Trigão

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Tem aquelas teorias apocalípticas. Em algumas vertentes religiosas, já é coisa dada e institucionalizada. Pode ser arrebatamento, com as pessoas simplesmente sumindo, levadas por Deus ou por OVNIs. Ou pode ser que a desgraça se abata sobre a Terra, e por um mecanismo mágico de méritos, a cratera abre só do lado do justo e ele não cai, a comida falta só do outro lado da cidade, idem para a energia elétrica e o wi-fi. Porque – estávamos eu e uma amiga conversando – existem aqueles que falam dessas teorias com uma naturalidade que beira o desejo. Quando acontecer, dizem, vai ser separado o joio do trigo. Boa parte da humanidade vai se ferrar e não acontecerá com ele, porque é o próprio Trigão no meio do joio – pelo menos no seu próprio ponto de vista. Como não pensar nisso quando se fica em casa, puro e noveleiro, enquanto tantos estão pela noite,  pecando, sendo promíscuos, bêbados, ladrões e imorais? Mas, Trigão, eu não teria tanta certeza. Primeiro porque é bastante complicado não ser atingido de alguma forma quando muitas pessoas sofrem, o mundo não gira da mesma forma. Depois, porque um desejo tão grande de destruição também diz muito a seu respeito – e não é algo bonito.

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Acalme a sua mente

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Astrologia védica como o próprio nome diz é védica, vem de Vedas, os textos sagrados do hinduísmo. Ir da astrologia ocidental pra védica é como aqueles joguinhos que tem níveis de dificuldade – a ocidental é a baby e a védica é a super hard. Falo tudo isso sem saber, só de olhar a quantidade de gráficos e cálculos que aparecem nos vídeos. Eu vi um onde o astrólogo jurou que uma certa colocação no mapa do Al Gore dizia quando ele ia quebrar o braço. Védica, hinduísmo, taí uma crença que não tem a menor vergonha de ser encarnacionista e determinista. Sim, de acordo com eles já está tudo aí, a alma encarna sabendo tudo o que vai fazer e acontecer, ela só vem atuar. Diz que é a mesma coisa quando vemos o trailer de um filme e sabemos o que vai acontecer, sabemos quem é mocinho, bandido, como acaba, e mesmo assim pagamos ingresso e vamos até o cinema.

Então qual o sentido? Os astrólogos védicos seriam capazes de te dizer coisas tão precisas justamente para provar esse determinismo. Para mostrar que está tudo aí, e por isso está tudo bem. Que não tem como você ter se desviado porque o desvio não é possível. O grande amor – cito justo este exemplo porque estou sem saber o que falar pras amigas – vai chegar na idade e na época certa, não precisa se debater até lá e sair com todas as porcarias do Tinder. Se você crer profundamente nisso, esta crença vai acalmar a sua mente. Não sou eu que estou dizendo isso, foi o que eu vi num vídeo de astrofilosofia. O que aprendi na minha curta vida é que, quando começo a me impacientar por estar demorando demais, lembro que o bom é rápido e o ruim se arrasta – não tanto por algo intrínseco às situações e sim pela tendência a projetar no futuro a felicidade e desvalorizar o presente. Que cada época tem sua alegria e sua dor e, quando a situação muda, também muda de alegria e de dor – e nessa mudança, o futuro tão aguardado pode nos obrigar abrir mão de coisas que também eram muito legais. Nesse sentido, gostei muito do que diz a astrologia védica, embora não consiga colocar tanta fé no determinismo. Concordamos: o negócio é acalmar a mente. Luta na hora da luta, recolhimento quando não chegou a hora.

Algumas crenças sobre a humanidade

Eu acredito em inconsciente. Acredito naquela metáfora que mostra um iceberg e o nosso consciente é apenas aquela pontinha que fica para fora da água, enquanto por debaixo existe uma montanha. O consciente fala uma coisa, acredita, se programa, jura, mas ele é muito pouco. Muitas coisas que achamos que são completamente racionais surgiram lá debaixo e são meras desculpas pro que o inconsciente quer; noutras vezes, a cabeça tem a melhor das intenções e o inconsciente se recusa.

