Indireta astrológica

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Já li uma comparação que diz que, assim como um vinho é determinado pela safra das suas uvas e o envase, que um vinho feito na primavera é diferente do vinho feito no inverno, essa é a mesma lógica que a astrologia aplica às pessoas. Quando o bebê sai da barriga e na primeira respiração, é marcado para sempre pelo céu daquele momento. Ele será um bebê diferente se nasceu de dia ou de noite, na primavera ou no verão, em 1990 ou 2020. Daí porque, apesar da precisão dos cálculos que demonstraram que a Astrologia sempre soube que a Terra não era o centro do universo, os cálculos são antropocêntricos – cada pessoa que nasce é um centro de universo. Sendo a Terra o centro, os planetas podem ser visto como interiores ou exteriores: interiores são os que estão entre a Terra e o Sol, a saber, Mercúrio e Vênus. Os exteriores, os que estão fora da trajetória da Terra: Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno e Plutão. Os três últimos, de tão distantes e lentos, exercem influências sobre gerações e são deixados de fora em análises tradicionais da astrologia védica e, na astrologia ocidental, costumam ser levados em conta depois de uma certa idade, quando a pessoa está mais madura.

Nós chamamos de planetas e o termo hindu Grahas parece se referir mais a corpos que estão no céu e nos influenciam. A cada momento, eles estão num lugar diferente do céu, e o círculo onde costumamos ver o mapa também pode representar uma grande mesa redonda. De cada posição, os planetas se vêem de uma maneira diferente, e com isso entabulam conversas diferentes. Algumas são tensas e outras são boas; alguns planetas se dão tão bem que quase nada é capaz de abalar sua amizade, outros tem uma relação tão difícil que mesmo aspectos benéficos ficam complicados. Saturno é tão sério, velho e responsável, que eu sempre o imagino como aquele que entra na roda e deixa o clima pesado; por outro lado, sem ele, talvez a coisa descambasse pra uma festa regada a sexo e drogas que destruísse a casa. Na astrologia, o Sol é planeta porque também está na festa. Para entender a “personalidade” dos planetas, cada linha apela para as mitologias das suas culturas – na ocidental, os deuses gregos e na védica, a mitologia hindu.

Quero falar de um aspecto específico com o Sol. O aspecto é a conjunção. A conjunção é quando os planetas ficam muito próximos um do outro, a menos de 10º de distância. É como se eles se tornassem um casal, porque passam a fazer tudo em conjunto – as características são combinadas e o que afeta um, afeta o outro na mesma proporção. Isso é bom ou ruim? Basta pensar nos casais de verdade: quando você junta pessoas compatíveis, que se ajudam mutuamente, estar em conjunção é bom. Em outros casos, as pessoas podem estar juntas e brigar o tempo todo, ou um pode tirar vantagem do outro. O Sol tem uma especificidade quando em conjunção que, por incrível que pareça, o torna um planeta maléfico. Simbolicamente o Sol é o nosso ego, o nosso centro. Ele representa figuras de autoridade, como o pai ou o rei; é orgulhoso, confiante, forte, vaidoso. Pensem no que é estar ao lado de alguém assim. Numa maneira mais física, basta lembrar que o sol é uma bola de fogo. Ele é quente e brilhante demais, ficar muito perto se torna desagradável. Por isso, quando um planeta fica muito perto do sol, isso não faz bem a ele. É como se o planeta fosse queimado e ofuscado pelo sol, aspecto que na astrologia é chamado de combustão. Um planeta em conjunção com o sol fica combusto.

