Não veremos

muro pichado

As pessoas me chamam de radical às vezes. Eu nasci em 63, um anos antes do Golpe Militar. E na minha juventude não tinha um muro pichado, não tinha essa bagunça que vemos por aí. Hoje eu tive que arrancar as flores que tinha na frente da minha casa porque estavam escondendo droga dentro delas.

A crise que vem com a idade é complicada. Os que passaram a vida inteira lutando para serem ricos e família margarina, podem se descobrir vazios, que lutaram para comprar anúncios na TV e por opiniões que no fundo não interessam. Quem viveu de puro idealismo vê o mundo tão ruim quanto, ou talvez pior, num quarto e sala com as contas atrasadas. A vida é uma só, nunca temos todas as informações necessárias, partimos das condições que nos foram dadas quando nascemos, não conseguimos prever nem a metade da consequências dos nossos atos. É difícil.

O que eu tive vontade de dizer pra funcionária da padaria que me disse a sentença do primeiro parágrafo, antes do cliente seguinte nos interromper, naquele dia que pudemos conversar um pouco mais porque o Brasil estava perdendo pra Bélgica, é que eu nunca vi essa juventude que ela viveu. E, independente do candidato que se eleja – falávamos de eleições -, continuarei sem ver. Mesmo que vença o mais radical deles (desconfio que é quem ela gostaria), que promete descer bala em todo mundo que sair da linha. No fundo, o discurso radical me parece de um tremendo idealismo, alguém na sua explicação de mundo é sempre mais limpo e justo do que os outros – a polícia vai nos proteger, o exército vai acabar com a roubalheira, pessoas realmente éticas vão nos governar. Do mesmo modo que nós temos escolhas de vida e elas nos determinam, um país também tem. Não existe gesto capaz de corrigir décadas de decisões – décadas quando pensamos em biografias pessoais, séculos quando países. Não existe órgão ou pessoa incorruptível capaz de separar o bom e o ruim para nós. O ideal é que o marginal tivesse tido oportunidades o suficiente para não ir para o crime, mas não podemos voltar no tempo e agora temos que lidar com esse ser humano formado e violento. De certa forma, é possível dizer que não há salvação. Existe o possível, e acredito que nossas décadas de erros passam justamente por esse desejo de milagres.

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Em busca do céu

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A ansiedade vinha tão forte, de baixo para cima, que parecia um vômito, e ao invés de sair pela garganta se plantava no coração e parecia que a única saída era morrer. Continuar vivendo nos próximos minutos era insuportável, o que dirá uma vida inteira. Porque a não ser que eu tivesse a sorte (!) de sofrer um acidente fatal, pelo menos mais uns quarenta anos mais eu viveria. Qualquer coisa que eu pensasse me parecia angustiante demais. Como ir adiante, como acordar cedo na manhã seguinte, como levantar da cama, como falar com as pessoas, como fazer coisas? Tudo tinha o sabor de cinza, nada era capaz de me dar prazer. Só então eu realmente entendi o que é depressão, crise de pânico, transtornos psiquiátricos. Eu não tomei nenhum remédio, só floral, mas entendo perfeitamente quem toma. Não tomei porque dentro de mim havia a lembrança de quem eu era, e eu sabia que podia voltar a ser aquela pessoa. Mas nem tudo foi coragem o tempo todo. O que me impediu nos momentos de desespero foi saber que tarja preta leva pelo menos uns quinze dias para começar a fazer efeito. “Eu preciso agora, quero parar de sofrer neste minuto, quero uma paulada na cabeça. Daqui há quinze dias já vai ter passado. Lembro especialmente de uma crise que me deu no terminal, voltando da aula de flamenco, tarde da noite. Eu não apenas me sentia sozinha, eu estava sozinha. Naquela hora, mesmo com toda boa vontade, eu não conseguiria um amigo pra me ajudar. “Calma, está tudo bem. Respira”, eu tive que dizer pra mim mesma. Olhei à minha volta, olhei para o céu. “Está tudo calmo. Não importa o que aconteceu antes, não importa o que vai acontecer depois. Você está no terminal, de pé, a noite está agradável”. Naquele período eu percebi que olhava sempre para baixo, ou nem ao menos realmente olhava para o que estava olhando. “Você não tem nenhum problema. Não agora, não neste momento. Você está apenas de pé no terminal. Esquece o resto”. Eu descobri que quando vinham as crises, eu nunca estava onde realmente estava, meus pensamentos estavam em outros lugares. Para estar mais presente, eu passei a me obrigar a olhar para cima. “Olha que vento gostoso, olha como ele balança aquelas folhas”. Simbolicamente é tão simples e eu senti na carne: olhar para baixo e para si, o pequeno, o sem perspectiva; olhar para o horizonte, o longe, amplo e cheio de possibilidades. “Olhe à sua volta. Está tudo bem”. Naquela noite, antes que o ônibus chegasse, eu já havia conseguido me acalmar. Outras crises vieram, em intervalos de tempo cada vez maiores e com cada vez menos força. E como não quero sentir aquilo nunca mais, estou sempre olhando pro céu.

