O jornal do bairro

jornais

Eu tinha uma amiga que não conseguiu se atualizar a ponto de ter internet, nem ao menos celular. Pra tudo era uma pessoa muito antenada, mas isso estabeleceu uma barreira que era difícil ultrapassar. Para algumas coisas era possível explicar e ela captava a essência, então não fazia falta. Digamos que eu explicava uma briga no Facebook; eu lhe explicava que cada um tem uma página, que são os seus dados, as suas fotos e o que você escreve. Outra pessoa pode ir lá e escrever no seu espaço. Então, cada um escreve a besteira que quiser no seu próprio espaço, mas alguém entrar no meu e me ofender era demais. Ela entendia. Ao mesmo tempo, eu tentei explicar blog e que tenho leitores, mas ela achava que eu seria realmente popular se enviasse meus textos para o jornalzinho do bairro. Ela também insistiu para que eu tentasse ir no Jô quando minha dissertação foi publicada. Olha, eu até tentei na época, achei site dele e você mandava um resumo do porque poderia aparecer lá. O site era tão abandonado que não precisava de mais nada pra saber que ninguém iria lá pra procurar um futuro entrevistado.

Tchecov, a quem amamos tanto, amargou um sentimento de falta de relevância porque não publicava um grande romance, e sim pequenas histórias nos jornais. Histórias essas que hoje achamos lindas, sensíveis, direto no ponto, que em poucas palavras captam o espírito dos seus personagens e nos permitem conhecer sua época. Eu amo ler e estava fazendo vídeos de recomendações (pela primeira vez desde que comecei, falhei e não sei se volto), e acabei fazendo quase um catálogo Netflix. Quase não recomendei livros porque me parece tão inútil. Tem alguns livros que recomendei pessoalmente para  algumas pessoas, livros tão a cara delas que só faltava exame de DNA para comprovar. Elas não leram. Não que não confiem me mim e etc., apenas porque quase não se lê. Ler é tão old fashion, tão século passado. Mesmo eu acho que não tenho mais o mesmo fôlego de antes, não consigo mais ficar tanto tempo parada para apenas ler.

O que, afinal, é ser lido? Será que também não é old fashion da minha parte pretender ser publicada?

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Como um homem falaria

cafe da tarde

Estava em todos os lugares, e daquela vez a moça foi parar num programa que passa de manhã, na Globo, não lembro. Era uma música que falava sobre sexo oral. Era uma música bem explícita e, quando ia aos programas, a cantora dava dicas do que o parceiro(a) deve fazer para agradar a mulher.

-Você viu aquilo? Achei demais, uma mulher falar daquela maneira.

-Ah, mas o que alegam é que os homens de nós desde sempre, usam os termos mais chulos. Ela só está falando da forma como um homem falaria

-Mas é diferente. Numa mulher fica feio.

-Eu acho que você está só sendo antiga. Eu também não falo assim. Não é pra mim que ela canta aquela música. Não é para nós, é a nova geração.

Nunca soube se ela se calou porque eu não concordei, ou se também percebeu a distância de décadas que tínhamos da cantora – pelos menos umas duas décadas minha, umas sete décadas dela. E continuamos nosso café da tarde.

Capital simbólico jovem

revolução tec

Falar em “capital”, todo mundo entende: dinheiro, o que tem valor, o que define se somos ricos ou pobres, o que nos faz ser considerados vitoriosos diante do mundo e nos permite consumir. Bourdieu tem um termo que é o capital simbólico, que é um dinheiro próprio de cada grupo, um dinheiro mais abstrato. Todos concordamos que o dinheiro é dinheiro, mas pra você ser uma pessoa respeitada no meio acadêmico, o “dinheiro” são os títulos. E quando você sai da academia e entra numa aula de dança, ninguém está nem aí se você é doutor com artigo publicado em revista internacional, o julgamento ali é feito em termos de musicalidade e expressão corporal, e por aí vai. Cada área tem o seu “dinheiro”, mesmo que nem sempre seja evidente. Eu fiquei surpresa quando fiz balé em descobrir o quanto formato de pé era importante.

