Zen p*** nenhuma

O A arte cavalheiresca do arqueiro zen é um dos livros da minha vida. Eu cresci querendo viver uma experiência daquelas, queria encontrar um mestre oriental e me embrenhar uma arte que me ajudasse a superar o ego. Agora, em recente surtada flamenca, estava me perguntava que diabos eu estou fazendo lá, eu seria tão mais feliz se lidasse com o meu terror de me expor no palco da mesma forma que lido com outros terrores – não me coloco na situação. Pergunta se eu tento saltar de paraquedas. Ele fica lá e eu aqui, tudo bem.

Tal como o autor do livro, me vejo levando anos pra aprender o básico do básico, uma simples respiração. Aí entra o inconformismo de quem sempre se saiu muito bem em outros assuntos que exigem leitura e perfeccionismo, conquistava os professores pelo seu empenho, e agora se vê reduzida à condição de aluna com quem se precisa ter paciência. Enquanto outros mais jovens disparam felizes e cheios de ritmo, eu me vejo atacada de todos os espíritos malignos do meu inconsciente e começo a errar o que fazia até agora pouco, mas de forma anônima. Olhou pra mim, puf: coração disparado, bloqueio, derrota antecipada. Como é horrível sentir ódio de si mesmo, de sentir que ser tímido é uma condição problemática de ser sem nenhuma vantagem.

O corpo leva muito tempo. O corpo resiste ao QI e cultura, às leituras e estratégias, aos insights reveladores. Ele não se deixa dobrar às terapias milagrosas e nem a conclusões muito bonitas com o objetivo de mudar de rumo repentinamente. O corpo leva anos pra fazer um luto, por mais que a gente queira se encher de remédios e substituir o que foi perdido pelo modelo mais recente. O corpo leva anos pra adotar um gesto. O corpo não está nem aí se a condescendência das pessoas te incomoda, se você acha que merece mais, se você é o fodão em outra atividade. Assim como ele não está nem aí se você é um fracasso em tudo e gostaria que, naquele espaço, a história não se repetisse. O corpo leva anos para aprender uma simples respiração. Quem sabe o corpo do outro não, quem sabe o corpo do outro conquiste em três anos mais do que você conquistou em nove. Conquista sim que eu vi, com estes mesmos olhos do meu corpo. Mas acha que o corpo se importa? Ele vai continuar no ritmo dele. Lento, muuuuuito lento.

E ainda estou de mal com o fato de ser tão tímida.

falta muito

O cérebro de Dick

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Philip Dick me foi altamente recomendado. Eu lembro que o Ernani Ssó me disse que as adaptações pro cinema (Blade Runner, Minory Report) o empobreciam muito. Lembro dele ter me dito da ilusão dentro da ilusão que havia no Vingador do Futuro e eu nem guardei, talvez porque a primeira parte já não tivesse feito sentido pra mim: empobreciam? Quando finalmente o li, lembro de ter sentido um desconforto, não ter realmente gostado. Era, sem dúvida, genial, inigualável. Mas era muito diferente do que eu esperava de ficção científica. Asimov, Clark e Sagan, minhas grandes referências da época, me faziam pensar num mundo além, em uma Humanidade com H maiúsculo, nas grandes questões. Dick era… intimista.

O livro de Dick que mais me impressionou foi Ubik. Aí o Ernani me disse que Os três estigmas de Palmer Endrich eram nessa linha de tão bom quanto. Resultado: levei uns quatro anos pra ter coragem de ler. Porque Ubik me traumatizou, não tem outra palavra. O mundo de Dick é um mundo onde não podemos confiar nas nossas percepções, onde nossos cérebros estão corrompidos. O dele deveria ser assim. Dick morreu novo – com 53 anos – e com alucinações e construções tão geniais quanto seus livros. Passem lá na wiki sobre ele e leiam o item “Paranormalidade e problemas mentais”. E se vocês digitarem o nome dele acrescido de Crumb, verão essa história em forma de quadrinhos.