Eu acredito que somos seres sociais. A teoria dos contratualistas, como de Hobbes, Locke e Rousseau, fala de um dia que as pessoas se reuniram e decidiram formar um governo, dar a ele mais ou menos poder, usar suas habilidades em conjunto; na realidade, nunca houve esse dia – linguagem, cultura, relações, habilidades, tudo surge junto na espécie humana. Atualmente, somos muito apegados a noção de gênios, de ser diferente, de fazer suas próprias regras, mas até esse desejo é algo social. Na verdade somos sempre muito parecidos com as nossas famílias, o meio em que vivemos, nosso país, nossa época histórica. Mesmo aqueles que se destacam em alguma coisa, quando estudados de perto, receberam condições favoráveis do seu meio.

Por sermos seres sociais, eu acredito que o poder corrompe. Que quando um ex-líder estudantil se torna político e, anos depois, está tão corrupto quanto os outros, não devemos nos sentir vingados – “olhaí, mau caráter também”. Não são todos lobos disfarçados que se revelaram. Há algo no poder que confunde, perverte, altera, que força a uma adaptação. Por isso eu não acredito que a solução seja votar no mais puro, no mais radical, no que vai quebrar tudo. Não é uma questão de pessoas e sim um sistema.

Eu acredito que temos obrigações para com todos os outros seres humanos (também animais e com o nosso planeta). Nossa incapacidade de se pensar como grupo que nos levou à situação absurda que temos hoje, onde de um lado poucas pessoas ganham em minutos mais do que são capazes de gastar, enquanto milhões mal têm para a subsistência. Que por mais que eu pessoalmente não tenha escravizado ninguém ou não tenha feito nada que prejudicou a família do marginal, como espécie, como humanidade, temos que lidar com isso. E quando digo lidar com isso, é querer que a ele o mesmo que quero para mim: comida, abrigo e felicidade.

Eu acredito que a vida é muito complicada. Que apontar os erros é muito mais fácil do que corrigir, mas ainda assim é necessário. Quando enxergamos a sujeira dá desespero, não sabemos por onde começar, dá vontade de dar as costas e ir embora. Ou de encontrar uma solução radical. Sabe aquela história de catarse, gritar, jogar pro alto, quebrar tudo? Sempre existe o dia seguinte, e depois de um surto dá mais trabalho arrumar. Assim como a vida é complicada, as soluções que valem a pena também são. Nunca será rápido e ninguém pode nos salvar.

 

Essas bobagens

noite

O Milton comentou há poucos dias, no facebook dele, que alguém se sentiu abalado na sua fé com comentários que ele fazia, e aquilo fez com que a coisa toda perdesse a graça. Acho que eu também reagiria assim. Da minha parte, nada do que ele falou chegou perto de me abalar, mas talvez eu seja craque demais em rir das minhas próprias crenças. Eu adoro este vídeo, que critica homeopatia. É uma crítica inteligentíssima, de quem realmente entende os princípios básicos e não concorda com eles. Consumidora de homeopatia que sou, não sou capaz de me defender dele; não sou capaz de defender astrologia, feng shui, não sou capaz de defender nenhuma das minhas crenças. Até mesmo o otimismo – outro amigo me disse que sou otimista em high level – também me parece ser injustificável, fora da realidade, puramente orgânico e até mesmo insano. Acho que Milton ou qualquer piadista ateu não é capaz de me abalar porque já me assumi como habitante de um mundo encantado.

