Dois comentários sobre Mindhunter

Mindhunter-3ª-temporada

Não vou entregar nada, mas esta segunda temporada de Mindhunter está ainda melhor do que a primeira. Vi algumas críticas por aí, várias questões foram levantadas, mas a que mais me tocou foi a questão da responsabilidade. Você não mobiliza o governo, levanta fundos, ganha crachá e funcionários sem ter consequências. Engrenagens são movidas, expectativas são criadas, responsabilidades pesam. A série se arrasta no tempo para nos deixar claro o quanto é difícil manter as suas posições enquanto os dias passam. Todo mundo achando besteira, o que parecia tão redondo de repente perdeu a eficácia, chega um momento que até o que era muito sólido parece ter sido só um sonho. É a treva, o inferno astral, o momento decisivo na vida em que nada e ninguém te apóia, e é só você tentando manter seu projeto fora d´água enquanto o resto do corpo já está imerso. Será que passa de qualquer maneira, será que o grande prêmio será perdido?

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Este é mais pessoal: certo ou não, o que me fez ver a série foi um post que dava um perfil psicológico para cada um dos personagens, de acordo com a escala MBTI. O teste havia bombado no Facebook, todo mundo postando, e nas três ou mais vezes que fiz (quando fico psica gosto de esgotar todas as possibilidades) o resultado foi sempre o mesmo. Eu e o agente Ford seríamos INFJ. O resultado diz que é um tipo raro. Aí você vê que existem grupos de facebook, vídeos, guias, tudo o que você pode imaginar de INFJ. Além de ter posts extremamente chatos, as pessoas ficam brigando entre elas, julgando que nem todos ali merecem ser INFJ. Enfim, só pra dizer que qualquer coisa no mundo que ofereça uma etiqueta que diga que as pessoas são raras e especiais é motivo de disputas e brigas. Nem que seja um mero teste de Facebook, nem que seja algo que as pessoas nem sabem se existe.

Comfort food

pãozinho

Eu mesma só fui conhecer o termo há poucos anos, nem sei se ele existia antes. Foi uma blogueira que se viu tendo que comprar um Quick bem caro em outro país, porque para  a filha era importante naquele momento. Depois de semanas de telefonemas, ameaças e ajustes com operadoras de internet, parece que finalmente resolvi os últimos detalhes, e me vi comendo a mesma pizza que como desde criança. É uma pizza tão poderosa que serve de comfort food pra toda família. Minha mãe a comia quando era criança, meu irmão mais velho passa lá quase todos os dias quando vem pra Curitiba e considera aquela a melhor pizza do mundo. Eu ia resolver outros problemas e quando me vi estava lá, apertadinha na cadeira alta. Foi meu presente.

Saiu a nova temporada de Queer Eye e termino os programas com lágrimas no olhos e me sentindo confortada. Acho lindas as pessoas que eles selecionam e lindo o carinho deles. Também ouvi de uma tentativa fracassada de terapia, e me pareceu que faltou bastante aceitação por parte da terapeuta. Eles, os 5 fabulosos, realmente me convencem nas suas conversas terapêuticas, em poucas frases eles são de uma sensibilidade incrível. Eu acho que o falar a coisa certa passa muito por uma aceitação profunda do outro, pela experiência de vida, uma capacidade de amar.

Quando uma pessoa se vê muito sozinha, como eu me vi, ela se obriga a encontrar comfort em vários lugares. Descobri comfort em aplicativo de karaokê. Descobri comfort em música no chuveiro. Descobri comfort em vídeo de astrologia enquanto preparo café da manhã. Não quero sugerir comfort pra ninguém, o que eu quero dizer é que comfort não é só genético, não precisa vir da infância e do que nos aconteceu. Dá pra criar comfort. Procure comfort, seja comfort.

