O poker e o acordo entre amigos

poker

Era uma turma que tinha o poker sagrado num dia específico da semana. As mulheres eram proibidas de aparecer ou de achar ruim. Os amigos se reuniam na casa de um deles e passavam a noite inteira lá, jogando. Apareceu o Amigo Bonitão e pediu um favor para o Amigo Jogador. O Bonitão tinha arranjado uma mulher, ela era casada, um caso complicado. Ele disse para a esposa dele que iria participar do jogo de poker, mas o que ele iria fazer era aproveitar para ver a amante. Até aí tudo bem, disse o Jogador. O problema é que Bonitão tinha um carro esportivo caro e muito marcante, se ele saísse com aquele carro por aí as chances de alguém descobrir eram muito grandes. Então ele precisava que o Jogador lhe emprestasse o carro, que era um carro comum e não chamava atenção. Eles se encontrariam no poker, o Bonitão pegaria a chave do carro do Jogador e devolveria no final da noite com o tanque cheio. Tudo bem. E assim seguiu o acordo, o Jogador dava a chave do carro, ficava jogando com os outros e depois de algumas horas o Bonitão aparecia de novo, devolvia as chaves e o tanque do carro estava cheio, chegava a ser até vantajoso.

A questão – e não sei como aconteceu, porque quem me contou a história não lembrava desse detalhe – é que o Jogador descobriu que a mulher casada que dormia com o Bonitão era a sua. O Bonitão pegava a chave do carro, entrava na garagem do prédio usando o controle que ficava dentro do carro, o porteiro via apenas que o carro do morador entrava e saía, o Bonitão subia pelo elevador da garagem (a história é antiga, câmeras em elevadores ainda não haviam sido inventadas), e ficava muito à vontade porque tinha certeza que o marido não voltaria enquanto ele mesmo não fosse embora…

A primeira reunião após a promoção

old man yells at cloud

Eu nem ao menos procurei esse estágio, uma colega de faculdade tinha arranjado pra ela e desistiu de última hora porque apareceu uma oportunidade melhor. Foi um achado ela conseguir que eu aceitasse, pra ficar menos chato pra ela com o pessoal da clínica psiquiátrica. Eles tinham dois tipos de estágio de seis meses: quem não tinha experiência (meu caso) precisava passar três meses na clínica dia e três meses no integral; quem tinha experiência anterior em psiquiatria ficava só um mês na dia e os outros cinco no integral. Eu não sabia a diferença na época: clínica dia são os pacientes que recebem tratamento de dia e voltam para casa à noite, como se fosse o expediente de um emprego; a clínica integral era para quem tinha tido uma crise e precisava ficar em observação durante alguns dias e depois voltava pra sua rotina.

Eu curti a beça ficar na dia, foi lá que me ensinaram a jogar sinuca. Quando me avisaram que eu seria transferida depois de um mês, não fiquei feliz, mas era uma espécie de promoção. Cheguei lá e ao invés do rádio ligado de um, aulas de artes de outro, jogos de sinuca e outras coisas, havia uns cinco adultos de cara fechada em volta de uma TV ligada. Tentei ser legal com eles do mesmo jeito que era legal com os outros. Lembro bem de um rapaz moreno, pouco mais velho do que eu, e eu sabia que ele era mitomaníaco. Tentei conversar com o grupo, propor fazermos alguma coisa, quem sabia jogar cartas, e uma hora eu usei a expressão “chato”: disse que estava chato ali, que no integral havia mais opções do que fazer. Silêncio, assunto não andava, clima estranho, essas coisas. Lembro de mim com meus 18 anos de jaleco no meio daquelas pessoas e como elas me olhavam e me pergunto como é que eu não desconfiei. Quando acabou meu horário e eu me levantei, o rapaz moreno ainda me disse algo bem maldoso, tipo um “que bom né, esse tédio”.

Na primeira reunião com os estagiários, poucos dias depois do meu primeiro plantão, falaram de uma tal estagiária que foi extremamente anti-ética. A estagiária enfureceu os pacientes, falou mal da própria clínica, desmereceu o tratamento, só faltou propor uma revolução comunista. As duas horas de reunião foram inteiramente dedicadas a descer a lenha em mim, embora não tenham chegado a me apontar. No final, procurei a coordenadora, que sabia que era eu, e disse que eles poderiam me desligar. Ela colocou panos quentes, disse que eu era ótima, pra não levar tão à sério, ia dar tudo certo. Eu completei meus seis meses, conhecia enfermeiros, médicos, até mesmo a dona da clínica e queriam que eu renovasse, mas já não era mais conveniente pra mim.

