Beleza x função

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Quando dizem que sem a beleza o mundo pode existir perfeitamente, as pessoas mais “de humanas” costumam ficar sem saber o que responder. A minha resposta é: cite ou me mostre, em qualquer tempo ou lugar, uma civilização onde as coisas sejam só funcionais. Onde a construção seja apenas uma cobertura, o caminho seja apenas um amontoado pra pisar. Mesmo da mais simplória das civilizações, já viu um vasinho que seja apenas um oco sem cor, sem simetria, sem textura? Não existe essa data anterior à beleza, a fase do funcional puro, onde apenas a partir daí começa a preocupação com o luxo que é fazer as coisas serem bonitas. Nós queremos mais. Sempre que possível, o homem tenta tornar o que o cerca belo e especial.

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No vuelan

Eu não diria que é uma dor, não uma dor no sentido de dizer Ai, uma pontada ou uma pequena morte. É um incômodo, um não esquecer nunca, uma vontade de arrancar com a mão. Semanas e semanas tendo que fazer a parte chata da vida adulta de ter que ser responsável, reivindicar, correr atrás, tira dinheiro daqui e coloca em acolá. Me vinha à cabeça o dito que a vida adulta vale a pena somente pela permissão que temos de beber álcool e fazer sexo – eu me repetia, então, que diabos estou fazendo, já que não tenho praticado nenhum dos dois. Agora, espero sinceramente, a coisa está se acalmando, e tomara que suma a sensação crescente de que a passagem dos anos é como naqueles filmes que os protagonistas ficam presos entrem paredes que não param de se aproximar. Quase todos os dias me proponho a continuar o Guerra e Paz, mudo de lugar, coloco na bolsa, mas só tenho mesmo levado o livro para fazer turismo. Enquanto isso a amiga ainda vai casar e quer confirmação, as alfaces precisam ser colocadas de molho antes que eu possa comê-las e o mundo insiste em ignorar meus sábios conselhos, que dirá as minhas dores. Mesmo com o incômodo do aparelho, o arrasto fora da cama quando o alarme toca, as disputas insanas entre coxinhas e petralhas, eu quero escrever. Não tenho saco, não tenho inspiração, não tenho tempo, tenho dor e solidão. Tenho dúvidas e lentidão, choro vendo Cosmos e me sinto insuficiente. Mas um dia eu sei que nem vou conseguir lembrar de nada disso que hoje me espreme tanto. Que não vou entender o que havia de tão difícil num conjunto de telefonemas, caras feias e contas que se renovam mês a mês. Eu quero e preciso escrever, nem que seja apenas para justificar todo meu desajuste social. A vida não espera e a gente precisa fazer o nosso com e apesar de tudo.

no vuelan

Uma teoria sobre simpatia

Eu estava lendo sobre a Monica Iozzi, sua versatilidade e simpatia. Aí quando a reportagem cita que ela já foi até vendedora de cachorro quente, uma coisa me pareceu explicar a outra. Tenho uma teoria sobre ser simpático – eu acho que ser simpático muitas vezes tem a ver com necessidade.

 

(“Ah, mas se fosse assim…” Digam que vocês já superaram essa fase, de achar que ser crítico é implicar com cada texto porque ele não cobre a realidade inteira ou não é tão infalível quanto a Lei da Gravidade. Superaram, né? Então seguimos)

 

Durante um ano, fiz aula de natação numa das escolas mais caras de Curitiba. Vocês imaginam que seja possível frequentar um lugar com uma proposta descontraída por um ano inteiro, várias vezes por semana, sempre no mesmo horário e não conhecer as pessoas? Foi o que aconteceu. Eu entrava muda e saía calada. Era muito estranho. Os papos não aconteciam, nada ia adiante, difícil explicar. Foi o vestiário mais silencioso que já vi na vida. Um dia eu percebi que a melhor explicação não era o fato de serem esnobes, ou de estarem com pressa, era simplesmente porque elas não sabiam falar com estranhos. Não tinham jogo de cintura, não sabiam quebrar o gelo. Comecei a pensar que aquelas pessoas eram tão ricas que elas simplesmente não foram treinadas a lidar com o outro. Por quê? Porque não precisavam. Quando pequenas, iam de carro até seus colégios particulares; adultas, vão de carro aos seus compromissos (estou fazendo referência a este texto). Quando não semelhante, o outro geralmente é um subalterno. E subalterno serve. Quem serve precisa tomar pra si a gentileza e a simpatia. Caso essas pessoas não sejam muito bem tratadas, elas podem simplesmente gastar seu dinheiro em outro lugar.

