A benção-chantagem

nossa-senhora

Chegou aqui um envelope dourado brilhante, igual saquinho de presente. Dentro veio uma Nossa Senhora em papel duro e brilhante, breguinha. Embaixo, uma faixa onde se lê o meu nome estampado no coração e que ela vai me abençoar e à minha família. Em outra carta, uma chantagem dizendo que já que eu ganhei uma linda Nossa Senhora, eu vou mandar uma contribuição. Assim, nesse tom imperativo. Dizia que era de um padre sei lá das quantas, de uma paróquia que nunca vi e não sabia que padres arranjavam dados sigilosos da gente. Rasguei a carta na hora, invasivo e com cara de picaretagem. Mas a Nossa Senhora tá ali parada, sei lá que fim dar praquilo – tremendo mau agouro jogar fora um papel com meu nome e benção, não sei o que fazer.

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Eu havia me decidido há uma semana…

… numa conversa de whats que não tinha nada a ver com aquilo. Pensei, esperei, tentei sozinha, pedi ajuda, precisei de outro fim de semana e finalmente, numa segunda, estava tudo preparado. Eu repassei na memória – era aquilo mesmo, tinha certeza, daria certo? Eu fui duvidando até o último minuto. Abri a aba do computador com o celular do meu lado e fiz. Em seguida, me afastei da mesa. Coração acelerado, mão tremendo. E agora, e agora. Eu me sentia caindo num vazio. Tomo um floral? Andei um pouco meio sem saber o que fazer, se olhava pra janela ou o quê. No fim de sentei no chão, meio iniciando uma oração sem sentido – deveria agradecer a Deus ou pedir ajuda, porque pode ser que tivesse acabado de fazer uma grande cagada? Deitei por cima das minhas pernas, o rosto para baixo, sentindo minha mão direita tremer no chão. Eu precisava me acalmar e aquela posição, chamada Postura do Servo, faz muito bem para a lombar e eu deveria fazer sempre. Respirei, pensei, entendi: eu havia acabado de fazer uma grande transferência bancária. Nenhuma fortuna diante do que existe no mundo, mas MINHA fortuna. E esse negócio de pegar numerozinho daqui, abrir aplicativo dali, de um internet banking pra outro mais virtual ainda me deixou em pânico. A falta de uma pessoa, um recibo, não sei, alguma fisicalidade em meio a uma soma de dinheiro tão difícil de juntar, me deu um desamparo muito grande. As tais decisões adultas – meu dinheiro, faço o que quiser, etc. “Você está é velha”, disse quando saí daquele estado. Finalmente entendi o problema dos velhos com caixas eletrônicos.

codigo de barras

Uma vitória pessoal que me deixa muito feliz

saída natação

Alguém aqui lembra que eu disse que aprendi a saltar na piscina depois de velha? Tem a primeira parte aqui e a segunda parte aqui. De lá pra cá, eu persisti. Duas coisas que aconteceram meio juntas: o FB estava com um lance de mostrar desafios. Tinha uns que queriam aprender a dançar, outros que queriam ser alongados e encostar o dedo dos pés. Eles se filmavam e mostrava em alguns minutos a evolução de meses e todos ficavam melhores com a persistência. E eu li também o Outliers, e nele percebi o quanto estamos numa cultura que não valoriza o esforço; como brasileiros e até como ocidentais, tendemos a acreditar muito mais no talento, o que nos leva a nem tentar muito caso não tenhamos facilidade desde o começo. Me impus a um programa de sair da minha aula e dar um pulinho ou dois de cima do bloco. Só isso, quase que como para constar, como quem assina um livro ponto.

Uma coisa que eu notei, e que demorou muito, foi o sentimento de vergonha. Uma vergonha, uma humilhação, como quem se dá um castigo. Nos campeonatos, caída na água e disparava, sentindo meu rosto vermelho debaixo d´água e com isso queria que pensassem: ela deu uma barrigada, mas em compensação é boa pra caramba! Em dias ruins, quando estou triste e sem confiança, ainda hoje não vai. Meses e meses de sentir que estava me castigando. Subia no bloco achando uma porcaria, pra dar um salto porcaria. Enquanto essa sensação irracional persistiu, eu avancei muito pouco. Ou sentia que não avançava nada. Percebi a importância de onde eu olhava, mudei minha posição no bloco, sentia que não conseguia colocar força nas pernas. Só percebia, não que eu conseguisse fazer. Mas do que trabalhar a técnica, eu estava enfrentando uma barreira psicológica bem dura. Eram como os anos que o cara do Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zeno conseguia nem segurar o arco direito.