O Dick me serve de lembrança para algo que parece muito óbvio mas não é, a julgar de como agimos: que a mente é apenas uma consequência física do cérebro. Durante a faculdade, um dos meus amigos mais próximos, que era músico, começou a fumar maconha. Éramos amigos desde o segundo grau e ele me acusou de quadrada, se afastou, o normal de quando ficamos diferente dos amigos. Depois soube que ele teve um surto. Depois voltamos a nos falar, ele ia para um psiquiatra, mas jamais teve coragem de me contar, acho que até hoje deve pensar que eu não sei. Não sei como e porquê ele surtou, vai da estrutura de cada um. Oliver Sacks, no seu livro A Mente Assombrada, conta suas próprias experiências com drogas, que ele usava pela “necessidade” (aspas dadas por ele mesmo) de conhecer os fenômenos que aconteciam com seus pacientes.

Cuidado com o teu cérebro. Meio moralista da minha parte, eu sei. Eu morro de medo de quebrar alguma coisa aqui dentro. Dick tinha algum fio solto e acho que eu não gostaria de ter sido ele, mesmo com toda genialidade.

Nossos corpos

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Um dia o Suplicy começou a aparecer de sunga nas minhas redes sociais. Em todas, repetidamente. Ele estava na praia e parou pra ver um protesto. Fotografaram e disseminaram até à loucura. Vi dizerem que era sinal de senilidade, outros exaltando o gesto. Não achei uma coisa nem outra. Lembrei do meu ex-sogro, que ficava todo queimado porque ia cortar grama sem camisa em dias de sol. Lembrei do meu pai, que considera que o clima ideal é quando a casa está toda aberta e ele de chinelo e bermuda. Suplicy, pai, ex-sogro, são todos da mesma geração. A geração deles não tem problema nenhum em ficar sem camisa. Como pessoa de infância anos 80, convivi com eles e peguei um pouco disso também. Eram os adultos que estavam à minha volta. Eles fumavam na nossa frente. Nós dizíamos – vou pra casa do Fulano – e isso era justificativa pra passar o dia inteiro fora e viver altas aventuras, bem como mostra no Stranger Things.

Estávamos na praia, e alguém pegava uma máquina fotográfica e decidia registrar o momento para sempre. Eram máquinas de filme, filme era caro pra comprar e mais ainda para revelar. Você tirava duas fotos e o momento especial já estava registrado, as próximas duas fotos seriam gastas só em outro momento especial – podia levar um ano inteiro até gastar um filme e mais tempo ainda pra revelar. Não dava pra descobrir se a foto ficou boa até ver, você até esquecia o que tinha lá dentro. O adulto falava “foto”, e nós que estávamos com a água até as canelas, de roupa de banho, parávamos e olhávamos para a câmera. Só isso. E nos víamos quando o filme era revelado. Acho que o sentimento de “credo, eu sou esquisito assim” foi inventado junto com a câmera escura, mas o que realmente incomodava era só você piscava. De resto – barriga, mancha, rosto brilhante de suor, dentes tortos -, era tudo apenas corpo, pessoas. Uma pancinha era só uma pancinha, assim como a parte de cima do biquíni quase no pescoço, ou pernas finas. Era uma relação menos neurótica com os corpos e como os corpos eram registrados.

Eu me dei conta que somos apenas duas no flamenco que se vestem de uma maneira mais fora do padrão, digamos assim. Ela adora brechós e garimpar peças, eu tenho me esmerado na arte de usar o maior número de cores possíveis e ainda ornar (ou não). O que eu e ela temos em comum é: anos 80. Nós vivemos uma época em que cada roupa não precisava ressaltar que você está magro e malhado, talvez porque todo mundo fosse meio magro e fraquinho. Eu lembro que baby look foi inventada quando eu estava no início da faculdade, até então usávamos o mesmo modelo de camiseta para homens e mulheres. Isso sem falar das cores 80’s; havia tons de verde até nos fuscas, o que dizer então das polainas, das ombreiras, das faixas no cabelo.

Quase só animal

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Passei por uma fase lendo bastante sobre Gurdjieff e parei por não encontrei mais livros para ler. Mesmo conhecendo várias teorias místicas, a dele foi uma das que mais me impressionaram. Há uma metáfora que ele usa – que não é nenhuma novidade – e diz que uma pessoa é como uma carroça puxada por um animal. O animal é o corpo, a carroça são os sentimentos e o condutor é a mente. Ele diz que os homens se acham muito racionais, como se a mente fosse um fato dado. Pelo contrário: a humanidade como um todo está dormindo e precisa acordar; a mente é uma conquista e não um fato. Aí ele faz uma estatística, que não me lembro com exatidão, que diz que nos nossos atos somos 80% corpo, 19% emoção e, quando tem mente, apenas 1%. Que pensamos que a nossa mente inicia a ação, sendo que na verdade temos um instinto que nos domina de tal forma que a emoção e a mente vão atrás para confirmar. Quase tudo o que pensamos decidir é, segundo esse raciocínio, mera racionalização dos nossos instintos. Não digo que Gurdjief me consideraria uma pessoa desperta, mas entender esse mecanismo já me ajudou.

