Tripé

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Sabe quais são as notas musicais? Dórémifásollásidó, você disse aí do outro lado, do jeito que eu escrevi. É quase como se fosse uma musiquinha. A não ser que você seja músico, você só sabe o que vem antes do Si se recitar a musiquinha toda. Hoje eu falei, depois de muitos anos MarxWebereDurkheim. A ordem correta, se for pensar em termos cronológicos é: Durkheim, Weber e Marx. Mas a minha musiquinha é invertida, não sei o motivo. MarxWebereDurkheim são os três autores fundamentais da sociologia, são o tripé, os três porquinhos, os três pilares fundamentais- defina como quiser desde dê a eles o mesmo status. Você terá que saber o nome deles se alguma vez na vida se meter com sociologia, nem que seja de raspão. Se um dia alguém tiver que falar de sociologia e se dispor a ter apenas uma aula na vida, nesta uma aula tem que ter MarxWebereDurkheim.

Talvez a luz vermelha já tenha acendido do outro lado da tela, e o leitor horrorizado pensou: “mas quando você diz Marx, você quer dizer… Marx, aquele Marx?” Sim. Ele não é importante apenas na política ou apenas na economia, e estou falando “apenas” de forma irônica. Quer goste ou não do que ele disse, o mundo não foi mais o mesmo depois que ele escreveu. Ninguém entendia direito de onde vinha o lucro antes dele, achavam que era só das máquinas. Funcionários revoltosos quebravam as máquinas, achavam que estava ali o problema. Revoluções foram feitas em torno das ideias de Marx. Teorias contra, teorias à favor, sistemas de governo, perseguições. É usado como xingamento, como elogio, inspira discussões até hoje. Querer ser puro de Marx é como achar que passar álcool nas mãos te deixa sem bactérias, sendo que elas estão em toda parte e a vida nem seria possível sem elas. Ideologia, lucro, exploração, mercadoria, fetiche, concentração de riqueza – as pessoas usam conceitos marxistas o tempo todo sem saber. Influenciar a história da humanidade é um privilégio para poucos, e Marx faz parte desse seleto grupo.

Uma amiga minha, professora de Sociologia, vai ter que se explicar no colégio onde dá aula de sociologia o porque de ter Marx na ementa da disciplina. No aguardo do dia que vão decidir que as crianças devem aprender apenas a somar, diminuir e multiplicar, sem dividir. Dividir é muito subversivo.

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Ideias perigosas e sedutoras

Adolescentes e mini adultos são uma raça difícil de lidar. As mesmas crianças correm na sua direção pra ganhar um abraço, poucos anos depois estão no sofá e desejam que você nem olhe para a cara delas, porque elas não olharão para a tua. Os critérios deles pra gostar de alguém às vezes são tão misteriosos como códigos de erros no Windows. Mas, no entanto, contra tudo o que normalmente estes seres são – implicantes, independentes, resistentes, prevenidos contra qualquer tipo de autoridade -, bastam alguns autores malvados esquerdistas e eles estão seduzidos e dispostos a pegar em armas. Precisam ser protegidos de tão sedutoras palavras, caem direitinho na conversa, aderem rapidamente, se vêem prestando atenção e querendo mais.

Sério mesmo que este tipo de descrição estranha não te faz morrer de vontade pra ver o que diz o tal do Paulo Freire, o tal do Manifesto Comunista? Num mundo que reduz informações a memes, quando muito a um documentário, que canto da sereia é esse capaz de converter justamente os seres humanos na sua fase mais insuportável? Tem que ver isso aí, tem que eliminar os intermediários e provar também. Ou o medo é aderir também?

Obs: minha intenção era postar o Capítulo 2.1, que é tão bonito e profundo. Pretendia com isso quebrar a resistência e dar ao leitor a vontade de conhecer mais. Ao mesmo tempo, entendo que se proteja a sequência da série porque ela é um raciocínio que vai num crescendo. Mas fica minha sugestão.

 

 

Guerra ao conhecimento

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Eu estava lendo um grupo no facebook onde quase todo mundo tem pouco escolaridade e escreve errado. Para quem recebeu uma boa alfabetização, ler “licoeso” (lhe conheço), “sintrome tital” (síndrome de Down) ou “conselho do telar” (conselho tutelar) é tão surpreendente que nem se quiséssemos poderíamos inventar essas palavras. Uma vez corrigiram quem escrevia assim, e a resposta foi: lá vem humilhar a gente.

