aviador e Uau!, como ficou lindo. Aquele óculos acrescentou uns 2000 reais à minha aparência. Olhei na etiqueta e ele custava 500 e tantos. Larguei na hora, como se fosse uma doença. A vendedora percebeu e me disse que o preço não era aquele, que ele estava numa promoção e custava apenas 140 reais. Peguei de volta, amando muito, quase jogando o óculos que eu estava usando naquele momento – também aviador, só que paraguaio e vermelho – no lixo. Minto, adoro aquele óculos, mas me perguntei se ainda o conseguiria usar no lugar da versão ryca. Minha lente chegou e fazia tanto tempo que eu não comprava que ela não custava mais uns 70 e sim uns 90 e tanto. Quando estava quase finalizando a compra fui avisada que os óculos estavam sim em promoção, mas aquele, justamente aquele, estava menos promocionado que os outros, estava custando 200 reais. Ainda era um bom desconto mas, poxa, 60 reais. Eu, que já estava preocupada com a minha entrada mais que imediata no cheque especial, me senti como quem desperta de um sonho: eu já tinha óculos, o adorava, era vermelho, estiloso e único e não entraria no cheque especial por uma compra impulsiva e desnecessária. Elas ainda tentaram argumentar, dizendo que era único, lindo, que eu nunca mais encontraria um óculos como aquele por aquele preço. Resisti.

Passos depois, entrei numa loja vagabunda e comprei uma camiseta estampadona por 20 reais. Daquelas que soltam tinta até no sutiã.

Protesto

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Tem um meme antigo, do tempo que essa palavra nem existia que dizia: Vou xingar muito no twitter. Era inspirado neste vídeo. O meme ri da inutilidade que é ficar reclamando em redes sociais e é justamente essa minha atitude – tenho me queixado muito no twitter contra o frio. Cada dia é uma figura trágica diferente e realmente tem sido difícil segurar o mau humor quando penso em me programar pra vestir camadas de casacos em OUTUBRO. Já lavei e guardei tudo quando deu uma esquentadinha e tenho me recusado a tirar os casacos de lá. Então tenho usado sempre um ou dois, de pura teimosia. Não faz mais que duas semanas, estava tão de saco cheio de minhas calças jeans, que saí de vestido. Vestido com cachecol, casaquinho e meia calça, mas ainda assim vestido. Quando vejo dois adolescentes andando timidamente juntos e ela está lindamente de pernas de fora, sempre penso: “Está na fase da conquista, né? Depois passa…” O cara às vezes até estranha e pergunta se a gente está com frio: “´magina, essa meia calça é super quentinha!”Mentira, meia calça passa vento. Ou seja eu saí agasalhada, mas nem tanto. Estou com saudades de deixar minhas pernas de fora, dos meus vestidos, das minhas saias.

Foi um protesto silencioso. E inútil. E estou pensando em repetir amanhã.

Dentes de leão estão na moda

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Dentes de leão estão na moda, Suzi. Eu não sei como isso soa pra ela, eu não gostei. Gosto muito dos dentes de leão – não precisa pensar muito para associá-los com lúdico, leve e efêmero. Não gosto que nada que eu gosto se torne moda. Quando está no auge da moda é ruim, porque vejo pessoas que ofendem os meus “símbolos” ostentando-os como se nada fossem; quando a moda passa, aí é o efeito contrário, e se torna totalmente out e insuportável que alguém ainda use. Tem coisas que são minhas e não quero que sejam confundidas com moda nenhuma, in ou out. Me agradam os vestidos floridos que remetem aos anos 70, e que combinam tão bem com casacos compridos de lã, meias calças e as botas de cano longo que as curitibanas não abandonam nunca. A lembrança das curitibanas interrompe imediatamente o comercial que passa na minha cabeça, onde estou vestida igual uma hippie, toda produzida pela C&A. Tudo bem, esses florais têm fundo preto e na prática talvez acabasse não usando. Mudo de loja, passeio pelas centenas de opções como se pudesse comprar e até posso, mas não devo. Os imensos manequins parecem tão modernos e elegantes, usando de maneira displicente jeans com quadriculado e lã, e quando olho para as roupas me sinto incapaz de combinar tudo de maneira tão interessante. A jaquetinha jeans que namoro há tempos foi para uma arara “a partir de 39,90”, mas continua 119,90. Quem sabe eu pudesse acrescentar mais cor nas minhas roupas se usasse a camiseta com estampa de baleias, mas nossa, que baleias caras. Não fui pra comprar, mas por onde começaria? Na loja iluminada, o que estou vestindo e o que tenho me parecem subitamente insuficientes. Por isso que estou velha, feia e sem namorado, por isso que nem pra me arrumar pro flamenco eu sirvo. Me irrito comigo mesma, com minhas teimosias, minha inadaptação que só faz crescer, minhas roupas. Para evitar o padrão irresistível de usar sempre a mesma coisa, faço tentativas imaginárias de comprar diferente. Mas aquela saia evasé até o joelho não combinaria com o All Star; eu teria que ter uma bota e não tenho bota. Quer dizer, tenho, mas ela não que me permite andar por aí o tanto que eu ando. Mas e se eu…  namorasse, precisasse de roupa de trabalho, um dia fosse alguém? Aí me canso – me canso de tudo o que poderia ser e não sou, do mundo consumista que se oferece e foge, da brancura e adolescência eterna da loja TwentyOne. Penso com inveja nos monges e góticos por não se atormentarem com o vestir. Ninguém me obrigaria a usar flor à flamenca se eu ainda cortasse o cabelo com máquina 3. Saio do shopping tal como linho no fim do expediente. Que alguém me produzisse, comprasse e me vestisse, porque tudo isso é muito cansativo, fútil e complicado.