Um dia apareceu na minha TL um amigo compartilhando a sério uma brincadeira que pedia para compartilhar aquela publicação para ajudar um homem com câncer. O homem era Walter White, e só quem tem intimidade com o mundo das séries entendeu a piada. Redes sociais tem o seu capital simbólico, feito por memes, expressões da moda, o conhecimento de códigos e saber a hora certa de usar. Existe a má formação que faz com que alguém escreva errado e não saiba pontuar, assim como existe a piada de escrever errado e sem pontuação. Para os envolvidos é tão claro que, por mais que nos dois casos a norma culta não esteja sendo seguida, o primeiro é humilhado e o segundo é engraçado. Existe até o período certo de uma piada, que cada vez dura menos dias.

Eu sou de uma geração que ficou bem no meio da revolução tecnológica. Eu digito com os dez dedos porque aprendi com métodos de máquina de escrever, o mindinho doía a beça pra digitar o A. Embora hoje estejamos todos usando computador e whatsapp, existe um capital simbólico que não é tão democrático quanto parece. Meu palpite é que a (r)evolução tecnológica que aconteceu nas últimas décadas foi como um abismo que brotou no meio das gerações. Às gerações mais velhas sempre coube um papel de detenção de saber e educação dos mais jovens, mas eles não conseguiram se adaptar à tecnologia. Ser conectado se tornou um capital simbólico básico, como uma alfabetização, para a geração que nasceu sob ela. Eles olham para os mais velhos e só vêem ali pessoas ignorantes e inábeis. Como alguém que não sabe nem anexar uma foto vai ter algo a me ensinar? Teria sim, e muito, mas não me parece que seja mais possível convencê-los disso.

Curtas de obviedades (ou não)

overthinker

Eu tenho meio dúzia de arrepios ruins quando alguém decide ver um espetáculo de flamenco e vai justamente num que eu considero ruim. Porque a primeira vez de qualquer coisa é muito determinante. Pode ser mágico, pode fazer com que ninguém queira experimentar de novo. Se na primeira vez tudo é ótimo e tudo é novidade, a cada repetição vamos entendendo mais, tendo mais com o que comparar, descobrimos mais, captamos sutilezas. Ou seja, ser exigente é a consequência natural de experimentar muitas vezes. Alguns são assim com livros, outros são assim com shows de rock. Nem tudo é arrogância, às vezes é o excesso de bagagem.

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Quando eu era nova falávamos em injeção na testa. Era uma expressão que vinha no final da frase, “… até injeção na testa”. Significava uma ação tão dolorosa quanto inútil, era uma expressão pra mostrar situações extremas de forma engraçada, dizer que até isso você estava topando. Agora injeção na testa nos faz pensar em botox e tratamentos estéticos em geral, então as pessoas pagam caro pra levar injeção na testa. Ou seja, as palavras são as mesmas mas o sentido mudou completamente ao longo dos anos. Quando o mundo muda, as palavras e as expressões mudam também – e nem sempre estamos a par da diferença se não entendemos o contexto. Tipo dizer que o nazismo é de esquerda porque o partido nazista se chamava, numa tradução literal, Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Acreditem no que os alemães dizem, eles entendem mais de alemão e nazismo do que nós.

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Toda geração tende a achar que as coisas estão piorando. Nossos avós pensavam assim, nossos pais pensavam assim e, se você é um pouco mais velho, tende a olhar para os xóvens e se irritar da maneira como eles são barulhentos, usam cueca pra fora da roupa, sujam o corpo com tatuagens e são bissexuais. Quando nascemos, somos muito abertos à aprendizagem, totalmente abertos; à medida que se envelhece, a capacidade de assimilar o novo diminui e o filtro aumenta. Mais velhos, somos praticamente incapazes de aprender e filtramos tudo. Somos, enquanto geração, a cristalização de algo, e a sociedade nunca pára de mudar – se parar, ela morre. Com um modelo cristalizado, tudo o que se afasta dele sempre parecerá uma perda. Na verdade, para além dos nossos olhares viciados, o que vem depois de nós não é pior ou melhor, é diferente. E as pessoas que chegam depois de nós terão dores e alegrias diferentes.