Leitora em multidões

Escrevi a um amigo pedindo que, por favor, fizéssemos alguma coisa juntos no fim de semana. Eu acho que ele não notou que quando escrevo assim, querendo para já qualquer programa junto com ele, é porque costumo estar meio desesperada, mas tudo bem – quem é que vai adivinhar que uma pessoa que mal pediu ajuda quando tudo explodiu, está tendo crises depressivas um ano depois? Mesmo problema que eu digo para as pessoas que querem fazer a dieta Dukan: enquanto você está emagrecendo, as pessoas dão o maior apoio que você tenha cardápios restritivos. Mas quando você está na fase de manutenção, meses depois e magra, ninguém aceita que você abra mão de uma batata frita. Eu também acho que não tenho nada que me deprimir um ano depois, que merda. Mas diz isso pro meu organismo. Ao meu apelo, meu amigo me respondeu enviando um evento do Facebook, uma festa julina que aconteceria numa igreja ortodoxa nas Mercês.

 

Entendi e fui, sozinha. Esses eventos de Facebook nunca nos fazem ter muita noção do que é. No cartaz dizia que era uma festa tradicional, de muitos anos, então já imaginei multidões, música junina por toda quadra, pessoas com roupa de prenda e dentes pintados (coisa que não tem no nordeste e muito me surpreendeu). Chegando lá, oh não! Era uma festa pequena, bem família. Foi colocar os pés pra entender que todo mundo lá era da paróquia e se conhecia. E todo mundo com biotipo árabe. As músicas também eram árabes. Desculpem a ignorância, mas nunca pensei que veria pessoas com aquele biotipo numa igreja católica ortodoxa. Levantaram a hipótese de serem gregos, mas devo confessar que não conheço o biotipo grego, então será que eram? Enfim, era um pessoal bonito, morenos de olhos claros e narizes grandes. Deu vontade de sair correndo. Comprei um doce de amêndoas (enjoativo) e mandei mensagem pro meu amigo, na esperança de que ele me encontrasse lá. Por hábito, estava com um livro na bolsa. Deixei o celular à mostra e saquei meu livro, no maior clima de “não sou uma louca que veio sozinha, daqui há pouco meus amigos chegam”. Ele não veio, mas foi gostoso pra caramba ler ali. Lia um pouquinho, olhava as pessoas, lia mais um pouquinho. Depois conheci a igreja. Foi um bom passeio, fez o meu dia. Se estivesse em casa, provavelmente estaria muito mal e isso me impediria de ler. Minhas crises fazem com que o estar sozinha seja ruim, mas elas já não são estão intensas a ponto de precisar que as pessoas me deem atenção. Estar entre seres humanos parece que já é suficiente. O que é ótimo, e dá mais independência e não preciso tanto da boa vontade dos amigos – todo mundo tem suas vidas pra cuidar.

 

Eu me lembrei da moça do quadro de Renoir, aquela que discutem no filme Amelie Poulain. Eu me tornei ela, só que com um livro na mão. Eu diria: A moça do copo d´água não suporta estar fisicamente só. Ela fica no meio dos outros para ficar em paz.

