Velhos, feios e amados

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Eu nunca tinha acompanhado o envelhecimento de um cachorro como agora. Nós tivemos o Flock, que morava com meu pai, e ele havia se acostumado a passar mais tempo fora do que dentro de casa. Eu lembro quando meu irmão me disse, por telefone, que o Flock havia morrido. Lembro de ter sentido muito, mas pra mim foram umas férias que ele estava lá e outra que ele nunca mais esteve. Sempre me deu um certo calafrio as fotos dos cachorros com os olhos azulados. Os donos falando no diminutivo e com carinho de cachorros já tão feios, acabados. Agora que tenho uma velhinha em casa, não sei dizer se ela já chegou no estágio de alguém olhar uma foto e se sentir mal, acho que ainda não. As fotos são porque nós, donos de cachorros, só vemos ali o nosso filho peludo muito amado. Quando um cachorro deixa de ser louco, se divertir com tudo o que aparece pela frente e disparar frente a qualquer provocação, passamos a amá-lo ainda mais do que antes, porque tomamos consciência de que cada dia a mais com ele um presente. Vemos ali uma história.

Eu me pergunto que hiato tão grande de amor é esse que nos faz amar cada vez mais um cachorro velhinho e fugir de pessoas velhas. De fotografar a decadência do cão com a maior naturalidade e lutar contras as marcas do envelhecimento humano com todas as forças. De trocar quem tem uma longa história por um “modelo” mais novo, que não terá nem tempo de formar tanta história com você. Enfim, como o coração pode ser tão enorme para com uma espécie diferente e cheio de barreiras, até mesmo de ódio, com aquele que nos é igual.

Pessoas, cachorros e indiferentes

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Eu entrei há poucos dias num aplicativo que é tipo um karaokê. Tem opção paga e você canta o que quiser. Na gratuita, que é a que eu uso, só se pode entrar pra cantar na música dos outros. Mal estou lá e já me apeguei às pessoas. Tem um que fala “éramos todos jovens” antes de cada música, na sua maioria da Jovem Guarda. Tem o japonês louco e deixa tudo com ritmo de rock e a gente se esgoela. Tem o rapaz sexy. Tem o de inglês péssimo que escolhe músicas dificílimas, que eu nunca me proporia sozinha, e a falta de pudores dele me estimula. Assim como tem gente tentando cantar bossa nova e é interessante perceber quais as partes difíceis para outras línguas.

Tem os cobradores do tubo que se revezam. Tem os vendedores Manassés. Nunca mais encontrei a médica que vai conversando até o hospital, sempre reclamando. Tem a mulher que sempre puxa papo com a mais madame que encontra no ônibus. Os papos dos universitários. O pessoal que desce na favela. As pessoas que têm problemas de locomoção e atravancam toda saída. As mulheres que riem alto no ônibus de manhã cedo. Adolescentes barulhentos. Riquinhos de GPS. O cobrador politizado que vai conversando com o motorista até o terminal. A maluca com problema nos olhos.

Humanidade se acha grandes coisas, mas somos igualzinho cachorro: basta fazer algo juntos que cria laço.

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Quando vejo notícias de pessoas sem médico ou queimadas pelo preço alto do gás, sempre me esforço pra pensar no pessoal do ônibus. Tenho visto tanta indiferença e tenho medo de ficar assim, de perder a minha humanidade. Vejo e penso que se não faria pessoalmente a nenhum deles, então não posso deixar fazer a outra pessoa apenas porque não está sob meus olhos. Nenhum sofrimento humano deve ser pouco, ninguém pode ser reduzido a uma estatística.