 

Eu estou do lado dos que servem, dos que precisam da gentileza e da boa vontade de estranhos. Não é o meu dinheiro que fala por mim. Se eu maltratar o cobrador do tubo onde pego ônibus todo dia, nós dois (principalmente eu) teremos um problema. A nossa distância social não é tão grande; ele não pode mudar de tubo ou eu de trajeto apenas porque nossos santos não batem. Pra tudo na vida: menos dinheiro significa menos opções. Então, para o bem dele e meu, é melhor quebrar o gelo, dar bom dia, comentar do futebol, enfim, que sejamos simpáticos.

Na fazenda ou numa casinha de sapê

… pelos campos, a poucos metros da vaca, por dois motivos: primeiro, porque eu tenho medo de vacas. Nunca fiquei perto de uma, vai que ela me dá um coice ou algo assim. Depois que é pra não intimidar e atrapalhar seu longo processo digestivo. Ou seja, dar uma privacidade. Eu não faço a menor ideia de quantas vezes por dia elas defecam. Então eu estaria perseguindo-a discretamente, a uns metros de distância. Levaria comigo um livro, um não muito bom (Ulisses não, muito pesado), que é pra entreter mas não demais. Aí, em um determina momento, pelo cantos dos olhos – e também pela audição e o olfato – ela perceberia que ela fez cocô. Rapidamente descalçaria minha bota, minha meia e correria em direção a ela (espero que vacas, tal como os cães, se afastem imediatamente da sua bosta assim que as produzem) e PLOF, enfiaria o pé com gosto. Até cavocaria com os dedinhos, na intenção de que penetrasse mais profundamente.

Este foi o pedaço do post que pensei, de madrugada, na fazenda, enquanto estava insone. Fui parar lá porque o Alessandro comentou que ia aprender construir casa com as próprias mãos, num curso que incluía yoga e comida; achei a programação duca e me inscrevi impulsivamente. Além do mais, seria no feriado, e costumo detestar feriados. Só depois me ocorreu que eu poderia ficar meio deslocada, já que ia de gaiata com um grupo de amigos que eu desconhecia e pra um tema que não ter nada a ver comigo. Mas, enfim, já era. Naquela madrugada, eu havia acordado com a burocrática vontade de fazer xixi, o que em casa não é nada demais, e lá adquiriu contornos dramáticos. Tinha dois banheiros coletivos, usados indistintamente pelos homens e mulheres da casa e com portas que davam para a área comum. O mais longe era mais arrumadinho; mas em ambos o chuveiro molhava tudo em volta. Tomar banho era atravessar a grande área comum da varanda, tomar cuidado na hora de tirar e colocar a calça pra não molhar a barra, apoiar tudo o que podia nos pregos das portas. E de madrugada, além de pegar um banheiro que havia sido muito usado, ainda tem os bichos. A madrugada é deles, qualquer um sabe disso. Na primeira noite, abri a porta do banheiro com toda cautela e, assim que tentei fechar, uma rã bateu com tudo no meu tórax. Claro que eu gritei e saí correndo, e tive que mijar no mato. Na segunda noite, essa que descrevi no início, tentei segurar e por isso não conseguia dormir. Aí fiquei pensando no que escreveria assim que chegasse em Curitiba. Porque escrever foi a primeira coisa que senti falta quando estava lá. Foi como estar desconectada, como não saber o que estava sentindo. Nem levar um caderno teria resolvido, porque eu preciso digitar. Quando ouvi dizerem que esterco é muito bom para micose a minha imaginação voou, apesar de eu nem ter micose. Quis descrever a cena, pensei em como dar um efeito cômico, que termos usar,. A relação desse pessoal de fazenda com esterco é bem diferente da nossa: “vou aproveitar que a gente vai misturar a terra com esterco e pisar descalço, que aí já me cura de qualquer coisa que eu tenho no pé”. Esterco limpa o organismo, serve de repelente natural para as construções, ajuda a fazer massa. Tudibom. Vou confessar a vocês: ajudei a erguer parede com terra, grama e esterco, e me diverti muito. O cheiro nem é mais incômodo depois de um tempo. Achei tão bom que até quis saber se cocô de cachorro tem o mesmo efeito. A resposta é não.
Depois a vontade ficou forte demais e tive que acabar fazendo o xixi. Com a mente aliviada, passei a achar que não valia a pena escrever o post do Tratamento para micose (esse seria o título) porque não tinha tanta graça assim. Foram poucos mas intensos os dias de imersão na vida da fazenda: dormi em quarto coletivo com beliches, andei de bota entre os matos, estive no meio de estranhos o tempo todo, abri mão da vaidade e usei sempre as mesmas roupas enlameadas, ajudei a levantar paredes com a terra, comi muito e bem. E trouxe comigo uma descoberta muito importante a meu próprio respeito: banheiro coletivo não dá.

