No dia

rampa militares

Eu acordarei, você também, após uma noite de sonhos intranquilos. Minha reação, nessas ocasiões, é não querer sair da cama. Vou acordar, virar pro lado, acordar de novo, relaxar, ficar na cama de olhos abertos e só vou sair quando o corpo obrigar, já com dor. Ver TV, nem pensar. Provavelmente ficarei nas redes sociais, mas talvez o barulho dos que se sentem felizes apenas aumente a minha angústia. Tem também aqueles que não resistem, que não podem deixar de se manter informados, e por eles eu saberei os detalhes absurdos, as violências desnecessárias, o indicativo do que está por vir. Tenho certeza que a vizinhança soltará fogos, eles sempre comemoram em ocasiões como essa. Meu vizinho fez um churrasco, deu pra sentir o cheiro daqui. Do que eu sei, a casa dele foi assaltada três vezes. Minha vizinhança que nunca me fez mal e tenho com eles um relacionamento distante. Vejo alguns quando compramos verdura no caminhão. Tem uma igreja aqui perto e sei que eles se vêm como comunidade. Eu nem ao menos cheguei a entrar lá, nem pra ver a arquitetura. Certeza que sou “aquela que passa com compras” ou “a que sai de bicicleta” e certamente “aquela que tem a casa mal cuidada”. O que sei deles, porque foi dito por eles, é que eles gostariam de prender bandido em poste para espancar. Eu sei porque li no whatsapp, no grupo que entrei para a segurança do bairro. Depois acabei saindo, do tanto que as pessoas brigavam sobre o que podia ser postado ou não, aí fizeram um grupo só da minha rua e acontecia a mesma coisa, e confesso que não sei mais onde estou e não estou. Whatsapp, o maravilhoso mundo paralelo onde as mesmas senhoras que pedem a minha ajuda quando não conseguem mexer na agenda do celular, compartilham (outro grupo, mas deste eu não posso sair) que nordestinos são inferiores, imigrantes são parasitas que devem ser mandados de volta para seus lugares (nenhum membro tupi-guarani), escolas ensinam pessoas a serem homossexuais e o Papa, a ONU e a imprensa internacional são todas de esquerda e metem o bedelho onde não foram chamados. Nesse dia – e você sabe de que dia estou falando, o dia que mergulharemos na noite -, vou tentar fazer um almocinho, coisa leve pra ver se desce. Comerei todos os chocolates que me der na telha. Colocarei videos de indianos falando inglês sobre astrologia. Lerei Karl Ove. Minha cadela, indiferente, exigirá passeio e salsicha. Eu me enrolarei nas cobertas sem sentir frio, no sofá. Eu dormirei cedo sem sentir sono. Eu estou no Brasil e grande parte do país estará alegre, mais ainda em Curitiba, e eu me sentirei só.

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Solidão

Eu gostaria de dizer alguma coisa, mas não há nada de novo a ser dito. Quando quis começar a usar cremes, para ficar com a pele mais uniforme e jovem, meu irmão me falou: você me vê pesquisando anos pra avançar um tiquinho, acha mesmo que a cada ano a indústria cosmética consegue desenvolver um efeito inédito? Não há nada de novo na pele, nada de novo no processo de envelhecimento. Não há nada de novo na minha forma de ver, nenhum conselho sobre o mundo e as pessoas. Não há um único conselho que não soe antigo. Livros de história, com séculos de conselhos nas entrelinhas. Vontade de colocar Lennon e McCartney cantando de branco. Ou cristianismo, papa Francisco. Apelar para empatia, humanidade. Quem sabe o vídeo do ponto azul, de Carl Sagan, pra soar mais científico. Eu não tenho encontrado o que dizer e as pessoas à minha volta também não têm encontrado o que dizer. Mas saber que há outros tristes dessa mesma tristeza me dá uma luz fraquinha de esperança. Por isso vim aqui dizer isso, que se você que me lê se sente triste agora: eu também.