 

Trigão

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Tem aquelas teorias apocalípticas. Em algumas vertentes religiosas, já é coisa dada e institucionalizada. Pode ser arrebatamento, com as pessoas simplesmente sumindo, levadas por Deus ou por OVNIs. Ou pode ser que a desgraça se abata sobre a Terra, e por um mecanismo mágico de méritos, a cratera abre só do lado do justo e ele não cai, a comida falta só do outro lado da cidade, idem para a energia elétrica e o wi-fi. Porque – estávamos eu e uma amiga conversando – existem aqueles que falam dessas teorias com uma naturalidade que beira o desejo. Quando acontecer, dizem, vai ser separado o joio do trigo. Boa parte da humanidade vai se ferrar e não acontecerá com ele, porque é o próprio Trigão no meio do joio – pelo menos no seu próprio ponto de vista. Como não pensar nisso quando se fica em casa, puro e noveleiro, enquanto tantos estão pela noite,  pecando, sendo promíscuos, bêbados, ladrões e imorais? Mas, Trigão, eu não teria tanta certeza. Primeiro porque é bastante complicado não ser atingido de alguma forma quando muitas pessoas sofrem, o mundo não gira da mesma forma. Depois, porque um desejo tão grande de destruição também diz muito a seu respeito – e não é algo bonito.

O outro

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Eu tenho uma amiga que parece ser viciada em indignação alheia. Cada notícia chocante do noticiário a mobiliza de um jeito que ela acompanha os desdobramentos, fica indignada, perde a saúde e o bom humor. É meio estranho ficar com a saúde abalada porque num dia um avião com desconhecidos caiu e no outro uma criança também desconhecida foi vítima de violência, mas ela é exatamente assim. Por outro lado, conheço uma que é indiferente a praticamente tudo; eu a conheço há anos e ela nunca comentou qualquer notícia. Em compensação, um dia ela veio me falar num tom de fim de mundo que o cabeleireiro da filha errou o corte e a menina estava triste.

É fato que, daqui, minha tristeza não ajuda em nada a vítima de tsunami na Índia. A não ser que a tristeza me motive a ir lá atender as vítimas, ou que eu faça uma doação, ou até mesmo reze. Em defesa da minha primeira amiga, ela é uma das pessoas mais éticas que eu conheço. Ela é esforçada, idealista e já se prejudicou inúmeras vezes para ajudar os outros. É daquelas pessoas que ajudam a tornar o mundo melhor. Pena que ela não tenha encontrado a medida de ser boa também para si mesma.

Eu percebo que o meu grande sofrimento neste pós-eleição não é nem com quem ganhou. Eu percebo que nem tenho raiva do sujeito. Considero aquela pessoa um oportunista que, como tal, viu uma oportunidade surgir na sua frente e fez de tudo para agarra-la. É o modus operandi dos oportunistas. O meu problema é com a indiferença gigantesca ao sofrimento alheio. De que, com a desculpa de “minha tristeza não ajuda em nada”, lavarem solenemente as mãos e só se importarem que algo atinja as duas ou três pessoas do círculo mais íntimo. Já temos péssimas notícias em curso, várias pessoas já estão sofrendo. É isto que eu não consigo perdoar e, sim, este sentimento torna meus dias mais pesados. O egoísmo gigantesco, a falta de humanidade, de compaixão, tem ficado cada vez mais clara com a indiferença às absurdas notícias da transição.

Sem merecer

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É difícil demais ver alguém conquistar algo que não conseguimos. Falando sinceramente, nem precisa ser alguém conquistar aquilo que sonhamos; às vezes a gente nem sabe que aquela possibilidade existia, aí a pessoa ao nosso lado alcança e pronto, nos dói muito não ter o que até então ignorávamos. Nos últimos dias os assuntos de bolsas e cotas estão muito presentes, por motivos óbvios. Até que ponto existe dívida histórica, até que ponto alguém deve ser favorecido com dinheiro ou reserva de vaga? Como fazer isso sem colocar no lugar alguém que não merecia, retirar o mérito do esforço, não deixar sem lugar um que também quis muito e lutou para chegar até ali, embora sua luta seja menos visível?