Um dia, numa outra piscina que não a que eu nado sempre, percebi que saltei melhor. Era uma questão visual – como aquela piscina estava cheia até a borda e a minha tem uma distância, naquela eu me sentia menos alta. Aquilo me deu um clique. De repente eu percebi que estava dando certo, que eu podia fazer. A sensação de humilhação passou. Ao invés de um salto e olhe lá, algumas vezes tentei muito mais – eu estava sentindo prazer. Prazer de voltar pra água, prazer de pular, prazer de tentar de novo. Meu desempenho melhorou instantaneamente.

No último meeting que participei, já nem estava mais preocupada com saída nenhuma. Desde que mudei de categoria, passei a quase nem ganhar nada, tem muita gente melhor do que eu, melhor num nível que eu não ganharia delas nem de pés de pato. Mas gosto de participar ainda mais do que antes. De todas as provas que iria disputar, a única que eu tinha chance de pegar um terceiro lugar – porque tinha menos fortonas concorrendo – era a dos 100 metros livre, e mesmo assim seria um terceiro disputado. Fui pra prova com sangue nos zóio e consegui meu terceiro. Dias depois, quando fui para aula, meu professor perguntou se alguém comentou sobre a minha prova de 100 metros. Comentou?

-Olha, você fez a melhor saída da sua vida! Foi muito bom, você caiu muito longe, foi incrível. Eu e o Eduardo estávamos acompanhando e, assim que você caiu na água, nos dois soltamos um grito. Lá é campeonato, o bloco era melhor, tem um monte de fatores, mas mesmo assim! Pra gente que te acompanha desde o começo…

O vaidarmerdômetro

decepção

Um conflito inevitável de gerações é que os mais novos não sabem que instrumento preciso e afinado se torna o detector de “vai dar merda” – ou vaidarmerdômetro – com os anos. Na juventude, temos que quase parar no hospital para nos convencermos de algo, enquanto que a maturidade nos faz detectar um problema quando ele é apenas um pontinho preto na linha do horizonte. Para os mais jovens soa cruel que um simples adesivo no carro ou o modo errado de dar risada possa fazer alguém ser cortado de antemão de qualquer círculo íntimo; mal sabem eles que, no passado, muitos outros adesivos e risadas erradas existiram, ganharam chance, erraram, foram perdoados, repetiram. Não sabem que a primeira impressão costuma ser a primeira intuição, e que ela é muito mais sábia do que qualquer QI pode alcançar.

Um vaidarmerdômetro que não falha nunca – e vou falar aqui porque poucos deles podem ser expressos em palavras – é o do restaurante que atende mal. Se você entra no restaurante, o garçom não te vê, não anotou o pedido achando que lembraria e não lembrou, os pratos das outras mesas chegam e nada do teu… dê as costas e vá embora. Sem medo. Só piora. E o humor da gente também, por culpa da fome. Aconteceu comigo uma vez tudo o que eu citei no começo do parágrafo, mais o fato da comida que chegou para ele (o meu pedido foi ignorado) era um conjunto de frituras envelhecidas. Eu já estava pedindo para ir embora faz tempo. Quando o meu pedido chegou, uma hora depois, havia um cabelo no peixe. Devolvemos para a cozinha e fomos acusados de ter plantado o cabelo para criar caso. Nem aconteceu em Curitiba, foi uma viagem que fizemos até o litoral para comer algo típico. Quase duas horas pra chegar, mais de duas horas no restaurante, saímos com fome, eu de péssimo humor por causa do comida e de não ter sido ouvida, comemos sanduíche e voltamos para Curitiba.

O sorriso da jararaca

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Tinha a Jararaca do ambiente de trabalho, daquelas tão boas em criar situações para subir que, até as pessoas perceberem, ela já estava em outro cargo, mais alto. E tinha também o estagiário. Todos o chamavam pelo seu nome no diminutivo, porque ele reunia muitas características e o faziam inho: baixo, novo, e uma maneira meio ingênua de ser. Como estagiário, ele não estava muito por dentro das fofocas e nem era afetado pelas puxadas de tapete.