O rapaz mitômano foi visto meses depois na fila inscrição de uma faculdade de psicologia.

Band-aid

bandaid

Ela estava numa onda de mau humor que não tinha nem mais o que dizer. Um dia, havíamos comentado sobre uma série na Netflix – ela estava meio chocada com o final e eu disse que então não veria agora, porque não estava podendo. Aí, na compra seguinte, eu comentei de série e ela me disse que estava sem Netflix porque estava sem internet. Aí numa outra conversa isso veio à tona de novo – de estar sem Netflix por estar sem internet em casa. Pouco depois começou o mau humor, e pensei em coisas graves que acontecem na vida e que nos fazem atrasar as contas. No primeiro dia brinquei, e ela me deu um sorriso forçado ostensivo e me senti a cliente chata que quer se fazer de íntima. Nas vezes seguintes, dei a simpatia mínima, sem puxar assunto, pra ela não se sentir forçada a nada. Foram semanas, e quando se é cliente habitual semanas significam muitas interações. Comecei a temer por ela, porque ficar sempre de cara fechada se torna um hábito difícil de combater.

Um dia, sem aviso, ela me atendeu de excelente humor e olheiras. Disse que estava morrendo de sono. Na vez seguinte, a metros do balcão, eu vi olheiras muito pretas, que ela nunca tinha tido. Não pude deixar de falar que estavam enormes, que ela havia se tornado praticamente olheiras pretas enormes. Ela riu. Eu disse que era cara de quem havia dormido duas horas. “Você quer dizer que eu dormi duas horas da manhã ou que dormi duas horas antes de vir?”. Bom, dava pra entender.

No outro dia, já com cores mais bonitas no rosto, eu lhe perguntei se ela havia finalmente dormido. Sim, um pouco mais, mas não tudo, etc. No meio da conversa animada, vi que havia um band-aid no pescoço dela. E esse pescoço aí? Ela colocou a mão, puxou a gola pra cima e deu um sorrisinho maroto. Eu sorri também e disse que não falo nada.  Saudades de perder noites de sono por motivos felizes…

Errando bem

calvin fazendo lição

Eu era uma boa aluna de matemática e foi como se tivesse sido jogada num poço quando a física entrou na minha vida. Sempre fui boa aluna e antes disso não conhecia o sentimento de não conseguir entender nada. Era demais, num nível que eu nem ao menos conseguia disfarçar. As fórmulas não faziam o menor sentido pra mim, eu não conseguia transformar as histórias dos enunciados nos números. Pro carro que ia de Curitiba a São Paulo a não sei quantos quilômetros, eu sabia somar tudo e dividir, apenas. Eu adoro estudar, adoro assuntos novos, mas minha maneira de aprender sempre foi a de tentar entender o todo e com a física talvez eu não tenha inteligência pra tanto. Enfim. Foram tantos anos de tentar reconstruir, não entender e fazer errado, que chegou no vestibular e eu não sabia fazer uma única conta. O que eu fiz foi repetir todas as minhas contas erradas e, com elas, ter certeza do que eu deveria eliminar. O que sobrava possivelmente estava certo. Pra época, foi o suficiente.

Quando conheci a Rutinha

overthinker

Numa manhã sonolenta, encontrei um carocinho perto da virilha. Não sei dizer há quanto tempo estava ali, não é um lugar que se costume tocar. Eu havia sentido um incômodo no final da menstruação, como se algo tivesse se estressado, por dentro, com a presença do copinho. Também lembro de ter sentido o desconforto antes, ou seja, pode ser que o carocinho estivesse lá faz tempo. Marquei com uma médica generalista pra dali a dois dias.