Hoje eu olho para trás e vejo o quanto fui competitiva sem me assumir como competitiva. A competição se manifesta nessa régua que nos faz constantemente medir o dos outros, em comparação com até onde achamos que eles merecem chegar e até quanto nós merecemos. Quero deixar claro aqui que o que direi também me soa bem difícil. Harari, um escritor que lançou seu terceiro livro agora, da série Sapiens, faz algumas previsões no livro Homo deus, que nada mais são do que conclusões lógicas baseadas no que estamos vivendo hoje. Ele diz que as massas, de uma maneira ou outra, eram úteis para gerar capital, mas que no futuro o nosso desenvolvimento técnico vai superar isso. No lugar de muitas formiguinhas, um técnico e muitas máquinas. Então, milhares de pessoas vão deixar de ter função econômica. Teremos uma riqueza gigantesca concentrada numa minoria totalmente independente de outras milhares de pessoas. O que fazer com isso, como não deixar essas pessoas inúteis à míngua? A conclusão lógica, se você tem uma visão um pouco mais humanitária, é que essas pessoas devem receber o suficiente para existir, mesmo inúteis. Ou seja, um futuro mais justo para a humanidade passa pela capacidade de superar esse sentimento tão difícil e doloroso que é ver o outro receber sem ter feito por merecer.

Algumas crenças sobre a humanidade

Eu acredito em inconsciente. Acredito naquela metáfora que mostra um iceberg e o nosso consciente é apenas aquela pontinha que fica para fora da água, enquanto por debaixo existe uma montanha. O consciente fala uma coisa, acredita, se programa, jura, mas ele é muito pouco. Muitas coisas que achamos que são completamente racionais surgiram lá debaixo e são meras desculpas pro que o inconsciente quer; noutras vezes, a cabeça tem a melhor das intenções e o inconsciente se recusa.

Eu acredito que somos seres sociais. A teoria dos contratualistas, como de Hobbes, Locke e Rousseau, fala de um dia que as pessoas se reuniram e decidiram formar um governo, dar a ele mais ou menos poder, usar suas habilidades em conjunto; na realidade, nunca houve esse dia – linguagem, cultura, relações, habilidades, tudo surge junto na espécie humana. Atualmente, somos muito apegados a noção de gênios, de ser diferente, de fazer suas próprias regras, mas até esse desejo é algo social. Na verdade somos sempre muito parecidos com as nossas famílias, o meio em que vivemos, nosso país, nossa época histórica. Mesmo aqueles que se destacam em alguma coisa, quando estudados de perto, receberam condições favoráveis do seu meio.

Por sermos seres sociais, eu acredito que o poder corrompe. Que quando um ex-líder estudantil se torna político e, anos depois, está tão corrupto quanto os outros, não devemos nos sentir vingados – “olhaí, mau caráter também”. Não são todos lobos disfarçados que se revelaram. Há algo no poder que confunde, perverte, altera, que força a uma adaptação. Por isso eu não acredito que a solução seja votar no mais puro, no mais radical, no que vai quebrar tudo. Não é uma questão de pessoas e sim um sistema.

Eu acredito que temos obrigações para com todos os outros seres humanos (também animais e com o nosso planeta). Nossa incapacidade de se pensar como grupo que nos levou à situação absurda que temos hoje, onde de um lado poucas pessoas ganham em minutos mais do que são capazes de gastar, enquanto milhões mal têm para a subsistência. Que por mais que eu pessoalmente não tenha escravizado ninguém ou não tenha feito nada que prejudicou a família do marginal, como espécie, como humanidade, temos que lidar com isso. E quando digo lidar com isso, é querer que a ele o mesmo que quero para mim: comida, abrigo e felicidade.

Eu acredito que a vida é muito complicada. Que apontar os erros é muito mais fácil do que corrigir, mas ainda assim é necessário. Quando enxergamos a sujeira dá desespero, não sabemos por onde começar, dá vontade de dar as costas e ir embora. Ou de encontrar uma solução radical. Sabe aquela história de catarse, gritar, jogar pro alto, quebrar tudo? Sempre existe o dia seguinte, e depois de um surto dá mais trabalho arrumar. Assim como a vida é complicada, as soluções que valem a pena também são. Nunca será rápido e ninguém pode nos salvar.