Mente de pobre

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Eu falei, no outro blog, que o livro do Mo Yan é como um Casos de Família por escrito. O livro é muito legal, como um todo, mas tem uns casos específicos de rolar de rir, não tem como descrever. O protagonista é camponês na sua origem e o contexto social o permitiu subir de vida. Conto porque não é realmente importante. Eu ri muito do trecho que coloquei a seguir porque me identifiquei muito com ele. Conheci ao longo da minha vida pessoas realmente ricas, e não essa classe média com o nariz pra cima. Pessoas que acham que economizar é gastar menos na balada pra gastar mais na viagem, isso se precisarem um dia economizar. Que acham que só mendigos contam moedas, que toda escola pública dá comida, e outras visões tão distantes da realidade que é difícil até falar. Essas pessoas se vêm diferentes, elas têm certeza de merecer onde estão. Se é lindo e lhes agrada, é quase uma lei da natureza que deve ser delas. Quem não tem é porque não é lindo o suficiente. Já quem nasceu comum, mesmo que um dia ganhe muito dinheiro, sempre vai pensar:

Professor, tenho o vício de fumar. É um vício que já encontra várias restrições na Europa, nos Estados Unidos e até no Japão. Por toda parte, o fumante é lembrado de sua vulgaridade e de sua falta de educação. Mas aqui em nossa terra, por enquanto, ainda não existem tais restrições. Peguei o maço, tirei um cigarro e acendi com um fósforo. Gosto muito do leve cheiro de enxofre que se espalha no instante em que se acende o fósforo. Professor, eu estava fumando um cigarro Jin Ge, literalmente “pavilhão dourado”, uma marca local de preço bem elevado. Dizem que cada maço custa duzentos iuanes, ou seja, cada cigarro custa dez iuanes. Um libra, cerca de meio quilo, de trigo sai por oitenta centavos, ou seja, seria preciso vender doze libras e meia de trigo para poder comprar um cigarro dessa marca. Doze libras e meia de trigo poderiam virar quinze libras de pão e alimentar uma pessoa por pelo menos dez dias. Mas um cigarro da marca Jin Ge acaba em algumas baforadas. A embalagem era realmente magnífica, me lembrava o Pavilhão Dourado de Kyoto, em seu estimado país. Não sei dizer se aquele pavilhão realmente inspirou os designers da embalagem. Sei que o meu pai odeia que eu fume esse cigarro, mas só fez um comentário simples: “Carma ruim!”. Expliquei a ele, apressado, que não fui eu que comprei, ganhei de outra pessoa. A resposta dele foi mais simples: “Pior ainda”.

Mo Yan/ As Rãs, parte IV, 8.

Fio vermelho

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A palestrante nos mostrou a caixinha de acrílico onde nossos fiozinhos vermelhos ficaram durante não sei quantos dias, com uma palavra protetora grudada, debaixo de uma piramide. O fiozinho vermelho, de algodão, deve ser colocado no pulso esquerdo, primeiro com um nózinho seguido de outros seis, e com a recitação conjunta da oração, em língua oriental, por alguém que amamos. Nesse momento, abaixei a cabeça e disse “me fudi”, o mais discretamente que eu pude. Mas na falta de um amor, podia ser o coleguinha do lado. Eu havia conhecido meu colega do lado, o Henrique – perguntei logo depois da oração, só pra ficar menos casual – poucas horas antes, quando eu lhe ofereci para colocar a bolsa dele na cadeira que puxei exclusivamente para colocar a minha, algo que mais ninguém tinha feito. Depois, como eu ficava me inclinando na hora de copiar as projeções, ele me disse para ficar à vontade para me sentar ao lado dele, o que eu acabei não fazendo. Ou seja, já era quase amor. O problema é que o fiozinho era comprido, pensado tanto para pulsos femininos e como masculinos e no meu dava quase para dar duas voltas. Eu conseguiria dar os nós com duas voltas, mas é porque sou boa nisso; como eu sei que homem raramente tem uma boa coordenação fina (tente pedir pra um ajudar como ganchinho do colar pra ver), estendi meu braço pro Henrique com uma volta só. Sobrou fiozinho vermelho pra caramba. Olhei para aquele fio escorrido no meu braço e fiquei imediatamente incomodada. “Pode cortar, né?”. Henrique ficou na dúvida. Eu olhei de novo pro meu pulso e pensei alto novamente (vergonha!) que no dia seguinte nadaria e aquilo ficaria balançando na água. Na hora o Henrique me perguntou “Essa é a razão do cabelo curto?” e eu fiquei sem graça. A moça da frente, que também tinha cabelo curto, entrou na conversa. Eu disse que ia cortar a sobra do fiozinho pra não me dar vontade de cortar tudo, e que também não suportaria cortaria caso ele durasse muito tempo e ficasse nojentinho igual fita do Senhor do Bonfim. Ela foi procurar a professora para perguntar do fio e o Henrique elogiou a minha resolução, pois “é melhor se propor a fazer algo possível” – leitor amigo, o Henrique estava dando em cima de mim? Aí a moça voltou com o tom satisfeito e nos informou a regra: não podia cortar o fiozinhos, era pra enrolar a sobra nele mesmo. Eu disse: “Ahn… Tá” enquanto enrolava inutilmente o troço. Se eu reencontrar o Henrique, será que o fiozinho dele também tem um cotoco na ponta?