Vida e obra de Brandon Walsh

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A minha série da adolescência era a Barrados no Baile, que contava os dramas de jovens que já tinham a parte econômica muito bem resolvida porque eram de Beverly Hills. A série começou com os gêmeos Brandon e Brenda, que se mudaram para lá e tiveram que fazer novos amigos. Em breve, a Brenda saiu, porque a atriz teve problemas com o elenco. Ninguém se importou muito. Isso também foi meio inédito na série: nós sabermos das fofocas. Outra fofoca outra que Brandon estava insatisfeito com o papel e pediu pelamordedeus para os produtores fazerem o seu personagem aprontar alguma coisa. Ele era o Sr. Sensato. A coisa mais próxima de maldade que ele fez foi não cortar de vez a paixão que sua colega de jornalzinho de escola Andre Zuckerman sentia por ele. O Brandon foi simplesmente bom filho, bom aluno, ético, sensato, correto, verdadeiro, etc, a série inteira. Ele foi o único que nunca usou drogas, não brigou com os pais, não traiu e foi traído, não colou nas provas, não bateu o carro. Basicamente, ele era o cara legal que podia ouvir e oferecer uma palavra sábia. Adivinhem se alguém sentiria falta de ele sumisse também.

Esses dias falávamos de alguém, e alguém veio me dizer que esse alguém está sendo enganado, vai sofrer, é tudo mentira, etc. Eu não desacredito, existem realmente indícios. Mas eu já aprendi que ninguém quer passar a vida como Brandon Walsh, nem as mais maduras. Acho que todo mundo já conheceu alguém que, depois de uma vida de boas escolhas, surpreende a todos com uma decisão fora da casinha. Deixem-nas. As pessoas não querem ser alertadas e voltar para suas vidas lisas. Em algum lugar dentro delas, elas querem mesmo bater com a cara no muro. Viver também é isso.

Não seja Kirk

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Vi muito Star Trek quando era criança. Quando revi adulta, algumas coisas que não me chamaram atenção na época ficaram gritantes agora. Uma delas foi a maneira como Kirk se opõe a qualquer ideia de paraíso. Para ele, sem inquietação e uma dose de infelicidade, acabam-se a inventividade e a busca humanas. Não saberei dizer quais, mas em alguns episódios a tripulação da Enterprise encontra paraísos – às vezes é um planeta e noutras é uma alteração química. Ele faz questão de destruir tudo, para salvá-los. Era o próprio capitalista salvando as pessoas do hippismo.

Uma vez eu estava conversando com uma pessoa muito rica, não classe média que se vê como rica e sim rica de verdade. E ela me disse que filho dela jamais andaria de ônibus, porque era perigoso e desnecessário. Minha vontade foi de dizer que isso seria um mal na vida deles, que estariam despreparados para a vida. Mas os filhos de uma pessoa tão rica provavelmente jamais precisariam mesmo. Eles podem estar despreparados para a realidade dos que andam de ônibus, que é realmente uma grande maioria – mas essa é A Realidade? Quando convocamos as pessoas à realidade, geralmente é pra destacar o lado mais feio e difícil da vida. Perto do que existe por aí, anda de ônibus não é nada, eu também não conheço A Realidade. Devemos todos ser convocados ao mundo cão para sermos levados à sério? Fazer campeonato de quem é mais traumatizado e desgraçado na vida?

Eu acho que ninguém passa pela vida sem levar umas lambadas, mas… deixa as pessoas. Ver pessoas felizes e dizer que elas não conhecem a realidade oscila entre o pretensioso e a simples inveja.

Gente dessa laia

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Como as regras anti-spoiler não valem para séries que acabaram há anos, vou falar um dos acontecimentos que eu mais gostei em Mad Men. Don Draper é o protagonista e, como tal, tem a nossa simpatia. E Pete Campbel começa a série como um arrivista detestável – com tempo ele conquista a nossa simpatia. No começo da série, Pete descobre que Draper não é realmente o nome dele do Draper, que há um passado obscuro, que ele mente sobre sua origem. Aí Pete reúne suas provas e confronta Draper na frente do dono da agência. O dono da agência fala: Draper é um dos meus melhores publicitários, fecha contratos de milhões de dólares, não estou nem aí pro nome dele. E Pete fica de filme queimado.