Fiquei surpresa dela ter dado ouvidos à minha teoria de que aquilo poderia ter a ver com o inchaço que tive durante anos naquela região. Na época que fiz balé intensamente, eu fazia uns alongamentos insanos (com o resto da turma) e teve uma época que inchou e não tinha o que fazer. Não doía nem nada. Interpretei como se fosse um elástico que estiquei demais e voltou frouxo. Depois larguei o balé e o inchaço passou lentamente ao longo dos anos. A médica quis saber se eu tinha percebido alteração no tamanho, se tinha histórico de câncer na família, se tomava medicação, etc. Não, tudo normal, só um carocinho duro, imóvel e, fora aquele lance no final da menstruação, nem doía. Eu disse que nem fui ver na internet pra não ficar assustada e ela disse que era bom mesmo. Ela me examinou, não achou nada demais, me mandou fazer ultrassom e aproveitei pra pedir os exames de sangue de sempre. Ela me pediu para acompanhar minha pressão porque durante a consulta estava meio alta.

Me saí bem tirando a pressão durante a semana, fiz os exames de sangue e todos os resultados estavam melhores do que fiz há dez meses, uma maravilha. Até que, na noite anterior ao ultrassom, resolvi dar uma olhadinha na internet. Pra caroço na virilha fui mandada para “íngua” e de “íngua na virilha” eu descobri que a íngua faz parte do sistema linfático, combate infecção, e se a pessoa sente a íngua inchada e dolorida é bom, sinal de que o corpo está combatendo uma infecção. Perigoso mesmo é quando a pessoa sente um carocinho duro, que não se mexe e não dói nada… Ou seja, o meu caso. Vi programa do Bem Estar, li artigo do Dr. Drauzio, o câncer do Gianecchini, apalpei todas as minhas dobras, pesquisei sobre quimio, planejei chamar alguém pra passear com a Dúnia durante o meu pós-operatório… De nada adiantou que os exames de sangue saíram normais – li que nem todos os tipos de câncer aparecem em exames de sangue. Eu podia estar com um daqueles que não aparece. Ou lúpus.

Como vocês podem imaginar, quando cheguei no ultrassom e o médico me perguntou onde era, eu já soltei: “achei um carocinho perto da virilha. Pelo que eu pesquisei, pode ser câncer”. O médico era bonito e me chamava de querida, o que me levou a concluir que podia ser gay e me senti totalmente à vontade dele me apalpar perto da virilha. Olhou na máquina, achou o caroço super pequeno e falou pra eu parar com essa história de câncer. Diagnóstico: cisto sebáceo. Não chega nem a meio centímetro. E agora, ao contrário do que era quando o descobri, dói a beça, de tanto que o futuquei.

Na reconsulta, finalmente, a médica achou tudo engraçado e disse que nem ao menos era uma hérnia (“hum, então além de íngua existe hérnia”) para me mandar ter cuidado com esforço. Ganhei parabéns pela pressão, observação sobre alimentação e Rutinha, a pelotinha, fica onde está porque não faz mal a ninguém.

A benção-chantagem

nossa-senhora

Chegou aqui um envelope dourado brilhante, igual saquinho de presente. Dentro veio uma Nossa Senhora em papel duro e brilhante, breguinha. Embaixo, uma faixa onde se lê o meu nome estampado no coração e que ela vai me abençoar e à minha família. Em outra carta, uma chantagem dizendo que já que eu ganhei uma linda Nossa Senhora, eu vou mandar uma contribuição. Assim, nesse tom imperativo. Dizia que era de um padre sei lá das quantas, de uma paróquia que nunca vi e não sabia que padres arranjavam dados sigilosos da gente. Rasguei a carta na hora, invasivo e com cara de picaretagem. Mas a Nossa Senhora tá ali parada, sei lá que fim dar praquilo – tremendo mau agouro jogar fora um papel com meu nome e benção, não sei o que fazer.