Curtas de condições físicas

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Uma das minhas mais queridas ex-professora de balé foi morar fora e veio pra Curitiba há poucos dias. Ela fez uma publicação pra avisar de um big encontro,o aniversário dela, marcou um monte de gente, eu dentre eles. Ela é tão querida que cheguei cogitar aparecer, apesar de tudo: lugar público, barulhento, sozinha no meio de bailarinos. Penso que isso de ser tímido é quase como uma condição física que a gente se acostuma, como se fosse uma dor no joelho, daquelas limitações que os outros até sabem e ao mesmo tempo não até onde vai. Com o tempo a gente conhece o nosso próprio organismo, olha pra situação e diz: não, isso eu não dou conta, vai ser ruim.

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A série Atypical (Netflix) é toda uma gracinha. É a história de um adolescente com grau leve de autismo que quer arrumar uma namorada. Tem uma cena que o pai dele vai para o grupo de apoio. Ele todo fofo, interessado, falando que está feliz do filho dele estar bem, e é corrigido o tempo todo: “não dizemos melhorar, porque é uma condição física irreversível”, “ah, você quer dizer que as estratégias comportamentais dele estão eficientes”. Muito internet, muito grupos de bandeiras-legais-que-agem-de-maneira-nada-legal que vemos por aí. É perder o conteúdo em nome da forma. Não sejam essas pessoas.

 

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Aceitei a recomendação de uma vitamina C turbinada, para cansaço. Na bula diz: “para gerar energia, as células do organismo realizam várias reações químicas. Durante o processo (de geração de energia), as células liberam amônia, que é um produto tóxico para o organismo, incluindo o sistema nervoso central, desencadeando a fadiga. A arginina atua, transformando a amônia toxica em uréia que é eliminada pela urina, ajudando a combater a fadiga (cansaço) tanto física ou muscular quanto mental ou psíquica, causada pelo acúmulo de amônia no organismo”. Agora eu mijo cansaço.

Maja nua

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Eu fiquei umas seis horas lá dentro, nunca mais repetirei a experiência. Não se pode dizer que eu vi tudo porque uma das funcionárias fez o favor de me informar que as salas que estavam fechadas eram nada menos do que dos pintores italianos. Pouca coisa, o que tem pra ver de pintores italianos? Ela me tranquilizou dizendo que no dia seguinte estariam abertas, mas aí eu que é não estaria mais lá. Sei que chegou uma hora que eu entrava na sala e sentia engulhos, como se toda aquela beleza começasse a me fazer mal. Quando cheguei na sala de Goya, num segundo andar, já era esse o meu estado de espírito. Olhei para as Majas porque mesmo inculta do jeito que eu era – e quem não o é aos vinte e um? -, eu sabia que aquele era um clássico. Fui até a loja do museu doida para comprar alguma coisa, qualquer coisa, não poderia deixar aquela experiência passar em branco. Mas era tudo tão caro! Lembro até que tinha chocolate do quadro As Meninas de Velázquez. Eu já colecionava marcadores e quis comprar as duas Majas, ia fazer um belo conjunto ter a versão vestida e nua. Mas era tudo acima do meu orçamento, mesmo os marcadores, e naqueles últimos dias de viagem a escolha não seria nem entre comer e não comer e sim ter ou não dinheiro para ir até o aeroporto. Então comprei só uma, a nua.

Duas meninas do flamenco fizeram pós na Espanha e estudaram a história do flamenco com um grande especialista, e a pedido da nossa professora elas nos ofereceram uma série de palestras. Falaram do nascimento do flamenco, que demorou para ser conhecido apenas como uma dança e ficar do jeito que conhecemos hoje. As dançarinas que dançavam o que hoje é o flamenco, junto com trupes, ciganos, cantando e dançando, eram as Majas. Era uma figura folclórica que foi incorporadas até em balés românticos, sempre representada por uma morena de temperamento difícil, jamais a mocinha. Eu demorei pra relacionar essas figuras à do marcador, porque as meninas falavam a pronúncia em espanhol – “marras”. Não precisa ir muito longe para saber que numa época onde o balé nascia na Europa, com pulinhos e babados, mulheres-majas movendo suas cadeiras, batendo os pés com força e brincando com a saia não fossem bem vistas, e fossem consideradas prostitutas. Então, por dançar flamenco, também eu posso ser considerada uma maja – ou pelo menos uma descendente delas.