Muitos episódios depois, em outra temporada, surge um funcionário bonito, sorridente, puxa saco e que começa a se destacar. Sem querer, Pete descobre que o sorridente também não é quem diz que é, que suas referências são todas falsas. Aí ele o confronta: Sorridente, eu sei que você mentiu, eu já lidei com essa situação e conheço gente da sua laia, agora sei exatamente o que fazer. O que Pete faz? Se oferece para dar boas referências pro cara ir pra outra agência e sumir.

Não é bonito de se recomendar, não é aquilo que nos ensinam os contos de fadas. Mas, como diria Raul, quem aqui é besta pra tirar onda de herói. Eu tenho a impressão que, com “gente dessa laia”, a melhor coisa é deixa-los chegar onde eles querem – lá encontrarão muitos iguais a se matarão sozinhos.

Curtas de condições físicas

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Uma das minhas mais queridas ex-professora de balé foi morar fora e veio pra Curitiba há poucos dias. Ela fez uma publicação pra avisar de um big encontro,o aniversário dela, marcou um monte de gente, eu dentre eles. Ela é tão querida que cheguei cogitar aparecer, apesar de tudo: lugar público, barulhento, sozinha no meio de bailarinos. Penso que isso de ser tímido é quase como uma condição física que a gente se acostuma, como se fosse uma dor no joelho, daquelas limitações que os outros até sabem e ao mesmo tempo não até onde vai. Com o tempo a gente conhece o nosso próprio organismo, olha pra situação e diz: não, isso eu não dou conta, vai ser ruim.

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A série Atypical (Netflix) é toda uma gracinha. É a história de um adolescente com grau leve de autismo que quer arrumar uma namorada. Tem uma cena que o pai dele vai para o grupo de apoio. Ele todo fofo, interessado, falando que está feliz do filho dele estar bem, e é corrigido o tempo todo: “não dizemos melhorar, porque é uma condição física irreversível”, “ah, você quer dizer que as estratégias comportamentais dele estão eficientes”. Muito internet, muito grupos de bandeiras-legais-que-agem-de-maneira-nada-legal que vemos por aí. É perder o conteúdo em nome da forma. Não sejam essas pessoas.

 

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Aceitei a recomendação de uma vitamina C turbinada, para cansaço. Na bula diz: “para gerar energia, as células do organismo realizam várias reações químicas. Durante o processo (de geração de energia), as células liberam amônia, que é um produto tóxico para o organismo, incluindo o sistema nervoso central, desencadeando a fadiga. A arginina atua, transformando a amônia toxica em uréia que é eliminada pela urina, ajudando a combater a fadiga (cansaço) tanto física ou muscular quanto mental ou psíquica, causada pelo acúmulo de amônia no organismo”. Agora eu mijo cansaço.

A segunda fileira

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Vi um documentário longo e interessante sobre a escritora Fran Lebowitz, e nele ela diz que quase todos seus amigos, ícones dos seus campos artísticos, morreram de AIDS, porque eram gays e transavam muito, e que a morte deles fez com que a segunda e a terceira fileira, pessoas que não tinham tanto talento assim, acabassem se tornando os expoentes das suas áreas. Estou no fim do Handmaid´s Tale, da qual escrevi um texto quando terminei o livro. Eu diria que a principal diferença entre a protagonista da versão filmada está na força. A da série tenta fugir, enfrenta olhares, se dá ao luxo de ser espirituosa nas suas colocações. No livro, ela chega a dizer: me envergonho de contar a história assim, de ser tão passiva. E  a autora, numa entrevista, justifica: os movimentos autoritários matam os manifestantes. Ou seja, os mais indignados e combativos, os melhores de nós, morrem primeiro. Se não morrem fisicamente, são calados, demitidos, deportados, silenciados. Será que estamos condenados, como sociedade, a ser encabeçados – quando muito – sempre pela segunda fileira?