Eu havia me decidido há uma semana…

… numa conversa de whats que não tinha nada a ver com aquilo. Pensei, esperei, tentei sozinha, pedi ajuda, precisei de outro fim de semana e finalmente, numa segunda, estava tudo preparado. Eu repassei na memória – era aquilo mesmo, tinha certeza, daria certo? Eu fui duvidando até o último minuto. Abri a aba do computador com o celular do meu lado e fiz. Em seguida, me afastei da mesa. Coração acelerado, mão tremendo. E agora, e agora. Eu me sentia caindo num vazio. Tomo um floral? Andei um pouco meio sem saber o que fazer, se olhava pra janela ou o quê. No fim de sentei no chão, meio iniciando uma oração sem sentido – deveria agradecer a Deus ou pedir ajuda, porque pode ser que tivesse acabado de fazer uma grande cagada? Deitei por cima das minhas pernas, o rosto para baixo, sentindo minha mão direita tremer no chão. Eu precisava me acalmar e aquela posição, chamada Postura do Servo, faz muito bem para a lombar e eu deveria fazer sempre. Respirei, pensei, entendi: eu havia acabado de fazer uma grande transferência bancária. Nenhuma fortuna diante do que existe no mundo, mas MINHA fortuna. E esse negócio de pegar numerozinho daqui, abrir aplicativo dali, de um internet banking pra outro mais virtual ainda me deixou em pânico. A falta de uma pessoa, um recibo, não sei, alguma fisicalidade em meio a uma soma de dinheiro tão difícil de juntar, me deu um desamparo muito grande. As tais decisões adultas – meu dinheiro, faço o que quiser, etc. “Você está é velha”, disse quando saí daquele estado. Finalmente entendi o problema dos velhos com caixas eletrônicos.

codigo de barras

Uma vitória pessoal que me deixa muito feliz

saída natação

Alguém aqui lembra que eu disse que aprendi a saltar na piscina depois de velha? Tem a primeira parte aqui e a segunda parte aqui. De lá pra cá, eu persisti. Duas coisas que aconteceram meio juntas: o FB estava com um lance de mostrar desafios. Tinha uns que queriam aprender a dançar, outros que queriam ser alongados e encostar o dedo dos pés. Eles se filmavam e mostrava em alguns minutos a evolução de meses e todos ficavam melhores com a persistência. E eu li também o Outliers, e nele percebi o quanto estamos numa cultura que não valoriza o esforço; como brasileiros e até como ocidentais, tendemos a acreditar muito mais no talento, o que nos leva a nem tentar muito caso não tenhamos facilidade desde o começo. Me impus a um programa de sair da minha aula e dar um pulinho ou dois de cima do bloco. Só isso, quase que como para constar, como quem assina um livro ponto.

Uma coisa que eu notei, e que demorou muito, foi o sentimento de vergonha. Uma vergonha, uma humilhação, como quem se dá um castigo. Nos campeonatos, caída na água e disparava, sentindo meu rosto vermelho debaixo d´água e com isso queria que pensassem: ela deu uma barrigada, mas em compensação é boa pra caramba! Em dias ruins, quando estou triste e sem confiança, ainda hoje não vai. Meses e meses de sentir que estava me castigando. Subia no bloco achando uma porcaria, pra dar um salto porcaria. Enquanto essa sensação irracional persistiu, eu avancei muito pouco. Ou sentia que não avançava nada. Percebi a importância de onde eu olhava, mudei minha posição no bloco, sentia que não conseguia colocar força nas pernas. Só percebia, não que eu conseguisse fazer. Mas do que trabalhar a técnica, eu estava enfrentando uma barreira psicológica bem dura. Eram como os anos que o cara do Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zeno conseguia nem segurar o arco direito.

Um dia, numa outra piscina que não a que eu nado sempre, percebi que saltei melhor. Era uma questão visual – como aquela piscina estava cheia até a borda e a minha tem uma distância, naquela eu me sentia menos alta. Aquilo me deu um clique. De repente eu percebi que estava dando certo, que eu podia fazer. A sensação de humilhação passou. Ao invés de um salto e olhe lá, algumas vezes tentei muito mais – eu estava sentindo prazer. Prazer de voltar pra água, prazer de pular, prazer de tentar de novo. Meu desempenho melhorou instantaneamente.

No último meeting que participei, já nem estava mais preocupada com saída nenhuma. Desde que mudei de categoria, passei a quase nem ganhar nada, tem muita gente melhor do que eu, melhor num nível que eu não ganharia delas nem de pés de pato. Mas gosto de participar ainda mais do que antes. De todas as provas que iria disputar, a única que eu tinha chance de pegar um terceiro lugar – porque tinha menos fortonas concorrendo – era a dos 100 metros livre, e mesmo assim seria um terceiro disputado. Fui pra prova com sangue nos zóio e consegui meu terceiro. Dias depois, quando fui para aula, meu professor perguntou se alguém comentou sobre a minha prova de 100 metros. Comentou?