Grampos

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Os primeiros eram cinza, os melhores. Eles prendiam tão bem que dá até pra colocar a ponta da toalha no gancho da rede. O plástico foi secando com os anos, e faz PLÁ! quando a gente aperta. Aí vieram uns japoneses. Tem três cores, mas são todos iguais – preto, verde e branco. Na embalagem eles prometiam marcar menos a roupa. E marcam mesmo, mas também não prendem muito. Por fim, comprei uma terceira leva, que veio numa cestinha e ficam pendurados. Foi aí que começou. São três cores: vermelho, verde e amarelo. Com eles eu descobri que dá pra combinar as cores na hora de pendurar a roupa. Passei alguns dias assim, só prendendo a toalha com grampos da mesma cor nos dois lados, os biquínis e a touca com a mesma cor e assim por diante. Quando estava organizando as roupas em função dos grampos decidi parar – melhor não dar vazão a mais uma mania. Agora enfio as mãos na cestinha e penduro com o primeiro que me surge na mão. Três peças, três grampos, como vier. Olho para a roupa e a toalha está com um verde numa ponta, um vermelho na outra e a calcinha com verde.

Se a toalha ficasse com os verdes e a calcinha com o vermelho seria melhor, penso.

Uhu, roupinhas!

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Ganhei roupas de uma amiga fazendo limpeza no guarda-roupa. Cheguei em casa toda feliz, não apenas porque agora tinha roupa nova mas também porque eram umas que eu nunca provaria se tivesse visto na loja. Mas, ao mesmo tempo, ficaram tão bem em mim e são a minha cara. Aí pensei o quanto isso é legal, que se a pessoa só tem roupas que ela mesma comprou ou que foram compradas pra ela, nunca vai ter o prazer de vestir algo que ela jamais teria pensado.

Outro lado meu falou: nossa, como tu é pobre, nasceu pra ser pobre, tu gosta de herdar roupa. O primeiro respondeu: sou mesmo. E continuei feliz.

Curtas de tá frio pá caraleo

galinhas vestidas

O melhor argumento de todos contra o frio e que eu sempre repito: a gente não consegue uma textura decente pra passar manteiga. (Chicuta)

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Um dia você quase tem uma insolação porque vai num casamento onde a noiva deixa os convidados em cadeiras de plástico no meio do nada sob o sol de 30 graus das 13h, e no outro a orelha perde a sensibilidade com o vento gelado.

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O frio que eu gosto é o anterior, aquele que a gente olha pros nossos vários casacos e decide a melhor maneira de sair quentinho e alegre, ou elegante, ou seja lá como você se sente naquele dia. E não essa busca desesperada por calor.

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Tanto que quem mora no sul tem toda uma ciência na hora de se vestir: tem o frio do vento gelado, o que esquenta no meio do dia, o úmido (pior de todos), com solzinho…

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Quem diz que no frio ficamos elegantes, além de gostar muito de preto, pensa num retrato, uma coisa estática. Porque se for encontrar com as pessoas todo dia, você vai perceber que elas estão sempre com o mesmo casaco, ano após ano. Casacão custa caro, sabia?

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Todo mundo fica encantado quando digo que a Dúnia adora roupa. Ela tem dormido com duas. O problema é que quando ela começa a usar roupinha não quer mais tirar. A estação muda, o sol à pino lá fora, e o cachorro querendo pijama. Isso porque ela já é quase um casaco de peles.