Quando vejo movimentos coletivos, procuro sempre ver quem é a pessoa comum que está recheando as estatísticas. Eu vejo nas pessoas que se sentem humilhadas em terem seu português corrigido aquelas que têm recusado o saber científico, que preferem acreditar nos seus próprios olhos pra dizer coisas como que a terra é plana. Eu penso na pessoa que nunca vai escrever direito porque não teve uma boa escola, e saber se certas palavras são com S ou Z é que muito (apesar da pronúncia) não se escreve “muinto”, é apenas uma questão de ter oportunidade de entrar em contato com a palavra escrita desde cedo, e ela realmente não deveria ser diminuída por isso. Penso nas muitas faxineiras que ouço no ponto de ônibus, espertíssimas, e que são vistas pelos seus patrões como qualquer coisa porque fazem trabalho braçal. Ou nem preciso pensar em exemplos extremos: penso em mim mesma, quando fazia faculdade, e era um nojo na minha pretensão e sapiência. Se eu entrasse em contato com a Eu daquela época, também teria vontade de dar umas bolachadas. Hoje conheço muitos doutores – alguns até com doutorado – e que nem por isso deixam de ser completos idiotas. Alguém tirar de algo externo um motivo pra se achar melhor do que você é muito irritante; não passo isso com relação a escolaridade, passo por ser mulher. Quanto mais fatores que servem de pretexto pros outros te desvalorizarem – escolaridade, sexo, raça, orientação sexual, etc -, pior.

Mas, por mais que eu reconheça que existam motivos pra mágoa, não dá pra apoiar uma cruzada contra escolaridade. Se formos levar essa ideia à sério, se o sujeito aprender as quatro operações e a assinar o nome está tudo bem. Conhecimento de vida e conhecimento escolar não se opõem. Educação e conhecimento – nada disso deveria ser colocado num pedestal. Acho que, na nossa realidade, tudo acaba ficando misturado: elite branca, escolarizada, racismo, pouca mobilidade social, opressão econômica. Aí a mágoa também mistura tudo, e acontece aquela história de jogar o bebê fora com a água do banho. Mas a elite apenas “sequestrou” o conhecimento; em si, o conhecimento é o que temos de mais precioso enquanto humanidade: ele é a capacidade de passar adiante o que aprendemos, mesmo quando não estamos fisicamente presentes. O cara que escreve errado e a faxineira também têm o que dizer, e é justamente a dificuldade de lidar com as normas que os silencia. Conhecimento é instrumental, é poder. Então não, não pode escrever de qualquer jeito e quiser é com S mesmo. Não dá pra ser contra conhecimento, achar que o que eu vejo/sinto vale mais do que o que está nos livros, estudos e satélites; achar que a Bíblia ou qualquer livro sagrado explica o mundo; tirar vaga de universidade e investimento em pesquisa, ignorar os especialistas. Sabe aqueles pais que ganhavam pouco mas faziam questão de colocar os filhos na escola, apesar de todas as dificuldades, pra eles serem alguém na vida? É isso que temos que fazer enquanto país.

Astrologia e tudo mais

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Dia desses estava num bate papo animado on line, o assunto foi para signos e comecei a dar uns pitacos nos mapas das pessoas. Olhava o desenho e falava o que havia me chamado atenção. Foi a primeira vez na vida que li o mapa de outra pessoa – tudo o que sei de astrologia tenho usado para consumo próprio. Aqueles cujo mapa eu li se impressionaram com minha precisão e mesmo quem não foi analisado achou que sei muito. Uma me perguntou, reservadamente, se eu conhecia algum curso on line de astrologia. Eu lhe indiquei o livro que li a vida toda – Curso Básico de Astrologia. Em casa chamávamos de O Livro Rosa. Os aspectos de cada um estavam marcados com uma bola colorida no canto. Até hoje, quando releio, percebo que sei os trechos de cor. A pessoa que queria curso me perguntou, eu respondi, ela me agradeceu e o assunto encerrou. Mas o que eu teria a dizer, sobre qualquer livro ou curso, sobre astrologia ou misticismo, ou escrever, ou o que minha professora de flamenco fala sobre flamenco, ou quem sabe mais o que na vida e o que há sob o céu: a coisa vem com o tempo. Cresce com você, se mistura com quem você é, amadurece com a sua maturidade. Há o que você leu e só entende profundamente depois, há o que não está escrito e nunca estará escrito e vem, como uma verdade que se revela. Quando a gente descobre isso, deixa de sofrer e até mesmo gosta do que não vem de primeira.