Um dia o Fulaninho surpreendeu ao dizer que não gostava da Jararaca, achava uma pessoa falsa. Aí a colega de trabalho de ambos, a terceira pessoa oculta desta história, perguntou:

-Como é que você sabe disso?

-Porque eu percebi que ela é toda sorridente quando fala com as pessoas e fica imediatamente séria assim que a pessoa dá as costas.

Tamagotchi

tamagotchi

Eu já era adulta na época que lançaram o Tamagotchi e, embora alguns adultos não estivessem nem aí pro fato de ser um brinquedo, eu não tive um apesar de ter vontade. Um dia foi passar o dia na casa de uma colega de faculdade que tinha irmãos pequenos e um deles tinha um Tamagotchi. “Caiu no chão, ele está com defeito”. A minha vontade de brincar de Tamagotchi era demais e não liguei. Eu lembro que tinha até gente que ganhava dinheiro cuidando de Tamagotchi. Ele tinha necessidade, hora de comer e de brincar, e se você o ignorasse durante muito tempo, ele morria. Só que eu, naquele dia, fiquei com ele na mão o dia inteiro, o que o Tamagotchi pedia era atendido imediatamente, e mesmo assim ele morreu várias vezes. VÁRIAS. Fazer de tudo e não conseguir impedir aquela morte, mesmo eu sabendo antecipadamente que o Tamagotchi estava com defeito, me fez pegar horror ao brinquedo.

O Tamagotchi pra mim virou um símbolo de coisas que deram errado comigo, talvez só comigo, e me traumatizaram. Quando eu estava casada, acho que tivemos uns quatro carros, e dois deles deram muito problema. Quando digo muito, é muito. Eu lembro que cheguei em casa tantas vezes de carona na boleia do guincho que já estava me sentindo meio Musa dos Caminhoneiros. Carro morreu na subida perto de casa, carro morreu dez horas da noite em rua escura, carro voltou à 40 por hora do litoral soltando fumaça preta por todo caminho. Só que na época eu tinha ao meu lado um marido que por acaso era uma pessoa tranquilíssima. Pergunta se eu tenho coragem de ter um carro sozinha – TENHO HORROR. Acho que se me acontecessem aquelas coisas comigo dirigindo, apenas eu, o mais provável seria que eu paralizasse e começasse a chorar no meio da rua.

E eu sei que tenho outros Tamagotchis. Numa briga que foi muito marcante na época, um amigo me jogou na cara que eu falava tanto em dificuldades de relacionamento no blog que só podia ser uma pessoa muito difícil. Nunca mais me queixei de amizades aqui, mas as pessoas têm tanto prazer na companhia uns dos outros e eu na solidão, que quem sabe seja um efeito Tamagotchi…

Alto lá, lagartixa!

filtro de barro

Quem é que não gosta de lagartixa, não é mesmo? Curitiba tem um problema sério com aranhas marrons e todo mundo compartilha um aviso que não se deve matar lagartixas porque são predadoras naturais. Enquanto em Salvador há os calangos enormes muros, que as crianças aprendem logo a querer fazer a experiência sobre a regeneração fabulosa da causa deles, aqui é raro encontrar lagartixa e elas não devem chegar a 10 centímetros. Então eu já havia visto uma na parede da cozinha e lhe disse que ela era muito bem vinda, que não precisava se esconder de mim. Uma noite qualquer, vi que havia um volume esquisito na tampa de um dos vidrinhos de tempero e, quando me aproximei, ela saiu de lá. Ela estava enrolada na tampa e saiu correndo. De um lado foi fofinho mas de outro, sei lá, ver que ela não se limita à parede quebrou algo dentro de mim. Eu vivo falando pra lagartixa que ela é bem vinda porque essa corridinha que ela dá me assusta, acho que é barata. “Já disse que você é bem vinda aqui, pare de correr como se fosse uma barata, elas é que não são”.