 

Curtas de etiqueta

Passei na loja no dia e horário mais agitado, e pretendia comprar meu produto escondida e sair correndo. O dono me viu e achei que ele colaboraria com meu intento, com a justificativa perfeita de que havia muita gente. Mas aí ele me acenou animado, como nos velhos tempos, me perguntou o que eu queria, pegou pessoalmente, terminou de me atender. Acho que lhe desejei Feliz Ano Novo, e ele disse que era muito cedo, eu não voltaria lá em um mês? Disse que provavelmente não, que… Então ele deu a volta no balcão e “então pra não correr o risco me dê agora o abraço” e lhe dei um abraço que me deixou com o perfume dele impregnado na roupa. Tive vontade de perguntar se ele enlouqueceu, se ele se lembrava do quanto foi frio nas últimas muitas vezes que passei lá. Vai ver que ele decidiu que depois de três anos eu não merecia mais ser punida pela separação. Vai ver o ex passou lá com a noiva. Vai ver que queria se mostrar pra alguém. Sei lá.

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Sigo por princípio esta citação de Hamlet:

Se fosseis tratar todas as pessoas de acordo com o merecimento de cada uma, quem escaparia da chibata? Tratais deles de acordo com vossa honra e dignidade. (ato II, cena II)

… e tenho confundido as pessoas nesses nossos tempos rudes. Eu gosto de tratar bem, ouvir confidências, tenho uma memória de elefante a respeito do que as pessoas me contam, gosto que minhas interações sejam o mais leves e agradáveis para ambos. Aí quem reserva seu lado agradável apenas para quem ama, interpreta minhas atitudes como declaração de amor. Só se for amor pela humanidade.

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Sou uma fã nova de Bob Dylan, nova e solitária, porque passei a gostar sozinha lendo um livro. Então eu não sei se, como fã, eu tenho que gostar mais dele cantando do que qualquer outra pessoa. Se tenho, jamais serei alçada ao clube. Este desconhecido, por exemplo, que adorável!

O desafio do pão

Documentário Massimo Bottura: Teatro da Vida (Netflix) mostra um teatro reformado para servir de refeitório. No letreiro: NO MORE EXCUSES. Das mesas às pessoas que recebem, tudo é pensado para oferecer o melhor. Chefs do mundo inteiro que oferecem seu trabalho e conhecimento para servir gente que não teria condições de pagar. Os ingredientes? Comida que seria descartada. Por isso, e por estarem na Itália, sempre tem muito pão e todo ele é amanhecido. Mas nem um único chef serve o pão seco e duro. A cada chef, vemos soluções diferentes: colocar num caldo de cebola e cúrcuma para depois secar no forno, pudim de pão, como parte de uma massa. Dava para fazer um livro de receitas de pães amanhecidos. O que é encantador no projeto é a maneira como se oferece do melhor, sem a mentalidade de que se é caridade qualquer coisa serve. É uma visão contrária, de querer fazer um extra, de oferecer a quem se encontra numa situação de fragilidade um carinho a mais.

Ao invés de enfrentar burocracia, armazenar, separar e pensar sobre, não é mais prático pegar o resto de comida, moer, transformar em pelotas desidratadas e pronto? É sim. Mas quando se pensa em gente e em comida, não se deveria pensar tão facilmente em praticidade. Comer é uma das necessidades mais básicas do ser humano e partilhar o alimento sempre foi uma das mais sagradas. Quem não se sente reconfortado pelo cheiro da comida quente, seja ela um feijão caseiro ou até mesmo o carrinho de cachorro quente de madrugada? Pegar uma comida e sentir que ela tem textura, sabor, cheiro, temperatura, que ela pode brincar na boca, descer gostosinho e ser saboreada é ser reconhecido como gente. Pedir comida já é humilhante o suficiente, a carga de sofrimento e abandono das pessoas não precisa ser aumentada. Se preparar comida dá mais trabalho, ok, é um trabalho que precisa ser feito.