Confissões sexuais de Darcy

darcy-ribeiro

Nas entrevistas e documentários já dava para perceber que o Darcy Ribeiro era chegado em sexo, mas eu achei que nas Confissões ele teria pudor em ficar falando as mulheres com quem dormiu. Ingenuidade a minha. Acho que a nossa tendência, hoje, anos dois mil, movimentos feministas e de minorias, é achar ruim. Ele argumentaria dizendo que são confissões, é a vida dele, e sexo faz parte da vida. Não julgo como certo e errado porque me parece uma postura de geração; imagino perfeitamente meu pai falando (e sim, muitas vezes preferiria que ele me poupasse), lembro da autobiografia do Neruda onde ele conta, como se fosse uma coisa muito bacana, de quando estuprou uma nativa (isso mesmo que você leu) que recolhia o lixo dele. Em certos momentos o Darcy citar mulher tem a ver, em outros não, às vezes é pura vantagem e constrange, noutras… cara, teve essa daqui que me fez rir muito. Dica sexual do tio Darcy, anotem:

Vive em Paris uma das mulheres que mais amei. Ela nasceu de uma família francesa na Argélia e nós nos encontramos muitas vezes no México, em outros países e também em Paris. Devo a ela um amor elaboradíssimo, de tradição árabe, de que eu não fazia ideia. Primeiro, a sabedoria com que passávamos de sala em sala de seu apartamento. Cada uma delas com incensos de odores diferentes, maravilhosos. Comendo doces ou tomando licores para nos esquentar. Depois a cama, em que ela era uma das mais prodigiosas mulheres que conheci. O melhor mesmo é que, quando acabávamos de amar, ela saía e voltava logo depois com a toalha embebida em vapor. que punha em cima das minhas partes. Aquilo me descansava e me realentava para novos volteios. Nunca via coisa mais formidável. Aconselho minhas amigas todas a tentar com seus amores esse exercício, que realmente é uma lindeza. (p.218)

Curtas de queixas vintage

Essas promoções de hoje em dia, que a gente tem que cadastrar código de barra e guardar a embalagem. Não gosto, preferia mandar as ditas pelo correio. Devia ser um problema se livrar de tudo depois que a promoção acabava, mas aí o problema era deles. O meu problema é que eu cadastro as embalagens e elas ficam por aí, estorvando. Quando vejo, joguei fora. Aí fico com medo de ser sorteada.

 

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Uma coisa que deixou de existir e ainda bem: fã que para demonstrar seu amor escreve carta pro ídolo com 10 metros de papel com a frase “eu te amo”. Aí mostrava a quantidade de caneta que a infeliz usou, etc.

 

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Já fui fã dos grandes gestos de desculpas, não sou mais. Sabe igual a cena do Richard Gere pedindo desculpas para a Julia Roberts na escada, em Uma linda mulher? Não me convence mais. Não porque a pessoa já conta com isso, em fazer uma merda muito grande e depois basta um gesto grandiloquente, uma cena pública. Sou mais ter pensado antes e evitado de me magoar.

 

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Fico doida com esses posts que usam nostalgia dos anos 80 como motivos para alfinetar as gerações mais novas. Naquele tempo andávamos na parte detrás do carro, o mertiolate ardia, a TV não tinha controle remoto e nem por isso morremos, etc. Mas se essa geração que está aí é mole, mimada e não tem a nossa firmeza de caráter, a culpa é de quem? Dos seus pais anos 80. Se achavam que os valores da nossa época eram tão bons assim, não deveriam ter criado os filhos dando tudo, levando de carro pra cima e pra baixo e superprotegendo.

Essa geração sempre online mimimi

Quando eu fui visitar o Milton, deixei uma excelente impressão no sobrinho dele, que disse que nunca tinha conhecido “uma adulta que sabe quem é Felipe Neto e PC Siqueira”. Dá pra dizer que eu sou de uma geração que ficou bem no meio da revolução da internet. Sabe aquelas piadas sobre Graham Bell ter inventado o telefone e não ter para quem ligar? Era mais ou menos assim quando a gente fazia e-mail. Eu conheço muita gente da minha idade que trabalha com internet ou que passa muito tempo online, mas isso é apenas porque eu tenho esse perfil. A grande maioria só usa e-mail e tem conta no facebook “pra achar uns amigos de infância”. Então eu ouço, à sério, as pessoas reclamarem do quanto esses xóvens ficam muito tempo na internet, cada um com seus telefones, sem conversar, sem olhar para os lados, onde é que esse mundo vai parar.