Agora eu volto ao que disse lá em cima, sobre os planetas interiores. Vênus e Mercúrio estão muito próximos do sol, eles são pequenos e suas órbitas são muito rápidas. Isso faz com que eles entrem no temido movimento retrógrado com frequência (e saem dele rapidamente) e nunca estejam muito longe do sol. No mapa, eles sempre estão perto do signo solar natal, ou seja, você nunca verá alguém com Sol em Áries e Mercúrio ou Vênus em Libra. Se a pessoa tem Sol em Áries, ela terá Mercúrio em Áries mesmo ou lá por Peixes ou Touro, ou seja, no máximo um signo de distância. Vênus fica mais longe do Sol, então pode chegar, no exemplo, até Touro ou Aquário, ou seja, dois signos de distância. Mercúrio, na mitologia grega, é o mensageiro. É o planeta que associamos à inteligência, rapidez, comunicação. É considerado um planeta neutro, nem bom e nem ruim, porque se adapta à circunstância. Ele fornece os instrumentos, como uma faca que pode ser usada na cozinha ou para matar. E é, de todos os planetas, o que fica mais tempo combusto. Ou seja, em grande parte da população, as características do Sol atrapalham a atuação de Mercúrio. Elas acham que estão olhando a realidade de maneira fria, inteligente e analítica, sendo que na verdade estão sendo egóicas, orgulhosas e autoritárias, estão contaminando a sua análise porque não separam conceito de personalidade. São incapazes de discutir ideias como algo separado delas,  por isso se sentem pessoalmente ofendidas quando alguém discorda das suas crenças. Ideia, conceito, crença, auto-imagem – tudo está misturado. Vai dizer que não é?

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Malditos talentosos

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Um amigo meu, professor de faculdade, me disse que sempre entram no curso umas pessoas com muita dificuldade. Como se fosse eu tentando fazer engenharia. Que, para essas pessoas, alguns colegas dele estimulam que a pessoa vá para outro curso. Mais ou menos assim: você está indo tão ruim porque está no lugar errado, repense seus interesses, a sua aptidão é outra. Meu amigo não faz isso porque ele não tem essa fé. Ele diz que nada garante que a pessoa que está indo mal naquele curso vai se destacar em outro, pode ser que ela vá mal em todos os cursos. Porque tem gente que é assim, não tem? Pense bem, todo mundo conhece alguém que desempenha mal várias atividades. De artesanato a cálculo, lavando louça ou em vendas, a pessoa é muito ruim. Não digo que é necessariamente falta de capacidade, pode ser que ela tenha características de personalidade que tornem qualquer atividade muito difícil – não aceita ouvir opiniões, baixa tolerância a erros, falta de concentração, fazer tudo com pressa, péssima coordenação motora, desinteresse, etc.

Do mesmo modo, tem aquele que desempenha bem várias atividades. Se pegarmos aquela lista de características que listei acima e inverter, provavelmente estamos falando que vai desempenhar razoavelmente bem qualquer coisa. E às vezes é duro admitir isso. O mundo não está dividido entre os que se dão bem porque são puxa-sacos e superficiais, enquanto outros são esforçados em silêncio; entre os que projetam uma aparência de competência e os que realmente fazem um bom trabalho que poucos apreciam; ou – agora numa perspectiva bem feminina – aquelas que dão bola para vários homens e não ligam para nenhum e as mulheres realmente de valor que ninguém presta atenção. Tem sim gente que é linda, rica, competente, feliz e que merece o lugar que está. Concordo que são minoria, a minoria que todos desejam estar. E as nossas contingências de algumas áreas podem tornar o funil ainda menor – pense no que é desejar ser escritor num país como o nosso, que a média de livros não chega a cinco por ano. Se, apesar do desejo mais do que sincero, não somos o topo da pirâmide, que pelo menos não sejamos amargos demais por isso. Que a gente note o talento e diga “Oi, talento”, sem sentir a necessidade irresistível de desqualificar.

Da continuidade

Um bailarino acharia a dúvida ridícula – claro que a pessoa é, no palco, uma continuação de quem ela é na vida real. Inclusive, qualquer apresentação de dança é muito mais interessante quando você conhece a pessoa que está dançando, você a reconhece nos seus gestos, há movimentos que são todos seus. Mas fale para alguém que escreve que ela só será um autor interessante se for pessoalmente interessante, e como resposta receberá um silêncio. Provavelmente ofendido. Adoro qualquer entrevista com Millôr, Saramago, Suassuna ou Ubaldo Ribeiro, que comprovam minha tese. Como não amar Oliver Sacks, como não querer ligar para Susan Sontag e comentar com ela os últimos acontecimentos do dia. Mas dizem também que para estragar um artista pra você, basta conhecê-lo. Sei lá.