A Maja, minha maja, me faz pensar em três tipos de nudez. A primeira e mais óbvia é a do corpo. A segunda, dos meus textos. Tenho me exposto continuamente e dá para me conhecer através do que eu escrevo não apenas pelas histórias e pelo que digo, mas também pela repetição dos temas, do que omito, da forma como manejo as palavras. Tenho me feito despir no que escrevo no meu twitter, nas brincadeiras que compartilho no meu facebook, pelas piadas com os amigos, pelo que escrevo privadamente. Pra mim, durante muito tempo, nudez era isso. Agora sei que há uma terceira, algo que nem consideramos nudez por estar tão acessível a muitas pessoas, diariamente. Hoje passei o dia inteiro fora, peguei vários ônibus e cruzei com muitas pessoas na rua, e a qualquer uma delas tinha acesso à minha aparência e os meus gestos. Num olhar é possível adivinhar o humor, os valores, a vida de alguém. Cada um tem um gesto mais significativo, que para uns pode ser a maneira como se inclina na cadeira e presta atenção com os olhos apertados, como segura um cigarro (caso fume), se joga a cabeça para trás na gargalhada ou a inclina para frente balançando a cabeça. Há algo de revelador que só a presença física pode dar, só o olhar, a energia, o contexto, o estar presente naquele instante. Radicalizando essa nudez, há a sensação dos dedos passando suavemente pelos cabelos, o cheiro da pele mais escondida, o efeito da voz sobre os tímpanos e o coração. A gente passa por várias pessoas diariamente, as lê sem querer e logo depois esquece. A nudez só impacta quando é desejada. Das três – é muito interessante se dar conta disso – a terceira é a única sobre a qual não se tem controle. É uma nudez que nada importa ou tudo importa, e como dói quando simplesmente não pode ser.

Menos espaço

Maiôs de natação são feios, quase sempre pretos ou azul marinhos, então que legal seria um que fosse ótimo pra nadar e ao mesmo tempo tivesse estampas tão bonitas quanto os de praia. Excelente ideia a minha, não? Pois é, eu também achava. Na minha última compra, voltei com três estampas lindas e coloridas, mas mais por uma certa teimosia do que outra coisa. Digo isso porque sei que vão encalhar, posso citar um ou dois nomes de mulheres que teriam “coragem”. As que vão vender são as outras, essas sim atendendo os pedidos: preto, fundo preto, estampa miúda e convencional, o mais discreto possível. Comprei, mas comprei frustrada. Nenhuma das mulheres que me pediu isso é obesa, nem ao menos são gordas. Mas mesmo que fossem. Se acreditamos que o que torna o nosso corpo belo é ficar o menor e mais escondido possível, é claro que cores e estampas nos parecerão feios. Eu também estou condicionada por esse olhar, eu também me sinto mais segura com um fundo preto que me diminua e uniformize. Mas precisamos sempre, em todos os momentos, ficar preocupadas com esse “cair bem” de um outro a quem creditamos tanta crueldade?

Curtas, digamos assim, mais biológicos

a felicidade vem de dentro

Desde que troquei uma obturação enorme, esse dente ficou sensível ao frio de uma maneira que a pasta de dentes sensíveis (que uso desde que coloquei aparelho pela primeira vez) não dá conta. Aí fico com dúvida se mudo para a comum ou se há níveis maiores de dores que eu não estou sabendo.

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Já que toquei no assunto, sabe aquelas pelinhas perto da unha, ou aquelas lasquinhas nos cantos? Por causa da aparelho, não consigo mais tirar com os dentes. Aí fico futucando aquilo até tirar nacos de carne. Ou até chegar em casa.

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Agora sobre barateza: precisava de um sabonete íntimo e achei um da marca do supermercado, que além de já custar mais barato, estava numa super promoção. Adivinhe: nunca tive coragem de usar.

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Não pegar friagem nas partes baixas é um conceito que passou a fazer todo sentido pra mim depois que eu coloquei DIU.