Curtas de gostos peculiares

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Existem muitas características a serem consideradas numa calça jeans: o cavalo estar na posição correta, nem pra cima e indecente e nem pra baixo calça caindo; não gosto das cinturas que nunca mais subiram e o fiofó vive aparecendo e as costas ficam geladas; qual o índice de gordura corporal necessário para não ficar com o bacon pra cima com essas malditas cinturas baixas? Mais ou menos aquele que a mulher deixa de menstruar; detesto que o botão acima do zíper seja dourado; brilhos e apliques, proibidos. Ou seja:

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Claro que comprar calça jeans é sempre uma tortura, experimento dezenas delas, odeio todas, volto depois, me conformo com a menos pior e costumo andar com as calças sempre meio caindo, porque prefiro assim do que muito apertada. Ah, mencionei que não gosto delas afunilarem embaixo?

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Doce pra mim sempre foi chocolate e sofria se passava mais de alguns dias sem. Aí peguei o hábito de comprar coisas frescas da padaria, experimentando cada dia um doce diferente e agora me dá nojinho de chocolate, sei lá.

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Fiz, meio sem querer, uma quantidade absurda de manteiga com coentro. No fim acabou sendo bom, porque coloco na sopa como se fosse óleo e ela fica com um gostinho de coentro mesmo sem ter coentro. Sim, manteiga de coentro, sem querer.

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Decidi que gosto de séries inglesas e nunca mais recomendar a ninguém. Falei muito bem de uma de matemática pra amiga depois dizer que achou um porre. É que elas são um porre na medida certa: gosto de assistir algo enquanto escrevo. Prefiro que não seja totalmente ficção e que tenha muitas horas, uma continuidade. E se for interessante demais, atrapalha.

Encontrar a sua Drag

Em primeiro lugar: Ru Paul´s Drag Race é o máximo. Netflix.

Antes eu pensava que o objetivo de toda drag era ser uma grande diva. De certa forma é, mas não dá forma que eu imaginava. Não é escolher Cher ou Beyonce ou qualquer outra e querer ser igual a ela. Para algumas é realmente ficar o mais parecida o possível com uma modelo, com as impressionantes drags deste (meio desatualizado) vídeo – a número 1 é linda num nível de dar ódio. Mas existem físicos de todos os tipos por detrás das drags, assim como personalidades e gostos. Nem todas ficariam bem tentando enganar que nasceram mulheres e o que vejo nas Drags é um profundo conhecimento de si mesmas. Têm as que amam glamour da Hollywood dos anos 50, têm as que gostam de algo meio creepy, as engraçadas, as nerds, as fashionistas… E a graça do programa é que, mesmo não se montando, a gente se identifica tanto com elas. Eu vejo essa busca da “minha drag” muito clara dançando, porque depois de algum tempo a gente percebe que não basta ver um vídeo e escolher a sua bailaora preferida, que há uma maneira própria de cada um se mover e o que é preciso é achar a maneira mais bela de fazer o que você já faz – e ficar pelo menos aceitável no que você não faz. E mais pra baixo do dançando, vejo isso como mulher, quando procuro a maneira de ser mais bonita com o físico que tenho, com o que desejo que os outros vejam em mim, com a minha vida e quem eu sou. Pras drags é uma jornada descobrir as suas divas, como dar tridimensionalidade na hora de se maquiar, como andar de salto, que cabelo fica melhor… e pra nós também.  E como pessoa, me pergunto: o que eu tenho, o que me torna única? No meio dessa mistura de experiências, temperamento, objetivos, visão de mundo, defeitos, qual sabor prevalece, para onde caminhar, para que lado fica mais memorávellegendário?