Retrato

Eu aprendi algo com uma amiga que talvez ela mesma não sabe que faz: do seu contato com a pessoa, ela conclui tudo. Quando digo tudo, quero dizer tudo: se tem caráter, se é uma pessoa bacana, se tem boa auto-estima, se vale a pena manter por perto. Da minha parte, sempre tive receio de ser injusta, então só julgava fatos isolados, achava que a maneira como trata o garçom fala apenas do tratamento com subalternos, sua roupa no dia fala apenas de como ela está naquele dia, a maneira como comeu revela a fome do momento. O que há por detrás do julgamento da minha amiga é perceber que somos os mesmos noite e dia, somos nós mesmos nos mínimos gestos, o tempo todo. Que as exceções são tão raras que dá pra entender tudo de primeira sim, basta ter olhos para ver.

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Um Eu melhor

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Eu acho que os textos estão melhores e sem dúvida hoje eu sou muito mais independente. E intransigente. Aprendi a não precisar dos outros para minha estabilidade emocional. Antes eu tinha uns descontroles, as coisas perdiam a perspectiva e eu ficava agitada e pessimista, sem saber direito como sair daquele estado. Minhas opções eram uma conversa racional que só uma ou duas pessoas no mundo eram capaz de ter comigo, ou passar dias em loucura, até cansar. Achava normal e hoje acho um saaaaaco quem age assim, quem procura em mim esse esteio. Sou a minha própria estapeadora que grita pra me acalmar, sou o cachorro da foto com a própria guia da boca se levando pra passear.

Descobri que há quem me considere melhor hoje do que quando eu era casada. Eu não consigo pensar nesses termos. O meu ponto de vista é a realidade ter se tornado mais dura e reajo a ela. Antes eu era um molusco pelado e agora sou um molusco de carapaça.

Azul

Era como se eu tivesse acordado de madrugada pra fazer xixi. Olhei para o espelho e estava azul, muito azul, no mesmo tom de azul daqueles caras da propaganda da Tim (ou Tobias, do Arrested Development). Lembro de me olhar no espelho e me ver azul e querer tirar aquilo. Aí olho pro pulso direito e começo a sumir. Volto correndo pra cama antes que fique pior e me cubro.

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Todo mundo aqui já viu X-men e o meu preferido é aqueles que eles estão “jovens”. Tem a cena linda que a Mystica espera o Magneto na cama e ele a prefere azul. Ele lhe diz, em outro momento do filme, que ela desperdiçava uma tremenda energia ao se mostrar não-azul. Ser boazinha e adaptada é ser Mystica cor da pele.

“Perfection”

 

Por carta

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Que eu não sou do tipo que dá a baita resposta que destrói o adversário na hora já sei e já lamento há muito, mas os anos me mostraram que a coisa é ainda mais grave. Às vezes levo tempo para saber até como me sinto em relação a alguma coisa. O fato de não doer na hora não quer dizer que depois não vá num crescente e quando finalmente descubro o impacto está doendo pra caramba. Há uma distância entre eu e Eu, e deixo a critério da crença do leitor o que seria um eu minúsculo e um eu maiúsculo. O eu recebe e precisa da resposta do Eu. Para algumas coisas, o trivial, eles trocam e-mails. Em outras, a comunicação é feita do modo antigo, por carta, e elas certamente atravessam oceanos.

Descrição

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Uma amiga, nesses meios ultrasensíveis de entender as pessoas, me definiu como alguém que tem por objetivo estar cercada de afeto. Eu jamais teria pensado em mim mesma nesses termos ou de descrever isso como um objetivo mas, de fato, já deixei de lado situações que me dariam status, dinheiro, etc, porque estar naquele meio não me agradava. Não agradava também os outros, mas eles se mantinham lá em vista do que aquele contato podia render, nem que fosse apenas no Lattes. Sempre preferi posições menos vantajosas com pessoas que me faziam bem. Quem diria que sou carpe diem – expressão que eu sempre associei a festas e putaria.

