Herança

praiaMeu pai chegava do trabalho e ia como um jato até o quarto, trocava de roupa e ia para a praia, onde andava por quilômetros. Tentei andar com ele uma vez e não consegui, mesmo o trajeto mais curto era muito longo. Agora, aposentado, se propõe a caminhadas longuíssimas onde cruza o centro velho de Salvador a pé. Quando minha mãe dizia “vamos” para um passeio no centro, eu já sabia antecipadamente que andaríamos a tarde inteira, num roteiro que incluía contas, lojas, pesquisa de preço, perder-se e reencontrar-se. Quando subíamos no ônibus, na volta, estávamos tão exaustas que não conseguíamos nem falar. Minha mãe que me contou que o meu pai fez um churrasco com o primeiro pedreiro que mexeu na nossa casa, aquele colocou o fechadura da porta do quartinho dos fundos de cabeça para baixo, o que exigia um certo raciocínio na hora de abrir. Meu pai sempre acaba dando um jeito de inventar umas comidas de graça, atualmente é uma feijoada feita no meio da praça numa das cidades minúsculas da ilha de Itaparica. Todo fim de ano minha mãe me fazia abrir o grande cesto de vime onde ficavam meus brinquedos e separávamos para as crianças carentes. Eu olhava para os brinquedos e avaliava se ainda os usava, se ainda os amava, ou se eles fariam outra criança muito mais feliz. Lembro de um que era uma miniatura muito lindinha de uma casa, e eu quis dar sem dó. Aí quem quis preservar o brinquedo foi ela. Minha mãe sempre foi generosa, até demais, a ponto de nos preocuparmos dela ser explorada. Era alguém lhe contar uma história triste que ela já queria ajudar e dava o que iria lhe fazer falta.

Obrigada.