Pois. Tenho filtro de barro e troco a vela a cada seis meses, como manda o fabricante. Tenho a vaga impressão que antigamente a tampa também era de porcelana; quando comprei o meu e vi a tampa levinha de plástico, achei que economizaram. Eu sou do tipo de pessoa que tem certa preguiça com tampas em geral, especialmente se tem que rosquear muito; já perdi um monte de coisas por isso, de sabão em pó à café. Algumas vezes já encontrei a tampa do filtro meio mal encaixada, e na noite que fui trocar a vela ela estava assim. “Tenho que parar com essa mania de tampar mal, o quanto que já caiu no chão e perdi, etc”. Limpei o filtro, troquei a vela e tal. Outra coisa: tem que dispensar os primeiros doze litros de água, o que corresponde a encher o meu filtro duas vezes. No dia seguinte, fui lá trocar a água e adivinhe: a tampa estava mal encaixada de novo. Não foi a primeira vez da minha vida, mas foi a primeira que eu conscientemente me programei pra não deixar daquele jeito.

Resultado: na minha cabeça, a lagartixa levanta aquela tampa à noite. A lagartixa bebe a água que desce pelo filtro. A lagartixa anda no copo que deixo na frente do filtro. A lagartixa anda em cima da louça que deixo à noite. Estou contaminada de lagartixa há meses. Coloquei um prato fundo tampando o filtro. Nunca na minha vida tenho tido tanta disciplina em não deixar nada na pia antes de dormir, nem que isso implique em lavar e guardar toda louça quase às 2h da madrugada. Se você acha lagartixa fofinha, pense se é a ponto de dividir água com ela.

Consulta

tubo cobrador

Era final da tarde, por volta das 17h e havia chovido forte e parado, chuva de verão. O tubo estava vazio. Veio uma mulher, uma senhora que ela nunca havia visto antes, nem naquele horário e nem em outro. Estava de bermuda e usava um óculos de grau grande, igual se usava antigamente. Ela deu uma nota de dez e, enquanto a cobradora separava o troco, perguntou se podia fazer uma pergunta. O que será que viria, a cobradora pensou, quem atende público ouve de tudo. A mulher perguntou se a cobradora tinha cachorro e ela disse que não. A mulher soltou um “ah” decepcionado, mas a cobradora se sentiu obrigada a dizer que não tinha hoje, mas já teve, um pincher, quando o seu filho era pequeno. Aí a mulher começou a contar que estava com um cachorro em casa que se coçou até abrir buraco no pelo, que havia passado semanas com aquele cone, e ela achava que era sarna. A pergunta era se a cobradora sabia se tinha que ir no veterinário ou dava pra comprar remédio pra sarna direto. Nisso foi entrando gente, era bem o horário que as domésticas saem dos prédios que tem por ali. Tinha que levar no veterinário, a cobradora falou, porque só assim pra ter certeza de que era sarna. Muitas coisas fazem o cachorro se coçar. Stress é uma delas. Às vezes podia ser tristeza, a pincher uma vez também se coçou até abrir buracos no pelo, mas foi quando o filho parou de ir e voltar com ele para a escolinha. Também teve que usar cone, levou um tempão pra curar. Sarna era muito contagioso. A mulher disse que estava saindo justamente pra comprar tudo novo pro cachorro. Mas o cachorro dela havia tido contato com outro cachorro, a cobradora quis saber, porque até onde ela sabia era de outro cachorro que pegava. A mulher disse que leu na internet que pode ser que as coisas do cachorro fiquem contaminadas, que o dela tem um monte de almofadas que deveriam ser só para o verão mas o cachorro se apegou e não deixava mais ela tirar, então pro cachorro não ter que passar a noite sem nada quando o veterinário mandasse jogar tudo fora e aplicar remédio, ela já estava saindo pra comprar tudo novo. A cobradora e as outras pessoas do tubo, que até o fim da conversa já eram umas oito, concordaram que dá muita dó do cachorro porque ele acha que a culpa foi dele. A mulher falou, de si mesma: “a culpa não é do cachorro, é do dono”. Aí o ônibus chegou e o tudo ficou vazio outra vez. Quem atende público sempre ouve umas histórias.

 

A mulher que fez consulta veterinária com cobradora fui eu.