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Sabe a gente come algo que solta o intestino e vai várias vezes ao banheiro? Chega um certo ponto que você sabe que aquele cocô não é do dia anterior, porque já foi. Eu fico olhando para eles e tentando imaginar a data – seria este o junkie food de 2003?

Duas vivências que determinaram minha concepção de beleza

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Quando começaram a aparecer shorts nas vitrines de Curitiba, eu jurei que aqui essa moda não pegaria. Quem está ou esteve aqui há pelo menos vinte anos entende o que estou dizendo. O verão nunca ultrapassava os 25º C e nem os panos subiam mais do que um palmo acima do joelho. Esse comprimento, em público, já fazia as mulheres receberem tantos e tão insistentes olhares que era quase como sair nua. Com uma cidade tão fria, nos dois sentidos, é muito fácil manter uma moral muito mais pudica em relação a cobrir os corpos. Me parece que aqui, mais do que em outros lugares, se leva muito mais à sério a imposição de esconder todo corpo que não segue o Padrão Ego. Uso uns sunquinis enormes pra nadar; eu diria que a diferença deles pros maiôs é apenas que mostro umbigo. Mesmo assim, sou a Leila Diniz da minha escola – “você é aquela moça que nada de biquini, né?” Esse meu hábito já me fez passar por alguns episódios desagradáveis: passaram “por acaso” a mão em mim algumas vezes, me comeram com os olhos de maneira bastante ostensiva, fui abordada por homem casado. Pela lógica deles, se eu fosse mulher séria não estava mostrando, né? Outra visão é a de que eu mostro porque “estou podendo”. O que há por detrás da minha atitude – e que ninguém entende – são duas vivências determinantes na minha forma de entender o assunto:

Lembrança 1: Estou cercada de pessoas, praticamente todas mais bronzeadas do que eu. Sou um pontinho branco – ou bastante vermelho, no espaço de algumas horas – no meio da multidão. Homens e mulheres passam por mim com poucos panos coloridos cobrindo seus corpos. Algumas estão na areia, pegando ainda mais sol, o que chega a ser aflitivo; outras estão no mar, jogando frescobol, conversando com amigos ou cuidando dos filhos. Algumas dessas mulheres são mulatas incríveis, com corpos tão lindos e tentadores que nos fazem entender a mística em torno delas. Também com panos poucos coloridos, passa por mim a vovó, que tem o corpo todo marcado pelo tempo. Lá vem correndo a menina barrigudinha, seguida pela sua mãe, que tem o corpo diferente da pré-adolescente, que não se parece nada com a quarentona. Tem mulher de seio pequeno que mal segura o top, mulheres de quadris enormes, mulheres com pelos loiros, mulheres, enfim, variados tipos, idades e histórias de corpos. Todas estão curtindo a sua praia. Todas estão de biquíni.

Lembrança 2: Olho para as pessoas – ao cruzarem comigo na ruas, conversando entre si nos ônibus, dando entrevistas na TV, almoçando em restaurantes por quilo, atendendo o telefone no balcão da loja – e tenho vontade de pedir que posem para mim. De tanto passar o dia inteiro esculpindo e estudando a anatomia humana, as pessoas se tornaram modeláveis para mim e tenho a impressão de que todos têm corpos de barro que podem ser mexidos e acrescentados. Como se apenas um gesto no local e profundidade certos fossem capazes de alterar peles e músculos. Só que os corpos que me chamam atenção não são os que comumente se considera belos, ao contrário: o corpo liso e jovem é sem graça, é uma folha sem linhas. Nos corpos de plástica é pior, pois vejo a ação do bisturi, que não respeita proporções, tira demais e uniformiza.  Os corpos que tenho vontade de eternizar são aqueles que me dão histórias num simples olhar. Vejo nobreza em rostos enrugados, mãos fortes que sustentam o mundo, quadris acolhedores, ingenuidade em lábios repuxados pra cima. Não quero o belo de revista, que se esgota na página seguinte – busco o belo do singular, do conteúdo que transborda, do espírito que marcou a matéria.

Por isso que quando fui convidada a escrever sobre a beleza feminina saiu isso.