 

#Mariellepresente

Uma fórmula

Eu lembro quando a mãe de um amigo, ateu convicto-público-confesso morreu, e as pessoas vinham lhe dar pêsames no Facebook dizendo: “Eu sei que você não acredita, mas Deus…”. De um lado, dava uma irritação de pensar que a pessoa não estava nem aí pras crenças dele – “você não crê em Deus mas pouco importa, eu creio e te imponho Deus neste instante”- mas por outro, dava pra entender também que havia o desejo sincero de dizer algo, mas sem usar a fórmula com Deus no meio as pessoas ficavam sem saber o que dizer. A gente inventa um monte de fórmulas porque tem que dizer alguma coisa. Eu tenho andado triste, indignada e desesperançada com o que está acontecendo atualmente. Tenho me sentindo meio clown, porque sei que é isso o tempo todo e quem vem aqui não é pra ficar mais indignado e sim pra respirar um pouco. Vir aqui e falar de barata, conversinha do ônibus e compras é a minha forma de lhe dizer alguma coisa. Se estivéssemos juntos fisicamente, eu lhe daria um abraço.

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Consulta

dias-tristes

Somos como velhos amigos. Pepe joga os búzios na minha frente e começa a descrever o que me trouxe ali:

-Você anda meio triste, desanimada, se sentindo muito só, sem rumo. Tem sentido falta de muitas coisas. Tudo está em indefinido – a parte amorosa, a profissional… já a dança vai bem.

É, realmente a dança vai bem. Pela primeira vez eu dançarei na frente. E nas duas coreografias.

 

Curtas sobre Fal e Karnal

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A sessão de curtas, que vocês tanto amam, é inspirada na Fal. Tô contando porque olhando assim ninguém diz, Fal é outro nível.

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O último post dela me tocou tão fundo, me deixou tão triste. Primeiro:

Senti uma imensa, imensa falta de ter pra quem contar isso. Entende? De poder ligar e dizer “checa na Ilustrada a figura que Maliu ama!”, e do outro lado ter alguém que também tremelique de rir e comente “Ê, Maliu é chegada num bicho grilo!”. Sinto imensa falta de Alexandre o tempo todo, mas nessas horas chega a doer.

Claro que as pessoas que querem bem a ela -e que são muitas – correram pra dizer que podem ligar pra elas. Mas eu entendi, não dá pra ligar. Não aquele telefonema.

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O outro ponto: “Há algum tempo, um cara me atacou forte, covarde e malvadamente por eu ser só. A única coisa que ele tinha contra mim era minha solidão.” Não tenho o que falar.

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Teve um dia, no tempo que o blog tinha até comentário, que eu fiz um post citando a Fal. Aí uma colega de faculdade me mandou um e-mail, dizendo que o meu blog era tão grande (queria eu!) e o dela tão pequeno, se eu não poderia recomendá-la aos meus leitores. Juro que tentei. Fui lá ver e tinha um monte de posts espíritas. Aí expliquei que tinha que ser espontâneo, que o dia que eu falasse de algo que tinha a ver com que ela tinha postado, eu a citaria. Nunca mais falou comigo.

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Leandro Karnal disse que acorda cinco da manhã, super bem disposto. Minha reação foi a mesma do Clóvis, achei um crime. Hoje, depois de semanas, finalmente pude acordar e tomar meu café com os pés pra cima enquanto ouvia música. Isso me fez tanta falta que não sei nem explicar. Acho que passei a entender o Karnal.

Pequena

Venho me sentindo pequena. Tenho me sentindo uma pobre mulher, uma pobre divorciada, uma pobre solitária e pobre mulher. Tenho desejado um homem, sim, aquela frase – quem dera tivesse agora um homem pra ir lá e cuidar disso pra mim. Um homem com sua força arquetípica de homem, uma voz trovejante e uma agressividade natural. Tudo o que em mim é vontade de chorar, nele seria força para agir. Porque tem horas que ser frágil e feminina nada mais são do que defeitos. Eu sou tão pequena, tão mulherzinha, tão só. Preciso do oposto, onde ele está? Quero me enrolar como semente e voltar para terra enquanto um homem briga por mim.