 

Amélie – Sabe a garota do copo de água?
Pintor – Sei.
Amélie – Se ela parece distante, talvez seja porque está pensando em alguém.
Pintor – Em alguém do quadro?
Amélie – Não, um garoto com quem cruzou em algum lugar e sentiu que eram parecidos.
Pintor – Em outros termos, ela prefere imaginar uma relação com alguém ausente que criar laços com os que estão presentes.
Amélie – Ao contrário, talvez tente arrumar a bagunça da vida dos outros.
Pintor – E ela? E a bagunça na vida dela? Quem vai pôr ordem?

Controle-Descontrole

Eu desejei morrer e bendisse estar viva. Eu chorei, me senti péssima, mas também achei que tudo está da melhor forma que pode estar. Eu fugi e ao mesmo tempo produzi como nunca. Eu novamente carreguei as outras partes, as doentes, nas costas. Teve uma causa muito específica e ao mesmo tempo não teve causa nenhuma. A imagem que me vem quando me dá o que chamo de rebordosa orgânica – cada vez menos frequente, cada vez menos funda, mas nem por isso agradável – é esta:

Um tiquinho de Don Draper

Jon Hamm, de Mad Men, junto com Christina Hendricks, foram indicados algumas vezes ao Emmy de melhor ator e atriz e nunca ganharam. Eles fazem um trabalho excelente e minha teoria é que eles nunca ganharam e talvez nunca ganhem nada por serem escandalosamente lindos. É duro dar mais presentes a quem já foi intensamente agraciado pela natureza.

Num dado momento, um dos funcionários acusa Don Draper de não ser um gênio, de ter tudo o que tem ser apenas por ser handsome. E, pelamor, como ele tem e como ele é. Vemos Draper sujo, insone, doidão, louco e por mais que ele faça e tente jogar tudo pro alto, as mulheres e o dinheiro o perseguem. Ele não precisa nem se dar ao trabalho de conquistar uma mulher, basta olhar pra ela e voilá. Ele é mimado e desagradável com empregadores e clientes, mas aí tem uma ideia brilhante e todos relevam, porque Draper é Draper. Eu comecei a me perguntar como poderíamos amar tanto um personagem destestavelmente afortunado. Ou alguém aqui pode se dar ao luxo de sumir sem avisar e na volta ter casa, emprego e milhões de dólares à espera?

Aí eu vi uma cena, nessa última temporada, que me mostrou porque amamos Don Draper. Ele estava numa reunião cheia de gente, todo mundo igual, o cara falando um monte de besteiras, e ele olha pela janela e vê um ponto solitário no céu. Ele está mais rico, é um cliente importante, estar lá representa um incremento na carreira dele, mas e daí. Seu orgulho está ferido, ele vendeu sua independência, ele se sente mais um e não gosta de se sentir assim. Ele está no meio de tanta gente e se sente só. Ele gostaria de estar tão livre e no meio do nada como aquele ponto no céu. Quando Don se sente assim, ele se levanta, vai embora, começa a fazer merda. Ou seja, #somostodosDonDraper. Ou não: gostaríamos de levantar e fazer merda e não fazemos. Ficamos lá, tentando nos ajustar à reunião. Draper vai lá e faz a merda que não podemos.

Draper em crise tem o rosto brilhante de quem não tomou banho, não dormiu, ficou em lugares fechados e fumacentos. Draper em crise cura ressaca bebendo mais em cima. Draper em crise desperdiça dinheiro. Draper em crise se envolve com mulheres emocionalmente mais quebradas do que ele e investe na relação. Draper em crise se mete em cada confusão que você se pergunta como é que ele foi parar ali. Ele não encontra nenhuma solução ou moral nos lugares onde vai, simplesmente uma hora passa. Eu te pergunto, eu me pergunto, o que mais é possível fazer quando se está em crise? Diminuir os danos, só isso.