Borboleta

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A cada ano que passa, a lua se afasta cerca de quatro centímetros da Terra. Os movimentos da maré tem tornado o movimento de rotação alguns milésimos de segundo mais lento a cada ano, o que num efeito acumulativo fará com que no futuro o dia passe a ter um pouco mais do que 24h. A Via Láctea é muito próxima da galáxia de Andrômeda e a lenta aproximação das duas fará com que a gravidade as atraia, misture e forme outra galáxia. Quando a gente começa a ver documentários científicos, percebe que o rio nunca passa duas vezes no mesmo lugar até mesmo num sentido bem mais amplo e profundo; as medidas do universo são tão vastas que nos fazem pensar que apenas nós mudamos, que o tempo e o espaço que nos cercam continuam sempre o mesmo, o que não é verdade. A gente acha a vida da borboleta, que dura uma semana, um nada, mas nós em relação às estrelas somos ainda mais fugazes. Eu me pergunto se a borboleta no quarto dia sente que as suas asas já não são tão leves quanto no primeiro ou se entre o nascer e o pôr do sol acha que o tempo se arrasta.

Maja nua

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Eu fiquei umas seis horas lá dentro, nunca mais repetirei a experiência. Não se pode dizer que eu vi tudo porque uma das funcionárias fez o favor de me informar que as salas que estavam fechadas eram nada menos do que dos pintores italianos. Pouca coisa, o que tem pra ver de pintores italianos? Ela me tranquilizou dizendo que no dia seguinte estariam abertas, mas aí eu que é não estaria mais lá. Sei que chegou uma hora que eu entrava na sala e sentia engulhos, como se toda aquela beleza começasse a me fazer mal. Quando cheguei na sala de Goya, num segundo andar, já era esse o meu estado de espírito. Olhei para as Majas porque mesmo inculta do jeito que eu era – e quem não o é aos vinte e um? -, eu sabia que aquele era um clássico. Fui até a loja do museu doida para comprar alguma coisa, qualquer coisa, não poderia deixar aquela experiência passar em branco. Mas era tudo tão caro! Lembro até que tinha chocolate do quadro As Meninas de Velázquez. Eu já colecionava marcadores e quis comprar as duas Majas, ia fazer um belo conjunto ter a versão vestida e nua. Mas era tudo acima do meu orçamento, mesmo os marcadores, e naqueles últimos dias de viagem a escolha não seria nem entre comer e não comer e sim ter ou não dinheiro para ir até o aeroporto. Então comprei só uma, a nua.

Duas meninas do flamenco fizeram pós na Espanha e estudaram a história do flamenco com um grande especialista, e a pedido da nossa professora elas nos ofereceram uma série de palestras. Falaram do nascimento do flamenco, que demorou para ser conhecido apenas como uma dança e ficar do jeito que conhecemos hoje. As dançarinas que dançavam o que hoje é o flamenco, junto com trupes, ciganos, cantando e dançando, eram as Majas. Era uma figura folclórica que foi incorporadas até em balés românticos, sempre representada por uma morena de temperamento difícil, jamais a mocinha. Eu demorei pra relacionar essas figuras à do marcador, porque as meninas falavam a pronúncia em espanhol – “marras”. Não precisa ir muito longe para saber que numa época onde o balé nascia na Europa, com pulinhos e babados, mulheres-majas movendo suas cadeiras, batendo os pés com força e brincando com a saia não fossem bem vistas, e fossem consideradas prostitutas. Então, por dançar flamenco, também eu posso ser considerada uma maja – ou pelo menos uma descendente delas.

A Maja, minha maja, me faz pensar em três tipos de nudez. A primeira e mais óbvia é a do corpo. A segunda, dos meus textos. Tenho me exposto continuamente e dá para me conhecer através do que eu escrevo não apenas pelas histórias e pelo que digo, mas também pela repetição dos temas, do que omito, da forma como manejo as palavras. Tenho me feito despir no que escrevo no meu twitter, nas brincadeiras que compartilho no meu facebook, pelas piadas com os amigos, pelo que escrevo privadamente. Pra mim, durante muito tempo, nudez era isso. Agora sei que há uma terceira, algo que nem consideramos nudez por estar tão acessível a muitas pessoas, diariamente. Hoje passei o dia inteiro fora, peguei vários ônibus e cruzei com muitas pessoas na rua, e a qualquer uma delas tinha acesso à minha aparência e os meus gestos. Num olhar é possível adivinhar o humor, os valores, a vida de alguém. Cada um tem um gesto mais significativo, que para uns pode ser a maneira como se inclina na cadeira e presta atenção com os olhos apertados, como segura um cigarro (caso fume), se joga a cabeça para trás na gargalhada ou a inclina para frente balançando a cabeça. Há algo de revelador que só a presença física pode dar, só o olhar, a energia, o contexto, o estar presente naquele instante. Radicalizando essa nudez, há a sensação dos dedos passando suavemente pelos cabelos, o cheiro da pele mais escondida, o efeito da voz sobre os tímpanos e o coração. A gente passa por várias pessoas diariamente, as lê sem querer e logo depois esquece. A nudez só impacta quando é desejada. Das três – é muito interessante se dar conta disso – a terceira é a única sobre a qual não se tem controle. É uma nudez que nada importa ou tudo importa, e como dói quando simplesmente não pode ser.