Em resumo

Passou. Não sei como é para os outros, mas para mim é tão clara a diferença da tristeza e a depressão. Há a incapacidade de sentir prazer, um peso constante que mina tudo. A vontade é de morrer, o tempo não passa nunca. Mas a vida continua e desta vez eu já conhecia o roteiro. Me arrastando eu levantei da cama, tomei banho, saí, fiz minhas aulas, visitei pessoas, cuidei da casa, trabalhei, li, escrevi… Tentei ao máximo levar a vida como se estivesse tudo bem, por mais que doesse. Depois me dei conta de que a vida, na verdade, é isso: fazer o que precisa ser feito, sempre, apesar dos pesares.

Chorar porquê

Já passei da fase de querer chorar na sessão de hortifruti, quando comprar um pimentão, um cacho pequeno de bananas e umas três cebolas me deprimiam. Não que na minha casa se cozinhasse muito, mas não era tudo tão pouco, tão gritantemente solitário. Semanas atrás dei pra quase chorar na sessão de bolachas, ou sei lá que sessão é aquela. O supermercado onde eu vou começou a se expandir, e eles não fecharam pra fazer a transição. Então cada dia que eu vou lá, as coisas foram parar num lugar diferente. O padaria continua no fundo, mas os pães de forma ficam muitos corredores à esquerda. Naquele dia em especial eu havia percorrido vários corredores à procura de tudo e fiquei cansada. A cestinha já estava pesada, mas faltava comprar a bolacha. Eu ainda enfrentaria o caixa, a distribuição na sacola, a longa subida até minha casa. Eu rodava feito uma tonta, só gosto de uma marca específica de bolacha e… enfim, eu estava quase largando a cestinha no meio do corredor e cobrindo o rosto com as mãos, igual criança. Até que finalmente achei.

 

Não sei se hoje foi mais sério ou eu estava mais frágil e mais cansada, ainda mais que eu havia machucado as costas de manhã. Apesar de ter aula mais tarde e ter saído de casa pelo menos meia hora mais tarde, o Interbairros 2 me deixou esperando quarenta minutos no ponto, de novo. De onde eu concluo (alô, prefeitura!) que há um intervalo de horário de duas horas no final da tarde que aquela linha não funciona direito. Frio, de pé, costas doendo. Não há livro e horário adiantado que não consigam fazer quarenta minutos que são estendidos de dez em dez pelo marcador não parecerem longos. Meu pensamento quis me tirar dali e, em busca de um pouco de prazer, lembrou daquele beijo. Aquele que foi tão bom, que finalmente encaixou, que teve tanto calor e afeto que parecia que depois dali tudo deslancharia. Só que não apenas não deslanchou como foi o nosso último. Dessa vez não deu pra segurar e quando me vi a sós, caminhando nas ruas escuras, desatei a chorar. Minha desimportância bateu forte demais.

Lembrança ruim

Estava andando perto de casa e fui surpreendida com um pensamento triste, muito triste. Desses sobre contrastes do que eu esperava e do que agora é, desses sobre promessas não cumpridas, os meus erros, as falsas esperanças e a culpa. Eu que andava tão feliz, tão imune. Talvez por ter sido um fim de semana intenso. Um segredo, uma angústia coletiva e que finalmente revelada. Mudanças de rumo, de planos e até espaço físico. Esse ano não tem deixado pedra sobre pedra, tudo o que havia de sólido se desmanchou no ar, tudo o que balançava caiu. Sou otimista e tenho visto tudo isso como novos recomeços, como o destino fazendo mover o que não movemos por comodismo. Mas o primeiro momento é sempre de impacto. E minha vida andando, se afastando do que era, ficando cada vez mais adulta. Ser adulto dá muito medo. Evoluções que não necessariamente são ruins, que nem são feitas pensando em mim, mas que de certa forma me afetam, nem que seja apenas simbolicamente. Em algum lugar, por tudo isso, devo ter ficado mais frágil e aquele pensamento me pegou. Ele veio como um monstro escondido na esquina, tal como nos filmes de terror. Eu olhei pra ele e disse “você ainda está aí”, sem surpresa. Porque ele esteve comigo o tempo todo, semanas a fio, tornando os meus dias tão difíceis. Cada hora com um prisma novo para doer diferente, mostrando aspectos que eu nem tinha pensado. Meu inimigo mais constante, mais dedicado, mais íntimo. O inconsciente realmente guarda tudo, os detalhes não têm fim. Aí ele volta depois de tanto tempo e me diz – Você ainda se lembra. Sim, eu me lembro. Acho que me lembrarei para todo sempre