Abaixo a minha drag preferida: a poderosa e hilária Bianca del Rio.

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Curtas de Kant (but tried)

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Aquele momento que você tem vontade de ler um dos seus livros preferidos e se toca de que não repôs a última vez que presenteou alguém com o seu exemplar.

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E até hoje nunca valeu totalmente a pena. Uma pessoa não se mostrou merecedora a longo prazo, outra comentou vagamente que deu uma olhada…

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A arte cavalheiresca do arqueiro Zen, antes que alguém me pergunte. Amo tanto esse livro que quando o ouvi como leitura preferida de uma Fulana que não o merece eu…

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Vi Alicia Florrick levar uma baita rasteira lá pelo final de The Good Wife e tive um insight fortíssimo sobre minha falecida carreira acadêmica. Não é que meu ex-orientador não tenha entendido minhas prioridades e sem querer me chutou para sempre, eu é que nunca fiz sentido.

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Entender isso me deu vergoinha do tanto que já reclamei desse assunto. Aí li um outro reclamando por aí da atenção que não recebe pelo talento que não tem e me deu vergoinhona. Vamos combinar: a grosso modo, nós estamos onde merecemos. Somos muito mais do tamanho dos nossos talentos, escolhas e esforços do que gostamos de admitir.

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Não parece verdade, mas existe um estágio tal de segurança que nem os elogios são necessários, porque as coisas são como são. Tenho lampejos e desejo fortemente que eles fiquem e se instalem.

Duas razões para viver

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Não é um post-reflexão pós desejo suicida. Eu estava vendo o episódio do Abstract (Netflix), um dos poucos cujo tema não me era nada interessante: o trabalho de um designer de carros. Meu nível de desinteresse por carros é tamanho que eu pretendo na vida jamais ter um, não faço a menor ideia de quanto custam e se um dia ganhar num sorteio venderei. Também não foi pela história de superação do sujeito, embora tenha sido interessante ver os altos e baixos dele bancando sua escolha com a família, na empresa que quase faliu, as críticas a um modelo que ele criou e foi um fracasso. O Abstract costuma falar da biografia do profissional e acompanhar um projeto importante na qual ele está trabalhando e nesse programa mostrou a criação de um novo modelo de carro. Eu fiz uma dessas associações loucas de achar que a vida era mais ou menos quanto aquele futuro carro. Meses de reuniões, montaram protótipos de plástico, alteraram milímetros, montaram de novo, fizeram o esqueleto, criticaram, pensaram em estofamento, se preocuparam que a textura do botão que ficava no volante se parecesse com um focinho de gato. Tudo pra apresentar pra um tal fulano que realmente decidia. Investiram tempo e trabalho de verdade naquilo. Eu comecei a pensar o quanto somos todos como aquele protótipo, com o trabalho de tanta gente envolvida desde antes mesmo do nosso nascimento, a luta do bebê humano – o mais frágil de todos os bebês – tem para aprender, se desenvolver, virar uma personalidade, e o quanto é duro até uma personalidade se fortalecer e ser o que é. Muitos dizem que a vida começa aos quarenta porque passamos muito tempo apenas polindo, descobrindo o que realmente somos ou o que nos serve, e o que fazer com as nossas possibilidades tão limitadas. Então me parece que morrer cedo, seja de morte matada ou morrida, é pegar aquele protótipo com o trabalho de não sei quantos profissionais e simplesmente jogar no lixo antes da hora.

A outra razão, tão importante quanto, ainda que menos extensa pra explicar, é a minha descrença na vingança e certeza absoluta de que o rio traz o cadáver. Causa e consequência. O carro em alta velocidade em direção ao muro, a persistência na direção errada, o orgulho sem limites – a gente sabe onde tudo isso vai parar. O dia mal começou, estou com a enxada na mão e sei onde as coisas vão parar. Eu quero estar aqui pra ver, quero estar na hora da minha colheita e na dos outros. Sim, outra grande razão de viver é uma espécie de schadenfreude.