A revolução altruísta

É fascinante pensar a quantidade de informações que os nossos pais nos passam e como elas ficam, e algo que eles nos disseram sem dar uma importância maior do que qualquer outra informação pode ser determinante no nosso futuro. Minha mãe me alimentou com muitas histórias, de irmãos Grimm e contos tradicionais aos livros de Chico Xavier e outras histórias de fundo moral. Ela me contou uma vez a história de uma mulher que foi procurar Buda porque seu marido havia morrido e ouviu falar que ele era um grande mestre, um iluminado, e queria que ele trouxesse seu marido de volta. Buda lhe pediu para trazer uma semente de mostarda de uma casa onde nunca havia morrido alguém. A mulher foi de casa em casa, explicou sua história, e todos lhe diziam que não podiam ajudar – uns haviam perdido o pai, outro um filho recém-nascido, a esposa… “Mas, mãe, a gente poderia dar uma semente de mostarda pra ela porque aqui não morreu ninguém”. Aí ela teve que me explicar que a nossa situação – uma mulher com seus filhos num apartamento – não existia naquela época, que as famílias moravam juntas, que a gente provavelmente viveria numa casa grande com a vó, nossos tios e primos. Nessa que seria a nossa casa, a gente tinha perdido o pai dela antes mesmo de eu nascer. A mulher voltou até Buda e lhe disse que não havia encontrado a semente, em todas as casas alguém havia morrido. Ela havia visto a dor dos outros e aceitado melhor a sua.

Essa história foi determinante pra mim quando me separei – de longe a coisa mais difícil que enfrentei na vida. Sempre gostei de olhar em volta e quando estava deprimida fazia o exercício de olhar ainda mais. Descobri perto de mim muitas dores, que jamais faziam o meu peito se encher de alegria, mas que me faziam aceitar aquela fase. Naquela época fiz aula de costura, um lugar que mais tarde fui perceber que era o refúgio de muitas mulheres como eu, que precisavam lidar com suas dores. Nem todo mundo por ali estava aprendendo, algumas já eram costureiras profissionais e precisavam apenas de uma ou outra dica e principalmente de companhia. Era um círculo de mulheres. Uma dessas mulheres era uma senhora baixinha, gorda e com uma gargalhada deliciosa que a fazia chacoalhar o corpo todo na risada. Numa tarde qualquer, nossa professora recebeu o telefonema do filho adolescente. Ele a avisou de uma mudança de horário porque alguém no colégio dele havia acabado de morrer subitamente durante a aula, aparentemente um ataque cardíaco. Ok. Apenas dias depois soubemos que o colega de colégio que havia morrido era neto da nossa colega de risada gostosa. Quando ela reapareceu, tinha o olhar baixo e mal falava. Minha professora me cutucou, disse para eu lhe fazer um gesto de carinho. Cheguei até ela e lhe dei um longo e sincero abraço, e nós duas nos emocionamos. A minha dor que me doía tanto e não me deixava em paz pelo menos tinha um componente de escolha.

Um mês depois da minha separação eu fui pra uma festa. Era um amigo que estava meio afastado e quis me animar porque soube. Valeu muito a pena, deve ter sido a primeira ocasião em meses – separação nunca é apenas aquela assinatura – que eu chorei de rir. Num certo momento chegou uma amiga que não via há tempos e ela me disse, com muita sinceridade, que estava passando exatamente o mesmo sofrimento que eu, porque havia se separado do noivo há pouco tempo. Depois soube que nossos amigos em comum lhe deram bronca quando ela disse isso para eles: como ela ousava, comparar um noivado com um sujeito que a enrolava há tempos e vinha para Curitiba a cada quinze dias com o fim de um casamento de mais de dez anos? Isso sem dizer que, ao contrário de mim, ela os solicitava o tempo todo com telefonemas e queixas. Eu os angustiava por não me abrir e ela enchia o saco por estar sempre nas últimas. Em algum post eu sei que já citei essa amiga, mas o que não disse é que eu realmente acredito que a dor dela era tão grande quanto a minha. É que ela não conhecia o segredo: eu fiz da minha dor a minha semente de mostarda e fui me curando com a dor do mundo. Ela se trancou no seu sofrimento como quem grita numa sala de espelhos.

