Eu chego mais tarde, me enrolo, é por querer.

Entro em silêncio onde todos conversam, pego as minhas coisas, evito contato visual, protejo o rosto pela porta do armário aberta. Todos notam minha chegada, mas é raro que tenham tempo de me dizer qualquer coisa, antes de eu mudar de ambiente. Quando estamos a sós, já vi os assuntos mudarem assim que eu chego, numa consideração inesperada; mas se chego cedo demais, e as pessoas conversam livremente, não tenho mais esse privilégio. Eu canto. Canto baixinho, para mim mesma, a música que está na cabeça. Ou mantras. Chegam até mim vozes confusas, capto uma palavra ou outra sem querer. Mas principalmente me chega o tom. Vozes que atingem agudos de indignação, onde são sempre os outros os culpados. Sabem tão pouco e ignoram meu gosto de tal forma que não acreditam quando eu digo que gosto quando o sensor não capta a minha presença e fica tudo escuro. Passam lá e acendem a luz à minha revelia. Deveriam perceber que eu poderia facilmente erguer um braço ou abrir uma porta e nunca o faço. Pelo contrário, eu fecho os olhos para ficar ainda mais escuro e mais íntimo, curto os segundos de privacidade que me restam. Nunca consigo escapar de todo, me esperam. Se contasse que já cheguei a me enrolar durante uma hora inteira e me esperaram. Já estou habituada a me trocar de pé, num cuidado que tive desde o começo por ter notado o quanto os territórios são importantes. As pessoas me têm simpatia. É muito difícil que não me tenham, é minha sina: sou a querida cuja opinião não se leva a sério. Tento me esconder atrás da porta do armário, na proximidade do espelho, em todo meu ritual de me arrumar bem longe, mas nunca me deixam entrar e sair sem falar nada. Alguém se aproxima, me olha nos olhos e me pergunta algo. Me toca, sorri. Pede uma dica, fala de roupa, do tempo. Às vezes é tão sem propósito que fico até sem graça. Fazem isso porque sabem que eu não poderia deixar de ser gentil. Gostam de mim porque sabem que sou gentil. Porque já me flagraram com paciência infinita e carinho por pessoas de quem ninguém gosta muito, sem a menor vantagem e sem saber que me assistiam. Gostam de mim porque sou gentil, porque acho que todos merecem respeito, mas é essa mesma gentileza que nos afasta. Minha gentileza se indigna em pensar em idoso pobre recebendo 400 reais mensais. Minha gentileza não me permite achar tudo bem que gay tenha que andar com cuidado, que negros sejam alvo da polícia. Eu sei como pensam e a maneira como nada do que tem acontecido sequer roça suas peles me choca. A indiferença dos bons, limpos, bem nascidos e de bem me choca. A maneira como as paredes tremiam com o ódio quando falavam que o Lula deveria ser preso e agora tudo está em paz. Gostam de mim e talvez seja bom que gostem, sem dúvida é mais fácil viver assim. É justamente a postura de querer criar mundos puros que nos torna um país tão desigual, então também não me sinto no direito de dizer que não devem. Mas eu me enrolo e me sinto tão longe.

se tiver uma chance

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Vida monástica

Monk

Eu tinha vontade de entrar num mosteiro quando eu era xóven. Escrevo isso e constato que realmente há uma sabedoria em desejos que temos quando muito jovens, embora na época não se tenha clareza do porquê acertamos. Eu responderia, antes, que era pela minha atração pela filosofia, mantras, devoção. Hoje eu penso que já sabia do quanto há algo bem inadaptado e inadaptável em mim. Minha vontade foi séria o suficiente para eu declarar isso a um amigo que, como é uma constante na minha vida, era bem mais velho do que eu. Ele me disse que se era realmente a solidão que eu amava, o que eu deveria fazer é ter uma vida comum. Num mosteiro, eu estaria sempre cercada de pessoas e hierarquia; já o homem comum, depois do expediente pode apenas sumir – ninguém sabe de ninguém, a não ser que ele se esforce pra tal, ninguém sente sua falta. Amargo e verdadeiro.

