Nostradamus para formigas

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Pense numa pessoa observando um caminho de formigas. Ela vê um obstáculo alguns centímetros depois das formigas que estão vindo, quem sabe logo depois de uma curva. A pessoa sabe a maneira de proceder das formigas, para que direção elas estão indo, o que tem adiante. Se a pessoa fosse capaz de falar com a formiga, ela lhe diria: daqui há algum tempo, você vai encontrar um obstáculo. Para a formiga, isso pareceria um futuro, mas para a pessoa é como se o fato já estivesse acontecendo, porque tudo é simultâneo na visão dela: formigas, caminho, obstáculo. Por isso que, pelo menos em teoria, prever o futuro me parece possível. Não só pela questão de ver as coisas num ângulo mais amplo, mas também pela previsibilidade humana. Se estou nos chamando de formigas? Estou sim. É raro que alguém cujos antecedentes você conheça bem seja capaz de um ato surpreendente. Mais ainda se pensarmos num surpreendente para melhor – quantas pessoas conseguem agir para além dos seus condicionamentos e agir de forma ousada, apostando em algo que elas não fazem a menor ideia do que vai dar? Gostamos de pensar que somos assim, livres para agir de uma maneira imprevisível a qualquer momento, mas basta pensar numa situação bem concreta com alguém que você conhece e a resposta vem fácil: se Fulano achasse uma carteira na rua, se Beltrana ficasse trancada a sós com seu ídolo, etc. Seria como esperar que a formiga de repente saísse da fila, abandonasse as companheiras, se perdesse espontaneamente; formigas vão para frente ou para trás, elas não saem do caminho (acho que formado por cheiro) por onde sempre andam. Humanos, assim como as formigas, agem dentro de padrões bem limitados. Nas poucas vezes que humanos surpreendem – agora sim serei pessimista -, eles o fazem quase sempre na escolha mais pobre.

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O temível ciclo de Saturno

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Não se preocupe que não é um post de astrologia. Apenas para contextualizar o assunto: eu vi uma historinha em um vídeo de astrologia que falava do temível ciclo de Saturno. Quando Saturno, no céu, passa por cima de algum lugar do mapa astral pessoal da pessoa, poderiam acontecer coisas ruins, por isso ciclo de Saturno e por isso associar com algo ruim. Mas o que este e outros astrólogos experientes dizem é que o planeta no céu não impõem nada, e as coisas ruins que aconteceriam nos ciclos de Saturno seriam apenas a consequência de algo ruim que foi plantado pela própria pessoa. Isso que eu adoro na astrologia, muito mais do que acreditar ou não que o céu tenha a ver com a nossa vida: as metáforas, as lições subjacentes, as ligações com o inconsciente coletivo. O astrólogo dizia assim: imagine uma pessoa bem distraída, com fones de ouvido, indo alegremente em direção a um penhasco. Por mais que se tente alertar, gritar ou apontar, ela não dá ouvidos, porque está no caminho dela muito convicta. Saturno é uma pessoa que chegar correndo e, pouco antes da distraída cair, Saturno dá um empurrão pro lado e joga a pessoa no chão. Como ela não sabe que ia cair no penhasco, fica reclamando: me empurrou, que grosso, caí no chão, machuquei meu braço, buá. E pensando na vida, nas pessoas distraídas com penhascos e aqueles que assumem a responsabilidade para evitar o pior, os que se comprometem, os mensageiros, etc… não é bem assim?

Castelo de areia

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Tive todo tipo de siricutico durante as últimas semanas por ter que dançar um solo. Nenhum problema com a coreografia ou a técnica, tudo psicológico. Minha síndrome de One Frog Evening, fazer maravilhosamente fácil sozinha e travar porque tem gente olhando, me sentir a mais feia e incompetente. Na busca de uma solução, ou quem sabe de uma justificativa, estudei loucamente o Saturno do meu mapa astral, que é especialmente forte. Pra quem não sabe nada sobre o assunto, explico: Saturno é conhecido como O Grande Maléfico, onde quer que ele apareça no mapa astral indica áreas onde a pessoa sente dificuldade. Algumas versões do meu aspecto dizem: esta pessoa nunca poderá pisar num palco. Ela pode ser diretora, cuidar da luz, dos figurinos, estar sempre no meio, mas não no palco, porque ela é incapaz de ser o centro das atenções. Já em outros lugares dizem que há alguns atores com esse aspecto, porque a pessoa vai parar no palco justamente pra ver se resolve esse problema. Nunca pensei em mim nesses termos, de alguém que peita os seus medos. No meio das pesquisas, li uma historinha para explicar o aspecto que me tocou muito:

As crianças dos planetas estão na praia. Decidem fazer castelinhos na areia. As crianças Sol, Marte e Júpiter disparam na frente. A criança Saturno fica olhando, morrendo de vontade de fazer castelinhos também. Ela se pergunta: será que eu consigo? E se eu pegar um manual sobre como construir castelos? E se eu não conseguir, se eu treinar antes, e se… Nesse meio tempo a criança de Marte já construiu o dela correndo, a de Júpiter fez um castelo enorme. Quando finalmente a criança Saturno decide que ela quer sim fazer o seu castelo, as outras já correram pra água.

Dia desses voltava de um ensaio e não sei se é a propensão à ficar melancólico quando se está sentado ao lado na janela com a testa apoiada no vidro, mas pensei em castelos de areia e chorei por debaixo dos óculos. O que eu precisava fazer, já que não consigo evitar o movimento de parar, me cobrar, achar que não sou capaz e fazer com medo, é sentar sozinha e fazer meu castelinho. Que bom para as outras crianças, que já fizeram e estão na água. O meu sai devagar, miúdo, modesto, mas é o meu, é o que eu posso. Amar o grandioso é fácil, difícil é fazer do pequenininho o seu lar.

Quase só animal

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Passei por uma fase lendo bastante sobre Gurdjieff e parei por não encontrei mais livros para ler. Mesmo conhecendo várias teorias místicas, a dele foi uma das que mais me impressionaram. Há uma metáfora que ele usa – que não é nenhuma novidade – e diz que uma pessoa é como uma carroça puxada por um animal. O animal é o corpo, a carroça são os sentimentos e o condutor é a mente. Ele diz que os homens se acham muito racionais, como se a mente fosse um fato dado. Pelo contrário: a humanidade como um todo está dormindo e precisa acordar; a mente é uma conquista e não um fato. Aí ele faz uma estatística, que não me lembro com exatidão, que diz que nos nossos atos somos 80% corpo, 19% emoção e, quando tem mente, apenas 1%. Que pensamos que a nossa mente inicia a ação, sendo que na verdade temos um instinto que nos domina de tal forma que a emoção e a mente vão atrás para confirmar. Quase tudo o que pensamos decidir é, segundo esse raciocínio, mera racionalização dos nossos instintos. Não digo que Gurdjief me consideraria uma pessoa desperta, mas entender esse mecanismo já me ajudou.

Uma historinha oriental

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Gosto muito de histórias antigas, parábolas orientais, não sei nem dizer onde eu lia tantas. Nelas, um homem anda distraído e fazia um gesto qualquer – dá esmola, ajuda a velhinha a atravessar a rua, deixa o faminto ficar com metade do seu sanduíche – sem saber que exatamente naquele momento estava passando por um teste. O mendigo era na verdade enviado de Deus. Só que para as coisas não serem tão simples, o sujeito da história não é realmente bom; a ajuda que ele dá é feita mais por convenção e preguiça, o sujeito deu sorte deu sorte e no fundo não merecia a dádiva – ou seja, o teste divino tinha mais de uma camada, e o anjo era apenas aparentemente ingênuo ao distribuir suas bençãos. Só pra não deixar tudo no ar, cito uma dessas histórias: o sujeito deu uma esmola pra um mendigo, que era na verdade o Arcanjo Miguel, que em agradecimento eu a ele o direito de passar 5 min com o Livro do Destino. O livro era como um grande catálogo telefônico, com o nome de todas as pessoas da terra e tudo o que lhes aconteceu e acontecerá. Do lado, lápis e borracha. Era pro fulano procurar o seu próprio nome e reescrever sua vida como quisesse. Só que ao invés de fazer isso, ele procura os desafetos e se dedica a estragar as vidas deles. Depois de ferrar com todo mundo, quando finalmente vê o próprio nome, fulano descobre que coisas horríveis o aguardavam e não consegue apagar porque o tempo acaba. Acho o detalhe dele chegar a ler um requinte de crueldade.

