Herança

praiaMeu pai chegava do trabalho e ia como um jato até o quarto, trocava de roupa e ia para a praia, onde andava por quilômetros. Tentei andar com ele uma vez e não consegui, mesmo o trajeto mais curto era muito longo. Agora, aposentado, se propõe a caminhadas longuíssimas onde cruza o centro velho de Salvador a pé. Quando minha mãe dizia “vamos” para um passeio no centro, eu já sabia antecipadamente que andaríamos a tarde inteira, num roteiro que incluía contas, lojas, pesquisa de preço, perder-se e reencontrar-se. Quando subíamos no ônibus, na volta, estávamos tão exaustas que não conseguíamos nem falar. Minha mãe que me contou que o meu pai fez um churrasco com o primeiro pedreiro que mexeu na nossa casa, aquele colocou o fechadura da porta do quartinho dos fundos de cabeça para baixo, o que exigia um certo raciocínio na hora de abrir. Meu pai sempre acaba dando um jeito de inventar umas comidas de graça, atualmente é uma feijoada feita no meio da praça numa das cidades minúsculas da ilha de Itaparica. Todo fim de ano minha mãe me fazia abrir o grande cesto de vime onde ficavam meus brinquedos e separávamos para as crianças carentes. Eu olhava para os brinquedos e avaliava se ainda os usava, se ainda os amava, ou se eles fariam outra criança muito mais feliz. Lembro de um que era uma miniatura muito lindinha de uma casa, e eu quis dar sem dó. Aí quem quis preservar o brinquedo foi ela. Minha mãe sempre foi generosa, até demais, a ponto de nos preocuparmos dela ser explorada. Era alguém lhe contar uma história triste que ela já queria ajudar e dava o que iria lhe fazer falta.

Obrigada.

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Conhecimento prático

Não gosto de tomar remédio. Sou daquelas que usa spray de própolis quando a garganta dói. Não sei se é porque fui criada com homeopatia, mas os remédios mais comuns me dão péssimas reações adversas. Uma vez tomei um antibiótico – desses que todo mundo tem na gaveta – e tive a pior enxaqueca da minha vida. Ao mesmo tempo, não tenho o conhecimento das nossas mães e avós a respeito de chás, ervas, alimentos, coisas naturais. Não tenho chá em casa, só o Matte Leão. Não tenho nenhuma planta útil, nem de tempero. Nunca sei o que tem que tomar, aplicar, jejuar. Fui querer comer uma coisinha leve e comi atum em lata, na água, mas pelo jeito meu fígado não concordou comigo. Falando nele, foi só dizer que estava passando mal e minha sogra – aquela de quem não canso de reclamar – me mandou tomar um chá boldo ou de erva-doce. Melhorei um pouco, não sabia o que comer, e com medo de passar outra noite com dor, liguei pra minha mãe pra ela me dizer o que posso comer e durante quanto tempo. Seguirei com o rigor dos que temem o inferno. Quando a geração delas se for, o que faremos nos momentos de crise?

Preconceitos

Todos temos preconceitos. E nada mais detestável do que alguém que se acha tão puro a ponto de declarar que não os tem.

Alguns nos são transmitidos meio geneticamente – nossa família nos ensina assim, sempre fez assim. Outros vão sendo adquiridos ao longo da vida. Quando vemos, temos uma coleção de preconceitos estúpidos, incofessáveis, mas que atuam de maneira decisiva no nosso dia a dia. Dos meus estúpidos e inconfessáveis, há o de não gostar de Lauras, de ter prevenção contra crentes e carolas, de achar que nunca me dou bem com mulheres de cabelo comprido e cacheado, de achar que todo norte-americano é burro, de achar que toda mulher que se veste de rosa é fútil. Assim como não deixa de ser uma forma de pré-conceito eu ter simpatia por pessoas que vestem preto e tem um monte de tatuagens, de achar que todo espírita é caridoso, de acreditar que todo carioca é extrovertido e simpático.

Mas todos esses preconceitos são inofensivos. Acredito que se conscientizar de que algo é um julgamento já é um grande passo. Pior, muito pior, quando as coisas são naturalizadas a tal ponto de nem nos darmos conta. Como um deficiente visual que me disse que as mulheres só aproximam dele para ajudá-lo, uma coisa meio maternal. Afinal, ele é homem. Ele sente desejo por algumas delas e gostaria que elas o vissem como macho.

Há forma mais cruel de preconceito?