-Olha, você fez a melhor saída da sua vida! Foi muito bom, você caiu muito longe, foi incrível. Eu e o Eduardo estávamos acompanhando e, assim que você caiu na água, nos dois soltamos um grito. Lá é campeonato, o bloco era melhor, tem um monte de fatores, mas mesmo assim! Pra gente que te acompanha desde o começo…

O vaidarmerdômetro

decepção

Um conflito inevitável de gerações é que os mais novos não sabem que instrumento preciso e afinado se torna o detector de “vai dar merda” – ou vaidarmerdômetro – com os anos. Na juventude, temos que quase parar no hospital para nos convencermos de algo, enquanto que a maturidade nos faz detectar um problema quando ele é apenas um pontinho preto na linha do horizonte. Para os mais jovens soa cruel que um simples adesivo no carro ou o modo errado de dar risada possa fazer alguém ser cortado de antemão de qualquer círculo íntimo; mal sabem eles que, no passado, muitos outros adesivos e risadas erradas existiram, ganharam chance, erraram, foram perdoados, repetiram. Não sabem que a primeira impressão costuma ser a primeira intuição, e que ela é muito mais sábia do que qualquer QI pode alcançar.

Um vaidarmerdômetro que não falha nunca – e vou falar aqui porque poucos deles podem ser expressos em palavras – é o do restaurante que atende mal. Se você entra no restaurante, o garçom não te vê, não anotou o pedido achando que lembraria e não lembrou, os pratos das outras mesas chegam e nada do teu… dê as costas e vá embora. Sem medo. Só piora. E o humor da gente também, por culpa da fome. Aconteceu comigo uma vez tudo o que eu citei no começo do parágrafo, mais o fato da comida que chegou para ele (o meu pedido foi ignorado) era um conjunto de frituras envelhecidas. Eu já estava pedindo para ir embora faz tempo. Quando o meu pedido chegou, uma hora depois, havia um cabelo no peixe. Devolvemos para a cozinha e fomos acusados de ter plantado o cabelo para criar caso. Nem aconteceu em Curitiba, foi uma viagem que fizemos até o litoral para comer algo típico. Quase duas horas pra chegar, mais de duas horas no restaurante, saímos com fome, eu de péssimo humor por causa do comida e de não ter sido ouvida, comemos sanduíche e voltamos para Curitiba.

O sorriso da jararaca

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Tinha a Jararaca do ambiente de trabalho, daquelas tão boas em criar situações para subir que, até as pessoas perceberem, ela já estava em outro cargo, mais alto. E tinha também o estagiário. Todos o chamavam pelo seu nome no diminutivo, porque ele reunia muitas características e o faziam inho: baixo, novo, e uma maneira meio ingênua de ser. Como estagiário, ele não estava muito por dentro das fofocas e nem era afetado pelas puxadas de tapete.

Um dia o Fulaninho surpreendeu ao dizer que não gostava da Jararaca, achava uma pessoa falsa. Aí a colega de trabalho de ambos, a terceira pessoa oculta desta história, perguntou:

-Como é que você sabe disso?

-Porque eu percebi que ela é toda sorridente quando fala com as pessoas e fica imediatamente séria assim que a pessoa dá as costas.

Tamagotchi

tamagotchi

Eu já era adulta na época que lançaram o Tamagotchi e, embora alguns adultos não estivessem nem aí pro fato de ser um brinquedo, eu não tive um apesar de ter vontade. Um dia foi passar o dia na casa de uma colega de faculdade que tinha irmãos pequenos e um deles tinha um Tamagotchi. “Caiu no chão, ele está com defeito”. A minha vontade de brincar de Tamagotchi era demais e não liguei. Eu lembro que tinha até gente que ganhava dinheiro cuidando de Tamagotchi. Ele tinha necessidade, hora de comer e de brincar, e se você o ignorasse durante muito tempo, ele morria. Só que eu, naquele dia, fiquei com ele na mão o dia inteiro, o que o Tamagotchi pedia era atendido imediatamente, e mesmo assim ele morreu várias vezes. VÁRIAS. Fazer de tudo e não conseguir impedir aquela morte, mesmo eu sabendo antecipadamente que o Tamagotchi estava com defeito, me fez pegar horror ao brinquedo.