As desventuras de Rodolfo

fale com o motorista

Uma mulher conversando com o motorista do Inter 2:

Dava vontade de nunca mais pisar no bairro, mas a minha mãe não sai de lá. A gente conhece todo mundo. Mas depois do que aconteceu a minha mãe ficou derrubada, ela parou de andar. Agora que ela voltou a andar, está andando bem devagarzinho, mas ela ficou de cama, não conseguia mais levantar. Depois ele arranjou outra. Ele estava saindo com essa moça, ela separada, vivia junto com o marido. Aí ela apareceu grávida. Rodolfo disse que era dele, a moça disse que era dele, e o marido disse que era dele, mesmo a moça dizendo que era do Rodolfo. Ele tentou matar o Rodolfo três vez. Ele chegou tirando o revolver, eu jogava meu corpo em cima, dizia pra não fazer isso, um forfé na rua. Ele dava um monte de tiro e não acertava a gente, atirava pro alto. Depois que a criança nasceu, fizeram DNA e era dele mesmo. A mulher voltou pra ele, estão juntos até hoje. Depois o Rodolfo ficou amigo dele, hoje ele é amigo nosso. Agora ele tá na cadeia. Justo agora, que tinha se acertado, não estava usando nada, estava limpo, estava namorando. Ele tava namorando uma moça com duas crianças, nenhuma dele. As crianças me chamam até de vó. O Rodolfo conseguiu o indulto e quando nós fomos buscar ele, ele já tinha saído no dia anterior. Ele saiu e foi direto pra casa da namorada. Aí já estavam procurando ele, ele saiu com a tornozeleira e tem um perímetro de onde eles avisam que vão ficar. E de lá já estava se preparando pra ir pro litoral, passou na casa da mãe só pra pegar roupa. Já tinha tudo acertado com outra namorada esperando ele por lá. Não podia porque estava fora do perímetro, o advogado foi lá e tirou o indulto. Isso matou ele.

Mais quebrado do que arroz de terceira

motorista

Quando minha carona estacionou o carro, o ônibus estava no tubo e eu o perdi. A cobradora estava conversando com duas amigas. As amigas iam num centro espírita e a cobradora estava em dúvidas. “É que eu sou católica”. “Nós também somos, deixa eu explicar, o espiritismo aceita”. E começou a contar, com um tom de voz que só pessoas que gostam de falar de religião têm, sobre ter ouvido falar há anos e não se interessar, e agora viveu coisas difíceis, e ela sentiu no seu coração algo inexplicável, uma vontade urgente de ir. No meio da história, entrou no ponto o cara que corre. Não sei se ele é íntimo, mas quando a cobradora perguntou como ele estava, sua resposta foi ótima: “Hoje eu estou mais quebrado do que arroz de terceira”. Eu saquei discretamente o celular discretamente pra anotar, mas não precisava – a frase é tão maravilhosa que provavelmente lembrarei pro resto da vida. A mulher contou que sai tão bem das reuniões, que no primeiro dia parecia ter deixado quarenta quilos lá, que ela sai leve, eufórica. Meu primeiro ônibus chegou e fui perdida nos meus pensamentos. Saí dele e entrei no outro, que fica muito tempo parado. Entrei e sentei. Logo em seguida entraram duas mulheres, que cumprimentaram efusivamente o motorista. Pensei que eu deveria ter cumprimentado também. Mas aí eles começaram uma conversa animada, os três. Elas dizendo que era muito ruim trabalhar à noite. Ele contou que a “amiga delas” – percebi uma certa ironia – tinha ido na viagem anterior. Começaram a falar de uma outra conversa, um certo clima, uma história de que haviam passado mel nele. “Ela conta tudo pra gente, tudinho”. Aí falaram que iriam perguntar pro motorista anterior qual o nome dele. Que sabiam o nome dele. Ele as desafiou a dizer qual era. “Lourenço”. Ele disse que era quase isso, que era Lawrence. “Nome de artista”. Eu acreditei, mas aí ele colocou um outro nome em inglês depois. Elas também ficaram na dúvida. “Será que eu vou ter que mostrar a identidade?” – ele fez charme. Aí elas falaram que Lourenço era uma das alternativas, que também podia ser Marcelo. Ele riu, disse que não tinha cara de Marcelo. “Mas também podia ser Alberto. Ou Capeletti”. Todos riram. Elas desceram. Eu desci quase em seguida, pedi pro Lawrence ou Capeletti me deixar numa esquina. Agradeci, desejei um bom trabalho e desci a rua pensando no quanto papo de ônibus é maravilhoso.

