Um deslize machista

banheiro-wc-vaso-sanitario-privada-1385577307083_956x500

Ele não falou nervoso, como quem exige seus direitos. Falou numa boa, como quem dá um toque. Estávamos vendo TV.

-Eu fui no banheiro e levantei a tampa da privada pra fazer xixi e, olha, tá um nojo lá embaixo.

Não vou falar de como eram os nossos horários naquela época ou descrever meus hábitos de higiene. Vou me limitar a dizer que quem já cuidou de uma casa sem faxineira ou empregada sabe que há altos e baixos.

Ele me falou mais na boa que pôde e eu também fiz meu possível:

-Você poderia simplesmente pegar os produtos de limpeza – que você sabe que estão do lado da privada – e resolvido isso na hora. Mas você acha que a limpeza da privada é tão obrigação minha que preferiu ficar enojado, deixar como estava e me falar na primeira oportunidade, pra aí sim eu pegar os produtos de limpeza e resolver.

Ele ficou sem graça e limpou assim que começaram os comerciais. E acho que fez isso outras vezes.

Anúncios

Curtas de silly face

silly-face

Uma coisa que me aborrece bastante em usar aparelho é a sensação de que o dente nunca está completamente limpo. E levando em conta que por mais que se escove é possível que ressurjam sujeiras de duas refeições atrás, não é só impressão.

.oOo.

Como sou atrasada com séries, só descobri agora a Claire Underwood. Antigamente, correria no salão pra cortar o cabelo igual. Hoje já sei que não adianta, eu não ficaria maravilhosa daquele jeito. Outra coisa que eu aprendi é que cabelo curto em loira é outra história.

.oOo.

Eu pretendia votar Nulo, aí cheguei na frente da cabine e só tinha botão de Branco. Eu jurava que antes tinha um botão Nulo. Ou não tinha?

.oOo.

Tem aquele cachorro que lembra a Dúnia. A gente passava lá e ele latia. Aí adotaram outro, de uma raça que lembra boxer, mas ele é pequeno. Agora o filhote fica latindo pra gente, enquanto o pseudo-Dúnia olha tudo com cara de egípcia. É muito engraçado.

Água

Quando o rapaz veio trocar o gás para mim, e reparou que ele não era trocado há um ano, eu reparei no monte de sujeira, de folhas e restos de embalagens, que tinha logo atrás de botijão. Tive vontade de explicar que aquela área é impossível de manter limpa, por ser aberta, por pegar o lixo que não é lixo que chega com o vento, a terra dos vasos. Hoje estava esfregando com vassoura e água, deixando a área apresentável pro rapaz que veio há semanas e não vem mais. Esfregando daquele jeito, me lembrei do quiosque do condomínio do meu pai, da lavagem que eles faziam todo ano com “água de cheiro”. Fazer lavagens é uma coisa tão baiana e eu demorei para perceber. Assim como demorei pra descobrir que o carnaval é só terça e não um feriado que dura uma semana. Só hoje me dei conta que isso combina com o Feng Shui, que também atribui à água e à limpeza o poder de tirar vibrações negativas, de fazer a vida ficar melhor. Quando eu me pego limpando coisas que eu nunca limpei, porque eram função do Luiz, eu sempre sinto que estou curando a mim mesma. No início eu não via, depois eu via e não era capaz, agora me pego agachada, cato folhas, varro, tiro do lugar, esfrego. Quem diria, a cultura chinesa e a Bahia falando a mesma coisa – limpe que a vida melhora. Lembrei de outra água, de Foz do Iguaçu, um dos lugares mais fantásticos pra se conhecer no mundo. Eu conheço pouco o mundo, conheço apenas mais do que as outras pessoas o meu próprio mundo, mas os que viajaram bastante dizem a mesma coisa, que Foz é um passeio imperdível. No meio daquelas cataratas, que nos dão banho mesmo na passarela, é impossível não se sentir limpo, não se sentir liberto de tudo o que carregávamos antes de chegar lá. Fui para Foz de excursão, perdi tempo gastando e vendo coisas sem o menor interesse, e quando fui Parque Iguaçu pensei na perda de tempo, de que deveria ter passado todos os quatro dias lá. As pessoas deveriam peregrinar para aquelas águas como quem vai a um lugar santo, tanto para pedir quanto para agradecer. Na gira do Pai Maneco, as médiuns moviam os braços com ondulações de quem estava na água, aos pés de pessoas sentadas. Por que limpam só as escadarias do Senhor do Bonfim, perguntei ingenuamente. Porque é só lá que elas podem, o padre fecha as portas. Se pudessem, elas entrariam com balde em tudo, limpariam o altar, debaixo das cadeiras, jogariam água de cheiro pela igreja toda. Desde então sonho com baianas com baldes e água de cheiro, jogando água nas paredes santas, esfregando até empurrar tudo para a luz do dia.