O Tamagotchi pra mim virou um símbolo de coisas que deram errado comigo, talvez só comigo, e me traumatizaram. Quando eu estava casada, acho que tivemos uns quatro carros, e dois deles deram muito problema. Quando digo muito, é muito. Eu lembro que cheguei em casa tantas vezes de carona na boleia do guincho que já estava me sentindo meio Musa dos Caminhoneiros. Carro morreu na subida perto de casa, carro morreu dez horas da noite em rua escura, carro voltou à 40 por hora do litoral soltando fumaça preta por todo caminho. Só que na época eu tinha ao meu lado um marido que por acaso era uma pessoa tranquilíssima. Pergunta se eu tenho coragem de ter um carro sozinha – TENHO HORROR. Acho que se me acontecessem aquelas coisas comigo dirigindo, apenas eu, o mais provável seria que eu paralizasse e começasse a chorar no meio da rua.

E eu sei que tenho outros Tamagotchis. Numa briga que foi muito marcante na época, um amigo me jogou na cara que eu falava tanto em dificuldades de relacionamento no blog que só podia ser uma pessoa muito difícil. Nunca mais me queixei de amizades aqui, mas as pessoas têm tanto prazer na companhia uns dos outros e eu na solidão, que quem sabe seja um efeito Tamagotchi…

Alto lá, lagartixa!

filtro de barro

Quem é que não gosta de lagartixa, não é mesmo? Curitiba tem um problema sério com aranhas marrons e todo mundo compartilha um aviso que não se deve matar lagartixas porque são predadoras naturais. Enquanto em Salvador há os calangos enormes muros, que as crianças aprendem logo a querer fazer a experiência sobre a regeneração fabulosa da causa deles, aqui é raro encontrar lagartixa e elas não devem chegar a 10 centímetros. Então eu já havia visto uma na parede da cozinha e lhe disse que ela era muito bem vinda, que não precisava se esconder de mim. Uma noite qualquer, vi que havia um volume esquisito na tampa de um dos vidrinhos de tempero e, quando me aproximei, ela saiu de lá. Ela estava enrolada na tampa e saiu correndo. De um lado foi fofinho mas de outro, sei lá, ver que ela não se limita à parede quebrou algo dentro de mim. Eu vivo falando pra lagartixa que ela é bem vinda porque essa corridinha que ela dá me assusta, acho que é barata. “Já disse que você é bem vinda aqui, pare de correr como se fosse uma barata, elas é que não são”.

Pois. Tenho filtro de barro e troco a vela a cada seis meses, como manda o fabricante. Tenho a vaga impressão que antigamente a tampa também era de porcelana; quando comprei o meu e vi a tampa levinha de plástico, achei que economizaram. Eu sou do tipo de pessoa que tem certa preguiça com tampas em geral, especialmente se tem que rosquear muito; já perdi um monte de coisas por isso, de sabão em pó à café. Algumas vezes já encontrei a tampa do filtro meio mal encaixada, e na noite que fui trocar a vela ela estava assim. “Tenho que parar com essa mania de tampar mal, o quanto que já caiu no chão e perdi, etc”. Limpei o filtro, troquei a vela e tal. Outra coisa: tem que dispensar os primeiros doze litros de água, o que corresponde a encher o meu filtro duas vezes. No dia seguinte, fui lá trocar a água e adivinhe: a tampa estava mal encaixada de novo. Não foi a primeira vez da minha vida, mas foi a primeira que eu conscientemente me programei pra não deixar daquele jeito.

Resultado: na minha cabeça, a lagartixa levanta aquela tampa à noite. A lagartixa bebe a água que desce pelo filtro. A lagartixa anda no copo que deixo na frente do filtro. A lagartixa anda em cima da louça que deixo à noite. Estou contaminada de lagartixa há meses. Coloquei um prato fundo tampando o filtro. Nunca na minha vida tenho tido tanta disciplina em não deixar nada na pia antes de dormir, nem que isso implique em lavar e guardar toda louça quase às 2h da madrugada. Se você acha lagartixa fofinha, pense se é a ponto de dividir água com ela.