Não vou falar o óbvio sobre a lição de moral. O que me chama atenção é outra coisa, não sei nem se consigo explicar. Eu vejo que tendemos a achar que a vida vai funcionar como um espetáculo: tem uma data marcada lá no fundo, o grande dia especial e, até lá, tudo vai ser de brincadeirinha, nada sério. Vamos repetir mil vezes, cometer todos os erros que devem ser cometidos, pra chegar no momento realmente importante e arrasar. Só que as coisas quase nunca funcionam assim, nem existe O Dia. A vida nos pega de surpresa, no meio do caminho, tal como o anjo do teste. A namorada que era pra ser um casinho engravida, o curso que se faz por fazer vira ganha pão, os móveis das Casas Bahia que eram só pra quebrar um galho ficam vinte anos na sala. “Essa mulher/ ocupação/ mesa brega que está aí não me representa, o que combina comigo é algo melhor, eu caí numa armadilha!”. Lamento, não caiu não.

Entrincheirados

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Longe de mim querer tirar sarro dos japoneses, não é nada disso. Está registrado, é fato histórico, que muitos anos depois de terminada a guerra ainda existiam alguns soldados japoneses que continuavam nos seus postos. Isolados, sem saber que o Japão já havia sido derrotado e se rendido, eles se mantinham firmes nas suas posições. Sem saber, realizavam o papel patético de continuar lutando com um inimigo que havia se retirado. “Alá, um soldado japonês”, eu tenho vontade de dizer em certas ocasiões.

É como fazer uma porta

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Atenção você que pensa em comprar uma casa, principalmente um sobrado: aquelas portas da frente que fazem agora e ficam no ângulo e não simplesmente na parede, são péssimas. Parece charmoso porque você ainda não mora lá e a construção está vazia, mas quando você se muda, aquela porta permite que as pessoas da rua vejam a casa inteira por dentro, até os fundos. Tive alguns problemas com isso e tentava arrumar de todo jeito: mudava a disposição dos móveis, colocava alguma coisa ao lado da porta, quase comprei um biombo. Nada adiantava porque a visão que ela permite varia conforme a posição da pessoa do lado de fora, ou seja, o “obstáculo” tamparia apenas um ângulo e poucos passos para o lado e daria para ver tudo de novo. Em pouco tempo passei a querer muito trocar a posição da porta e colocar na parede e não mais no ângulo dela.

Foram anos, sabe aquele problema que se torna grande porque você nunca consegue solucionar? Foram incontáveis pedreiros. Alguns nem vinham. Dos poucos que vinham, eles nem ao menos se dignavam a passar orçamento. Ninguém queria fazer e pronto. É sabido que pedreiros preferem serviços grandes, mas não tinha mais o que oferecer, o problema era apenas a porta. Até que um dia um vizinho estava fazendo uma reforma aqui perto e tive aquela intuição de falar com o pedreiro. Ele enrolou, disse que não podia na hora, que só depois, que não sabia se dava, me fez mudar a minha ideia original e quase lhe ofereci toalhas e rosas brancas no camarim. Mas ele topou e fez um excelente serviço. Foi um feriadão inteiro de luta com madeira e cimento, eu vi. Aquele pedreiro finalmente me explicou o porquê da dificuldade de arranjar alguém para fazer a tal da porta:

É o típico serviço que não aparece. Dá muito trabalho, é difícil, mas aí o patrão olha pro serviço pronto e só vê uma porta. Ele não tem noção da dificuldade e acha que a gente fez pouca coisa.

Desde então tenho vontade de usar a expressão “é igual fazer uma porta”.