 

Eu acho sim que há um exagero e é preciso estar mais no mundo, mas também não me sinto confortável em condenar ninguém. Se eu já ficava na internet na época que gastava pulso telefônico, imagina no mundo de hoje. Lembro claramente de um sentimento que me perseguiu durante boa parte da minha vida: inadequação. Eu queria estar num outro lugar, num outro mundo, que eu não sabia como era, só sabia que não era o que eu tinha acesso. Eu não queria estar no meio das pessoas que estava. Quando digo isso, não estou apenas falando de família, falo também das pessoas do prédio, da escola, os que tinham a minha idade. Todos me pareciam um bando de idiotas, não dava pra ter uma conversa que prestasse. Depois a gente cresce e coloca essas coisas em perspectiva, mas estou falando aqui de como eu sentia. Então, eu tenho certeza de que ficaria muito feliz em conhecer pessoas de outros lugares, com os mesmos gostos que eu, e me sentiria mais à vontade com elas do que com aquele povo que vive lá em casa. O que me estava acessível era ler, andar no parque, me trancar no quarto, e fiz todas essas coisas intensamente. Podemos dizer que saí ganhando, que os livros que eu li hoje fazem parte da minha cultura e trocar mensagens com meus amigos não me levaria a nada. Mas isso é atribuir um cálculo de futuro que eu não tinha. Eu teria preferido o whatsapp mesmo.

Flerte

Eu não devia ter mais de doze anos quando minha mãe me deu pra ler um livro em forma de diário. Ele contava a história de uma menina mais ou menos da minha idade até o fim da adolescência. O livro era de mil novecentos e bolinha. Não tinha TV, ela descrevia a emoção de tomar sorvete pela primeira vez, esse tipo de coisa. Lembro que eu adorei o livro, achei tudo muito fofo. Por causa da época, mesmo quando mais velha ela tinha atitudes e se sentia de forma parecida com a minha. Até que ela ficou uma moça e começou a chamar atenção dos rapazes. Eles começaram a flertar com ela. E ela sentiu vontade de flertar também. Eu não fazia idéia de que diabos flertar significava, mas continuei lendo na esperança de entender. Um dia ela foi pra uma festa e um rapaz flertou com ela. Ela, quando se deu conta, estava flertando com ele e depois morreu de culpa. Sem saber o que fazer, ela consulta o padre, que lhe chama à responsabilidade e ensina que flertar é coisa muito séria.

– Mãe, o que é flertar?

– Flertar é ficar olhando. Você fica interessada num menino, fica olhando pra ele e ele fica olhando pra você.

– SÓ ISSO???


Roubei do Cinema em Cena.

Se eu fosse contar as minhas aventuras amorosas adolescentes vocês teriam uma reação parecida. Ah, gerações…

Conhecimento prático

Não gosto de tomar remédio. Sou daquelas que usa spray de própolis quando a garganta dói. Não sei se é porque fui criada com homeopatia, mas os remédios mais comuns me dão péssimas reações adversas. Uma vez tomei um antibiótico – desses que todo mundo tem na gaveta – e tive a pior enxaqueca da minha vida. Ao mesmo tempo, não tenho o conhecimento das nossas mães e avós a respeito de chás, ervas, alimentos, coisas naturais. Não tenho chá em casa, só o Matte Leão. Não tenho nenhuma planta útil, nem de tempero. Nunca sei o que tem que tomar, aplicar, jejuar. Fui querer comer uma coisinha leve e comi atum em lata, na água, mas pelo jeito meu fígado não concordou comigo. Falando nele, foi só dizer que estava passando mal e minha sogra – aquela de quem não canso de reclamar – me mandou tomar um chá boldo ou de erva-doce. Melhorei um pouco, não sabia o que comer, e com medo de passar outra noite com dor, liguei pra minha mãe pra ela me dizer o que posso comer e durante quanto tempo. Seguirei com o rigor dos que temem o inferno. Quando a geração delas se for, o que faremos nos momentos de crise?