Consulta

tubo cobrador

Era final da tarde, por volta das 17h e havia chovido forte e parado, chuva de verão. O tubo estava vazio. Veio uma mulher, uma senhora que ela nunca havia visto antes, nem naquele horário e nem em outro. Estava de bermuda e usava um óculos de grau grande, igual se usava antigamente. Ela deu uma nota de dez e, enquanto a cobradora separava o troco, perguntou se podia fazer uma pergunta. O que será que viria, a cobradora pensou, quem atende público ouve de tudo. A mulher perguntou se a cobradora tinha cachorro e ela disse que não. A mulher soltou um “ah” decepcionado, mas a cobradora se sentiu obrigada a dizer que não tinha hoje, mas já teve, um pincher, quando o seu filho era pequeno. Aí a mulher começou a contar que estava com um cachorro em casa que se coçou até abrir buraco no pelo, que havia passado semanas com aquele cone, e ela achava que era sarna. A pergunta era se a cobradora sabia se tinha que ir no veterinário ou dava pra comprar remédio pra sarna direto. Nisso foi entrando gente, era bem o horário que as domésticas saem dos prédios que tem por ali. Tinha que levar no veterinário, a cobradora falou, porque só assim pra ter certeza de que era sarna. Muitas coisas fazem o cachorro se coçar. Stress é uma delas. Às vezes podia ser tristeza, a pincher uma vez também se coçou até abrir buracos no pelo, mas foi quando o filho parou de ir e voltar com ele para a escolinha. Também teve que usar cone, levou um tempão pra curar. Sarna era muito contagioso. A mulher disse que estava saindo justamente pra comprar tudo novo pro cachorro. Mas o cachorro dela havia tido contato com outro cachorro, a cobradora quis saber, porque até onde ela sabia era de outro cachorro que pegava. A mulher disse que leu na internet que pode ser que as coisas do cachorro fiquem contaminadas, que o dela tem um monte de almofadas que deveriam ser só para o verão mas o cachorro se apegou e não deixava mais ela tirar, então pro cachorro não ter que passar a noite sem nada quando o veterinário mandasse jogar tudo fora e aplicar remédio, ela já estava saindo pra comprar tudo novo. A cobradora e as outras pessoas do tubo, que até o fim da conversa já eram umas oito, concordaram que dá muita dó do cachorro porque ele acha que a culpa foi dele. A mulher falou, de si mesma: “a culpa não é do cachorro, é do dono”. Aí o ônibus chegou e o tudo ficou vazio outra vez. Quem atende público sempre ouve umas histórias.

 

A mulher que fez consulta veterinária com cobradora fui eu.

As desventuras de Rodolfo

fale com o motorista

Uma mulher conversando com o motorista do Inter 2:

Dava vontade de nunca mais pisar no bairro, mas a minha mãe não sai de lá. A gente conhece todo mundo. Mas depois do que aconteceu a minha mãe ficou derrubada, ela parou de andar. Agora que ela voltou a andar, está andando bem devagarzinho, mas ela ficou de cama, não conseguia mais levantar. Depois ele arranjou outra. Ele estava saindo com essa moça, ela separada, vivia junto com o marido. Aí ela apareceu grávida. Rodolfo disse que era dele, a moça disse que era dele, e o marido disse que era dele, mesmo a moça dizendo que era do Rodolfo. Ele tentou matar o Rodolfo três vez. Ele chegou tirando o revolver, eu jogava meu corpo em cima, dizia pra não fazer isso, um forfé na rua. Ele dava um monte de tiro e não acertava a gente, atirava pro alto. Depois que a criança nasceu, fizeram DNA e era dele mesmo. A mulher voltou pra ele, estão juntos até hoje. Depois o Rodolfo ficou amigo dele, hoje ele é amigo nosso. Agora ele tá na cadeia. Justo agora, que tinha se acertado, não estava usando nada, estava limpo, estava namorando. Ele tava namorando uma moça com duas crianças, nenhuma dele. As crianças me chamam até de vó. O Rodolfo conseguiu o indulto e quando nós fomos buscar ele, ele já tinha saído no dia anterior. Ele saiu e foi direto pra casa da namorada. Aí já estavam procurando ele, ele saiu com a tornozeleira e tem um perímetro de onde eles avisam que vão ficar. E de lá já estava se preparando pra ir pro litoral, passou na casa da mãe só pra pegar roupa. Já tinha tudo acertado com outra namorada esperando ele por lá. Não podia porque estava fora do perímetro, o advogado foi lá e tirou o indulto. Isso matou ele.