Alicia Florrick

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Alicia, do The Good Wife, é uma protagonista atípica. De cara, quando comecei a ver a série, me encantei com Kalinda, a indiana sem coração, que nunca sorri, desejada e indiferente ao afeto de homens e mulheres, competente investigadora da Lockhart & Gardner. Isso sem falar no estilo, de botas de cano longo, saias curtas e jaquetas ajustadas. Depois, me encantei com a poderosa Diane Lockhart, chiquérrima, idealista mas também muito prática, difícil de se dobrar. No time masculino, muitos gritinhos apaixonados por Will Gardner e fico xingando como quem assiste uma partida de futebol cada vez que Peter Florrick aparece. Amo Eli Gold, o esperto chefe de campanha de Peter. E tem a Alicia. O apelo dessa personagem é: Alicia é a humanidade no meio do desumano. Ela pensa no marido que a chifrou, nos filhos, no que é certo, escolhe os casos pelos critérios mais justos. Por ter sido dona de casa, ela traz consigo para a profissão o olhar pelas pessoas, a ingenuidade de quem quer fazer o que é certo. É o sopro de vida necessário em meio à maldade do mundo, aquela pessoa neutra que torna o ambiente competitivo um pouco mais respirável. Mas ser assim dói muito. Todos queremos ter uma Alicia Florrick por perto, só não queremos ser.

Herança

praiaMeu pai chegava do trabalho e ia como um jato até o quarto, trocava de roupa e ia para a praia, onde andava por quilômetros. Tentei andar com ele uma vez e não consegui, mesmo o trajeto mais curto era muito longo. Agora, aposentado, se propõe a caminhadas longuíssimas onde cruza o centro velho de Salvador a pé. Quando minha mãe dizia “vamos” para um passeio no centro, eu já sabia antecipadamente que andaríamos a tarde inteira, num roteiro que incluía contas, lojas, pesquisa de preço, perder-se e reencontrar-se. Quando subíamos no ônibus, na volta, estávamos tão exaustas que não conseguíamos nem falar. Minha mãe que me contou que o meu pai fez um churrasco com o primeiro pedreiro que mexeu na nossa casa, aquele colocou o fechadura da porta do quartinho dos fundos de cabeça para baixo, o que exigia um certo raciocínio na hora de abrir. Meu pai sempre acaba dando um jeito de inventar umas comidas de graça, atualmente é uma feijoada feita no meio da praça numa das cidades minúsculas da ilha de Itaparica. Todo fim de ano minha mãe me fazia abrir o grande cesto de vime onde ficavam meus brinquedos e separávamos para as crianças carentes. Eu olhava para os brinquedos e avaliava se ainda os usava, se ainda os amava, ou se eles fariam outra criança muito mais feliz. Lembro de um que era uma miniatura muito lindinha de uma casa, e eu quis dar sem dó. Aí quem quis preservar o brinquedo foi ela. Minha mãe sempre foi generosa, até demais, a ponto de nos preocuparmos dela ser explorada. Era alguém lhe contar uma história triste que ela já queria ajudar e dava o que iria lhe fazer falta.

Obrigada.

Sem carro

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É uma tendência quase irresistível a de se ver como um núcleo flutuante, como se o que somos e pensamos fosse gerado independente da realidade. Muito pelo contrário, quem aposta que o homem não passa de um conjunto de hábitos – sendo que a maioria deles foi adotada por mera repetição – está muito mais perto da verdade. Uma das coisas que me determina muito é não ter carro. O não ter carro me torna uma pessoa que anda à pé, de ônibus e de bicicleta. Ah, e carona dos amigos. Você pode pensar que isso, então, nada mais é do que um atestado de pobreza. Não é (apenas), eu nunca quis ter um carro. Era pra ter ficado com carro no divórcio e me recusei.