Coisas demais

Todo ano faço limpas. É um hábito que trago de casa. Desde pequena eu era estimulada a me livrar das coisas. Pegava o meu baú de brinquedos e devia me livrar do que eu não queria mais, deixar que outra criança brincasse com aquilo. Lembro que uma vez quis me livrar de uma mini casinha e minha mãe me impediu, porque a achava tão linda! E assim sempre fizemos com roupas, objetos. O critério não é apenas o que está velho, quebrado, fora de moda ou que não serve mais. As pessoas se impressionam quando vêm minhas limpas, com tantas coisas ainda novas e bonitas. Eu me livro do que não uso, mesmo que esteja em ótimo estado. Levo para alguma instituição e penso que alguém usará aquilo com tanto prazer quando eu um dia usei. Não quero e nem preciso olhar para a cara dessa pessoa; alias, a caridade dirigida, em que a pessoa que recebe se sente impelida a ME agradecer sempre me incomodou. Gosto mais da caridade anônima, não quero que ninguém se sinta em dívida comigo. Não sou eu que estou fazendo um bem em dar e sim ela ao receber.

 

A cada ano que passa, tenho sentido mais vontade de me livrar das coisas. Tenho a maior empatia com os sites Casas Pequenas e Menos VC. Ter coisas nos dá prazer quando compramos, quando usamos… só que depois se tornam prisões. Elas nos preocupam por quebrar, por bagunçar, por envelhecer. Precisamos armazenar, limpar, manter. E assim nos tornamos mais pesados, enraizados no pior sentido. Invejamos aqueles que largam empregos, casamentos ou cidades ruins e depois não sabemos o porquê.

 

Ainda estou longe demais de ser uma pessoa que carrega tudo o que tem numa mochila; quem dera ainda tivesse apenas um baú de brinquedos… Embalar minhas coisas requereria muitas horas. Seriam caixas e mais caixas. Mas eu pelo menos me incomodo, estou tentando ser cada dia mais simples.

Limpeza

Jogar fora a minha sapatilha de ponta – uma Giseli número 8 – não foi difícil. Assim como a saia azul cortada que eu usei pra dançar na Ópera de Arame e o que restou do espetáculo infantil de contemporâneo. A roupa de marinhera do Musical fica, como uma fantasia. O vestido de malvada-recalcada do espetáculo de moderno vai ser reformada e virar um lindo pretinho básico. Porque eu não estou jogando fora o meu passado com dança, ele apenas está sendo substituído. Eu finalmente encontrei meu caminho, e essas coisas não são necessárias num espetáculo de flamenco. Essa é a grande questão das limpezas – a gente só consegue jogar fora quando algumas coisas ficaram muito claras.

 

Apenas quando comecei a fazer sociologia eu pude jogar fora todo o meu material de psicologia. Até então, cada ano eu arriscava um pouquinho, jogava fora as coisas menos prováveis. A psicóloga só foi enterrada quando nasceu a socióloga. E hoje, passo pela mesma coisa com o material de sociologia – cada vez um pouquinho. Já joguei fora o material de ciência política, inclusive uns textos sobre escolha racional e instituições italianas que eu gostava muito. Mas tenho consciência de que não tenho temperamento pra energia que o debate político provoca. Por isso, servirão apenas como aprendizagem pessoal e não precisam fazer parte do meu material de consulta. O restante do meu imenso material está sendo digitalizado. Não deixa de ser uma maneira de jogar fora, quando vejo a quantidade de pastas que consegui que foram embora.

 

A parte mais importante e emocionalmente difícil da limpeza das últimas semanas tem sido o que se refere à escultura. Eu estou cansada de saber que deu tudo errado e que eu fiz tudo errado. Que professor não é apenas aquele que dá a técnica, a gente faz parte de uma escola e é através dela que somos apresentados ao meio. Eu não tive nada disso, fui largada. Daí não soube me posicionar, não gostava e não conhecia as regras do mundo artístico. Na prática, minha carreira foi muito virtual, algo que não nasceu direito. Mesmo assim, as coisas estavam todas aqui: meu macacão, meus flyers, certificados, portfolios, material de trabalho (até mesmo um saco de 40 kg de gesso com a validade vencida!), as peças. Ah, as peças! São como filhas para mim e, ao mesmo tempo, pelo fato de atravancarem a minha sala, um atestado de fracasso. Nesses últimos dias tenho revisto e jogado fora tudo isso. Sim, até esculturas eu joguei no lixo. Acredito que estão ornando casas de catadores de papel.