Gordurinhas são dinheiros

Tentar emagrecer dá a sensação de que o corpo está contra o nosso propósito. Só quando meu irmão biólogo me explicou que o corpo encara a gordura de forma diferente, que para ele a gordura é um estoque desejável, é que eu entendi de verdade o mecanismo do emagrecimento. Vai que isso ajuda outras pessoas a entender:

 

Imagine que depois de pagar todas as suas contas, você fique com duzentos reais de sobra. Todo mês você sabe que, em média, é isso o que você tem para guardar ou fazer o que gosta. Aí, acontece alguma coisa – um trabalho extra, um bônus, uma conta que deixa de ser sua – e no final do mês estão sobrando quinhentos reais. “Oba, quinhentão, este mês estou rica!”. Que felicidade, que alegria. Aí, no mês seguinte, o tal bônus continua, e você tem quinhentão sobrando de novo. Dois meses de riqueza, que legal! Aí no outro mês tem quinhentão, e no outro, e mais outro… O que acontece: você deixa de encarar os quinhentos como extra, você incorpora os trezentos a mais. Nas suas contas e na programação do mês, você já se considera uma pessoa com quinhentos mensais de sobra. Muito mais legal, quanto mais dinheiro melhor. Se tentarem te fazer voltar aos duzentos, você não vai gostar, porque na sua auto-imagem e programação, você já é uma pessoa com quinhentos. Você vai tentar voltar aos quinhentos de qualquer jeito.

 

Nosso organismo é assim com as gorduras. Ele se sente mais seguro e rico quando consegue fazer estoque. Quando a gente reduz caloria, o corpo se sente roubado e não gosta de ficar pobre. Do mesmo jeito que a gente hesitaria em retirar os trezentos de sobra, ele demora para receber poucas calorias e achar normal. Pra mudar a programação, só superando o período de revolta por ter perdido os bons tempos de bonança. O corpo magro é como aquele pobrinho acostumado a trabalhar com as contas no limite, o gordo é o que tem dinheiro de sobra.

Meu corpo para todo mundo ver

“Você pode”. Dizem que eu nado de sunquíni porque posso. Não vou discutir o meu nível de “potência”. Digo nível, porque essa é uma escala de valores que coloca o ideal de beleza tão distante que ninguém se sente completamente aceito. Eu “posso” mais do que quem se afasta mais do que eu dessa escala imaginária, mas eu também não sou a mulher perfeita. Estou longe de ter barriga tanquinho. Coloco o shorts do biquíni e as gordurinhas ficam ressaltadas, igual qualquer mulher que não é extremamente magra ou que nunca fez lipo. Eu fico inchada, às vezes estou com o joelho ralado ou uns roxos por causa da bicicleta, tenho microvarizes, bronzeados irregulares, pancinha. O Ego faria a festa ao falar mal de mim.

 

O que eu tenho percebido é que fico cada vez mais à vontade. Água mole em pedra dura, sabe? As mulheres já me avaliaram de cima abaixo, já pensaram o quanto eu sou “posso” ou sou sem noção. Os homens já olharam o tanto que quiseram. Talvez no início tenham pensado que eu fazia isso pra chamar atenção, pra galinhar. Mas eu continuei na minha – quem me conhece pessoalmente sabe que posso ser exageradamente na minha. Alguns devem me achar gostosa, outros que eu sou magra demais, outros que eu sou magra de menos.  É isso. Seja lá o que eles e elas pensem de mim, seja lá o que elas fariam no meu lugar, eu vou pra aula do jeito que eu quero e pronto. O recado que há por detrás é: sua opinião sobre o meu corpo não me interessa.

E quer saber? Cada dia me sinto mais bonita de biquíni.

Gordas

Quando eu comentei com o meu pai que as curitibanas usavam maiô até na praia, ele riu e disse “que ridículo”. Basta ir pra uma praia em Salvador pra entender o porquê do comentário: lá é o contrário, ninguém usa maiô. Da menina novinha com tudo no lugar, à avó de peito caído e cheia de estrias, todas usam biquíni. Aqui, entende-se que mostrar é um privilégio de “quem pode”, ou seja, que tem um corpo de revista. Quase todas as minhas amigas estão lutando contra o peso, e não colocariam um biquíni porque o corpo delas está quilos e mais quilos do que elas consideram mostrável. Das poucas que não estão acima do peso, muito pelo contrário, estão até muito abaixo do peso, acha que a coisa é muito diferente? Não, elas enxergam gorduras invisíveis e necessidade de esconder dobras que “insistem em ficar por mais que emagreçam”. O universal aqui é usar preto, como se a vida fosse um grande funeral. Vontade de mandar essa mulherada toda pro nordeste, pra elas descobrirem que corpo é corpo. E amando o que temos é muito melhor.