Curtas de objection your honor

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Digitadores ficam com LER nos pulsos e o elenco de The Good Wife deve desenvolver lesões relativas a levantar abruptamente dizendo: objection, your honor!

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Primeiro contato e eu não foi polida – não fui grossa, mas não foi bacana. A resposta foi no mesmo tom. Já tinha decidido nunca mais comentar nada, deixar de ler, aí recebo uma mensagem privada gentil, fazendo referência ao meu comentário e me convidando a ler um outro texto. Fiquei muito sem graça, pedi desculpas, disse que havia me arrependido do meu primeiro comentário, agradeci. Aí lembrei porque tenho a política de ser gentil sempre que possível:

  1. A gentileza desarma.
  2. A gentileza nos faz passar menos vergonha.

 

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As pessoas. Elas têm o péssimo hábito de terem defeitos. Alguns nos são insuportáveis e deixamos de falar com elas. Quando não são, a melhor política é escapar, nunca tocar no assunto e fingir que não viu. Por incrível que pareça, o caminho do meio – analisar, jogar na cara, exigir justificativas e pedidos de desculpas – é muito pior.

Alicia Florrick

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Alicia, do The Good Wife, é uma protagonista atípica. De cara, quando comecei a ver a série, me encantei com Kalinda, a indiana sem coração, que nunca sorri, desejada e indiferente ao afeto de homens e mulheres, competente investigadora da Lockhart & Gardner. Isso sem falar no estilo, de botas de cano longo, saias curtas e jaquetas ajustadas. Depois, me encantei com a poderosa Diane Lockhart, chiquérrima, idealista mas também muito prática, difícil de se dobrar. No time masculino, muitos gritinhos apaixonados por Will Gardner e fico xingando como quem assiste uma partida de futebol cada vez que Peter Florrick aparece. Amo Eli Gold, o esperto chefe de campanha de Peter. E tem a Alicia. O apelo dessa personagem é: Alicia é a humanidade no meio do desumano. Ela pensa no marido que a chifrou, nos filhos, no que é certo, escolhe os casos pelos critérios mais justos. Por ter sido dona de casa, ela traz consigo para a profissão o olhar pelas pessoas, a ingenuidade de quem quer fazer o que é certo. É o sopro de vida necessário em meio à maldade do mundo, aquela pessoa neutra que torna o ambiente competitivo um pouco mais respirável. Mas ser assim dói muito. Todos queremos ter uma Alicia Florrick por perto, só não queremos ser.