Desejo

Você está louca, não aguenta mais de desejo, quer ligar pro Fulano. Ok, podemos ligar. Ele pode até estranhar, talvez pergunte se eu tenho mesmo certeza, mas ele não vai se recusar. Ele vai achar ótimo. E se você quer sexo, só sexo, você sabe que vai ser ótimo. Ele chegará rápido, vai estacionar o carro lá na frente, pode até colocar na garagem. Um carrão, a vizinhança vai botar olho. Ele vai sorrir, te dar um abraço, quem sabe uma conversinha no sofá e todo resto você já sabe. E vai ser bom, sempre foi bom. Se é isso o que você quer, um sexo bom, então vá em frente e peça. Mas só se for só sexo. Porque você sabe que ele vai embora. Você até poderia pedir pra ele passar a noite com você, e quem sabe ele até passasse, mas na manhã seguinte ele iria embora. E você sabe o que o ir embora dele significa. Depois de sair pela porta, o que aconteceu será apagado da memória dele. Ele viverá a vida dele, mais relaxado e tal, mas sem se sentir nem um pouco mais ligado a você. Para ele, tudo continuará na mesma, um sexo consensual entre adultos – e para você? Porque se vê-lo atravessar aquela porta for doloroso, se você estiver esperando que os sentimentos ou a relação de vocês mude depois, não é só sexo que você quer. Você quer algo mais. Você está pensando no sexo como um meio e não como um fim. Esse algo mais ele não é capaz de te dar. Ele não quer te dar e ponto final. Quem sabe outro dia, em outro momento, com outra mulher… mas isso não vem ao caso. Não esta noite, não com você. Então é melhor ficar quietinha. Não é só sexo.

Desejos conflitantes

Andei pensando bem sobre a necessidade de comprar roupas novas e me vestir um tantinho menos informal o tempo todo. A coisa não começou por causa da separação ou um pouco antes dela, como eu achava. Na verdade, lembrando bem, eu só comecei a realmente me preocupar com roupas e sair um pouco mais bonitinha por aí quando comecei a namorar o Luiz. Eu tinha vinte e quatro anos. Até então, passava batom muito raramente e ouvia indiretas de todos de que deveria comprar umas roupinhas, cuidar das unhas, fazer combinações melhores, parar de achar que camisa do Olaria FC era super legal de usar pra sair. Foi pra combinar com aquele mauricinho que eu passei a me vestir melhor. Passei a me vestir tão melhor que cheguei até a acreditar que gostava de me arrumar.

Não é que eu não goste, que pra mim tanto faz. São desejos conflitantes. Eu:

* Adoro a ideia de ter um estilo. Ele seria alegre, colorido, com muitas saias, vestidos, acessórios no cabelo. Quem sabe com mechas azuis. Já sei até de que grifes eu compraria. Gosto muito de vintage, de alternativo e ainda colocaria uma pitada nerd. Na prática: tenho preguiça. Estilo com dinheiro sobrando deve ser mais fácil, sem dinheiro eu precisaria garimpar muito. Estou sempre andando e a necessidade de estar sempre de calçados confortáveis é um limitador importante. E minha rotina de voltar pra casa de ônibus tarde da noite ajuda a sepultar tudo. É triste dizer isso, mas eu morreria de medo de pegar esses ônibus de saia ou com um calçado que eu não pudesse correr.

 

* Adoro a ideia de ter bastante dinheiro, mas só pra aumentar a qualidade do que eu tenho. Gosto de ter uma casa semi-vazia, mas pagaria alguém pra conseguir fazer minha casa vazia não ter essa cara de abandono. Compraria uma bike melhor, mas continuaria andando de bike. Continuaria sem carro. Compraria as tais roupas coloridas e cheias de estilo, sem jamais emperuar. Presentearia meus amigos, sairia com eles com mais liberdade. Queria ser daquelas que tem grana e nem parece, sabe? Na prática: não tenho mesmo. E o entorno necessário para se ter muita grana – tempo, concursos, colegas de trabalho, sapos – me dá muita preguiça. Sem dizer que não há nada que eu saiba fazer pela qual alguém estaria disposto a me pagar tanto assim.
Comprei jeans novos. Caem melhor que o antigo, que era um número maior que o meu.

Wilson

Um amor ou um Wilson?

Quando eu lia aquelas coisas sobre ser feliz e se amar sozinho como pré-requisito para ser feliz e amar o outro, nunca identifiquei aquilo como para mim. Nunca me achei uma companhia pesada, do tipo que atira sobre os outros as suas necessidades psicológicas. Tomava isso como sinal inequívoco de que sou a pessoa saudável que sabe estar acompanhada. Agora acho que não sou. Ou talvez esteja aprendendo a ser num nível mais profundo. Ser autossuficiente acaba se tornando uma necessidade quando se vive sozinho. Não se atirar correndo e jogar toda autossuficiência no matagal quando aparece o primeiro barquinho é outra história.