Eu realmente acredito no altruísmo. Acredito na busca pela felicidade e na confusão que isso é, na diversidade dos caminhos e suas interpretações, na incapacidade da linguagem em realmente nos colocar claramente diante de outros ser humano. Se nos chocamos com as cenas de violência e os assassinos, é justamente porque somos quase todos seres pacíficos que se deixariam matar muito antes de pensar em ir a extremos com alguém. Fico feliz que coisas que sempre me pareceram tão minhas, tão idiossincráticas e religiosas, agora encontrem respaldo científico. Recomendo The altruism revolution a todos que estejam precisando reavivar sua fé na humanidade. Tem no youtube com legendas em inglês e no Netflix.

 

Humanismo, Nise e Claire

Eu antes não entendia quando se usava o adjetivo humanismo – “Fulano é um humanista”. E não somos todos?, eu pensava. Se não pela religião que nos manda amar uns aos outros, por termos absorvido os ideais de igualdade entre os homens da Revolução Francesa e que são lei. Nise da Silveira, a psicóloga, era uma humanista. Já falei que ando viciada em House of Cards e que acho Claire Underwood uma mulher linda. Aquele cabelo curto num rosto tão quadrado dá uma mistura estranhamente bonita, e ela sempre está impecável em vestidos que ressaltam suas formas; ao mesmo tempo, suas roupas lembram armaduras e parecem falar muito sobre o rigor da própria personagem. Se me permitem avançar um pouco nos spoilers, ela é um excelente contraponto ao marido por ter seus escrúpulos. Enquanto Frank vê as pessoas mais próximas se ferrarem e diz que “batalhas são assim”, “o arrependimento não faz parte”, Claire oscila. Numa mini trama ela pensa em fazer tratamento engravidar. No meio do caminho, ela faz uma maldade com uma ex-funcionária grávida para ganhar uma disputada e logo depois cancela os exames do tratamento. Nenhuma palavra é dita, mas dá pra perceber que por detrás do ato há uma conscientização: não somos boas pessoas. Mas essa dor não é forte o suficiente para deter o egoísmo e a vontade de subir cada vez mais. Volto à Nise. Não vi o filme, mas conheço a história dela. Numa época que paciente psiquiátrico era pra ficar trancado, ela aplicou a psicologia junguiana e viu através dos trabalhos deles os arquétipos previstos na teoria. Loucos não são fáceis, ainda mais naquela época. Detrás de agressividade, sujeira, rótulo, falta de sentido, ela conseguiu ver pessoas. Vivemos uma época que as conquistas sobre direitos fundamentais parecem ter regredido de maneira assustadora. Eu acredito que, na verdade, ainda bebemos muito do passado escravocrata. Depois da frase “não é que eu tenha preconceito, é que” tem se dito as piores sentenças, justificativas de exclusão e violências sob a desculpa de… olha, às vezes sem a menor desculpa mesmo. Os argumentos estão todos aí; o fato de outro ser também de carne e osso e um ser que ama e tem direito à felicidade deveria ser argumento suficiente. De conceito óbvio, o ser humanista, pra mim, acabou se revestindo de caráter de necessidade e pedra fundamental.

Imenso

No período em que estudei cegueira, acabei descobrindo que Imenso é um conceito puramente visual. Sem a visão, o Imenso é muito abstrato. Imenso não é grande, muito grande, não é apenas muito mais do que você pode tocar ou sentir. O imenso é o horizonte, as montanhas, a multidão num estádio lotado. O mar calmo, verde, com ondas; o céu azul de nuvens ou preto picotado de estrelas. O imenso tira o fôlego e nos sentimos pequenos, ele nos recoloca em nosso lugar. Não é à toa que as catedrais góticas eram altas, cada vez mais altas – a mais alta do mundo, de Ulm, tem 161,53 m de altura. Eles queriam esmagar mesmo, queriam ressaltar o quanto o homem é pequeno diante de Deus. Acho que Imenso é a experiência mais próxima e acessível do Divino que nós temos.

Pensei nessas coisas enquanto observava o céu estrelado desta noite, um dos mais belos que já vi nessa cidade. Poucas coisas resistem e continuam importantes sob o brilho das estrelas.