Curtas sobre comprar roupas

tc3aanisTenho uma amiga que acha que eu tenho “estilo”, e diz que gostaria que eu a acompanhasse quando ela fosse comprar roupas, para dar minha assessoria. Olha, se eu pudesse, eu não me levaria pra comprar roupas pra mim, quanto mais para os outros.

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Já disse que tenho temperamento TOC, então o que ela provavelmente chama de estilo são minhas obsessões – um código inconfesso de implicâncias que inviabilizam certas escolhas. Que o diga o meu ex, que costumava dormir no sofá das lojas quando eu precisava comprar jeans. Eu experimentava todos os modelos da loja  – 30, 40? – pra escolher uma. Isso se gostasse.

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Meu problema é que não compro mais ou menos, a roupa precisa me agradar em todos os itens. E com o passar dos anos, a lista só aumenta. Antes, bastava o tamanho estar certo. Agora tem que ter bom caimento, manifestar o meu eu mais interior, combinar como que eu tenho no guarda-roupa, ser atemporal, verde jamais, tem caber no orçamento, ser adequada à minha rotina, ficar bem no meu tipo físico…

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Levei muitos anos sem comprar tênis – e praticamente só uso tênis. Antes minha mãe comprava pra mim, o que era fácil porque bastava ela experimentar e comprar um número maior. Depois meu (ex)marido passou a comprar, porque minha capacidade de enxergar a beleza interior de um tênis despencando parece ser infinita. Há pouco decidi me livrar de um que eu amava, uma cópia de All Star de cano alto preto com franjinhas. Enquanto ele furou embaixo, o segredo era não usar nos dias de chuva. Agora começou a descolar da sola. Pena.

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Uma regra que procuro seguir, e talvez ela seja a minha única contribuição realmente valiosa em termos de moda: não ter no guarda-roupa peças que te embarassem de alguma forma. Se a roupa não cai lá muito bem, ou é meio breguinha, ou é feia mas tãããão confortável, o melhor é se livrar dela. Senão a gente usa. Comprei impulsivamente uma bolsa feita de calça jeans que está indo pra doação. Alias, já falei que também odeio comprar bolsa?

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Adoraria que não apenas comprassem tênis pra mim: meu ideal seria que me vestissem.

Desejos conflitantes

Andei pensando bem sobre a necessidade de comprar roupas novas e me vestir um tantinho menos informal o tempo todo. A coisa não começou por causa da separação ou um pouco antes dela, como eu achava. Na verdade, lembrando bem, eu só comecei a realmente me preocupar com roupas e sair um pouco mais bonitinha por aí quando comecei a namorar o Luiz. Eu tinha vinte e quatro anos. Até então, passava batom muito raramente e ouvia indiretas de todos de que deveria comprar umas roupinhas, cuidar das unhas, fazer combinações melhores, parar de achar que camisa do Olaria FC era super legal de usar pra sair. Foi pra combinar com aquele mauricinho que eu passei a me vestir melhor. Passei a me vestir tão melhor que cheguei até a acreditar que gostava de me arrumar.

Não é que eu não goste, que pra mim tanto faz. São desejos conflitantes. Eu:

* Adoro a ideia de ter um estilo. Ele seria alegre, colorido, com muitas saias, vestidos, acessórios no cabelo. Quem sabe com mechas azuis. Já sei até de que grifes eu compraria. Gosto muito de vintage, de alternativo e ainda colocaria uma pitada nerd. Na prática: tenho preguiça. Estilo com dinheiro sobrando deve ser mais fácil, sem dinheiro eu precisaria garimpar muito. Estou sempre andando e a necessidade de estar sempre de calçados confortáveis é um limitador importante. E minha rotina de voltar pra casa de ônibus tarde da noite ajuda a sepultar tudo. É triste dizer isso, mas eu morreria de medo de pegar esses ônibus de saia ou com um calçado que eu não pudesse correr.

 

* Adoro a ideia de ter bastante dinheiro, mas só pra aumentar a qualidade do que eu tenho. Gosto de ter uma casa semi-vazia, mas pagaria alguém pra conseguir fazer minha casa vazia não ter essa cara de abandono. Compraria uma bike melhor, mas continuaria andando de bike. Continuaria sem carro. Compraria as tais roupas coloridas e cheias de estilo, sem jamais emperuar. Presentearia meus amigos, sairia com eles com mais liberdade. Queria ser daquelas que tem grana e nem parece, sabe? Na prática: não tenho mesmo. E o entorno necessário para se ter muita grana – tempo, concursos, colegas de trabalho, sapos – me dá muita preguiça. Sem dizer que não há nada que eu saiba fazer pela qual alguém estaria disposto a me pagar tanto assim.
Comprei jeans novos. Caem melhor que o antigo, que era um número maior que o meu.