Porque tem dias que

Porque tem dias que as fotos recentes da festa não me satisfazem, os sorrisos parecem posados, a alegria apenas criada para Facebook. Dias que os convites não são suficientes, sejam eles masculinos ou femininos, que não sou amada de verdade por ninguém ninguém ninguém. Dias que as famílias que os outros construíram me fazem lamentar nunca ter me dado ao trabalho. Que estar irremediavelmente longe da minha é um tapa na cara. Dias que o tempo livre me aprisiona, que os livros ficam por ler, jogados no sofá confortável que também não é nada demais. O flamenco é um desafio na qual eu não sou boa e nunca serei boa, que não tenho Aire e bulerías não são pra mim. A dança é um amor de malandro que me suga tempo e dinheiro. Tudo à minha volta é tão triste e tão só. Verifico a geladeira, ando até o supermercado, guardo os produtos nos armários e coisas que nada importam. Dias que as mocinhas me agridem com sua beleza de mocinhas e as pessoas andam ocupadas até as suas pós-graduações. Já eu não vou a lugar nenhum. Nada me aguarda, nenhum homem me aguarda. Estou atrás do vidro, e lá dentro os casais estão dançando. Depois do banho, faço cachinhos que ninguém verá. Tem dias que é tudo mentira e nada vale a pena, nada resiste à acusação da mediocridade e da solidão. Nada, à exceção delas. Elas, as palavras. Que olham pra mim enquanto sofro e enquanto não sofro. Que são meu mestre e meu escravo; meu amante, minha filha, meu pai, meu protetor, minha droga. Não escrevo porque tenho talento, e sim por sentir que é a única coisa que realmente tenho.

Lá atrás

 

Em nenhum momento ela usou a palavra amor ou mágoa. Ela se limitou a descrever a situação: como o conheceu, o que viveram juntos, as declarações de amor, as promessas, a ruptura sem explicações. Mas as duas palavras estavam lá, no seu tom de voz, no seu sofrimento. E sua amiga, tão mais experiente em anos e relacionamentos, apenas disse:

– Eu fico até sem graça, sem saber o que dizer. Há muito tempo eu não sei o que é gostar de alguém desse jeito.

À medida que me afasto da adolescência, eu olho para trás – e vejo todos olhando para trás também. Há algo lá que não somos mais e que gostaríamos de ser. Adivinhamos que tem a ver com a juventude, e tentamos nos fazer mais jovens fisicamente. Ou buscamos essa juventude através de terceiros, sejam eles filhos ou parceiros mais jovens. Me pergunto até se esse nojo e violência que é a pedofilia também não tenha raiz nessa busca. Alguns identificam que a grande questão é o risco. Um adulto é capaz de se antecipar muito mais, e isso tira o risco e com a falta do risco perdemos a adrenalina. Uma maneira é apelar para esportes radicais. Ou radicalizar na vida, mergulhando de cabeça em algo que nem nos cabe mais, numa atitude bastante auto-destrutiva. Quem sabe o grande prazer que sentíamos nas festas de faculdade e namoros na praia fosse a descoberta do sexo. Nesse caso, sem as nóias e proibições da adolescência, um adulto pode fazer sexo com muito mais liberdade. Pode repetir e repetir, cada vez mais, com pessoas ainda mais belas, mais jovens, com mais pessoas, com fantasias cada vez mais sofisticadas. Há várias formas de ver, há várias formas de buscar. Existem até os que não fazem nada, por acreditarem ser inútil. O fato é que há algo lá atrás que se perde com o tempo. Um adulto rejuvenescido e descolado não passa de uma farsa que não engana ninguém. Envelhecemos e ganhamos estabilidade, previsão, experiência, dinheiro, auto-conhecimento, força, estratégias, influência e o diabo a quatro. Ganhamos tanto e perdemos a cor, a capacidade de tornar a vida interessante. Perdemos a intensidade.

Ataque de buraco

Eu gostaria de explicar que sou uma convalescente. Dentro de mim o que deveria ser sólido é cheio de buracos, muito mais do que um queijo suíço. Tive aquelas doenças que a gente nunca cura, nunca se recupera, apenas vive com ela dentro do organismo. Eu ajo como pessoa forte mas é por causa da necessidade. Se me dessem a opção, se me perguntassem se quero fazer parte desse assustador mundo adulto, eu me negaria. O corpo cresce tal como erva daninha; a maturidade e a responsabilidade chegam, mesmo que a gente feche os olhos com bastante força. Uma história: eu tenho uma tia que perdeu um filho, num acidente de carro, quando ele tinha treze anos. O irmão mais velho, meu primo, me contou que o luto era uma coisa esquisita. O quarto do menino estava lá, intacto, e às vezes a mãe entrava e saía de lá sem problemas, para limpar, para pegar um objeto. Outras vezes, ela estava fazendo outra coisa, cozinhando que seja, e olhava pra uma colher e começava a chorar. Os buracos são assim, inesperados; eles só fazem sentido pra gente. Então eu que atravessei geleiras, impedi sozinha a invasão do visigodos e construí barragens com as minhas próprias mãos, de repente sou vencida por uma colher. Eu sei que quem vê não entende.