Das dores de cada um

Estava conversando com uma amiga que soube há pouco que eu me separei. Ela se disse triste por mim, que parece que está todo mundo se separando, que conhecia tanta gente. Eu também, parece uma espécie de surto. Minha cabeleireira havia me dito no início do ano que 2014 era ano de Xangô, e que tudo que estivesse mais ou menos iria se desfazer. Vai ver que é. Porque ninguém se separa assim, porque teve uma briguinha. É um processo tão longo e tão doloroso que a gente atrasa o quanto pode, faz terapias, procura ajuda, tenta deixar pra lá, até que uma hora não dá mais. Aí citei uma perda que ela teve esse ano, de uma amiga. A amiga pedia ajuda, ameaçou várias vezes, até que no fim se matou mesmo.
Enfim. O assunto acabou caindo aí, na ajuda. Se ela poderia ter ajudado mais, a mim, à outra. Eu pedi pouca ajuda, e até me recusei a desabafar com muitos ombros. Eu lhe disse minha teoria sobre o assunto, e a ela pareceu que mesmo sofrendo eu fui meio altruísta. Não sei. Por um lado, sempre tive mesmo a tendência de resolver minhas coisas sozinha, de não procurar ajuda. Por outro, é que eu acredito realmente que até podemos pedir ajuda, uma ou outra ajuda, mas que o sofrimento é solitário. No meu ponto de vista, o ser humano é essencialmente sozinho. E o sofrimento é um desses momentos em que sentimos a nossa própria solidão com intensidade- é inútil tentar escapar, ninguém pode resolver pela gente. Mesmo porque ninguém está aqui à passeio. Fui procurar ajuda e encontrei meus amigos com seus próprios problemas: um com depressão e passava o dia inteiro na cama, outra inconformada com o fim do noivado, outra não tendo de onde tirar dinheiro com mudança de imóvel. Como mensurar quem sofria mais, como querer que os outros deixem seus problemas de lado em favor do meu. E se por acaso estiver tudo bem, se eu tivesse encontrado todo mundo feliz, brincando na sala com a família – eu teria o direito de estragar, adicionando uma carga à vida dos outros? Também acho que não. 
Eu procurei ajuda dessas pessoas sim. Procurei até onde podia, até onde não lhes causou muito desconforto. Fiquei mais tempo do que a educação recomenda na casa de alguns, interrompi algumas reuniões de família, me convidei para programas que normalmente não me chamariam e minha simples e pesada presença sem dúvida intimidou demonstrações de felicidade. Num fim de semana ia pra casa de um, depois me auto-convidava pra um programa com outro, e fui levando assim. Tive crises de ansiedade, crises de choro, crises de tédio. Comprei muito sorvete, chocolate e salgadinho, assim como também passei dias praticamente em jejum. Momentos que ninguém soube, só eu e meus fantasmas. Não sei se é de criação ou o quê, mas eu não consigo pensar num luto diferente. É igual doença – é preciso dar um tempo pro organismo, pra expurgar. Na minha matemática, na minha maneira de ver o assunto, a presença constante de pessoas não acelera o processo. Então, preferi poupar meus amigos. Prefiro que eles ainda me olhem como boa companhia e não alguém que lhes pesa. E teria horror que eles me vissem como alguém digno de pena.
Claro que estou falando de mim, etc. Cada um enfrenta suas tristezas da maneira que pode.

Cair

A sabedoria é uma prerrogativa da idade porque apenas viver, experimentar, nos mostra certas coisas. Inteligência, lógica e observação não são nada diante da experiência, nem que seja apenas uma pitada. Eu mesma sempre tive a convicção que para as dores os necessário é afundar, viver, curtir o luto profundamente. Há a história de uma bailarina, cujo nome agora me foge, que perdeu os filhos num acidente de carro e passou um mês trancada no apartamento, incomunicável. Meu luto ideal, digamos assim, sempre foi desse tipo. Imagino essa mulher chorando o dia inteiro, dias a fio, até se sentir apta a viver de novo. Eu não apenas achava que devia ser assim, como jurava que era assim que faria caso uma grande dor me assaltasse.