Nunca consegui convencer ninguém sobre as vantagens do não ter carro. O único argumento que faz as pessoas realmente balançarem é dizer que a vida sem carro é mais magra. No mais, nada posso contra o evidente conforto, rapidez e status (principalmente o último). Sem falar da lista de motivos, todos excelentes, que fazem com que meu interlocutor, por mais que admire a vida sem carro, não possa abrir mão de um – é filho, é distância, são horários impossíveis, fascite plantar… Tudo bem que meus amigos muitas vezes sejam mais jovens e moram mais perto do que eu, mas eu sou eu, eles são eles, e eu ando de ônibus e eles não, fim.

Eu acho que a vida sem carro nos modifica de uma maneira profunda, é uma vida slow. Quando eu digo que emagrece não ter carro, isso para mim não é apenas uma questão de gasto calórico. Andar faz com que a pessoa tenha uma outra relação com seu tempo, seu corpo e seus pensamentos. O aborrecimento vai embora no passo apressado. É um momento de perceber o horizonte, sentir o contato da pele com o tempo, olhar para as pessoas, ser parte da lenta mudança de cenário. Claro que de carro costuma ser mais rápido, que ônibus lotado e acordar mais cedo é uma vida que ninguém quer. O transporte coletivo não é ruim apenas por ser coletivo, ele é sucateado por estar relegado à “pobreza”. Quem não dirige demora mais a chegar, mas tem mais chances de chegar tranquilo. O lento é uma maneira diferente de lidar com o tempo, de não ficar tão focado no fim e sim no caminho. Carro deixa o sujeito trancado; os outros meios de transporte levam a dividir mais o espaço, participar, negociar com um tempo alheio à você. Acho que temos precisado muito disso: ser arrancados de nós mesmos, não estar constantemente envolvidos no próprio inferno. Por isso que digo que não ter carro fala de quem eu sou. É um cotidiano que exige de mim mais paciência, tolerância e empatia. Empatia, esse sentimento que tem feito tanta falta no mundo.

Formigas

Estou vendo um longo documentário sobre o Darcy Ribeiro e estudar a história desse homem é estudar a história do Brasil. São cinco episódios e estou no quarto. Agora, ele está com Salvador Allende. Antes disso ele já foi discípulo do Rondon junto com os índios, lutou com Anísio Teixeira pela escola pública, fundou a UNB, foi ministro da casa civil do Jango, estava lá quando ocorreu o golpe de 64 (offtopic: bastante angustiante acompanhar o golpe de 64 e relacionar ao que vivemos hoje. Nas semelhanças e nas diferenças), foi preso, exilado no Uruguai, na Venezuela, Chile e fez contribuições para a antropologia de todos esses países… Onde o homem punha o pé criava um agito, revolucionava, produzia. Vejo que ele foi um péssimo aluno de medicina, pois gostava muito mais do social do que da sala de aula e dou risada de mim mesma. Rio porque toda vida sempre fui CDF mas, ao mesmo tempo, eu achava que pertencia à mesma categoria de pessoas que o Darcy. Acho que todo xóvem se vê assim, ai de quem nos contrarie. Mesmo entre aquelas que ocupam cargos importantes e entram para a história, me parece que existem dois tipos de pessoas: as que se destacam e realizam um trabalho apenas por serem a pessoa certa na hora certa. Sua presença é circunstancial. Darcy é o outro grupo, muito mais raro do que se faz crer, de gente que você pode colocar em qualquer canto e vai se destacar, vai revolucionar e subir. É provável que eu e você nunca tenhamos conhecido alguém assim. Adivinho que tem que ser inquieto, extrovertido e definitivamente bom de papo. Novamente rio: tenho uma necessidade aguda – característica dos introvertidos – de sentir o ambiente, saber onde estou pisando; alguém com tanto cuidado com os sentimentos alheios e senso de adequação jamais seria um tipo desses. Claro que cada Darcy precisa de várias formigas para não deixar que seus planos se desvaneçam, tudo tem seu lugar no mundo. Apenas que a maturidade é assim: a gente não investe mais naquilo que não somos.