Papo de velha

Eu achava um saco e totalmente fora de propósito quando alguém vinha se queixar da minha geração. Nunca me esqueci do passeio que fiz àlguma ONG, acho que para a SPVS. Fomos divididos em grupos e enquanto as outras crianças pegaram instrutores legais, o nosso ficou horas tentando arrancar de nós uma coisa que não sabiamos o que era. Lembro dele olhando fundo nos nossos olhos e dizendo “Eu tenho muito medo da geração de vocês.” Enquanto isso, as outras passaram felizes, nos dando tchau através do vidro.

Hoje tenho a tentação de dizer “eu tenho muito medo da geração de vocês”. Nas pequenas coisas, como na crônica falta de gentileza. Um amigo deu meu telefone pra uma colega de jornalismo em apuros – o que já é complicado, mas vá lá, quem nunca fez besteiras por causa de alguém pedindo ajuda. Ela ligou pro meu celular e pediu pra me mandar perguntas por e-mail, sobre ideologia. O tal e-mail não tinha introdução, não tinha nada, só aquelas perguntas mal elaboradas. Como se estivesse mandando aquilo pra uma colega de faculdade, e não pra uma entrevistada com uma baita formação e que ela nem conhece. As perguntavas estavam irrespondíveis de tão ruins (“ideologia é considerada arcaica?”); fui obrigada a fazer um texto que explicava o conceito central desde o início. O que eu ganhei em troca do favor? Uma resposta irritadinha e adeus. Situação semelhante à minha foi de uma amiga, que dá aula numa academia e precisou de uma substituição. Iam lançar uma aula nova e a substituta ligou querendo/exigindo a cópia de um CD. Minha amiga copiou, o marido mudou de caminho pra deixar tudo à tempo. Quando elas se encontraram, a outra nem tocou no assunto. É isso o que eu vejo nessa geração: agem como se tudo o que fazemos por eles fosse nossa obrigação.

Não sei se esse é um problema deles ou se eu também fui assim e não me dou conta. Porque eu vejo que eles simplesmente não entendem, acham que não fizeram nada demais, nunca. Fico imaginando o que deve sair quando essas pessoas interagem entre si, todas majestosas esperando que o mundo as sirva. Acredito que o mundo real não alimente esse tipo de atitude durante muito tempo. É balela dizer pra que ter sucesso na vida é preciso forte, determinado, focado, ambicioso. Pra conseguir tudo o que deseja, tem que saber pedir. E agradecer.

As dores

Eu fico assustada com pessoas que acabaram de passar por um momento muito difícil – separação, morte, destruição dos sonhos – e estão por aí, badalando. Depois a pessoa te conta, reservadamente, que está tomando anti-depressivos e que ficar em casa é uma tortura. A fuga se dá pela felicidade constante, pela necessidade de estar acompanhada e tomar remédios de tarja preta. Com o tempo, a pessoa vai tirando a medicação (ou não…). O objetivo é olhar para trás e não ter tido um único prejuízo na época difícil – ele deve ser tão alegre e produtivo quanto qualquer outro. O mercado de trabalho, de amigos e de namoros não perdoa quem fica mais de uma semana triste; é preciso rejuvenescer, socializar, levantar.

Penso nas gerações anteriores, nas Anas Terra da minha família e na dos outros. Pessoas que tiveram perdas muito grandes e nunca apelaram para remédios, que nem existiam antes. Elas nunca chegaram perto de se matar; nunca receberam o dignóstico de depressão – o que não quer dizer que elas nunca tenham ficado tristes. Os lutos eram simbolizados por suas roupas pretas e duravam anos. Era até feio freqüentar eventos sociais nos primeiros meses. Assim como um bom bordado, nenhuma dor era encerrada em poucos dias. Tenho certeza que a fibra das nossas mães e avós tem a ver com tempo e com aceitação do sofrimento.