A oitava superior

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Lembro que achava a expressão muito chique antes de saber o que era e, quando descobri, fiquei temporariamente decepcionada por sua simplicidade. É assim: as notas musicais são sete, né? A oitava superior é a nota na outra escala, igual a anterior só que pra cima, mais aguda. (Se for oitava inferior, é mais grave) Só que com essa expressão dá pra pirar em coisas muito além da música. Como pensar em espirais, os espirais dos fatos, da história, da evolução. Quem sabe a cobra não morda realmente o rabo, que a gente tenha essa sensação ao olhar a espiral de cima e só ver o círculo. Com oitavas superiores, círculos e espirais quero falar que a gente percebe que a vida segue padrões, que dá a impressão de que as coisas acontecem de novo e de novo, mas como aconteceu depois e em outra época, é de novo mas também é diferente. É uma oitava superior. Pra falar a verdade, estou viajando aqui para não falar de algo concreto mas que só diz respeito a mim. Hoje, numa conversa, citei um exemplo banal e quando me dei conta estava chateada. Sem as pessoas saberem eu contei uma insegurança muito íntima e no âmago dela estava uma queixa repetitiva minha, algo que permeia o meu trabalho, a forma como me vejo, os meus relacionamentos, tudo. Aí lembrei que li um texto sobre a mesma questão há poucos dias e tinha ficado pensativa, e há semanas tive isso esfregado na cara e fiquei arrasada, enfim, sempre a mesma história. Ter trocentos insights me deixa aflita em perceber o quão grande é o problema e me pergunto quanto mais eu ainda preciso ter pra esgotar essa energia. Eu me sinto de volta sempre ao mesmo ponto, mas espero, quero muito acreditar, rezo, estou me empenhando para que seja uma oitava superior.

Essa casa brasileira

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Quando eu e o ex namorávamos, nós vivíamos praticamente nos extremos da cidade: ele morava e trabalhava no Leste e eu vivia no Oeste e trabalhava no Norte. Quando decidimos buscar uma casa, o primeiro impulso foi procurar no Leste porque era mais perto do trabalho dele. Eu tive resistência a isso e questionei se ele pretendia trabalhar naquela empresa a vida inteira. Como a resposta foi negativa – e ele acabou saindo de lá poucos anos depois de casados -, disse que não fazia sentido centrar nossas buscas apenas no Leste. Virou quase uma competição, cada um torcendo que a casa ideal para os nossos sonhos e orçamento ficasse na sua região. Os corretores ficavam loucos, porque quando nos perguntavam que bairros estávamos dispostos a ver, eles contemplavam três pontos cardeais e os do meio. Mas na verdade enchemos pouco o saco dos outros porque vimos quase tudo sozinhos. Na sexta-feira já marcávamos as casas em potencial que veríamos naquele fim de semana e, além dessas, seguíamos qualquer placa que víssemos no caminho. Foram meses fazendo isso, vendo dezenas de casas por dia em todos os cantos que se possa imaginar, um daqueles feitos que quando a gente olha pra trás se pergunta como teve paciência. Vimos muita coisa, muitos absurdos. Lembro de um sobrado pequeno, com todos os cômodos apertados, cujo grande atrativo era a banheira da suíte, que cabia umas sete pessoas sentadas. É de se perguntar pra que tipo de consumidor aquela planta foi pensada. Vi casas que para resolver o desperdício de espaço com corredores o tinham simplesmente omitido: as portas dos quartos ficavam coladas na lateral, formando um triângulo cuja base era a escada. Ou seja, se você saísse do quarto um pouco sonolento ou distraído, poderia morrer.

O que realmente me marcou nos absurdos que vimos naquela época foi o seguinte: fomos parar naquele conjunto de sobrados por uma das muitas placas que seguimos no meio da rua. Quem estava lá para vender foi o próprio sujeito que construiu os sobrados. Eram uns seis sobrados de dois tamanhos diferentes: o maior tinha cerca de 150m² e estava mais de vinte mil acima do orçamento (no mercado imobiliário se fala dez, vinte e trinta mil com um desapego que é de deixar deprimido) e o outro tinha 110m² e estava menos acima do orçamento. Ele queria, claro, que a gente se propusesse a vender as mães e ficar com o maior, por isso nos fez visita-lo primeiro, mesmo a gente dizendo que não poderia ficar. Pois bem, fomos e ficamos babando. Quartos, suítes, banheiros, sala, cozinha, tudo muito bem distribuído, iluminado, espaços bem aproveitados, um projeto muito bom. Era de fechar o negócio ali se não estivesse realmente acima do orçamento. Fomos animados ver o de metragem menor. Nos perguntávamos como seria, se de repente só tivesse tirado um dos três quartos, ainda assim seria bonito, a gente não precisava mesmo de uma casa tão grande. Quando entramos… olha, não tenho nem palavras, aquilo foi inacreditável. O sujeito pegou a planta da casa de 150m² e passou a régua na lateral da planta e com isso cortou os 40m² de diferença. A casa menor era idêntica à anterior, só que com os cômodos de todo lado direito mutilado. Ficou horrível, burro, não quisemos ver mais nada.