A fita poderosa

fita cassete

Eu não tenho mais a fita pelo motivo simples que há muito não se usa fita. Ela chegou até mim através de um colega de atelier, que me falou dela como um verdadeiro milagre. Tinha um som repetitivo de fundo, como um metrônomo, que através de estudos científicos que mostravam que uma determinada frequência sonora fazia maravilhas com o cérebro. Começava com um relaxamento e depois o locutor dizia coisas que avançados estudos científicos mostravam que o cérebro ficava reprogramado e a vida da pessoa mudava. Tudo naquela fita era super avançado. A fita pertencia a uma organização secreta e avançada, não se achava pra vender, mas ele faria uma cópia de presente para mim porque éramos amigos e ele confiava no meu discernimento. Cheguei em casa curiosíssima, me tranquei no quarto e deitei para ouvir a fita, conforme as instruções. Ela começava com aquele relaxamento que manda a gente se concentrar em cada parte do corpo. Depois de relaxar cada pedaço, nos pedia para colocar o cérebro num estado tranquilo. No fim, falava umas frases positivas. Isso. Era só um lado, meia hora, terminava com o sujeito dizendo que a gente podia acordar. No dia seguinte eu contei que ouvi a fita, ele perguntou o que eu senti e eu narrei tudo isso que escrevi acima. Meu amigo ficou impressionado: “Você tem um grande poder mental, geralmente a pessoa dorme nos primeiros minutos!” Fiquei orgulhosa do elogio e nunca mais o mereci: depois que eu já sabia o que tinha dentro, o cara mal começava a falar pra se concentrar no dedo dos pés e eu já estava roncando.

Um episódio machista

atelier

Já falei algumas vezes aqui que fui escultora. Eu tinha vinte e poucos anos. O atelier é público e fica no Parque São Lourenço, na base de um monte, digamos assim. Conto isso pra vocês saberem que era quente. Trabalhar lá era muito sujo, então eu comprei um macacão jeans grosso, igual aqueles de mecânico. Tem foto minha neste post usando ele. Uma vez eu estava lixando uma peça à mão, no verão; lixar já é um trabalho braçal, então imagine num lugar quente e usando um macacão jeans. Peguei a peça e saí do atelier, sentei num banco meio isolado que tem perto da entrada. Cabelo preso, macacão sujo, lixa e escultura.

Acho que não aguentei nem trinta minutos e voltei para dentro, furiosa. No pequeno período que eu passei lá, fui abordada por três homens, em separado. Eu trabalhando e do nada surgia um homem e se sentava na minha frente e começava a me cantar. O primeiro eu até me dei ao trabalho de responder secamente, mas depois veio outro e outro, e senti tanto ódio que não conseguia nem falar. Porque eu percebi bem o que estava acontecendo: como eu estava com aquele macacão sujo, concluíram que eu era uma funcionária, uma trabalhadora braçal – mas novinha e bonitinha. Então, eles acharam que tinham todo direito de tentar alguma coisa. Quem sabe eu até deveria me sentir honrada, porque eu era uma pobre coitada e eles estavam dispostos a dormir comigo mesmo assim. Sabe aquele pensamento senhor de engenho com as escravas, patrão com a empregada?

Saí do atelier há mais de uma década, nunca mais lixei nada e não cheguei nem perto de vestir um macacão sujo, por isso achei que nunca mais passaria por nada semelhante. Até que eu me divorciei.

Duas histórias sobre sexto sentido

vagão metrô

Uma é minha e outra é de uma amiga:

Eu conversava muito com uma mulher na academia, fazíamos a mesma aula. Ela morava ali perto, sozinha, filho já casado. Um dia ela sumiu, não soube o que aconteceu. Reapareceu meses depois, sem nenhuma mudança visível na aparência. Mas, quando eu a via andando pela academia, não sentia vontade de falar com ela. Era inexplicável, levando em conta que eu gostava muito dela. Pensava em falar e vinha um sentimento de rejeição de novo. Ela tampouco me procurou. Um dia finalmente coincidiu que sentarmos juntas, esperando a aula. Naquele tempo que ficou sumida, não sei o motivo, ela entrou numa religião bem fundamentalista, que classificava o mundo como puros e impuros de acordo com um tal ritual que a igreja dela fazia. Eu, consequentemente, não era da turma dos puros.