 

Aí todo esse processo começou. Nunca me esquecerei daquela quinta-feira, que acordei sozinha e sem mais nenhum compromisso até o fim do dia. A dor cresceu em mim de tal forma que só faltou se personificar. Não sei se o Mal existe, mas passo dizer o Medo é bem poderoso. Num determinado momento eu senti que não conseguiria, mas aí já era tarde. Ele cresceu e me esmagou. Eu só não tomei um antidepressivo porque eu sei que aquela porcaria demora quinze dias para fazer efeito. Quin-ze di-as. Isso, para quem está sofrendo, é mais demorado que a volta de Jesus. Naquele dia eu maldisse toda medicina ocidental, que não inventou algo capaz de nos tirar a dor moral em, no máximo, trinta minutos.

 

Agora eu sei que não devo nem começar. Não devo me deixar cair, porque o buraco é fundo e a volta é lenta. Não tem essa de curtir a dor, hoje sou a favor de ir vivendo, de fingir tanto que ela não está lá até o dia que não esteja.

 

Hoje, quando a porta do ônibus fechou na frente da minha cara, eu quase comecei a chorar. Ia chorar pelo ônibus perdido sim, mas também ia chorar pelas ilusões, pela perspectiva, pelo sonho, pelo casamento perdido. Ia chorar por não saber mais quem eu sou e o que fazer do meu futuro. Ia chorar porque estava morrendo de pena de mim mesma, porque me pareceu que a própria Vida estava fechando a porta na minha cara. Não devemos olhar para o buraco, ele é fundo demais. Devemos pegar o ônibus seguinte e seguir em frente.

A longa noite

Eu penso na minha mãe, a pessoa mais despreparada para o mundo, saindo de Salvador com três filhos (três!) pra começar vida nova em outra região do país. Sem emprego, sem experiência, sem faculdade, sem nada. Até sem apoio, Eu penso na Suzi, precisando de alguns minutinhos da panela no fogo pra subir até o quarto e chorar no travesseiro, pela falta dos filhos que ela mesma se esforçou tanto para colocar em boas faculdades fora daqui. Penso na Cacau, indo dormir pra lá de três, quatro, cinco da manhã, com uma insônia crônica. Penso na Fábia, que precisou da minha ajuda pra comprar absorvente um ano depois, porque ela tinha simplesmente parado de menstruar. Ou no estranho que era a Bel tendo ataques de riso, porque tem gente que tem ataque de riso quando sofre. Penso no Milton, que sentia uma atração irresistível pelas rodas dos carros – ou seriam os trilhos do trem? Todos eles passaram por isso, todos eles sofreram muito, mas também todos sobreviveram. Penso com esperança no que a Regina disse uma vez, que era um sofrimento tão grande, tão difícil de decidir, e depois de uma semana já é tão fácil e normal. Não é a mesma coisa, mas penso na minha sogra, na falta depois de uma vida inteira. Dela saindo de casa e indo longe, de ônibus, até o shopping, pra tomar um sorvete e voltar. Lembro dela me falando de como é difícil passar a chave na porta de casa depois das 18h, sabendo que há uma noite muito longa pela frente, uma noite sem companhia. E que, ao mesmo tempo, em poucos meses já parecia que fazia tanto tempo, anos. Penso na outra Fábia, aquela que conheço apenas por escrito, e que perdeu seu amor enquanto ele ainda estava no auge. Eu pelo menos tive mais tempo.