Quando um dos meus buracos me atinge – sim, eles atingem, eles atacam como um tigre faminto, quando menos se espera- eu me sinto mergulhada numa noite sem manhãs. É difícil ser normal e ensolarada quando dentro de você só há escuridão. Não dá pra pedir equilíbrio de quem subitamente tem que andar às apalpadelas. O pior é que dentro do buraco descubro outros buracos, buracos dos buracos, buracos dos buracos dos buracos, coisas tão antigas que remetem à Criação. Eu, que me achava tão feliz, descubro que tenho tantas lágrimas por debaixo. Se eu pudesse contar, se eu pudesse revelar o que carrego comigo… Mas eu sei que não adianta explicar o que é ser cúmplice de um golpe de estado ou o efeito de fazer rituais de invocação.  E mais: que eu nunca parei, que estou presa a uma dolorosa repetição onde pessoas se alternam como fantasmas e cumprem sempre o mesmo script. Eu não posso contar porque não existem palavras que possam contar sem empobrecer. O que eu sei é que sofro, que quero acertar e não faço mais a menor idéia de onde está o norte. Se me calo é porque é o máximo que posso fazer no momento.

Crise de meia idade

Entrevista com o vampiro, o livro, é de 1976. Eu o li mais ou menos na década de oitenta, e o livro causava furor. Até hoje não vi o filme e nunca verei; tal como Anne Rice, não aceito Tom Cruise no papel de Louis*. Nós duas víamos Jeremy Irons no papel. Louis apaixonava o leitor pela sua profundidade e me passava a idéia de um sofrimento introvertido, algo que Tom Cruise nunca seria capaz de expressar. No livro, os vampiros não são eternos, apenas vivem muitos séculos. Os próprios não têm certeza do que os mata, só sabem que parece estar ligado a um certo desânimo com a própria eternidade. Eles definhavam de tristeza.
Louis era o vampiro mais velho que ele mesmo já tinha notícia, e o livro também nos leva a entender que era porque ele já tinha se entristecido muito, desde que começara a ser vampiro. Como se isso o tivesse calejado de tal forma que na hora de morrer ele não morria, porque não caía numa depressão tão grande quanto aqueles que curtiram muito sua condição de vampiros durante a juventude. Eu me identifiquei com Louis quando li, porque era uma adolescente dada a tristezas. E me vejo novamente identificada com ele quando vislumbro a tal crise de meia idade se aproximando – cronologicamente – de mim. Por volta dos quarenta, as pessoas que têm pouco percebem o quanto fracassaram com relação aos seus sonhos de juventude. E quem tem muito… ah, mesmo quem tem muito se sente uma sombra com o que parecia que íamos conquistar, pelos alunos brilhantes que fomos, pelo talento, pelas promessas da juventude. 
Eu comecei e terminei tantas vezes que fiquei calejada. Conheci o fracasso quando ao meu lado todo mundo ainda aspirava o sucesso. Recomecei mais de uma vez; quando as coisas pareciam se acomodar, um furacão tirava tudo do lugar e me via no zero de novo. Sei como é se olhar no espelho e não ter o que dizer, o que é aceitar o papel de iniciante quando na nossa idade os outros são mestres. Há um correlato físico de tudo isso: vi num programa sobre artes marciais que o segredo de destruir tijolos com golpes está em microfraturas. Se batemos com tudo a mão num tijolo, ela se quebra; mas se com um treinamento ficamos batendo todo dia um pouco, isso causa lascas que obriga o corpo a se reconstituir. Os ossos se tornam mais fortes porque quebram sem fraturar. Assim é quem passa por várias crises ao longo da vida. Quando chegar aos quarenta, não terei pra olhar nada diferente do que já tenho olhado durante todos esses anos.