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Beleza x função

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Quando dizem que sem a beleza o mundo pode existir perfeitamente, as pessoas mais “de humanas” costumam ficar sem saber o que responder. A minha resposta é: cite ou me mostre, em qualquer tempo ou lugar, uma civilização onde as coisas sejam só funcionais. Onde a construção seja apenas uma cobertura, o caminho seja apenas um amontoado pra pisar. Mesmo da mais simplória das civilizações, já viu um vasinho que seja apenas um oco sem cor, sem simetria, sem textura? Não existe essa data anterior à beleza, a fase do funcional puro, onde apenas a partir daí começa a preocupação com o luxo que é fazer as coisas serem bonitas. Nós queremos mais. Sempre que possível, o homem tenta tornar o que o cerca belo e especial.

Nenhum homem é uma ilha

Um amigo escreveu sobre o suicídio, colocando-o como um direito inalienável. A raiz do seu argumento era bastante simples: a vida é minha e faço dela o que quiser, inclusive terminar. Tão simples quanto limitada, ingênua. Eu não o respondi, assim como não fui numa palestra sobre drogas, donde era quase certo que de algum canto surgiria o argumento: o corpo e a vida são meus, então eu tenho o direito de estragá-los como quiser. Não fui porque nesse momento não resistiria em pegar o microfone e me expor para explicar que Não, que o drogado não tem o direito de encher o seu corpo do que quiser, mesmo que ele nem abusasse – o que me parece impossível – do acesso aos seus parentes quando começasse a bater o desespero. Os acontecimentos políticos mais recentes trouxeram à tona o problema do Golpe de 64 e a tortura – afinal, aquelas pessoas mereceram? “Eles só eram jovens idealistas na aparência, na verdade eram comunistas perigosos“. Minha resposta é um redondo NÃO, sob todos os ângulos. Ressalto aqui apenas um motivo, o mesmo que usaria para falar do suicídio e das drogas: nenhum homem é uma ilha. O que se faz a um indivíduo afeta o seu entorno. No mínimo, o sujeito tem uma mãe. A morte, a subtração ou o sofrimento de uma pessoa nunca é apenas ela e suas escolhas, suas consequências – tudo vai respingar no seu meio, tornar infelizes aqueles que se importam com ela, interromper a trajetória de muita gente. Não é apenas egoísta pensar que tudo bem se eu estiver confortável e feliz, mesmo que sobre bases sangrentas  – é ilusório.

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Infância comum

Não era aquele um bom momento para nascer. Os pais eram novos, ainda queriam curtir. Ou a situação financeira estava ruim. Já tinham o outro filho. Haviam perdido eles mesmos alguém e estava de luto. Estavam em crise, quase se separando. Não, era um bom momento. Mas queriam um menino ao invés de uma menina. Aí veio você, fraca, insuficiente, sem levar o nome adiante. Ou você, fraco, insuficiente, sem as grandes qualidades másculas que o seu pai valoriza. Que você fosse a extroversão, ao invés de ser a introversão em pessoa. Que fosse a encarnação da beleza e popularidade, ao invés de um bicho esquisito e arredio. E com graus maiores ou menores de crueldade, a infância seguiu. Com uma mãe que deixava a sogra ou a empregada cuidando do bebê choroso, ou o pai que estava sempre nas festas ou no trabalho em outras cidades. Ou com uma mãe trancada em casa cheia de rancor, olhares críticos, insatisfeita. Um pai que, pelamor, cada vez que ele chegava o ar se tornava pedra. A comparação sempre negativa com irmãos ou primos, as palavras rudes, a incapacidade do carinho. E aquele sentimento constante de inadequação, de falta. Quem sabe o amor dos seus pais, entre eles, fosse um clube exclusivo onde não cabia mais ninguém, ou a relação soltasse tanta faísca que todos à volta ficavam machucados, a ou falta de um deles fosse irremediável. Crianças que foram amadas na infância se melhores em qualquer coisa, em tudo o que fazem, em tudo o que tocam. Crescem por aí com seus dentes perfeitos, estrelas entre os muitos amigos. Elas se propõem e fazem com tanta segurança e imediatismo que é quase como se o universo colocasse uma almofadinha debaixo dos seus pés. Mas esse não é você, claro. Nunca será, nunca foi, ser com um rombo no peito. Você, que nasceu na família, país e época errada. Você, comum.