Solidão

Eu gostaria de dizer alguma coisa, mas não há nada de novo a ser dito. Quando quis começar a usar cremes, para ficar com a pele mais uniforme e jovem, meu irmão me falou: você me vê pesquisando anos pra avançar um tiquinho, acha mesmo que a cada ano a indústria cosmética consegue desenvolver um efeito inédito? Não há nada de novo na pele, nada de novo no processo de envelhecimento. Não há nada de novo na minha forma de ver, nenhum conselho sobre o mundo e as pessoas. Não há um único conselho que não soe antigo. Livros de história, com séculos de conselhos nas entrelinhas. Vontade de colocar Lennon e McCartney cantando de branco. Ou cristianismo, papa Francisco. Apelar para empatia, humanidade. Quem sabe o vídeo do ponto azul, de Carl Sagan, pra soar mais científico. Eu não tenho encontrado o que dizer e as pessoas à minha volta também não têm encontrado o que dizer. Mas saber que há outros tristes dessa mesma tristeza me dá uma luz fraquinha de esperança. Por isso vim aqui dizer isso, que se você que me lê se sente triste agora: eu também.

 

#Mariellepresente

Monástica

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Ele – que me fez lamentar muito nunca ter ensinado pra Dúnia alguma palavra de ataque em alemão ou algo do gênero, que cometeu uma quantidade absurda de bolas-fora por minuto, que nos primeiros 30 segundos de conversa só faltou me dizer quanto tem na poupança – me acenou com uma relação onde a casa estaria cheia de gente, o pagode tocaria no fundo, eu serviria as visitas com os coraçõezinhos e traria mais cerveja gelada.  Nada de novo ou nada de estranho para quase ninguém. Voltei, abri o portão, soltei a Dúnia da corrente e voltei pra minha casa monásticamente silenciosa. E relembrei, caso em algum momento tenha me esquecido, o quanto a amo.

A árvore que cai na floresta vazia

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Antes de mais nada: a atitude mais antifilosófica que pode existir é a resposta imediata. Este é um dos grandes males do nosso mundo hoje, talvez a origem: a necessidade de responder de uma vez que sim ou que não. O zen – pelo menos o zen com que sonhei a minha vida inteira através dos livros – trabalha justamente com a atitude contrária. Ele tem os chamados koans, que são perguntas que podem não fazer muito sentido e que servem de objeto de meditação para o discípulo. Num deles, se perguntava se Buda realmente existiu. Acho forte pedir para alguém que largou tudo e se propôs a uma vida monástica colocar em dúvida se o ser que teria dado origem à sua religião. Aqui, do lado cristão, as pessoas agem como se Deus fosse ficar ofendido.

Depois de anos sem ler sobre o zen, me pego com este koan dançando na mente:

Se uma árvore cai numa floresta e não tem ninguém lá para ouvir, será que ela faz barulho?

Eu vi e testemunhei momentos lindos. Tive uma professora de balé que quando se aproximava da barra para mostrar um exercício modificava a ar à sua volta de uma forma que céu e terra se encaixavam. Conheci uma recepcionista com um bom humor invencível e que conseguia tirar o melhor de quase todo mundo que cruzava seu caminho. Eu vi carinho e generosidade de quem não tem nada ou quase nada, vi lágrimas de amor em ponto de ônibus, desconhecidos que se ajudam na rua cientes de que nunca mais se verão. Eu me pergunto sobre performances artísticas com energia de mudar o mundo e que tiveram meia dúzia de parentes como público. Eu já vivi, como tantos outros já viveram, estalos internos e arrebatamentos que não podem ser descritos em palavras. As estrelas olham para nós e eventualmente olhamos para elas no mesmo momento. Amazônias inteiras. Como, aonde?

Eleanor Rigby

Era um disco duplo, de capa cinza, com uma coletânea dos Beatles. A gente abria e tinha a letra, em inglês. Eleanor Rigby provavelmente chamou a minha atenção pelos arranjos, tão bonitos e tão diferentes das outras músicas do disco. Minha mãe me explicou que a música falava de solidão e existia até uma estátua da Eleanor embora ela nunca tenha existido. Com a capa do disco nas mãos, minha mãe pegou a letra e traduziu. Eleanor Rigby catava os arroz que jogavam na igreja e sonhava em casar, Padre Mckenzi escrevia sermões que ninguém ouvia. “Fácil, é só apresentar a Eleanor ao Mckenzi e eles se casam os dois deixam de ser sozinhos!”. Pela expressão da minha mãe, ela não tinha ficado totalmente convencida. “Hum, é porque ele é padre, né, não pode casar. Mas ela poderia ir assistir os sermões dele…”

É uma pena quando as coisas não podem ser simples.