Evito ao máximo dar pitacos políticos aqui, mas essa reforma da previdência me parece igualzinha. Tem muita gente boa escrevendo e sendo entrevistada sobre o assunto, então não vou ousar tentar explicar o que não entendo. O que sei é que todos temos ciência de que é preciso mudar, que não dá pra seguir no atual modelo. Mas com tantas outras possibilidades e torneiras abertas, precisa ser uma matemática tão óbvia e burra que pune justamente quem menos pode se defender?

Vôlei e o score de amor

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Eu odeio vôlei. Poderia escrever um longo post reclamando do vôlei. Odeio tanto vôlei que nunca assisto, que se dane Bernardinho, não quero nem saber, nunca mais fiz um misero saque depois que parei de ser obrigada e de lá pra cá sei que as regras mudaram – na minha época só o time que sacava pontuava, tinha “vantagem” – e nunca aprendi as novas, faço questão de não aprender. Um dos meus traumas com vôlei foi causado pela professora Elisa, minha professora de educação física durante todo segundo grau. A prova de vôlei dela, uma coisa tão absurda que deveria dar direito a denúncia, era assim: cada aluno começava a partida com a nota máxima. Quando a bola caía no chão, alguém era descontado. Geralmente mais de uma pessoa: se caía entre dois jogadores ambos perdiam nota, ou se uma pessoa não defendia bem a cortada, o ponto era descontado dela e de quem cortou. Imaginem que partida emocionante, todo mundo com medo de pegar na bola.

Mas, por incrível que pareça, não foi propriamente o vôlei que me fez lembrar disso, e sim relacionamentos. Não sei se é característico de relacionamentos abusivos, mas me toquei que num par de histórias que conheço e vivi a dinâmica era a mesma dessa prova: a pessoa “amada” começava com pontuação máxima, com os maiores elogios e as características sonhadas. À medida que o relacionamento avança, ela se torna cada dia mais decepcionante, nada daquilo que parecia, etc. O tal anjo caído se esforça pra continuar tão desejável como antes, passa a pisar em ovos, tenta esclarecer, pede desculpas… Só que a pessoa não consegue, os seus esforços são inúteis porque é impossível voltar para a nota máxima. Chame do que quiser, o que sei é que isso não é amor. É um jogo onde só se pode perder.

Me indica

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Tenho uma amiga que às vezes, em conversas sem relação com nada, me diz: me indica um livro. Ou: ah, você ainda não me indicou um livro. Já mandei videos, comentei tudo o que há sob o céu e mandei até uns textos do outro blog, que ela nunca comentou e nem sei se leu. É que de vez em quanto bate aquela culpa por não ler, ou a necessidade de parecer intelectual e eu sou aquela que “vive lendo”. Fico me perguntando qual a melhor metáfora para explicar como é isso – um pintinho no ninho querendo que a mãe lhe traga minhoca, uma pessoa na rede pedindo pra mucamba lhe trazer um suco? O fato é que nunca consegui lhe indicar o tal livro e nem lhe explicar o motivo.

A porta

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Quando adolescente, eu bati na porta da sabedoria. Não consegui nada, ninguém abriu. Hoje já imagino que por detrás dela há uma grande sala, ou corredor, enfim, é uma daquelas casas antigas que o Igor se arrasta com uma lanterna na mão com passos lentos até chegar lá. Por isso, já não bato mais: esmurrarei com todas as minhas forças, até alguém aparecer.