Mais prazer

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Todo mundo sabe que pra manter o cachorro comendo ração, nunca devemos dar comida normal para ele. Baste que prove uma vez a comida cozida pra que ele nunca mais se contente com aquelas bolotas secas e de sabor uniforme. Do mesmo modo que você pode se mudar de um apartamento pra uma casa grande com quintal, nunca o contrário, sob o risco de matar o cachorro de depressão. Na escala humana isso corresponde a empobrecer – nossas escolhas ficam limitadas ao dinheiro e um universo de coisas passam a existir apenas para os outros, embora ainda as desejemos. A mulher tinha que ser virgem antes de casar pra não ficar “estragada” e esse estragar nada mais é do que saber um pouco mais do seu corpo e do que ele pede. À mulher que não sabia de nada disso, o marido poderia oferecer o que quiser que estava bom; com a mulher experiente, é arriscado e é preciso se empenhar mais. Envelhecer nos retira potência e olhares; quanto mais isso foi importante, mais dói, mais a pessoa se recusa. Grandes leitores são difíceis de agradar, cada vez mais conhecedores dos mecanismos de escrita, cada vez mais famintos por mecanismos sofisticados. Até mesmo quem tem acesso a um grande professor, quando o deixa, fica na situação difícil de não conseguir ser mais aluno de ninguém. Quem experimenta o amor, aquele grande e marcante, nunca mais quer um mais ou menos. O prazer é a grande força que nos tira da caverna e transforma em sombra tudo o que não faz parte dele.

Duas curtas sobre costura

Teve vezes que eu tive vontade de chorar na frente da máquina. Um servicinho fácil, que numa reta levaria uns dois minutos, levando pelo menos dez. Era costurar um pouco na agulha dupla e as linhas embolavam, pulavam pontos, arrebentavam. Aí eu tinha que parar, passar o fio de novo, voltar mais um pouco. Dá mais trabalho e o acabamento fica ruim. Quis chorar de raiva e de impotência. Pensei em comprar uma galoneira de uma vez. Aí fui percebendo que acontece só na linha de fora, e só com os tecidos muito macios. Ou seja, eu teria que usar uma agulha mais fina. Na prática não dá, porque ela quebraria nos pedaços que as costuras se encontram. Agora continuam acontecendo as mesmas coisas – a linha arrebentando, embolando, pulando pontos – mas eu estou tranquila. Não mudou nada, a dificuldade continua a mesma. Ser humano é um bicho que precisa entender.

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Eu estava costurando e me veio o medo. E se eu fracassar? E se tudo isso que eu comprei, o CNPJ, o site, enfim, se tudo acabar não dando em nada? Ah, meu outro lado pensou, taí uma coisa impossível de acontecer, eu fracassar costurando. Leela, leela! Esse conceito diz que a vida nada mais é do que um jogo, uma festa do espírito, que ele se envolve e logo abandona. Não existe ganhar ou perder, existe apenas o jogo. Aprendi uma habilidade que me deixa tão feliz, tão independente. Conheci um mundo novo, pessoas novas, uma nova forma de alegria. Mesmo que ninguém comprasse mais, ou que eu nunca mais precise vender, continuarei costurando pra mim. Vida é leela, costurar é leela, vida é costura.

Para conhecer alguém

Eu e a Luzia já trabalhávamos juntas, pelo menos, há um ano. Íamos realizar aquela que seria minha primeira exposição de esculturas, uma exposição coletiva na Rosa Cruz. Eu e ela exporíamos esculturas em resina com pó de mármore. Um problema comum a todo escultor é a questão do acabamento. Fazíamos a peça no barro, molde o mais fiel possível, preenchíamos com o material e na hora que a peça sai do molde ela sempre tem bolhas, rebarbas, marcas de molde. E o tal do acabamento pode salvar ou acabar com uma peça. Lá no atelier nós tínhamos uma cultura de lixas, de achar que pintar a peça a empobrecia. O grande lance era lixar, tampar os buracos que a lixa fizesse aparecer e lixar de novo.  Dava um trabalho do cão, especialmente nas minhas peças super detalhadas.