Eremita

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Tenho um problema sério quando fico muito tempo sem contato humano: eu acostumo. Acostumo e gostcho demais. Olho para o ritmo normal da minha vida ao longo do ano, as pessoas que estou sempre em contato, as várias conversas engatilhadas e os compromissos e me espanto – como aguento? Eu sei, estar sozinho pode dar uma ilusão enorme de paz e sabedoria, como o sujeito que passa vinte anos numa montanha e se crê santo pra perder a calma quando cruza com o primeiro. Mas… como aguento? Sei que se eu falasse das coisas que me são verdadeiramente caras não encontraria ouvidos. Posso adivinhar o silêncio educado e impaciente se começasse a falar dos livros que li, as séries, os canais no youtube, os sonhos, as coisas que pensei. Mas não, eu não saí, não bebi, não fiquei e nem fui cantada por ninguém, então, na versão oficial, nada me acontece há semanas.

Mimo

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Uma amiga saiu de casa de manhã e teve que parar para conversar com o pintor. O cachorro aproveitou uma deixa e fugiu quando ela não estava olhando. O pintor chegou a ver e não conseguiu avisar e nem pegar o cachorro. Ela só foi descobrir o que aconteceu quando chegou em casa, bem mais tarde. Ligou para todo mundo, descobriu o que aconteceu, ficou completamente arrasada, não conseguia fazer outra coisa que não chorar. Comentou com o namorado, que está nos EUA e de lá ele fez um cartaz com a foto do cachorro e mapeou que lugares ela poderia colocar o cartaz.

Taí, essa é a parte que mais me faz falta (aquilo maravilhoso é au concours, não se discute) em ser acompanhada, esse mimo. Quando a gente se vê sozinha, se descobre capaz de independências inimagináveis antes. Faz seu café, joga seu lixo, carrega peso, mata a barata, percorre a cidade inteira. São minhas coisas, minhas escolhas e se num dia eu marquei dois compromissos, cada um num período diferente do dia, em lugares opostos da cidade e cada um deles mais de uma hora e meio de ônibus da minha casa, a escolha é toda minha. Se gasto demais ou de menos, se corro riscos, se decido que é demais gastar em tintura de cabelo e de menos gastar num curso, eu eu eu eu. Mas eu sinto falta desse se importar gratuito, de alguém que seja capaz de pensar e agir quando não estou em de. Que se preocupe, mesmo que não faça diferença.

O cachorro passa bem.

Paliativos

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Vi uma vez um desses programas americanos sobre taras estranhas, e o sujeito vivia com uma Real Doll como se fosse a mulher dele de verdade, colocava ela pra sentar à mesa, conversava com ela, usavam aliança, etc. O psicólogo do programa, numa atitude que eu achei bastante anti-ética, tentou a todo custo tirar o sujeito daquela situação, mostrando o quanto ela era uma fuga, que uma boneca de plástico é apenas uma boneca de plástico, que o que ele precisava era de uma relação real. A cada tentativa, o sujeito se defendia como podia. No fim do programa, naquelas letras que falam sobre o que aconteceu meses depois, eles avisavam que o fulano não apenas não tinha se livrado da “noiva” como tinha adquirido mais duas.

Passei uns dias bem pra baixo, carente, consciente de que as coisas não estão tão redondas, querendo amar e ser amada. Adivinhem o que eu fiz: entrei para o tinder, resolvi dar chance a um pretendente, liguei para o ex? Não, aumentei o número de pelúcias na minha cama.

Solitária

Não precisava saber de tudo, como eu sei, pra adivinhar que ela tem passado os dias deprimida. A cara, as roupas, os gestos, o sumiço, tudo denuncia que as últimas semanas não foram fáceis. Há um certo momento que dizemos para nós mesmos que não dá, que é preciso fazer as coisas, então voltamos a fazer as coisas. Mas isso não quer dizer que estamos felizes, é apenas uma desistência da própria vontade de sumir. Era nesse momento que ela estava. Eu tento poupá-la da obrigação de ser gentil comigo e me dar carona e não consigo. Ela é gentil demais para se negar e eu diria até que esse é um dos seus problemas. Eu sei até o que ela acha que não sabe, porque as informações acabam chegando nos meus ouvidos sem que eu mesma busque. Durante todo trajeto, completo os silêncios: falo do meu telhado, das minhas vendas, dos meus projetos, minha da última apresentação… Céus, como as pessoas me suportam? Antigamente quem sabe que lhe dissesse para pararmos em algum lugar e que ela falasse. Mas atualmente, diante das minhas amigas que sofrem por amor, me sinto como ouvi de um estudante de medicina: “Eu detestava plantão de pronto socorro. Chega uma pessoa que sofreu acidente de carro e ela está tão quebrada, mas tão quebrada, que você não sabe o que fazer primeiro. Do dente ao dedinho do pé. Você não sabe que trata da perfuração do pulmão, da fratura exposta no fêmur, da parada cardíaca…”. Eu não sei o que dizer, não sei como reagir diante de minhas amigas com mais de trinta e que nunca namoraram. Não sou dessa geração de amores líquidos, a minha variava menos. Eu poderia arriscar uma lista de “defeitos” que atrapalham a vida amorosa delas mas, ao mesmo tempo, também não acho que quem está namorando seja tão mais perfeito. Sem dizer que eu acho que ninguém ouviria conselhos amorosos de alguém que não tem se mostrado hábil para arranjar alguém. Mas a minha solidão é diferente, ela não me dói. Não sei se por eu ter a segurança de um dia ter sido a escolha de alguém ou se por me ver sozinha há pouco tempo – o que quereria dizer que o desespero não me bateu por pura questão de tempo. Talvez não haja o que dizer. Se estivesse nas minhas mãos, eu lhes jogaria namorados como confetes, até todas ficarem felizes. Ao invés disso, penso em Eleanor Rigby.