 

Aí essa casa, a casa que tanto amo e que vivo há mais de uma década, de repente me parece grande demais. Um fardo, um lugar cheio de bichos que ninguém vai matar pra mim. Sofás, cadeiras, copos, lados de cama, que terei que me desdobrar pra usar, porque sobram. E mesmo que agora a gente nem se fale tanto, a perspectiva de que não haverá uma outra mão para desligar o alarme, a luz acesa quando eu chegar, uma outra pessoa para ligar a TV é tão assustadora. Eu que nem vejo TV. Meus projetos e minhas ambições agora me parecem tão sem importância, sem a menor importância. Como desejar o céu se não sei nem se vou conseguir sair de casa. As circunstâncias aumentaram de tamanho ou eu que tomei a poção da Alice e virei uma menina bem pequenininha? Uma menina pequena e assustada. Eu penso em tanta gente que já passou por isso, penso também em quem realmente viveu tragédias – mães que perderam filhos, vítimas de violência, famílias que perderam seus bens em enchentes – e passaram por coisas muito piores, por noites muito mais longas. Eu penso na minha mãe, na Suzi, na Cacau, na Fábia, na Bel, no Milton e digo pra mim mesma que eles estão bem. E os vi sorrindo, felizes, eu sei que a vida continua. Vai passar, aguenta que vai passar.

Um salário para o Gabriel

Depois de uma linda patada por bulerías – que é o momento no flamenco que se faz uma roda e a pessoa entra pra dançar um pouquinho – fui cumprimentar o Gabriel. “Gostou mesmo?”. Céus, claro que eu gostei. Eu e todos os presentes. Fui animada, segura, tecnicamente difícil, um arraso. Uma das coisas que me agradam no mundo da dança é isso: a inutilidade dos certificados. No mundo lá fora, as pessoas saem correndo pra assistirem um monte de cursos, coisas que não as interessam ou que elas vão lá como quem corre uma maratona, numa correria que nada se aproveita. Tudo porque elas precisam do papel, e é a quantidade de papéis que vai dizer aos outros quem ela é. Na dança, mesmo que eu tenha todos os papéis do mundo, é na hora do palco, na movimentação do corpo, nos primeiros minutos de coreografia, que a pessoa diz quem é. E o Gabriel é. Sua paixão pelo flamenco é famosa, ele é o que vai atrás da história, dos passos, conhece os grandes nomes, respira e vive flamenco. Depois de muita economia, ele largou o emprego e viajou semanas pela Espanha pra viver tudo aquilo de perto, frequentar os bailes, estar pessoalmente na atmosfera flamenca. De lá, voltou ainda melhor.

 

Logo após meu elogio, e de confessar que ele costuma se achar uma porcaria, Gabriel disse que precisávamos sentar, tomar um vinho, que ele tem uns projetos aí. Só que ao contrário do que eu esperava, esses projetos não dizem respeito ao flamenco e sim a dar um tempo. Com o olhar mais triste do mundo, ele me disse que precisava ganhar dinheiro, que é muito difícil, que se profissionalizar é quase impossível. Ainda mais triste do que o olhar dele, foi eu ter dito que estou nesse mesmo movimento, que estou mandando curriculo, que a gente se envolve nessa paixão e não quer sair mais, e chega uma hora que se vê obrigado a crescer, e tentar se enquadrar. Naquele momento teria sido tão bom ter dito algo diferente! Mas a tristeza que havia no olhar dele é a mesma que tem frequentado o meu nas últimas semanas. Um certo sentimento de traição do destino, de amar tanto algo, de investir no coração e não ver saída, não ver retorno.

 

Li alguns livros sobre os muito muito ricos, como os amigos que Capote frequentava. Através deles eu descobri que os muito muito ricos pagam as despesas dos amigos. Eles viajam e levem o povo junto, pros hotéis, pros programas, pros drinks, as roupas, tudo. Quando lia isso, pensava que tipo de gente fútil era essa e que qualidade amigos um milionário teria, apenas um bando de puxa sacos que não querem perder sua fonte de renda. Talvez. Mas hoje vejo sabedoria nessa atitude. Pobre e burro é o ex-marido daquela minha amiga que a largou porque ela não podia contribuir tanto quanto ele nas despesas. Quem é rico sabe que pessoas são tão preciosas que elas valem o investimento, que o melhor quarto de hotel e as melhores festas não são nada sem as melhores companhias. Se de outra forma não podemos tê-las, então que se pague. Dinheiro é descartável, gente não.