Alguém nos sugeriu fazer um jateamento, tal como se faz em vidro. A exposição se aproximava e estávamos desesperadas. Ela levou uma peça e eu levei outra. Explicamos para o sujeito, dissemos a numeração do jateamento que queríamos e voltaríamos em poucos dias. Quando voltamos, o jateador estava muito orgulhoso com o trabalho que ele havia feito. Era um homem que só jateava vidros, então ele se empenhou pessoalmente naquela tarefa. Quando ele trouxe as peças de volta, a da Luzia parecia um queijo suiço e a minha, que era grande, ostentava as marcas do jato, como se fossem grossas pinceladas. Depois a Luzia contaria a história dessa forma:
– O cara veio todo orgulhoso com as peças, que ficaram um lixo. Quando a Caminhante olhou para a peça dela, dava pra ver a decepção no olhar. Achei que ela ia fazer um escândalo, protestaria, brigaria com o sujeito, pediria o seu dinheiro de volta. Mas a Caminhante se limitou a agradecer e pegar a peça de volta. Nesse momento eu entendi quem ela é.

Eu não gostei nada dessa conclusão. De tantas coisas que havíamos vivido juntas, tantas risadas, tantos desafios, tantas conversas, e ela achou que minha personalidade foi desnudada por uma momento tão… pouco viril. Eu teria escolhido outros, eu teria me descrito de outra forma. Teria citado, quem sabe, quando fiz uma peça maior do que eu e a concluí sozinha, ou quando me dediquei até o fim pra terminar aquela encomenda, ou o dia o fato de que tiraram onda com a minha cara por ser tão mais nova e pouco a pouco conquistei o respeito de todo mundo. Se me pedissem uma seleção dos meus momentos, como uma grande apresentação, esses seriam eles. Mas a verdade, a grande verdade, é que o que somos não está contido no que dizemos, no que gostaríamos, no que exibimos, enfim, na personalidade domingueira. Uma pessoa se revela quando recebe um serviço mal feito, leva uma invertida de um amigo, faz mais um esforço quando está exausta, é pega de surpresa, precisa decidir rápido, disputa uma vaga, esquecem de trazer a sua comida no restaurante. A personalidade de quando tudo está sob controle às vezes sugere o que está embaixo, às vezes é completamente ilusória. Somente um grande momento simbólico e não programado pode nos revelar alguém. Pode ser algo grande, um gesto heroico que muda uma vida; pode ser uma reclamação que não foi feita. Mas, até que aconteça, não conhecemos realmente alguém. E sem conhecer uma pessoa não podemos ter certeza de amá-la.

Conhecimento prático

Não gosto de tomar remédio. Sou daquelas que usa spray de própolis quando a garganta dói. Não sei se é porque fui criada com homeopatia, mas os remédios mais comuns me dão péssimas reações adversas. Uma vez tomei um antibiótico – desses que todo mundo tem na gaveta – e tive a pior enxaqueca da minha vida. Ao mesmo tempo, não tenho o conhecimento das nossas mães e avós a respeito de chás, ervas, alimentos, coisas naturais. Não tenho chá em casa, só o Matte Leão. Não tenho nenhuma planta útil, nem de tempero. Nunca sei o que tem que tomar, aplicar, jejuar. Fui querer comer uma coisinha leve e comi atum em lata, na água, mas pelo jeito meu fígado não concordou comigo. Falando nele, foi só dizer que estava passando mal e minha sogra – aquela de quem não canso de reclamar – me mandou tomar um chá boldo ou de erva-doce. Melhorei um pouco, não sabia o que comer, e com medo de passar outra noite com dor, liguei pra minha mãe pra ela me dizer o que posso comer e durante quanto tempo. Seguirei com o rigor dos que temem o inferno. Quando a geração delas se for, o que faremos nos momentos de crise?

Mundo encantado

Os chineses, provavelmente por causa do Feng Shui, acreditam que é mais auspicioso (adoro essa palavra) entrar o ano com uma limpeza profunda na casa. Não uma arrumadinha básica para receber os convidados, e sim limpar tudo. Vi imagens de chinesas passando pano na parede da fachada de casa. Para o Feng Shui, sujeira e desorganização são energia estagnada. Se você consegue limpar e se organizar, o shi flui mais livremente e a vida fica melhor. Quando minha casa está limpa e consigo separar muitas roupas para doação e papel para o lixo, sempre olho orgulhosa para o meu feito e sinto que a minha vida vai melhorar, que coisas novas e boas ocuparão o lugar das coisas velhas e ruins.