Humanismo, Nise e Claire

Eu antes não entendia quando se usava o adjetivo humanismo – “Fulano é um humanista”. E não somos todos?, eu pensava. Se não pela religião que nos manda amar uns aos outros, por termos absorvido os ideais de igualdade entre os homens da Revolução Francesa e que são lei. Nise da Silveira, a psicóloga, era uma humanista. Já falei que ando viciada em House of Cards e que acho Claire Underwood uma mulher linda. Aquele cabelo curto num rosto tão quadrado dá uma mistura estranhamente bonita, e ela sempre está impecável em vestidos que ressaltam suas formas; ao mesmo tempo, suas roupas lembram armaduras e parecem falar muito sobre o rigor da própria personagem. Se me permitem avançar um pouco nos spoilers, ela é um excelente contraponto ao marido por ter seus escrúpulos. Enquanto Frank vê as pessoas mais próximas se ferrarem e diz que “batalhas são assim”, “o arrependimento não faz parte”, Claire oscila. Numa mini trama ela pensa em fazer tratamento engravidar. No meio do caminho, ela faz uma maldade com uma ex-funcionária grávida para ganhar uma disputada e logo depois cancela os exames do tratamento. Nenhuma palavra é dita, mas dá pra perceber que por detrás do ato há uma conscientização: não somos boas pessoas. Mas essa dor não é forte o suficiente para deter o egoísmo e a vontade de subir cada vez mais. Volto à Nise. Não vi o filme, mas conheço a história dela. Numa época que paciente psiquiátrico era pra ficar trancado, ela aplicou a psicologia junguiana e viu através dos trabalhos deles os arquétipos previstos na teoria. Loucos não são fáceis, ainda mais naquela época. Detrás de agressividade, sujeira, rótulo, falta de sentido, ela conseguiu ver pessoas. Vivemos uma época que as conquistas sobre direitos fundamentais parecem ter regredido de maneira assustadora. Eu acredito que, na verdade, ainda bebemos muito do passado escravocrata. Depois da frase “não é que eu tenha preconceito, é que” tem se dito as piores sentenças, justificativas de exclusão e violências sob a desculpa de… olha, às vezes sem a menor desculpa mesmo. Os argumentos estão todos aí; o fato de outro ser também de carne e osso e um ser que ama e tem direito à felicidade deveria ser argumento suficiente. De conceito óbvio, o ser humanista, pra mim, acabou se revestindo de caráter de necessidade e pedra fundamental.

Irrelevâncias de House of Cards

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Desde que o Fora Temer assumiu, ouço falar de House of Cards e não tenho parado de assistir desde o fim de semana. Spoiler não é spoiler se a gente fala de uma série antiga, mas mesmo assim não terá nenhum deles aqui. Quero falar de algumas coisas que não tem nada a ver com a trama central e que me chamam atenção:

  • A facilidade como se descarta celular. Não apenas os pré-pagos que servem de números secretos, mas também em ataques de raiva, depressão, brigas, fugas dissociativas.
  • Por falar em telefonemas, ninguém se importa quando eles acontecem de madrugada. Ou de ter que trabalhar durante a madrugada.
  • É todo mundo tão workaholic, mesmo fora da política, que quando alguém pede ajuda pra um policial, investigador ou coisa do gênero (quem nunca?) e ele diz: “Não era pra fazer isso, pal, é muito arriscado, só fiz porque a gente é bróder”, eu me pergunto bróder da onde se esse povo só trabalha.
  • Aparentemente, nas imediações do poder, os homens ficam doidos pra ter algo sério quando a mulher dorme com eles e diz: “nada sério, ok? Não me acostumo com essa ideia de misturar sexo e amor”.
  • Sempre me chama atenção, e me disseram que lá existe mesmo essa cultura, a facilidade com que as pessoas dormem na casa umas das outras. Rola até deixar a chave do apartamento com o vivente e ir trabalhar. Aqui, mal se faz isso com a mãe.
  • Por último, antes que eu fale demais: não é irônico que o casal mais amoroso e liberal do série seja justamente os Underwood?

Curtas de silly face

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Uma coisa que me aborrece bastante em usar aparelho é a sensação de que o dente nunca está completamente limpo. E levando em conta que por mais que se escove é possível que ressurjam sujeiras de duas refeições atrás, não é só impressão.

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Como sou atrasada com séries, só descobri agora a Claire Underwood. Antigamente, correria no salão pra cortar o cabelo igual. Hoje já sei que não adianta, eu não ficaria maravilhosa daquele jeito. Outra coisa que eu aprendi é que cabelo curto em loira é outra história.

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Eu pretendia votar Nulo, aí cheguei na frente da cabine e só tinha botão de Branco. Eu jurava que antes tinha um botão Nulo. Ou não tinha?

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Tem aquele cachorro que lembra a Dúnia. A gente passava lá e ele latia. Aí adotaram outro, de uma raça que lembra boxer, mas ele é pequeno. Agora o filhote fica latindo pra gente, enquanto o pseudo-Dúnia olha tudo com cara de egípcia. É muito engraçado.