Minha amiga fazia pós-graduação em Barcelona e pegava metrô com frequência. A lembrança surgiu porque conversávamos sobre como andar em transporte público é uma baita vivência sobre tolerância, que nem sempre alguém que nos choca é necessariamente agressivo ou vai nos fazer mal – ele está ali porque quer chegar em outro ponto da cidade, como qualquer um. Minha amiga um dia estava sentada em um vagão vazio e um homem veio e sentou do seu lado. Ela se sentiu muito mal perto dele, um sentimento de urgência, uma vontade de ir correndo pra outro vagão; só que o outro lado dela condenou isso, a atitude discriminatória com alguém que não lhe fez nada. Ela ficou sentada. Pouco tempo depois ele desceu, e antes de sair colou um adesivo acima da porta do metrô. Era um adesivo neonazista que pregava o ódio a imigrantes.

Cola

cola

Era uma das matérias mais difíceis da faculdade. Ela não tinha o hábito de colar, mas decidiu que daquela vez não tinha jeito. O sujeito mais inteligente do curso tirou 4 e ela tirou 8. Olhando para trás, hoje ela acha que o professor percebeu e deixou. A partir daquela prova, para tudo o que o professor falava na sala, se dirigia a ela. Toda aula, como se fosse uma espécie de monitora, ele perguntava o que ela achava. Ela, a melhor aluna, quem sabe a única em anos a tirar uma nota tão alta. Então, para fazer jus a fama e se antecipar ao professor, ela se via obrigada a se matar de estudar. Ela não passou vergonha, manteve o papel até o fim, mas que ela pagou caro por ter colado, isso pagou.

IHHHSSS

nariz-fechado

Eu vi que era um rapaz bonito porque ele ergueu o rosto e nossos olhares se cruzaram quando eu entrei no ônibus.  Era jovem, barbudo. Eu me sentei atrás dele, num dos bancos duplos. Ao lado dele estava uma moça, cujo rosto eu só enxergava de lado e a nuca. Era um dos dias de inverno quentes que fez por aqui, tão quente que parecia o último verão que tivemos, que foi meio frio. Ela estava sentada meio de lado, encostada na parede do ônibus e o joelho no banco da frente, para apoiar melhor o celular. Cabelo preso, jovem. Quando é com a gente, não é um elogio convincente, mas eu acho que qualquer pessoa, quando está feliz e à vontade, fica muito bonita. A moça estava se divertindo muito lendo e digitando no whatsapp, sentada numa postura cômoda – bonita. As unhas eram compridas e rosadas, no mesmo tom da blusa que caía em um dos ombros e deixava a mostra o top que ela usava. Ela digitava, ria, lia, escorregava a barra de rolamento com o dedão. Pensei que ela e o rapaz, jovens e bonitos, faziam um belo casal. Só que assim que eu me sentei, vi que ela enfiava a palma da mão direita nas narinas e puxava pra cima com uma inspiração ruidosa, num gesto de quem está tentando segurar o que sai do nariz – IHHHSSS. Não é bonito estar com coriza e ter que se virar, todo mundo já passou por isso. Mas nem ao menos estava frio para culparmos o clima. Não puxe porque não faz bem, tenha sempre um lenço, minha mãe dizia. Ela não tinha. Já vi algumas pessoas enfiarem a mão assim no nariz, e sempre me pareceu meio exagerado, como se aquilo fosse enfiar a coriza de volta para a glândula que a produziu. O problema é que não volta, ela continua querendo sair, e a moça fez de novo. Ela nem se dava conta do que estava fazendo, dava para ver que era um gesto automático que não a atrapalhava em nada. Digitava, ria, de novo. Não dava nem cinco minutos e lá estava ela  puxando o nariz pra cima com a palma da mão, exibindo as narinas. IHHHSSS. Devia ser muita coriza. Ou talvez não fosse, se ela deixasse sair de uma vez parava. Se eu pelo menos tivesse algum lenço ou papel higiênico pra dar pra ela. A conversa no whats estava muito engraçada, devia ser um grupo, mensagens que não paravam de chegar, risadas. De novo. IHHHSSS. De novo. Comecei a me preocupar se eram áreas diferentes da mão, se o celular estava cheio de vírus, se talvez ela não devesse usar as costas da mão ou até mesmo a barra da blusa. Mas que tirasse, que resolvesse. Ombro pra fora, mais quente mas ainda inverno. IHHHSSS. A postura do rapaz, olhando para frente, começou a me parecer pura tensão. Acho que eles jamais seriam um casal. Primeiros encontros que não dão certo por motivos inconfessáveis, imaginei ele contando pros amigos que a moça era bonita mas IHHHSSS IHHHSSS. Minha mãe teria lenço de papel na bolsa para oferecer. Eu também teria, se estivesse resfriada. Se estivesse resfriada, teria saído com lenço na bolsa ao invés de ficar puxando ranho. IHHHSSS. A moça gargalhava, eram muitas mensagens. Eu aguardava a próxima puxada num misto de ansiedade e nojo – ficava aliviada quando ela finalmente fazia, como um profecia que se cumpre, e ao mesmo tempo desejava não ver mais. O ônibus mal virou a Cruz Machado e o rapaz se levantou rapidamente, muitas quadras antes do ponto. Tive a impressão de que foi um gesto de fuga. Eu também, me levantei logo em seguida.