Jateamento

Nós tínhamos uma exposição em poucos dias e costumávamos lixar as peças pra fazer acabamento. Lixa d´água, aumentando gradualmente a numeração até dar um aspecto liso.(Pra quem não sabe, eu já fui escultora).  Só que lixar é uma praga. Você vai lixando e aparecem buracos, aí você tampa, lixa de novo, aparecem buracos em lugares diferentes. Isso sem falar nos detalhes, que ou você estraga ou não alcança nunca. Aí nos recomendaram jatear as peças, porque o jateamento não deixa de ser uma forma de lixar. Ela, Luzia, levou só uma peça pequena pra teste. Já eu levei uma grande e pesada, mais de oitenta centímetros de largura, porque ela era a menos detalhada das que eu tinha. Deixamos lá. Quando voltamos, o cara veio trazer a peça de volta. Olhei, e dava pra ver claramente onde a areia havia passado. A superfície que eu queria deixar lisa ficou com listras desorganizadas. “Aquela era hora dela xingar o cara, dizer que ele tinha feito merda, que havia estragado a escultura” – disse a Luzia, contando o episódio – “Mas ela (eu, no caso) olhou para aquele horror e não disse nada. Aí que eu entendi como ela é”.

 

Eu jamais entendi o que ela havia entendido da minha atitude. Como briguenta e extrovertida, super carioca orgulhosa que era, a Luzia deve ter visto nisso fraqueza. Não sei se essa cena me define, nem ao menos sei o que ela diz a meu respeito. O que eu vi naquela hora foi um homem simples chegando com a minha peça. Horrorosa, sim. Mas ele estava orgulhoso. Todo dia ele fazia vidros e coisas comerciais, era a primeira vez que ele punha as mãos em algo de Arte. Ele contou que naquele trabalho havia se empenhado especialmente. Ele trouxe minha peça apoiada nos dois braços, e a pousou na mesa com a delicadeza de quem se sentia co-autor. De carinho à explosão de fúria é um caminho tão longo. Ele não entenderia nada, se surpreenderia, ficaria triste. A boa vontade dele me comoveu. Depois eu penei pra consertar a peça. Mas mesmo hoje não teria conseguido reagir diferente.

Livramento

Conheci o termo livramento há pouco tempo, lendo uma amiga se queixando de um cafa que saiu da vida dela. Todo mundo vendo que era cafa, ela mesma sabendo que é um cafa, mas ainda assim sofrendo. Porque mulher é fogo, a gente espirra, o sujeito oferece um lenço, e já estamos emocionadas porque ele cuida da gente. Aí uma outra, muito apropriadamente, escreveu embaixo da queixa: livramento, amiga, livramento. E é mesmo. Tem uns que doem quando saem da nossa vida, mas o grande estrago foi deixar entrar. Gente que é tão patológica, mas tão patológica, que quando mais perto ficam, mais mal fazem. Um amor que nunca é amor, que é espelhamento, apropriação, parasitagem. Com um perfil desses, o único bem que a pessoa pode fazer é ir embora o mais rápido possível, pra ver se o prejuízo é menor. Não sei como deve ser viver assim, sendo uma maldição na vida dos outros. Olhar para trás e saber que deixou  um rastro de tristeza.

Despersonalização?

Eu tenho uma característica pessoal que não sei como se chama. Eu chamo de despersonalização, do meu lado Zelig. Descrevo aqui pra ver se mais alguém se sente assim.

Por exemplo, reality show. Nego chega num BBB com toda aquela ideia de quem ele é. Eu sou bacana, forte, amigo da galera, divertido. Sou Fulano que frequenta tais bares, que namora com tais tipos de pessoas, formado em não sei onde e com tantos mil na poupança. Ou: sou um talento a ser descoberto, vou estourar, virar capa da Playboy e ser famoso. Aí ele fica confinado em hotel, fica confinado com um bando de desconhecidos, sofre situações estressantes e tudo o que ele achava que era deixa de ser. “As máscaras caem”, como se diz. A questão é que não são apenas máscaras do que a pessoa pensa que vai ser lá dentro, caem também aqueles conceitos que a pessoa constrói sobre si mesma. Eu, por exemplo, achei que tiraria de letra aprender a dirigir. Nunca me imaginei chorando durante aula prática, precisando fazer instrutor de psicólogo. Morro de vergonha perante mim mesma.