Os céticos dirão que limpeza de ano novo é besteira, que a própria idéia de uma vida nova no ano novo é besteira. Realmente, é só um número a mais que colocamos no calendário – e não é. Todo mundo em volta repensando o que fez nos últimos meses, planos sendo refeitos, festança com a família, tudo querendo dizer que aqueles dias não são iguais. Se não fosse, agora é. Eu já passei da fase de negar meus sentimentos para parecer “científica”, ainda bem. Essas coisas me fazem pensar o quando deve ser chato ter uma posição negativa para sustentar. Como vou olhar pra saia que finalmente separei pra doação – a saia que adorava usar anos atrás e hoje me pergunto se é adequada pra minha idade- e achar que decidir me livrar dela não é nada? Ou achar que tudo ficará igual depois de jogar quilos e quilos de textos sociológicos, porque finalmente assumi que jamais precisarei deles? Que o ambiente todo limpinho e cheiroso não fala coisas diferentes sobre meu presente, sobre meu futuro? Acho isso uma desconsideração consigo mesmo. Estudos psicológicos indicam que existe uma relação entre acumular objetos e engordar, desacumular e deixar as coisas fluírem – mas precisa ser tão chato e só acreditar porque saiu numa revista científica?

Igualmente sem graça são os crentes, porque nas escrituras sagradas eles (acham que) têm resposta para tudo. Lembro do dia que estava encantada com os versos de Cecília Meireles – O vento voa/ a noite toda se atordoa/ a folha cai/ Haverá mesmo algum pensamento/ sobre essa noite? sobre esse vento?/ sobre essa folha que se vai? – e fiz a besteira de recitá-lo perto de uma católica. Ela respondeu com uma certeza criminosa de quem resolve um assunto: Sim. Foi aí que aprendi uma importante lição: quando algo é profundo demais, quase nunca pode ser compartilhado. Transformar certas coisas em palavras é se arriscar a corromper. Se vale para todos os momentos, se vira regra, se podem ser citados muitos tratados e filósofos e existe até esquema pra resumir, é porque a coisa em si se perdeu há muito tempo.

Prendas domésticas

A minha vó sabe costurar, e acho que todas as avós, até uma certa geração, sabiam. Assim como todas as mulheres sabiam bordar, ariar panelas, fazer faxina, cozinhar e outras tarefas identificadas como femininas e domésticas. Minha vó, aprendeu quando jovem, com um alfaiate (parece que alfaiates têm seus segredos), pra ter uma profissão. Quando casou, passou anos sem precisar se preocupar com dinheiro. Quando meus tios já estavam adolescentes, o dinheiro diminuiu e a costura foi útil pra ajudar no orçamento. Saber costurar sempre deu essa liberdade para as mulheres. Só que a revolução feminista veio e as mulheres não educaram mais suas filhas pra isso. Como o nosso futuro era conquistar o mercado de trabalho, transformar o mundo em algo mais unissex, às gerações seguintes esse conhecimento não foi passado. Minha mãe e minhas tias não sabem costurar. Eu até tentei. Faço minhas coisinhas, prego botões, mas quando preciso de uma barra bem feita levo lojinha de costura de shopping. Sempre acho caro, porque é algo ridiculamente simples – leva poucos minutos, eu já vi minha vó fazer. Mas eu prefiro não arriscar e pago. E lamento muito não ter aprendido o currículo básico de toda mulher antiga.

***

Eu me orgulhava de não cozinhar. Casei sabendo fazer um arroz básico, feijão básico e purê de batatas básico. E dá pra dizer que desaprendi tudo, em favor de comer coisas mais gostosas. Do namoro ao início do casamento, eu e o Luiz engordamos bastante, porque adorávamos comer fora. A caminho de casa tem um shopping, então imaginem o estrago. Teve época que íamos lá todos os dias. Lembro de olhar pra praça da alimentação meio enjoada, porque já tinha comido de tudo. Aí quando tomamos juízo e resolvemos comer mais em casa, o Luiz é que passou a cozinhar – e ainda cozinha, quando estamos os dois. Ele é daquelas pessoas que faz um sanduichinho qualquer ficar saboroso. Tudo isso fez com que eu ficasse igual criança, que vê a geladeira cheia e fica faminta caso alguém não faça comida pra ela. Só recentemente eu passei a ter que comer em casa, sozinha, e cansei da vida de pacotes instantâneos. Passei a pesquisar receitas. Sei fazer umas sopas e umas coisinhas simples que eu gosto. Só então percebi que cozinhar dá uma liberdade incrível. Se bate uma fome repentina eu já sei o que fazer. Acho mágico pegar coisas cruas, juntar, colocar na panela e ter algo totalmente novo e quentinho. Hoje tenho o maior respeito e uma pontinha de inveja de cozinheiros.