In timo we trust

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Os fãs de Hannibal sabem – há uma glândula atrás do coração, chamada Timo. Os místicos veem nela o centro do chakra cardíaco. Dizem que o tamanho dela varia de acordo com o nosso estado de humor: se estamos felizes, ela está grande e bonitoza, se tristes, encolhida. Sem saber pra que servia e vendo os tamanhos alterados, teve época que retiravam com cirurgia. É ela quem causa aquele aperto no peito, aquela dor terrível de amor.  Tenho uma amiga que alimenta uma paixão há anos, e cada vez que a vida dizia que essa história não era nada, que não teve importância, ela sentia essa dor. Agora, finalmente, ela ouviu o contrário, que foi tão importante pra ele quanto pra ela. Eu conheço essa dor, todo mundo conhece essa dor: o mundo dizer o contrário do que nos deixa felizes. Queremos ser racionais, argumentamos, sabemos que não faz sentido, mas o coração não se convence e dói. A dor de quando a gente se violenta e duvida do que nos é muito caro. Parece que a timo da minha amiga é que estava certa esse tempo todo. Eu acredito na timo.

Contra o amor

Depois que descobri esse clipe, assisti uma quantidade vergonhosa de vezes. Chorei feito noivinha, ainda bem que ninguém viu. Eu havia esquecido do sentimento que o clipe mostra: a crença no amor, de ver no outro uma esperança de um futuro, ter uma redoma de felicidade a dois. Todos buscam viver isso, mas não é algo que se produza por força da vontade. Como diz a música da Rita Lee, amor é sorte. E como a felicidade deixa todo mundo esplendoroso, né? Garrei amor por todos aqueles casais. O clipe é do canal do Jeneci. Jeneci, gente, quem é essa pessoa, o que faz e do que se alimenta. Ele já me viciou antes, com Dia a dia, lado a lado. Se não fosse o youtube me oferecer, não teria conhecido o trabalho dele. E é um trabalho que merece ser conhecido, tudo o que o tal do Jeneci faz é caprichado e lindo.

Aí fiquei com vontade de mandar o clipe pra minha amiga que acabou de casar. Só que o clipe – o que também é lindo – não tem nenhum preconceito com o amor, e mostra casamento de homem com homem e mulher com mulher. Minha amiga é de Igreja e provavelmente isso não faria sucesso no mural dela. Achei a cena tão chata e triste: ao invés de se comover com o amor dos outros, fazer um julgamento se aquilo pode acontecer ou não. Ser contra amor, contra felicidade. Que bom que não tenho “contrato” fechado com nenhum tipo de crença  e não preciso me preocupar com explicações ou certo e errado. Na minha concepção, feliz, amor e bem se misturam. Se deixou o meu coração quentinho, acho bom e quero mais é que cresça.