Traição orgânica

Só agora eu entendo o tamanho do meu egoísmo e da minha crueldade para com a minha sogra, saindo com ela de vez em quando na sua viuvez. Eu devia ter trazido aquela mulher aqui pra casa, mesmo sem qualquer intimidade. Largava ela no sofá vendo rede globo, igualzinha a rede globo da casa dela, mas seria melhor. Esse era o problema, eu não entendia que seria melhor. Eu não entendia a diferença que faz estar acompanhado, apenas estar acompanhado, saber que tem outro ser humano por perto quando você não está bem. Eu não entendia porque uma amiga que estava recém-separada falava com tanta gratidão do amigo que assim que soube a chamou pra sair naquela noite. No que resolvia, uma noite?
Eu não entendia o problema da solidão súbita e forçada porque não entendi o que significa essa solidão. Não entendia os depressivos, não entendia as crises de pânico, nunca havia sentido nada semelhante. Eu nunca havia sentido essa ânsia que sobe da mesma forma que uma ânsia de vômito, e vai no coração e dói. Da cabeça entender mas o corpo precisar purgar, e te assaltar de quando em quando com um medo maior do que você, atávico, ancestral, que não te pertence e que você não consegue se defender. Enquanto ele dura, dá vontade de morrer. E o parente dele é um desânimo, uma auto-comiseração e uma falta de fé tão grande que qualquer tarefa corriqueira se torna um fardo. Não há o que fazer, mas ao mesmo tempo há a necessidade de fazer alguma coisa, pra pelo menos fazer as horas passarem. 
Agora tudo faz sentido. Estar presente, sair, tirar de casa faz toda diferença. Nos primeiros dias, nas primeiras semanas, nesse começo. Até o corpo purgar. A cabeça entende, a cabeça decidiu, mas é algo além dela. Como condenar alguém por buscar remédios, beber, fazer sexo loucamente, enfim, sair de si, quando dentro de si se torna o pior lugar. É uma verdadeira traição orgânica.

Preto, preto, preto, preto

Sempre adorei lojas de tecidos. O que não é nenhuma profecia se levarmos em conta que eu também adoro papelarias, lojas de materiais para bijoux, supermercados que vendem em quantidade e qualquer loja que tenha muito de um produto específico. Finalmente estar aprendendo a costurar me dá uma satisfação muito grande, porque já fiz várias tentativas ao longo dos anos, já estraguei muitas roupas tentando reformá-las, já fiz muitas coisas à mão. Costurar de verdade, com máquina e técnica, agora me permite entrar numa loja, comprar um tecido e realmente transformá-lo em algo usável, não mais em experimento ou sucata.

 

Sei muito pouco ainda, mas o pouco que sei já me dá vontade de pirar. Existem tantas cores, estampas, padrões e texturas por aí. Combinações infinitas. De um simples molde dá para fazer milhares de roupas, basta mudar o tecido, o comprimento, tirar ou acrescentar um detalhe. Dá vontade de aderir ao protesto de Gandhi e fazer as próprias roupas… agora com o apoio da Singer.

 

Mas! Você observa desde a menina de treze anos que costura à senhorinha madura que só quer um hobbie, consulta da colega que faz triatlon à dona de casa, pensa na amiga mais fiel à completa estranha, e percebe que se quer fazer algo que realmente tenha saída, que seja garantido, há apenas uma escolha lógica: preto. Porque todas essas mulheres parecem não se dar conta da infinidade de cores, de corpos, de fases da vida e de idade de que são constituídas. Elas gostam, sim, cada uma, de coisas diferentes. Algumas gostam de flores, outras de agasalhos com capuz, de ir a festas ou corridas ao domingos. Mas na hora de se vestir, todas reduzem a questão a: eu quero preto. Preto emagrece. Preto é básico. Preto é chique. Todas quererão se vestir de preto, como se todo mundo estivesse a caminho do mesmo funeral.

Preto é prisão.