Escrita

Não vejo essa coisa de escrever como opção, não pra mim. É a mesma coisa que dizer que alguém escolhe ser gay. Escrever me acompanha a vida inteira. Na escola eram as redações e as histórias mirabolantes; mais tarde foram as cartas, os diários, os e-mails, orkut, blog, twitter, facebook… Pra mim não existe a grande e a pequena escrita, eu escrevo. Escrevo recados engraçadinhos, escrevo legendas de filmes indianos, escrevo coisas mais sérias. Minha mãe me considerava uma doente, porque fui uma das pioneiras a usar internet e com isso arranjava namoros virtuais. Seduzir escrevendo era perfeito pra mim – nada de sustentar olhares, provocar com decotes e proibir cedendo. Escrever me dava a distância e o tempo necessários para me deixar à vontade, para mostrar um lado mais solto que demoraria demais (ou até nem aconteceria) com a abordagem clássica de aproximação. Ao mesmo tempo, nunca quis fazer da escrita meu meio de vida. Se pudesse escolher, eu juro, teria escolhido outra coisa, outra vocação. Que bom seria se eu fosse uma pessoa das exatas, a vida é mais fácil para eles em tantos aspectos. Minha vida teria sido outra se eu soubesse seduzir (falo agora num sentido amplo) pessoalmente, se eu fosse gregária ou se pelo menos tivesse tino comercial. Por exemplo, eu sei que postar sobre os últimos escândalos ou assuntos específicos aumentam muito o número de acessos. Quem sabe se eu seguisse essas regras, teria um blog mais rentável com muito menos trabalho. Mas não, eu não posso, eu não consigo. Eu venho aqui, dia sim dia não, com um texto; rendo muito menos do que os que colocam fotos da Dickman pelada e pronto.
Eu não dou chance para autores novos. Entro numa livraria ou numa biblioteca e faço cara de nojo pra cada livro de alguém que eu nunca ouvi falar. Pouco importa a contracapa dizer que o livro é interessantíssimo, não confio em contracapas porque geralmente são escritas pelo próprio autor. Também não levo à sério a introdução de um outro escritor, esse sim famoso, porque já fico achando que ele fez aquilo só por amizade. Ou seja, se nem eu mesma dou crédito, como esperar que o mundo seja generoso com os desconhecidos que escrevem? Conheço tanta gente que se queixa de falta de visibilidade, e quando os leio, todos, acho de que há uma certa justiça. Eles escrevem bem mas não surpreendem. Vi semanas atrás um blog muito bom, num estilo que lembra o meu, e ele me fez descobrir o porquê dos meus acessos estarem estagnados: não vi novidade. Não o favoritei, e com isso entendi tanta gente que vem aqui, acha legal e nunca mais volta. Não fui marcante o suficiente para me destacar, é isso. Tem muito blog pessoal por aí, tem muito texto de muita gente que escreve bem e que reflete. É um mundo cheio de doentes que, como eu, não conseguem parar de escrever. Pouco importa se o mundo não nos dá atenção, se as editoras não nos publicam, se os milhares de acessos nunca chegam. Nós escrevemos porque é isso que sabemos fazer, porque é isso o que somos.

O que te faz se sentir em casa?

Viajarei de novo. Há muitos anos, esse seria o meu projeto de vida – em menos de 1 mês, conhecer duas cidades diferentes, quase sem custo e estar com amigos. Agora estou velha, casada e chata e não paro de reclamar por causa disso. Juro que se pudesse não iria. Eu vou porque além de velha, casada e chata eu não sou de deixar de cumprir meus compromissos. E meu nome está lá, há meses, como jovem pesquisadora que vai apresentar trabalho na UNICAMP.

Na casa da Camila, fui totalmente adaptável. Fui lá disposta a entrar na rotina da casa e fui amiga de tudo e todos. Agora, já enriquecida e cansada pela experiência, quero mais é ter a minha rotina. Meu plano é chegar lá e choramingar o quanto for possível pra ter um quarto só meu. Se for preciso eu pago. Toda vida sempre tive meu próprio quarto e hoje tenho minha própria casa. Não quero aprender mais nada sobre conviver com os humanos – eu quero espaço!

Do que preciso? De quatro paredes invioláveis. Livre de qualquer olhar, curioso ou não. Sem vida social inesperada, sem vínculos com o mundo exterior, sem que eu precise pedir licença. Nestas paredes invioláveis, quero assistir novela, fazer alongamentos, rezar, andar pelada e dormir só de meias. É pedir muito? É o que eu preciso pra me sentir menos longe de casa.

PS: Espero que conhecer o Sergio Sem Acento seja realmente bom.