Rejuvelhecer

Eu acreditava seriamente que não envelheceria. Como se envelhecer fosse um demérito, uma maneira de encarar a vida. Eu, por ter um temperamento jovem – arrojada, aventureira, fora do convencional – deteria a marcha do tempo. Meu espírito triunfaria sobre o meu corpo e eu seria como uma Pietá de Michelangelo. Minha teoria se mostrou falha em todos os pontos – não sou eternamente jovem por dentro e nem por fora. Quando acordo, a primeira coisa que o meu rosto me diz é que não sou mais jovem. Não pela quantidade de rugas, que ainda não tenho, mas pela qualidade da pele. Na adolescência, minha pele era sempre elogida por ser luminosa, saudável, clarinha, sem manchas. Esses elogios foram rareando e hoje não os ouço mais. Surgiram olheiras que eu não tinha, nunca, a não ser se eu passasse a noite em claro. Algumas partes ficaram mais escuras, umas pintas… Antes, não fazia a menor diferença se a luz era fria, quente, cor de rosa ou hidropônica. Agora, posso ser linda ou manchada, tudo do ambiente.

Só que ao contrário do que eu esperava, não sou um espírito jovem trancado num corpo que envelhece. E não é a passagem dos anos que torna meu espírito mais sábio – é o envelhecimento do meu corpo que tem me levado à maturidade. Se meu corpo não se cansasse mais fácil, eu continuaria abusando dele. Eu continuaria comendo seis pãezinhos por dia, não obedeceria horários, pularia noites de sono, faria de tudo com a segurança de que tudo continuaria bem. Eu continuaria olhando os mais velhos – suas rugas, sua lentidão – como se eles fossem uns fracos. Eu acho que a prepotência da juventude tem tudo a ver como sua beleza, com a potência de um corpo que pode ser fortalecido e alongado, que quebra e se regenera fácil. Meu corpo começa a descer a curva e obriga minha alma a mudar também. O ritmo mais lento dele me fez frear meus impulsos, o cansaço dele me fez eleger prioridades, a fragilidade dele me fez ser cuidadosa. Não dá pra ser a mesma pessoa – ou, pelo menos, é um convite enfático a não ser a mesma pessoa. Acho que a mente sem o corpo viveria uma egotrip perpétua. É o corpo quem nos obriga a olhar para a realidade. Ouso dizer que insistir numa mente jovem é o que nos deixa doentes.

Curso

Estava falando no twitter com a Fal sobre a quantidade de cursos e pós que existem hoje em dia. Que eu meio que soy contra. Primeiro porque acho que tempo em casa, relaxado, também é útil e filosófico. Pra aprender as coisas é preciso tempo pra requentar, olhar para o teto, estar com a família. Depois, porque vejo que muitos desses cursos são apenas papéis, títulos, linhas pra colocar no currículo. Aulas de porcaria para alunos que não estão nem aí pro conteúdo. Pra um idiota qualquer contar a quantidade de cursos e achar que isso prova alguma coisa sobre a vida profissional de alguém.

Aí lembrei de uma história, do tempo que eu fazia psico.

Bem, já disse que entrei no curso de psico pobre e ferrada. Continuando a história, na grade do curso dizia que eu teria aulas de manhã e de tarde, o que não era verdade. Eu tinha aulas à noite também. A cada semestre minha grade horária mudava totalmente e algumas aulas eram na Santos Andrade, outras na Reitoria e no início do curso tinha umas no Centro Politécnico. Ou seja, era semi-impossível arranjar um emprego, porque empregador nenhum tinha saco pra tanta irregularidade. Apesar disso, eu fui secretária uma época. E fiz vários estágios (quase nunca remunerados), do primeiro ao último ano de curso.

Como a maioria das ciências humanas, dá pra dizer que não existe A Psicologia. Existem várias linhas, que partem de pressupostos diferentes, têm objetivos diferentes, que enxergam o homem de maneira diferente. Como é bem típico meu – e só fui descobrir mais tarde -, eu me interessava por tudo e não era capaz de abraçar nada. Porque achar uma linha interessante não me impedia de ver os limites dela e eu simplesmente não conseguia ignorar os defeitos, dogmatizar. O curso ia rolando, as pessoas virando psicanalistas, comportamentais, junguianas, sistêmicas e eu lá, me interessando por tudo e por nada. Algumas coisas soavam bem em teoria e eram ruins na prática, outras tinham uma proposta radical na teoria e uma prática convencional, algumas eram tão difíceis de aplicar que se tornavam inviáveis… Uma das linhas que despertou minha simpatia, talvez por tê-la conhecido através de um autor muito bom, foi a Bioenergética.