Sete anos

Se não me falham as contas, neste mês de julho eu completei sete anos de dança. Pra quem dança isso não é nada, sou um bebê. Conto como início a primeira aula de balé que procurei. No início daquele ano, vi num cartaz vagas para um curso de dança moderna, e lá dizia que a idade limite máxima era vinte e cinco anos. Cheguei na minha aula de pilates e comentei isso com a minha professora, dizendo que o cartaz havia me chamado de velha. Eu estava com vinte e nove, não sabia que não poderia dançar mais. Ela, formada pela escola de balé do Guaíra e que vinha lapidando meu movimento há anos, disse – “Se você quiser dançar, é só falar comigo que encontro uma boa escola de balé pra você. Não a mais cara ou a mais conceituada; posso entrar em contato com as pessoas da área e descobrir onde a melhor formação está”.
Até então eu não havia explicitado pra mim esse desejo de dançar. Eu me via, há algum tempo, com inveja dos bailarinos, da forma como eles chegavam nas aulas da academia e matavam a pau em tudo o que faziam, da maneira como essa mesma professora os reconhecia de longe, nos menores detalhes. Levei meses mastigando o que ela me disse e esperei pacientemente. Estava escrevendo uma dissertação e não tinha tempo para nada. Quando terminei a dissertação, cinco meses depois, voltei: “Lembra do que você me prometeu, sobre encontrar a melhor escola para mim? Agora eu quero que você cumpra a promessa”. E foi assim que fui parar no balé.
Comecei achando que ia largar, tanto que só comprei sapatilha e collant vagabundo. Era para desmentir que o balé fosse tudo isso. Mas era, era tudo e muito mais. O balé me deu um prazer, um desafio e uma realização que eu nunca havia imaginado pra mim. Aquilo foi ficando muito importante, foi se tornado tudo. Tive que escolher entre dançar ou continuar o curso de francês, que era para poder fazer a segunda língua na prova do doutorado. Foi-se o francês. Quando minha correria acadêmica terminou e durante um ano procurei emprego na área sem conseguir, era apenas a aula de balé que me fazia levantar da cama. Depois do balé fiz outras coisas, fiz mais balé, experimentei um pouco de tudo. Eu amava o balé mas não era correspondida. Tive que procurar uma dança que eu amasse mas que também me amasse, aceitasse meu corpo e o que ele era capaz de expressar. Fui parar no flamenco. Aí o desafio seguinte foi encontrar um local onde eu pudesse crescer. Encontrei a escola onde estou hoje.
Fui profundamente criada para ser intelectual e quando comecei a dançar, descobri um mundo novo. Na dança os valores são outros, a forma de se colocar é outra, as exigências são outras. Nos ensaios, nas aulas de chão, nas coxias, volta e meia olhava tudo fascinada, meio intrusa e meio privilegiada por estar presenciando aquilo. O corpo da dança é outro corpo; não é o corpo parado e saco de batatas do intelectual, é um corpo que expressa e é alma. Eu não nasci dentro da dança e tenho, desajeitadamente, descoberto, amado, experimentado essa realidade. Já faz sete anos que faço isso. Até hoje me pergunto, quando estou perto de um bailarino, o que ele vê quando me olha – uma intelectual? Um ser indefinido? Ou será que tanto amor conseguiu me tornar um deles?

As pernas

Era um casal tão simpático, mas tão simpático, que eles conseguiram fazer amizade com a minha avó e a minha mãe, as pessoas menos dadas a conhecer estranhos que eu conheço. Foi no curto período que as duas moraram no mesmo prédio. Seu Ricardo e Dona Marlene eram de Pernambuco e só estavam aqui passando frio porque as filhas vieram pro sul. Eram casados há mais de quarenta anos. Na sala de estar deles, de frente para tv, havia duas poltronas idênticas, extremamente confortáveis, daquelas que reclinam, tem apoio para os pés e para a cabeça. As poltronas eram individuais, mas ficavam uma grudada na outra. 

Um dia estavam os quatro – Seu Ricardo, Dona Marlene, minha mãe e minha avó – na casa deles, à mesa, tomando um lanche da tarde. Quando eles começavam a falar não paravam mais. O assunto em algum momento foi parar em vaidade, mudanças, coisas da juventude, algo assim. Dona Marlene falou que durante anos teve complexo por causa das suas pernas, que achava que elas eram feias. Pleno calor nordestino e ela escondia as pernas, só usava calça. Um dia cansou dessa besteira e resolveu mostrar as pernas assim mesmo, porque eram as únicas que ela tinha. Aí Seu Ricardo completou: “E eu me interessei por ela justamente pelas pernas”.

Difícil foi segurar a vontade de colocar a cabeça debaixo da mesa e dar uma conferida.