Não veremos

muro pichado

As pessoas me chamam de radical às vezes. Eu nasci em 63, um anos antes do Golpe Militar. E na minha juventude não tinha um muro pichado, não tinha essa bagunça que vemos por aí. Hoje eu tive que arrancar as flores que tinha na frente da minha casa porque estavam escondendo droga dentro delas.

A crise que vem com a idade é complicada. Os que passaram a vida inteira lutando para serem ricos e família margarina, podem se descobrir vazios, que lutaram para comprar anúncios na TV e por opiniões que no fundo não interessam. Quem viveu de puro idealismo vê o mundo tão ruim quanto, ou talvez pior, num quarto e sala com as contas atrasadas. A vida é uma só, nunca temos todas as informações necessárias, partimos das condições que nos foram dadas quando nascemos, não conseguimos prever nem a metade da consequências dos nossos atos. É difícil.

O que eu tive vontade de dizer pra funcionária da padaria que me disse a sentença do primeiro parágrafo, antes do cliente seguinte nos interromper, naquele dia que pudemos conversar um pouco mais porque o Brasil estava perdendo pra Bélgica, é que eu nunca vi essa juventude que ela viveu. E, independente do candidato que se eleja – falávamos de eleições -, continuarei sem ver. Mesmo que vença o mais radical deles (desconfio que é quem ela gostaria), que promete descer bala em todo mundo que sair da linha. No fundo, o discurso radical me parece de um tremendo idealismo, alguém na sua explicação de mundo é sempre mais limpo e justo do que os outros – a polícia vai nos proteger, o exército vai acabar com a roubalheira, pessoas realmente éticas vão nos governar. Do mesmo modo que nós temos escolhas de vida e elas nos determinam, um país também tem. Não existe gesto capaz de corrigir décadas de decisões – décadas quando pensamos em biografias pessoais, séculos quando países. Não existe órgão ou pessoa incorruptível capaz de separar o bom e o ruim para nós. O ideal é que o marginal tivesse tido oportunidades o suficiente para não ir para o crime, mas não podemos voltar no tempo e agora temos que lidar com esse ser humano formado e violento. De certa forma, é possível dizer que não há salvação. Existe o possível, e acredito que nossas décadas de erros passam justamente por esse desejo de milagres.

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Curtas de silly face

silly-face

Uma coisa que me aborrece bastante em usar aparelho é a sensação de que o dente nunca está completamente limpo. E levando em conta que por mais que se escove é possível que ressurjam sujeiras de duas refeições atrás, não é só impressão.

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Como sou atrasada com séries, só descobri agora a Claire Underwood. Antigamente, correria no salão pra cortar o cabelo igual. Hoje já sei que não adianta, eu não ficaria maravilhosa daquele jeito. Outra coisa que eu aprendi é que cabelo curto em loira é outra história.

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Eu pretendia votar Nulo, aí cheguei na frente da cabine e só tinha botão de Branco. Eu jurava que antes tinha um botão Nulo. Ou não tinha?

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Tem aquele cachorro que lembra a Dúnia. A gente passava lá e ele latia. Aí adotaram outro, de uma raça que lembra boxer, mas ele é pequeno. Agora o filhote fica latindo pra gente, enquanto o pseudo-Dúnia olha tudo com cara de egípcia. É muito engraçado.

Quase mesária

Eu tirei o título aos dezoito, e nem sabia que quem tirava o título estava na lista negra de ser mesário. Recebi a INTIMAÇÃO de letras garrafais com surpresa. Lembro que ela começava com meu nome e dizia que eu estava intimada a ser mesária nas próximas eleições e que se eu não comparecesse eu sofreria uma série de consequencias. Eu não poderia fazer concurso público, tirar passaporte, seria maltratada se entrasse no SUS e não me entregariam o prêmio caso eu acertasse na megasena. Eu não pretendia fazer nenhuma das coisas listadas, mas vai que. Pedir pra minha tia que trabalhava no TRE mexer os pauzinhos pra mim estava fora de cogitação. Minha única saída era atender.

Eu tinha uns vinte dias pra ir ao TRE. Um amigo advogado disse pra eu chegar lá e me recusar. Eu deveria dizer que tenho mãe doente, que sou arrimo de família, fazer um cena. Aí eu fiquei com dois problemas, a intimação em si e ter que fazer algo contra a minha natureza. Não conseguia me imaginar chegando numa repartição pública e fazendo escândalo por algo que nem era verdade. A coisa me atormentava de tal maneira e era tão sem saída que me enrolei o quanto pude. Fui no TRE no último dia, quase no fim do expediente. Pelo caminho já dava pra perceber o clima, com jovens de passos duros, pessoas no elevador reclamando que não aceitavam atestados de chefes ou de médicos, queixas de que eles eram inflexíveis. 

Depois desse prenúncio, cheguei lá e mostrei quem é que manda: sentei na minha cadeira, entreguei meus documentos e fiquei quieta. A moça procurou o número da minha zona eleitoral e soltou alguma interjeição que eu não entendi o que era.

– O que foi, algum problema?
– É que nós já preenchemos a sua zona. Você vai ser reserva, caso alguém falte a gente te chama.
Depois daquelas ameaças todas? Duvido.

– Então quer dizer que eu não vou trabalhar? Que alívio, já estava pronta pra chorar minhas pitangas pra vocês.

O funcionário que estava em outra mesa falou:

– Minha filha, isso daqui é o muro das lamentações. (para a funcionária) Sabe aquela gordinha arrogante que acabou de sair daqui? Coloca ela, eu faço questão.

Presidente Dilma

Não discuto política nesse blog. Política e um monte de coisas. Optei por ter um blog “alienado” por dois motivos:

1- Não tenho paciência para o debate de surdos que a política leva;
2- Me recuso a ter um blog ruim, que repete discursos alheios, que bebe do senso comum e que não promove nada de novo. Reconheço aqui os meus limites. Por isso, me abstenho de discutir algo que outros blogs expressam com muito mais propriedade.

Mesmo assim, quem me conhece sabe que estou satisfeita com o resultado da eleição.

Gosto dessa imagem. Uma das coisas mais absurdas dessa eleição tão suja forem tentar transformar um passado heróico em defeito. Que conheçam o mínimo de história do Brasil antes de condenar a Dilma.

Contra ou a favor dela, agora estamos todos no mesmo barco. Que venham quatro anos de equilíbrio e erradicação da pobreza, como foram os oito últimos.

Força, Dilma!

Teoria conspiratória eleitoral

Sabe esses candidatos sem chance e que aparecem na tv descendo a lenha nos outros? Tudo mentira – pelo menos a eleição deles. Eles podem ser subornados ou idiotas que se prestam a fazer isso de graça; o importante é que estão lá pra jogar farinha no ventilador. Ele não tem nome a zelar, pontos no ibope a perder, seu horário eleitoral é baratinho e garantido por lei… Com essa história de legendas pequenas, é muito fácil inventar um candidato sem chance e sem medo de atacar os outros. Eles falam mal em nome daquele grande candidato ou partido, que perderia pontos se apelasse para uma campanha de baixo calão.