Dr. Drauzio

O Carcereiros do Drauzio Varella furou a minha determinação de nunca comprar livros pela contracapa:

 

Depois de 23 frequentando cadeias, não faz sentido especular como eu seria sem ter vivido essa experiência; o homem é o conjunto dos acontecimentos armazenados em sua memória e daqueles que relegou ao esquecimento. Apesar da ressalva, tenho certeza de que seria mais ingênuo e mais simplório. A maturidade talvez não tivesse me trazido com tanta clareza a percepção de que entre o bem e o mal existe uma zona cinzenta semelhante àquela que separa os bons dos maus, os generosos dos egocêntricos. Conheceria muito menos meu país e as grandezas e mesquinharias da sociedade em que vivo, teria aprendido menos medicina, perdido as demonstrações de solidariedade a que assisti, deixaria de ver a que níveis pode chegar o sofrimento, a restrição de espaço, a dor física, a perversidade, a falta de caráter, a violência contra o mais fraco e o desprezo pela vida dos outros. Faria uma ideia muito mais rasa da complexidade da alma humana.

 

Esse trecho pra mim diz tudo. Em entrevistas e no próprio livro, ele fala do quanto o universo prisional o faz falta para não cair na mesmisse de estar e ouvir sempre as mesmas coisas. Numa escala bem menos radical, eu vejo que andar de ônibus pra mim significa a mesma coisa. Andar de carro é mais confortável, mais limpinho, mas me vejo detestando encontrar sempre o mais confortável e limpinho. Enquanto os outros parecem sempre estar à procura de concordância, eu vibro quando consigo entrar em contato com pessoas de visões e valores diferentes dos meus. Eu quero ouvir, quero entender, muitas vezes eu me choco. Gosto de pegar ônibus porque sinto a necessidade de compartilhar do cansaço e da luta daqueles que vivem uma realidade muito mais comum àquela a que eu estaria destinada (digamos assim) por nascimento.

 

Se fosse para escolher um autor em quem eu me espelharia, seria o Dr. Drauzio. Ele, que demorou pra se ver como autor, que não imaginou que impacto Carandiru teria. Posso ressaltar outros cujo estilo eu aprecio mais, posso falar aqui da minha paixão por Guimarães Rosa, citar Veríssimo pai ou filho, o gostoso que é ler Ubaldo. Mas eles são outra coisa, eles são de outra escala. O que eu sinto que me uniria ao Drauzio é uma paixão indisfarçável que ele tem pelo outro, a vontade de registrar os heróis anônimos, o olhar sobre a complexidade humana. A sua ambição é antes de tudo o registro. Drauzio mostra que o cruel e o dócil não só convivem lado a lado na sociedade, convivem dentro do coração de cada um. Porque apesar de todas as maldades, eu – arrisco dizer, nós – ainda sou fã da espécie humana.

Desativismo

 

 

Há aqueles momentos, aquelas discussões, que o argumento do outro é tão absurdo que ou você revoluciona e estraga o churrasco (ou a festinha, ou a alegre conversa de bar), ou você finge que não ouviu e fica quieto. Não é uma questão de ser direita ou esquerda, pró ou contra PT, vai ter Copa ou não vai ter Copa. Certas colocações ferem o sentido de humanidade. Há momentos que você percebe que poderia fazer a colocação mais sensata e de nada adiantaria. Pior: o outro sacaria absurdos cada vez piores. Porque o que falta ao que diz certas coisas não é informação ou lógica, e sim empatia. Há aqueles cujo posicionamento pode ser resumido a: Quero meus privilégios, e que se foda todo o resto. O certo ou o errado só são medidos pelo que atravessa a porta de casa. Quando o sofrimento do outro soa apenas como uma filosofia muito distante, não vejo como discutir. É profundo demais, é querer ensinar alguém a ter coração.