À porta

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Estava eu debruçada sobre as grandes questões da minha existência, um corvo literário escravizado pela inspiração. Há dias vivo apenas de sódio, carboidratos simples e solidão. Ouço baterem à minha porta. Foi a segunda vez na manhã, na primeira foram duas crentes. Na segunda, me surpreendo em ver um carro preto de portas abertas estacionado na frente do meu portão e, de pé, um rapaz com pouco mais de vinte anos, jaqueta de couro, barbudo e muito bonito me chamar pelo nome. Antes de me dar conta que é o rapaz que faz a ronda noturna no bairro e veio cobrar minha mensalidade, meu cérebro tem tempo de se perguntar: Eu fiz conta no Tinder e não estou lembrada?

Curtas sobre Fal e Karnal

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A sessão de curtas, que vocês tanto amam, é inspirada na Fal. Tô contando porque olhando assim ninguém diz, Fal é outro nível.

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O último post dela me tocou tão fundo, me deixou tão triste. Primeiro:

Senti uma imensa, imensa falta de ter pra quem contar isso. Entende? De poder ligar e dizer “checa na Ilustrada a figura que Maliu ama!”, e do outro lado ter alguém que também tremelique de rir e comente “Ê, Maliu é chegada num bicho grilo!”. Sinto imensa falta de Alexandre o tempo todo, mas nessas horas chega a doer.

Claro que as pessoas que querem bem a ela -e que são muitas – correram pra dizer que podem ligar pra elas. Mas eu entendi, não dá pra ligar. Não aquele telefonema.

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O outro ponto: “Há algum tempo, um cara me atacou forte, covarde e malvadamente por eu ser só. A única coisa que ele tinha contra mim era minha solidão.” Não tenho o que falar.

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Teve um dia, no tempo que o blog tinha até comentário, que eu fiz um post citando a Fal. Aí uma colega de faculdade me mandou um e-mail, dizendo que o meu blog era tão grande (queria eu!) e o dela tão pequeno, se eu não poderia recomendá-la aos meus leitores. Juro que tentei. Fui lá ver e tinha um monte de posts espíritas. Aí expliquei que tinha que ser espontâneo, que o dia que eu falasse de algo que tinha a ver com que ela tinha postado, eu a citaria. Nunca mais falou comigo.

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Leandro Karnal disse que acorda cinco da manhã, super bem disposto. Minha reação foi a mesma do Clóvis, achei um crime. Hoje, depois de semanas, finalmente pude acordar e tomar meu café com os pés pra cima enquanto ouvia música. Isso me fez tanta falta que não sei nem explicar. Acho que passei a entender o Karnal.

Uma ponte

A Suzi me enviou o link no final da tarde ou à noite, lembro que não tinha tempo para ver. No dia seguinte, vejo a mesma recomendação no blog do Charlles. “Nossa, deve ser bom mesmo!”. Aí, quando pude, sentei confortavelmente e vi a entrevista inteira do Leandro Karnal. Sobre o conteúdo, deixo vocês se deliciarem sozinhos. Eu já tinha visto o nome dele aqui e lá, e terminei a entrevista fã. Este post quase foi sobre o quanto o documentário sobre a Vivian Meyer e um amigo parisiense desajustado que Paul Auster descreve em O inventor da solidão me tocaram. Eu estava para dizer que, tal como eles, também me sinto presa ao mundo produtivo por uma linha muito tênue. Depois vi uma frase da Kahlo, que ela diz que se sentia uma estranha, e que depois descobriu que outros se sentiam também, então que vissem o trabalho dela e soubessem que não estavam sós. Foi nisso o que a entrevista do Karnal me serviu como bálsamo: eu não estou só. O mundo não é só ódio e histeria. Existe espaço para a inteligência, a cultura e o bom senso.