Chantagem

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Quando eu acho que as coisas estão ruins pro meu lado, emperradas, complicadas ou por algum motivo estou querendo uma ajudinha da sorte, eu faço alguma caridade. Geralmente, doo sangue ou roupas. Como eu acredito que a gente faz e recebe de volta, desse jeito eu deixo o Universo em dívida comigo e o obrigo a vir em meu socorro.

Uns mais iguais

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-… maldita Bolsa Família. Ninguém mais quer trabalhar, pra quê trabalhar? Está muito difícil arranjar funcionário hoje em dia, não compensa mais.

– Eu tenho uma amiga que tem loja em shopping e ela disse que está muito difícil. Você contrata uma pessoa, treina, aí depois de um tempo aparece uma oportunidade em que ela vai ganhar pouca coisa a mais, e ela vai, só pra não ter que trabalhar no fim de semana.

Aí eu não aguentei:

– Eu também trocaria de emprego por um que não precisasse trabalhar nos fins de semana…

– Ahhhhh, mas é diferente! Você é diferente, estamos falando deles.

Os sonhos de Deus

Eu tenho cá as minhas crenças, as minhas intuições. Nada pelo qual eu acredite que valha a pena lutar ou dar um nome. A cada passo duvido e tento fazer o que faz com que eu me sinta melhor – e esse melhor num dia pode ser o oposto do que eu fiz no anterior. Acho que se existir um divino, ele tem que, no mínimo, ser melhor do que eu. Então na minha concepção, não há mal nenhum em duvidar o tempo todo ou até mesmo em rir. Cada brincadeira hilária que se faz com a figura de Jesus, compartilho várias e os crentes nunca curtem… É muito ego pequeno e orgulhoso punir quem não concorda ou não entender que o riso é sempre acompanhado de reconhecimento. Se eu que sou eu entendo, porfa com a divindade, tem que ser daí pra cima.Eu não me arriscaria a dizer, como fez o Papa Francisco e como os religiosos (sim, esse é um dos meus preconceitos) fazem o tempo todo, quais os planos de Deus. Existe Deus, ele tem um plano, e esse plano exclui algo que ele mesmo criou? Olha, eu não arriscaria três saltos lógicos tão grandes. Fazer e depois rejeitar, dizer que não é bem assim, também é tão …

Filhos ou órfãos de Deus, não existe homem fora da sociedade e nem vida humana fora da Terra. Eu diria que – feliz ou infelizmente – estamos todos ligados. Então, se eu fosse arriscar alguma regra universal para o que é o Bem, quais são os planos divinos, a minha aposta seria: o que é melhor para o coletivo.

Destino

Eu acredito em destino. Não porque acredite que tem alguém que decide o que devemos passar e sim porque somos formados por meia dúzia de padrões inegociáveis. Como agimos sempre com base nas mesmas premissas, jogamos sempre a mesma energia pro mundo e obtemos sempre as mesmas respostas. Às vezes nos achamos diferentes porque temos o padrão de ser do contra, ou de achar que somos fora do padrão. Como somos pessoas padronizadas e previsíveis, cercadas de pessoas igualmente padronizadas e previsíveis, qualquer olhar mais distante seria capaz de dizer com precisão o curso dos acontecimentos. Seria como olhar uma fila de formigas e prever que, poucos metros a diante, elas encontrarão um obstáculo.