O que eu chamo de despersonalização é que eu esqueço bem rápido quem eu sou. Enquanto tem uns que não esquecem dos seus títulos jamais, ou que precisam ficar confinados durante muito tempo pra ficarem confusos, comigo é Pá Bum. Me põe uma roupinha diferente, muda meus horários e eu já não sou mais ninguém. Quer dizer, não mais quem eu era antes. No meio de artistas eu falava de arte, no meio de acadêmicos eu falava como intelectual, no meio de bailarinos eu falava de dança. Se perto de pessoas que me valorizavam eu me sentia bem, também junto dos que me viam como desprezível eu também me via como tal. Eu não uso uma bagagem prévia como defesa, sabe? Acho que isso me faz absorver mais dos lugares onde vou do que as outras pessoas. Como disse no começo, não sei se é bom ou ruim.
(Quando eu vi o filme, décadas atrás, eu não fazia ideia de quem eram os entrevistados que apareciam no começo. Estou encantada!)

É mais fácil

Cirurgiões plásticos seguem certas regras de beleza. No nariz, eu sei que a medida ideal coloca o canto das narinas na mesma linha do canto dos olhos. Os peitos ideais, manda o silicone, são aqueles redondos, que na natureza só são alcançados quando recebem uma certa pressão. Existe também uma proporção entre cintura e quadril que torna o corpo um violão, e todo mundo sabe que os homens gostam de corpo violão. Ou não? Ah, gostam sim. Eles às vezes podem relevar nosso nariz batatinha, os peitos pequenos e/ou caídos, a cintura grossa, mas que os homens gostam de um belo corpo jovem, cheiroso, redondo nos lugares certos… Uma mulher assim sempre os fará virar a cabeça, uma mulher assim sempre estará no topo da descrição da mulher de corpo ideal. Eles relevam quando a mulher vale a pena. Quando ela tem um tchans, um brilho no olhar, uma risada gostosa, uma personalidade, um conjunto que vale a pena. Eles relevam essas coisas físicas quando a mulher tem um conjunto tão atraente – personalidade, jeito, brilho, charme, são muitos os nomes – que aquilo que em qualquer outra mulher pareceria um defeito, nelas é charme. Nelas uma característica fora dos padrões só contribui para deixá-las ainda mais apaixonantes, vira um atributo que confirma o quanto ela é única.

 

Se eu pudesse escolher, era essa a plástica que eu faria, a de personalidade. O problema é que prótese e cirurgião plástico a gente escolhe – basta pesquisar, pagar bem, fazer em suaves prestações. Ter o peito dos sonhos é relativamente fácil. Já ter uma personalidade vibrante, ah! tem que nascer. Na falta de um mercado de venda de personalidades, é mais fácil investir no corpo. A gente investe em plástica, apesar de saber que personalidade é muito melhor, por não confiar no próprio taco. Eu posso, na hora de me vestir, colocar a roupa mais cara, mais estilosa, mais tribal, mais colorida; posso, quando ao lado de um homem, fazer uma lista completa dos livros que li, rir das piadas dele, fazer gestos teatrais e grandiloquentes. Pelo menos em teoria, posso tanto virar arroz de festa, a pessoa mais animada, a companhia ideal para todos os programas; ou posso partir para o oposto e adquirir ares de mulher misteriosa, inacessível, desejada. Eu conheço muitas mulheres de sonhos, de Marilyns a Audreys, e poderia tentar ser como qualquer uma delas. Mas tentar ser, ter o projeto de ser, não é ser. Eu poderia tentar de tudo e, sem saber, esbarrar no mesmo lugar comum de sempre, das pessoas que tentam parecer o que não são. Existem aquelas que nada fazem pra isso, mas são naturalmente charmosas, agradáveis, mordíveis. Elas não precisam do corpo da moda, elas estão acima da moda. Homens, mulheres, aliens não deixarão de notá-las, nunca. Mas como ser? É mais fácil procurar um bom cirurgião, é mais fácil fazer lipo.