 

Eu gostaria muito de ser dessas pessoas muito muito ricas e poder pagar meus amigos. Eu tenho me queixado e andado triste, e sei que muitos dos meus amigos gostariam de me acudir. Eu sei que eles sabem que eu sou competente, esforçada, confiável e que seria uma excelente qualquer-coisa que eles precisassem. Mas eles não têm como me ajudar, porque eles também estão na lida. Assim como muitas vezes sei que eles estão em dificuldades e não posso fazer nada além de torcer pra que tudo se resolva da melhor forma. Como disse o Alessandro, certas pessoas mereciam ser pagas para ser quem são. Eu gostaria de falar pro Gabriel – “Diz aí, Gab, quanto é que você ganha nesse teu emprego que eu cubro”. O Gabriel merecia receber pra flamenquear. Ele merece ser pago para pesquisar os palos, descobrir novos sapateados, treinar palmas. Mais: ele merecia ser pago para continuar sendo uma das pessoas mais carismáticas que eu conheci na vida, pra espalhar a risada dele pela escola, pra contar suas histórias deliciosas, cantarolar. Pra me recompensar, bastava ele dançar umas bulerías bem boas.

Novo horizonte

Nem precisava pensar muito pra saber que a melhor vista da minha casa é a da janela do escritório:

Uma vez fui ao apartamento de uma amiga, e da cozinha ela me mostrou a janela da área de serviço, que dava pra um monte de prédios e no meio deles tinha uma árvore, e dessa árvore dava pra ouvir um passarinho. Ela me apontou o fato como um dos privilégios que ela tinha por morar lá. Na época eu morava num prédio cercado de prédios e aquilo não me disse nada. Depois, quando mudei pra cá, achei tão pobrinho alguém ficar feliz com uma árvore sendo que ter quase uma floresta era muito melhor.

Eu não sabia ao certo porque boa parte da quadra onde eu moro é cheia de árvores. Eu não pensava no assunto – coisas boas são assim, a gente simplesmente as aceita. Sabia que havia uma casa com um terreno grande, que pertencia a uma velhinha, e que depois que ela morreu muita gente passou por lá, fez pequenas modificações e foi embora. Na verdade, todo o terreno pertencia à casa da velhinha. Ela instalou a casinha dela e deixou o resto ao natural. Assim tem sido durante os quase dez anos (como passa rápido!) que eu moro aqui. Eu olho pras árvores todos os dias, então elas são um pouco minhas também. Quando não estou olhando para elas, ouço os passarinhos cantarem – exatamente o que está acontecendo agora. Estou acostumada a olhar para o céu à noite e ver suas sombras, a consultar as folhas pra saber se está ventando e ter uma casa silenciosa grande parte do dia. Meu amor pela minha casa está em grande parte ligado àquelas árvores.

Mesmo sabendo que a expansão do bairro não deixaria um terreno vazio impunemente, eu quis me iludir que ninguém tiraria isso de mim. Ou que seria lento. Estava preparada para o aparecimento gradual de novas casinhas, porque aqui é um bairro de casas. Só que soube que construirão um conjunto de prédios nesse terreno. Ou seja, é uma questão de tempo até arrancarem tudo, sumirem os passarinhos, surgirem as máquinas, um monte de trabalhadores. E quando a maldita construção terminar, centenas de janelas com pessoas e seus carros barulhentos. Meu coração está partido. Agora entendo essas associações de vizinhos retrógradas que se opõem a obras que modernizam os bairros. Não tô nem aí pra novas moradias e progresso, eu quero as minhas árvores. Eu queria poder comprar o terreno pra deixá-lo sempre do jeito que está, igual a velhinha. 

O budismo diz que o que nos causa sofrimento é viver no passado e projetar o futuro, sendo que um não existe mais e o outro não chegou. Tenho que ser grata por ter tido a companhia dessas árvores durante quase dez anos, e não tornar a sua falta um problema. Como as tais obras nem começaram, estou sofrendo com elas aqui, por uma perda que não chegou. Só que saber não é o mesmo que colocar em prática…