Ou não

Acredito em muitas coisas, mas tento não assumir ideais (ou ideias, rótulos, conceitos, etc) de nada ou quase nada. De um lado, talvez eu seja meio traumatizada do tanto que já mudei de ideia. Eu fico pensando se tivesse feito tatuagem de tantos amores – leia “amores” num sentido amplo, e não de relacionamentos – que tive, de tantas coisas que achava que me definiriam pro resto da vida e hoje digo que foram na encarnação passada, do tão pouco que falam de quem sou hoje, que seria igual aquelas celebridades que têm que ficar tatuando em cima do nome dos ex. Por outro – e esse é o motivo principal – não assumo ideais porque acho tão chato ter que fechar um conceito. Não podemos pensar por hipóteses? Encher o universo de astros, duendes, vibrações e cores que nunca poderemos provar, mas também nunca poderemos não provar. Depois, ficar cansado de toda essa viagem e agir conforme o visível – coisa que costuma funcionar muito bem. Ou já que o nosso inconsciente é tão poderoso que não sabemos até onde ele vai, então tudo pode ser fruto do meu inconsciente, comigo, para mim e em função de mim. Eu sou a única variável que eu controlo e olhe lá… Não podemos assumir temporariamente que um monte de coisas, só pelo prazer que esse raciocínio pode nos levar, às novas imagens, novos mundos, novos pressupostos? Acreditar duvidando, para aquele momento, enquanto for legal, enquanto explicar e se for preciso desdizer tudo. Leela – se a própria vida não passa de um jogo, pra que colocar as ideias num estatuto tão mais especial. Não vejo porquê fechar com um e ignorar totalmente as delícias do outro. Deus é tão picuiento assim que se a gente não pode nem se permitir duvidar dele? Ah, Deus, dá uma reboladinha!

Ética própria

Eu não me arrisco a responder. Sério, inveja de vocês que sabem das coisas. Eu não sei. Mal sei de mim mesma, das minhas motivações, o que farei no dia seguinte. Quanto mais ter resposta para mistérios da vida – o que é real, o que não é. Vou para giras de umbanda e todo mundo ao meu lado sente chamados, tonteia, é tomado por uma atmosfera diferente. Eu, tal como os mais puros ateus, não sinto nada. Até gostaria de dizer que sinto, mas não me dá nem coceirinha. Minha impressão é mesma de quem vai a uma festa e só assiste à festa – muito diferente de quem sabe quem brigou com quem, quem comeu quem, quem falou algo pra alguém remetendo a uma história anterior. Ou seja, aproveito uns dez por cento. Eu vejo o que está lá e pronto. Também não sei dizer que estranho papel é esse que ocupo, mesmo os envolvidos não sabem. Não sou assistência, não sou médium, não sou parte da corrente. Mas posso ir lá dentro. No início, tudo era porque conhecia os pais de santo. Aí, passei a ter relação com os guias deles. E com outros médiuns. E com os guias desses médiuns. Ou seja, já tô ficando íntima da casa. Existe essa separação, entre a pessoa e o guia? Para quem crê, existe. Eu poderia ser muita amiga de um e não de outro, e vice-versa. Para quem não crê, uma coisa necessariamente levaria a outra, ou seja, óbvio que sendo amiga dos pais de santo eu acabaria tendo privilégios. Como disse, não sei. Eu não sei da permanência da alma, não sei da relação entre espírito e matéria, não sei de facetas de personalidade e de inconsciente. O que eu sei, o que eu vejo, é a sinceridade dos envolvidos. Do tempo que dispõem, da dedicação. Eles oferecem – para mim e para os que freqüentam – o que eles têm de mais importante e sagrado. De onde eu percebo que minha incapacidade – e até falta de vontade – de decidir o que eu acho me leva a uma ética muito própria: o que me é ofertado com sinceridade e carinho eu aceito com sinceridade e carinho.

Subconsciente, esse deus

 