Caminhão de mudança

mudança

Sábado. Exerço meu sagrado direito de dormir até o sono acabar. Quando finalmente saí da cama e abri as cortinas, havia um enorme caminhão de mudança na vizinha do lado, onde tem a clínica. Enorme, do tipo que minha mãe chamava quando morávamos de aluguel e cabia a casa inteira lá dentro e ainda sobrava. Nem pra me avisarem, eu pensei. Temos um relacionamento cordial, eu e a vizinha. Eu a avisei quando, num domingo, a torneira da cozinha dela abriu sem motivo, e parecia que na minha casa a água jorrava sem parar. Ela dividiu comigo os custos das reforma das nossas calçadas e não me cobrou nada por usar o resto dos seus tijolinhos. Não vá, tive vontade de ir até a janela lhe dizer. Comecei a pensar no que faria, que teria que começar a acender vela pedindo vizinhos tão bons quanto, ou se faria igual Roberto Benigni no filme O Monstro e espantaria todos os possíveis inquilinos que aparecessem.

Antes, deixa eu explicar o porquê do pensamento: a acústica aqui é terrível. Até a chegada da clínica, eu sofri com cada vizinho que morou do lado. Primeiro foram dois irmãos, estudantes que vieram do interior e tinham um pai político. A moça brigava com o namorado e andava de madrugada de salto e dava para acompanhar os seus passos furiosos. Ela engravidou e foi embora. O irmão era mais comportado, bombeiro, mas fez um grupo de pagode e eles ensaiam adivinha aonde. Depois veio uma moça com dois filhos em idade escolar e que namorava o sósia do Marco Luque. O fato das crianças só dormirem pra lá da meia noite – dava para ouvir a manha cada vez- não me incomodava. O problema eram as longas sessões de sexo, sem dúvida regadas a viagra, que começavam 3h da madrugada e iam quase até de manhã. Eu tinha vontade de avisar que, assim como eu acordava com os gritos (não estou exagerando na expressão), os filhos dela também deveriam acordar. Como se não fosse o suficiente, ela deixava a cama encostada na parede que divide comigo e a cabeceira ficava batendo num ritmo bem característico.

Para espantar os inquilinos, bastava contar a verdade sobre o número assustador de roubos de carros por aqui, e uma das vítimas foi justamente um paciente. Antes da clínica, um casal bateu na vizinhança querendo saber se era violenta e eu disse que não, mas a vizinha do lado falou tanto de assalto que eu nunca mais vi aquele casal por aqui. Fui para o meu banho, tentando me conformar em perder minha vizinha favorita, e a imaginação voou: eu espantando novos inquilinos, o imóvel vazio, vândalos quebram as janelas, pichadores estragam as paredes, mendigos ocupam o imóvel, meus vizinhos a favor de amarrar bandido em poste colocam forças policiais para retirar os mendigos, tiroteio, pessoas morrem aqui do lado, eu começo a ver fantasmas. Quando saí, chateada em meio a uma nuvem de Phebo, olhei de novo e o caminhão tinha ido embora. Meu banho não é tão demorado assim, nem se fosse uma mudança feita pelo The Flash. Acho que eles erraram na proporção do caminhão de frete. Assim espero. Se encontrar minha vizinha, choramingarei pedindo para que ela nunca me deixe.