* Meu amigo Bruno acabou de me dizer que acho que Tom Cruise era Lestat e Brad Pitt o Louis. De qualquer foram o argumento é o mesmo…

Nada a dizer

Esses dias me deu uma crise de que eu não tenho mais nada a dizer. Vocês, leitores, são um bando de iludidos se pensam que sou uma pessoa interessante com uma vida interessante. Vai ver passo uma idéia de glamour que… aí eu vi que nunca, jamais, passei a idéia de glamour. Nunca falei aqui de festas, compras, vida loca e viagens internacionais. Aí me ocorreu que os blogs mais interessantes que eu leio são de pessoas que tem vidas comuns e rotineiras como a minha, mas que por saberem escrever sobre elas as tornam interessantes para os seus leitores. Só que acreditar que eu não tinha nada a dizer me deixou tão travada que eu realmente passei um tempo sem ter o que dizer. O mesmo sem ter o que dizer que sinto do lado de bailarinos que eu admiro muito. O mesmo que sinto frente às peruas de salto agulha que se arrumam na academia, enquanto eu visto moletom e tenho a simpatia das faxineiras. O mesmo sem ter o que dizer que senti diante dos amigos do Milton. O mesmo – tão presente e comum como o Mesmo parado dentro dos elevadores – que sinto diante de todos aqueles pra quem não sei explicar quem sou e o que faço, porque minha vontade é responder: nada. Fui algumas coisas no meu passado, não sei para onde estou indo no futuro e penso o mesmo que pensa aquele que admira a paisagem por onde passa o trem.

A crise dentro da cabeça

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Pensei em bolar um texto falando sobre crise pra justificar esse post. Mas acho que não precisa – o video é muito bom e eu não tenho culpa de não ter visto antes, oras! Além do mais, hoje foi um dia MUITO bom pra mim. Tive crise no ano passado, decidi encontrar um lugar melhor e encontrei. Quer coisa melhor? Divirtam-se!

Não adianta correr dentro do trem

Eu nunca passo muito bem por esses períodos de férias. Não é à toa que foi nessa época (no ano passado) que eu voltei pro orkut, depois de 6 meses afastada. Não é à toa que o Luiz comprou o wii fit e sabia que o usaria muito nesses dias. E não é à toa que, apesar de todos os cuidados, ontem me bateu a famosa crise de “não sou ninguém, não fiz nada”.

É incrível como os anos passam e eu sempre me debato com as mesmas questões. Como se eu fosse uma personagem de um romance qualquer e que na verdade não sabe (ou não aceita?) a classificação da sua história – romance, suspense, realismo fantástico?* Nem sei se vai me sobrar alguma crise pra ter na meia idade, porque já tenho olhado pra trás a cada ano!

Vejo que estou sempre tentando correr dentro de trem, sempre brigando com o ritmo próprio das coisas. Ritmo, inclusive, que me impõe uma rotina exaustiva seguida do ócio e vazio completos. Que conquisto e depois não me importo de colher os louros**, porque não é a glória que me motiva. Às vezes eu me sinto o arquétipo do signo de áries, meu ascendente: a Eterna Criança do zodíaco. Mas que sou euzinha pra viver uma vida de arquétipo? Na vida, a gente não tem que construir uma família e uma carreira para ser alguém?

* Lembrete 1: Isso é o ponto de partida pra um filme legalzinho, o Mais estranho que a ficção. Recomendo.
** Lembrete 2: Preciso tomar coragem e ligar pra editora e saber se vão publicar ou não minha dissertação. Já faz 1 ano…

Oh, vida! Oh, azar!

Foram os The Smiths que me deram o insigh. Não que eu já tenha ouvido qualquer coisas deles voluntarimente; é que um dia apareceu uma matéria na Folha comentando o perfil dos fãs, dizendo que eram todas pessoas sensíveis, vestiam preto, etc. Meu irmão ficou indignado, porque gostava dos Smiths e não era como nenhum dos idiotas descritos na reportagem. Aí eu li a tradução de uma música e vi que eu também me identificava com ela – apesar de não ser como os idiotas descritos na reportagem e nem como o meu irmão!