Eu estava conversando com a Tânia e… Adendo: gosto tanto de pegar carona com a Tânia que ela nem imagina. Sabe o que é se animar pra ir pra um compromisso só porque depois vai ter aquela carona? Mais: ela vive se perdendo no caminho e eu adoro, quanto mais ela se perde melhor. Porque as nossas conversas são sempre tão boas pra mim, sempre tão proveitosas, nunca saio delas sem algo novo pra pensar. Nessa última carona, o assunto caiu no subconsciente. Tão poderoso, tão determinante nas nossas ações, o que sabemos a nosso respeito é tão pequeno. Ainda estava (estou) completamente contaminada pelo exemplo que oprof. Clóvis deu, do consciente ser apenas o facho de luz que sai do farol. Aí ela me disse que o subconsciente é tão poderoso que ele não apenas fala através dos nossos gestos, nossos tons de voz, nossas expressões, que às vezes ele aparece no que nos acontece, em outras pessoas nos dizendo e nos fazendo aquilo que nos pertence. Lembrei na hora do quanto eu fiquei afetada ao não me ver nas fotos do espetáculo do ano passado. Não saiu uma única foto individual minha no palco, e fiquei muito abalada. Minhas amigas viram nisso apenas uma vaidade, mas é que eu li naquela ausência tantas outras coisas. Eu li naquilo meus padrões, minha dificuldade em me fazer marcante, o espaço que cedo pros outros e me faz falta, enfim, eu vi de tudo ali. O fotógrafo não ter me mirado foi totalmente eu, foi o meu movimento. E o subconsciente– ela continuou – é tão grande e poderoso na nossa vida, nas nossas escolhas e ações, que quem sabe a gente lide apenas com ele o tempo todo, que até isso a que chamamos Deus seja no fundo apenas esse grande e desconhecido subconsciente. Pra mim também faz tanto sentido. Eu rezo, eu falo com Deus, eu agradeço, e essa relação tem se estreitado cada vez mais. Só que ao mesmo tempo eu não sou propriamente deísta. Eu faço o que funciona comigo, porque já aprendi que é mais fácil abraçar os símbolos do que tentar, com meu ego fraquinho, influenciar minhas decisões. Acho que quem se nega e tenta ser sempre racional está simplesmente se negando a utilizar o que a humanidade já construiu e funciona tão bem. Oração, astrologia, velas, imagens, tudo já está carregado de sentido e nos influencia de uma maneira maior do que podemos controlar. Ao mesmo tempo, não acredito numa resposta definitiva à questão da existência divina. E caso fosse possível responder com certeza de que Sim, esse Sim significa tão pouco. Ele por si só não explica nada. Sim não quer dizer que Ele tenha livro, filho e detesta cu, ou seja, que a nossa conduta signifique qualquer coisa. Não sabemos se é uma relação de criação, de interdependência, de determinação, não sabemos de nada. E mesmo se pudéssemos ter um manual, de que adianta saber mentalmente sem realmente entender. Se não entendo essa coisa tão pequena, tão limitada e com poucas variáveis que sou eu mesma. E na nossa miudeza, não conseguimos atingir mais do que nós mesmos.

Crentes

Ainda não achei a igreja evangélica que tem por aqui, mas eu sei que ela existe. Acho que eles estão lá, guardando o sábado, e alguém fala: “Vamos dar um rolê pela região e salvar umas almas?” e quando olho pela minha janela – agachada, na esperança de que não me vejam – a rua está cheia deles, em duplas, em trios, traçando planos de ação na esquina e batendo de porta em porta. Já ouvi das mais variadas estratégias para não ser incomodado: um vai até o portão completamente nu, outro se diz satanista, a quem simplesmente os mande à merda. Eu tento não estar em casa, ou fingir que não estou, ou não passar diante da janela, mas mesmo assim ainda sou pega. Se podem deixar um folheto na minha caixa? Pode. Se posso passar no portão e dar uma palavrinha com eles? Não pode.

 

O problema é que apesar dos pesares, eu simpatizo com essas pessoas. Simpatizo com sua boa intenção. Eles acreditam terem encontrado o segredo de todo bem e que estão levando isso para os outros. São uns pentelhos, têm uma visão limitada das coisas, dogmáticos, aquilo tudo. Mas eles acreditam, uai. Se propõem a andar por aí, serem ignorados ou maltratados, ao invés de ficarem confortáveis em qualquer outro lugar. Tanta gente por aí que se puder te passa uma rasteira, cospe, pisa em cima e depois ainda posta no youtube. Se deixar, esse mesmo crente te sacanearia. Mas naquele momento, naquela hora, ele quer te fazer um bem. Acho bonito.