Mais quebrado do que arroz de terceira

motorista

Quando minha carona estacionou o carro, o ônibus estava no tubo e eu o perdi. A cobradora estava conversando com duas amigas. As amigas iam num centro espírita e a cobradora estava em dúvidas. “É que eu sou católica”. “Nós também somos, deixa eu explicar, o espiritismo aceita”. E começou a contar, com um tom de voz que só pessoas que gostam de falar de religião têm, sobre ter ouvido falar há anos e não se interessar, e agora viveu coisas difíceis, e ela sentiu no seu coração algo inexplicável, uma vontade urgente de ir. No meio da história, entrou no ponto o cara que corre. Não sei se ele é íntimo, mas quando a cobradora perguntou como ele estava, sua resposta foi ótima: “Hoje eu estou mais quebrado do que arroz de terceira”. Eu saquei discretamente o celular discretamente pra anotar, mas não precisava – a frase é tão maravilhosa que provavelmente lembrarei pro resto da vida. A mulher contou que sai tão bem das reuniões, que no primeiro dia parecia ter deixado quarenta quilos lá, que ela sai leve, eufórica. Meu primeiro ônibus chegou e fui perdida nos meus pensamentos. Saí dele e entrei no outro, que fica muito tempo parado. Entrei e sentei. Logo em seguida entraram duas mulheres, que cumprimentaram efusivamente o motorista. Pensei que eu deveria ter cumprimentado também. Mas aí eles começaram uma conversa animada, os três. Elas dizendo que era muito ruim trabalhar à noite. Ele contou que a “amiga delas” – percebi uma certa ironia – tinha ido na viagem anterior. Começaram a falar de uma outra conversa, um certo clima, uma história de que haviam passado mel nele. “Ela conta tudo pra gente, tudinho”. Aí falaram que iriam perguntar pro motorista anterior qual o nome dele. Que sabiam o nome dele. Ele as desafiou a dizer qual era. “Lourenço”. Ele disse que era quase isso, que era Lawrence. “Nome de artista”. Eu acreditei, mas aí ele colocou um outro nome em inglês depois. Elas também ficaram na dúvida. “Será que eu vou ter que mostrar a identidade?” – ele fez charme. Aí elas falaram que Lourenço era uma das alternativas, que também podia ser Marcelo. Ele riu, disse que não tinha cara de Marcelo. “Mas também podia ser Alberto. Ou Capeletti”. Todos riram. Elas desceram. Eu desci quase em seguida, pedi pro Lawrence ou Capeletti me deixar numa esquina. Agradeci, desejei um bom trabalho e desci a rua pensando no quanto papo de ônibus é maravilhoso.

A fita poderosa

fita cassete

Eu não tenho mais a fita pelo motivo simples que há muito não se usa fita. Ela chegou até mim através de um colega de atelier, que me falou dela como um verdadeiro milagre. Tinha um som repetitivo de fundo, como um metrônomo, que através de estudos científicos que mostravam que uma determinada frequência sonora fazia maravilhas com o cérebro. Começava com um relaxamento e depois o locutor dizia coisas que avançados estudos científicos mostravam que o cérebro ficava reprogramado e a vida da pessoa mudava. Tudo naquela fita era super avançado. A fita pertencia a uma organização secreta e avançada, não se achava pra vender, mas ele faria uma cópia de presente para mim porque éramos amigos e ele confiava no meu discernimento. Cheguei em casa curiosíssima, me tranquei no quarto e deitei para ouvir a fita, conforme as instruções. Ela começava com aquele relaxamento que manda a gente se concentrar em cada parte do corpo. Depois de relaxar cada pedaço, nos pedia para colocar o cérebro num estado tranquilo. No fim, falava umas frases positivas. Isso. Era só um lado, meia hora, terminava com o sujeito dizendo que a gente podia acordar. No dia seguinte eu contei que ouvi a fita, ele perguntou o que eu senti e eu narrei tudo isso que escrevi acima. Meu amigo ficou impressionado: “Você tem um grande poder mental, geralmente a pessoa dorme nos primeiros minutos!” Fiquei orgulhosa do elogio e nunca mais o mereci: depois que eu já sabia o que tinha dentro, o cara mal começava a falar pra se concentrar no dedo dos pés e eu já estava roncando.