Cemitério indígena

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Se eu não me engano, meu amigo Leilson, que adora filmes de terror, uma vez comentou de onde surgiu essa história de construção feita em cima de um cemitério indígena. Não surgiu do nada, é o enredo de um filme específico. E essas brincadeira de cemitério indígena pegou, virou um daqueles clichês que todo mundo entende, até quem nunca vê filmes de terror (meu caso). Vi um episódio de South Park em que tudo dava errado, apareciam espíritos e tal, e quando investigaram tinha um comercio qualquer construído em cima de um cemitério indígena. “Então vocês simplesmente encontraram um cemitério indígena e construíram em cima dele?” “Nãããão, claro que não! Antes de construir a gente mexeu em todos os ossos, pisou em cima e fez xixi neles, só depois a gente construiu…”

A lógica por detrás do cemitério indígena é simples: que felicidade é possível quando construída em cima de um extremo desrespeito ao que é importante para os outros? Uma vez ouvi uma história mística, que era mais ou menos assim: a Terra ia sofrer uma provação e o que havia aqui – Atlântida, Civilização Maia ou sei lá o quê – tinha que ir embora. Aí teve um que não foi. Não quero, não vou, a mim isso não atinge. Ah, tudo bem. Diz que tudo foi destruído, só a casinha do sujeito ficou de pé. Eu fico imaginando a pessoa acordar de manhã e na sua janela se levantam rios de lava, furacões, gritos de desespero e só na sua casa tudo fica de pé. Pelo que me lembro da história, o sujeito acabou mudando de ideia e foi embora também.

Estou no fim do livro do Jango, lendo o que aconteceu logo em seguida à deposição dele, ou seja, o Golpe de 64. Foi de uma caça às bruxas e violência que nenhum dos envolvidos previa ou até mesmo gostaria, nem os articuladores. Mas apesar de tudo isso, apesar do desmonte, cassação de direitos e as sabidas torturas, pra quem defende o golpe militar nada disso importa: “Éramos felizes e prósperos, a estabilidade tem seu preço”. Ou seja, tem quem não se incomode em dormir sobre ossos desde que seu colchão seja fofinho.

Buraco

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“Ela só estava interessada no meu dinheiro“, e a palavra dinheiro foi dita com tanta dor que eu entendi: o ex-marido, aquele interesseiro, dos homens que buzinavam apenas porque ela estava num carrão, as mulheres que se avaliam através de sobrenomes e roupas. Fiquei com medo de eu mesma falar alguma coisa e soar dinheirista. Foi a primeira vez eu percebi o buraco numa outra pessoa. Só que não são buracos onde caímos, aqueles no chão – eles estão mais  para buracos negros, com o poder de sugar tudo à sua volta. O buraco não apenas atrai situações semelhantes, como também faz com que situações neutras ou que poderiam ser interpretadas de várias formas soem como mais do mesmo. A questão do dinheiro era atraída, batia, doía, confirmava. E nada poderia convencê-la do contrário.

Cultura

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Uma criança cercada dos mais variados brinquedos – é assim que eu entendo uma mente culta. Ao invés de ter apenas uma bola e uma boneca, melhor ainda é possuir todos os brinquedos possíveis, com diversas funções, cores, tipos, tamanhos. Para mim a cultura é uma diversão, é como estender a mão e poder pegar um brinquedo diferente para cada coisa, às vezes mais de um, ou fazer com eles as combinações mais inusitadas. Conversar com uma pessoa que não entende os referenciais é sempre triste, é como propor uma brincadeira e o outro não conhecer, não possuir a chave. Há os que gostam disso, porque isso lhes dá a oportunidade de explicar e serem pedantes. Para mim é apenas chato, apenas menos uma pessoa para brincar.  O bom é trocar e perceber quão infinitos os brinquedos são.

Cantareira

Li sobre o problema da Cantareira: ó, se chover o correspondente à dez metros, não quer dizer que o nível da água lá vai subir dez metros. Secou muito. Então, as primeiras águas que caírem vão pra terra que está seca, umidificar, molhar as plantas, serem sugadas… Depois que chover bastante, molhar bastante, a terra ficar saturada de água, aí sim vai começar a subir. De dez metros de repente só vai aparecer um, todo resto foi pra forrar a base.

 

Quando me dá uns piripaques, lembro da Cantareira. Porque tenho feito tudo tão direitinho, tenho dado para mim todo o colo e tempo, todas as mensagens positivas, proteínas, vitaminas e sais minerais, e ainda assim a sensação ao acordar raramente é boa. Levanto, faço minhas coisas, luto pra caramba pra ficar felizinha, e dia seguinte é a mesma coisa. Parece que todo esse esforço está indo pra lugar nenhum. Está, está, está, só não é visível ainda.