Aparelho, crush e solidão

te creo

Logo depois de colocar o aparelho, olhei meu reflexo e disse que estava horrorosa. Meu ortodontista defendeu seu trabalho e disse “ah, não fala assim!”. Talvez, de tanto colocar aparelho, ele consiga ver beleza em dentes metálicos. Já eu sentia minha boca enorme, obstáculos, coisas em lugares que até meia hora e dez anos atrás estavam lisas. Eu ainda era aquela, lisa. Coloquei massinha pra dormir, xinguei muito no twitter, economizei sorrisos. E por força, há tantos dias sem nunca ter trégua na sensação, sem poder tirar e nem me recusar a continuar, tenho deixado pouco a pouco de ser quem eu era. Durante quanto tempo a gente consegue resistir e guardar algo que não está mais lá? Falo mais do que um sorriso branquinho – falo do calor, dos assuntos, dos objetos, das expressões nos olhares novos e antigos. Estou falando da vida que muda de forma contínua e em todos os detalhes. Quando estamos infelizes queremos correr, correr, correr. Corri, consegui, agora estou em outro lugar. Nem melhor e nem pior, outro. Aí me pego segurando as lembranças como quem atravessa uma piscina com um papel na mão. Eu não sei mais o que é estar acompanhada. Eu desligo o alarme de manhã, eu apago as luzes da casa à noite. Imito os uivos da Dúnia quando vou encher o pote de água, como diante do computador, verifico os risquinhos na bateria do celular, carrego quilos na mochila em viagens de ônibus pela cidade inteira, em qualquer horário. Um dia não foi assim, eu me lembro; quando eu tinha outro nome essa casa tinha mais gente, eu não conseguia dormir sozinha e comentava em voz alta qualquer coisa interessante que via na internet. Um dia meus pés foram bonitos, meus cabelos enroscavam e a minha pele era macia. Hoje não sei. Olho para essas lembranças e… vai ver que são apenas implantes de memórias, igual dos replicantes. Eu me pergunto qual o ponto de querer um homem. Fora o hábito da carência e da programação feminina, fora o sexo, qual o ponto? Fui acusada de não querer realmente nada com ninguém, senão teria tentado me aproximar do crush. Um crush que nunca esteve longe, em nenhum sentido. Não nego. Agora ele está com namorada e “Olha a prova de que eu não tinha chance, quem gosta de uma perua dessas jamais gostaria de mim!” – digo com a certeza de quem se vê no lado oposto às peruas. Mas qual lado é esse, o que um homem buscaria em mim? Nunca soube direito, nunca fui boa nisso. Eu era recém-formada e morava com a minha mãe a última vez que essa questão se apresentava. E achei, quando me casei, que essa questão estaria resolvida para sempre. Eu me desacostumei em ter quem se importe com os meus horários, me veja nos fins de semana e se apresente como algo meu. Eu estou tão só – às vezes isso é flutuar, às vezes é não existir. A vida tem trocado todas as células e os objetos de quem eu fui, nos mínimos detalhes, até nos que ainda amo. Minha solidão é dor e é incômodo, mas também é meu berço, meu alimento, meu cobertor. Carrego comigo galáxias, desenho em nuvens, choro e sorrio pro vento, à espera de saber o que fazer com tudo isso.

Sou a minha própria paisagem

“Sou a minha própria paisagem; assisto à minha passagem, diverso, móvil e só”

Alberto Caieiro

Vejo todo mundo tão doido para ser acompanhado que as pessoas não percebem o quanto relacionamentos dão poder ao outro. Jogo para o extremo: psicopatas são tão livres e cruéis porque não existe nenhum outro. Ninguém me deixa eufórica, mas também ninguém mais me joga no chão. A ansiedade de ter alguém é um sofrimento; depois, em relação, as alegrias podem vir tão raras quanto um caça-níqueis. Já eu tenho feito tudo a que me proponho.

Pequena

Venho me sentindo pequena. Tenho me sentindo uma pobre mulher, uma pobre divorciada, uma pobre solitária e pobre mulher. Tenho desejado um homem, sim, aquela frase – quem dera tivesse agora um homem pra ir lá e cuidar disso pra mim. Um homem com sua força arquetípica de homem, uma voz trovejante e uma agressividade natural. Tudo o que em mim é vontade de chorar, nele seria força para agir. Porque tem horas que ser frágil e feminina nada mais são do que defeitos. Eu sou tão pequena, tão mulherzinha, tão só. Preciso do oposto, onde ele está? Quero me enrolar como semente e voltar para terra enquanto um homem briga por mim.