Vamos combinar? Todo mundo tem seus momentos de crise existencial. Todo mundo é só e a vida nos pesa. Aí a gente pára pra analisar e tem tantas coisas fora do lugar, o mundo é um lugar tão cruel! Se não fosse assim, os Smiths não teriam tantos fãs. O que o chato do Morrisey diz diria respeito apenas a ele.

Hoje em dia se estou mal e nada no mundo faz sentido, tento responder as seguintes perguntas:

1º Estou com sono?
2º Estou cansada?
3º Estou com tédio?

Garanto que funciona mais do que o Ipod.

Crise dos quase 30

Não sei que idade que a gente pode falar da crise. Aquela, que a gente começa a se perguntar se fez bem em virar à direita ao invés de seguir na diagonal. Que torna estranhos os hábitos e os gestos banais. Surge a pergunta se tudo poderia ser diferente. Sim, estou desse jeito. Entrei numa loja de sapatos com uma amiga (da mesma idade que eu), que comprou bolsa de couro e sapato de salto enquanto eu estava de sapatênis e camiseta “Mussum forévis”. O mesmo visual que, horas antes, fez com que um monte de arrogantes nem olhasse pra minha cara porque eles fazem pós-graduação em museologia, hohoho…

Será que deveria tomar jeito, parar de usar camisetas engraçadinhas, mochila com dinossauro e tênis? Será que deveria ter um cabelo sério ao invés de cheio de pontas? Será que eu deveria pintar o cabelo de uma vez ao invés de arrancar os fios brancos? Será que deveria andar por aí com cara de 30? Parar de querer ser artista, parar de querer dançar, parar de querer ser uma pessoa legal… e assumir a arrogância dos acadêmicos, a distância das mulheres casadas, a seriedade dos profissionais, o consumismo das classes médias, a frieza dos curitibanos?

Quem sabe aí haveria um lugar no mundo para mim. Onde eu não parecesse estar na turma errada, na idade errada, na profissão errada e com a atitude errada. Aí, quem sabe, as pessoas parariam de perguntar se eu não sou daqui, não se espantariam com as minhas ocupações, não mudariam de atitude quando descobrem os meus títulos, não me detestariam quando descobrem a minha idade. Um mundo onde eu não pareceria ser contraditória. Em algum lugar, pareço ter virado mais à direita do que as outras pessoas.

Malvada, eu?

Uma das poucas pessoas da faculdade com quem falava ultimamente… peraí, acho que começarei do princípio… Quando nos conhecemos, a Fulana estava sempre em crise porque seu namorado não estava a fim de casar logo. Eles namoravam há anos, ela era quase da família, a sogra já era sogra… Aí quando terminou, ela estava em crise porque terminou. Depois, entrou em crise porque iria viajar. E nessas crises passou a ter necessidade de falar comigo durante a aula, por orkut, por telefone e por msn – com direito a crises de ciúmes. Um dia fiquei p da vida, bloqueei e passei um carão pelo msn.

Eu sou assim, brigo com a pessoa, coloco em pratos limpos. Sou grossa, pronto. Mas como toda pessoa grossa e explosiva, depois que falo a coisa fica limpinha. No dia seguinte, esperava encontrar com ela, dar uma rosnada e tudo voltar às boas. Mas o que viria depois foi totalmente inesperado: ela passou a sentar longe de mim, me olhar com cara de cachorro que quebrou o vaso e pedir para amigos intercederem a favor dela… nem elevador comigo ela pegava mais. Aí sim eu fiquei p da vida de verdade e, já que ela ficava longe de mim, parei de falar com ela e pronto.

Aí essa amiga passou quase um ano fora, em um país distante, entrou pra uma religião fundamentalista e arranjou um namorado estrangeiro… Quando ela voltou, conversamos como se nada tivesse acontecido. Ela vinha me falar do quanto está em crise com o namoro à distância e a nova religião. Um dia, esqueceu de me contar que não tinha uma aula e mandei um e-mail reclamando. Resultado: ela passou a sentar longe de mim, me olhar com cara de cachorro que quebrou o vaso… Oh não! Oh sim: começou tudo de novo.

Às vezes penso em simplesmente falar – “Ô, Fulana, deixa de ser boba!”, porque não custa nada. Mas não falei. Acho que custa sim, essa infantilidade me irrita muito. Talvez eu seja mesmo malvada.