Na mesma época que me interessei por bioenergética, duas amigas bem chegadas começaram a fazer curso de formação justamente nisso. Era um curso que durava dois anos e se não me engano tinha um fim de semana por mês de aulas. No final do curso, elas estariam aptas a serem terapeutas de bioenergética. Eu fiquei com vontade mas de jeito nenhum podia pagar o curso. Já era difícil estar na faculdade e me faltava dinheiro até para o xerox. De maneira semelhante, quis fazer curso de Neuropsicologia e não tinha dinheiro, de Psicodrama e não tinha dinheiro, e pra qualquer psico-curso pago eu não tinha dinheiro. E tudo era pago, acredite. Até alguns estágios eram pagos (isso mesmo, o aluno pagava pra ter a honra de fazer estágio). O autor interessantíssimo dessa linha, que servia de base para todo o curso, era Alexander Lowen. Me conformei em não fazer curso de formação, mas eu realmente queria estudar a bioenergética. Pedi para minhas amigas me mostrarem a biografia do curso e li sozinha os livros que estavam indicados.

Um dia, depois de ter lido os livros, fui procurar minhas amigas com uma dúvida. Era uma coisa que o livro não explicava, então imaginei que elas que estavam aprendendo as coisas na prática, de maneira mais avançada, poderiam me responder. Ou perguntar pra algum professor. Até vou reproduzir a dúvida aqui:

– No livro diz que o tipo esquizo têm a parte superior do corpo diferente da inferior, que tanto pode ser cheia em cima e magra embaixo como o contrário. E que no tipo histérico, a parte de cima é magra e a debaixo pesada. Então, como distinguir esquizo com a parte debaixo pesada de um histérico?

Minhas amigas arregalaram os olhos. Disseram que elas não sabiam, que nem tinham se dado conta disso. Que elas não tinham lido os livros, que estavam acompanhando as aulas e o ritmo era do curso era mais devagar. Enfim, que:

– A partir de hoje a gente não vai te contar mais nada. Porque você nem está fazendo curso e já sabe mais do que a gente.

Como eram minha amigas, eu não levei à sério. Imagine, as mesmas amigas que iam comigo até a loja de doces comprar amendoim japonês. As que eu via como irmãs, éramos um grupinho. Mas dito e feito: elas nunca mais falaram de bioenergética comigo. E me esconderam outras oportunidades, ao longo dos anos, para que eu não passasse na frente delas. Em conhecimento e experiência, claro, porque em certificados não precisava. Hoje elas estão bem, obrigada. Uma passou num concurso público e a outra é uma respeitada professora-doutora de duas grandes faculdades.

O óbvio e o não óbvio

Há algo que todos sabem, menos eu. Esse algo é o que busco quando leio horóscopos, eneagramas, grafologia, quiromancia e todas as formas de descrição de personalidade que há. Às vezes essas coisas me satisfazem, mas quando mergulho muito fundo, fico frustrada em imaginar que, no fim das contas, não me encaixo em nenhum 8 ou 12 tipos que existam. Ou que me encaixo parcialmente, com algumas diferenças. E que esses livros nunca me dirão que sutis diferenças são essas.

Quais são as sutis diferenças? Olho para a minha casa, as minhas roupas, os livros que leio, as músicas que ouço. Às vezes a resposta parece estar lá, mas isso também é insuficiente. Porque tudo o que visto, leio e ouço também pode ser enquadrado num tipo. Então, procuro vestir algo que inventei, ler um livro que não existe e transformar em música um som que somente eu goste. Mas, quando consigo algo assim tão único, tão único quanto eu, novamente me perco. Porque não consigo diferenciar essa coisa de mim.

O que as pessoas vêem quando olham para mim? Se não sei o que elas vêem, e todas elas vêem algo parecido, há um segredo a meu respeito que só eu desconheço. Assim como as minhas costas, carrego comigo uma imagem muito clara, que não controlo. Todos interagem com ela e eu a manuseio como um fantoche descontrolado. Nunca sei como meus gestos são interpretados, o quanto algo é sutil, o quanto algo é exagerado. Quando gostam de mim, não sei exatamente do que gostam. Então pergunto o quê, como, na vã esperança de descobrir. Mas as pessoas nunca falam. Porque para elas, é óbvio.

Como fazer alguém gostar de mim, se nem sei quem é esse mim? Eu quero saber, procuro ardentemente saber, mas não consigo. Preciso de alguém que me conte tudo a meu respeito. Que todos falem para mim o que falam de mim quando não estou olhando. Ou, melhor, que falem para mim o que nunca ninguém fala, porque é desnecessário. Como é o meu cabelo, que aspecto eu tenho, como é a minha voz, por que você fala comigo? Quem é essa pessoa que todos conhecem, menos eu?